Salgadeira

Filipe Nunes Vicente enviou uma garrafa na nossa direcção com a seguinte mensagem lá dentro: NÃO SUFOQUEM. Nela, tece rasgados elogios à minha pessoa autoral, revela ser leitor atento das caixas de comentários, lança uma oportuna teoria da conspiração que mete o Miguel Abrantes ao barulho e lá consegue chegar ao que lhe importava verdadeiramente: apelar a que se divulguem as perguntas que o Nik fez.

Missão comprida, compadre.

Se és amigo do Morais Sarmento, sê amigo do Morais Sarmento

Todas as semanas o Morais Sarmento presta-se a uma humilhação que não lhe faz bem a ele, não faz bem ao PSD e acaba por não fazer bem à TVI, pois toca na veia misericordiosa do espectador português e leva-o a fugir do acabrunhante espectáculo. Essa humilhação nasce de ele ter metido na cabeça que conseguia discutir com Santos Silva.

Há 1 ano e tal, Sarmento foi falado como eventual candidato à sucessão de Menezes. E, de facto, entre os dois talvez a diferença nem se notasse, acontecendo uma continuidade na mudança. Mas o que importa realçar é a tipologia destas duas figuras, para se diagnosticar como a maleita que atinge o PSD é de uma gravidade letal: são desqualificados. Isto é, são seres que sobrevivem nos túneis do poder partidário, habitando no meio dos dejectos e dos seres rastejantes, e com eles estabelecendo relações simbióticas, mas que não resistem à luz e exposição da superfície.

Santos Silva contra Sarmento é vexante, mau demais, injusto. Porque Santos Silva é de uma solidez aristotélica, expondo com clareza e síntese, espalhando cultura política e democrática. À sua frente puseram um ser atarantado, incapaz de sair do cliché mais básico e gasto, um monumento psitacista e balofo da miséria intelectual do PSD. Nesta última edição, o excelente Paulo Magalhães perguntou 70×7 vezes a Sarmento como explicava ele que o Governo fosse tão mau, a contestação popular tão grande e não vermos as sondagens, nenhuma, a reflectir esse retrato. O modo como o honesto comentador social-democrata fugiu à resposta foi aflitivo, desesperado, e eu estive quase a telefonar para a TVI a pedir para deixarem o homem em paz — e isto mesmo sabendo que estava a ver uma repetição do programa.

Um outro grande momento seu, semanas atrás, foi quando quis gozar com Santos Silva por este ter referido que o 9º ano fazia parte do Ensino Básico. Para Sarmento, fazia parte do Ensino Secundário, por razões lá dele que não chegou a partilhar. Felizmente, teve a sorte de ter alguém à sua frente com tempo e generosidade suficientes para lhe explicar o assunto. Fica a pergunta: que mais seria possível explicar-lhe sobre as andanças do mundo e suas gentes, havendo tempo e generosidade? Se és amigo do Morais Sarmento, tenta.

Segundo retrato de Helena ao colo de Marta

Helena coloca a mão direita em posição
De afirmar uma ideia sua em fantasia
Desenha no seu gesto futura afirmação
Da vontade que se expressa em alegria

Os olhos que se projectam, linha serena
No horizonte de um quarto de criança
São um bilhete de identidade de Helena
E o sorriso é um passaporte de esperança

Vejo a altivez na sua franqueza do olhar
Como velhos azeitoneiros da Andaluzia
A recolherem a luz do azeite num lagar
Nos fios dourados que dão calor ao dia

No sorriso de uma criança a Primavera
Em três dos corações de quem lhe quer
No tempo mais veloz quando não espera
Vai adormecer menina e acordar mulher

Vinte Linhas 360

Batatas e versos – um texto de Agostinho de Campos

Quando escrevi o texto cujo título era um verso dum poema de Pedro Homem de Mello («Ninguém nos peça o que não somos») descobri nas últimas páginas do seu livro «Bodas vermelhas» um texto muito curioso e bem disposto de Agostinho de Campos. Aí vai: «Existe desde longa data uma concorrência das batatas com os versos. Concorrência feroz na qual as batatas triunfam sempre. Vendem-se mais batatas do que versos porque aquelas são mais necessárias e mais úteis à saúde de cada um e de todos. E esta situação agravou-se nos últimos tempos, por causa da crise, ou antes, das crises: da económica e da poética. As batatas são cada vez mais necessárias e os verso cada vez mais supérfluos. Materialismo. E outra coisa: as batatas conservam sempre o mesmo gosto, o que lhes assegura a fidelidade dos mercados: os versos, salvo honrosas excepções, dizem sempre o mesmo, donde resulta que, antes de lê-los já se conhece de cor e salteado o sabor que eles têm. Dá-se então a injustiça flagrante de que ninguém já compra versos pela mesmíssima razão por que toda a gente continua a comprar batatas. Acresce a isto que ninguém sabe hoje ao certo o que sejam versos e poesia. Surgiu a poesia pura que relegou para os limbos da prosa quase tudo o que ainda há poucos anos considerávamos verso; além disso chegou no aeroplano o modernismo que aboliu os velhos códigos da versificação e da métrica, a ponto de que, muitos versos de agora, sem rima, sem ritmo e sem regra, parecem prosa a muita gente». A data do texto há-de ser 1933 mais ou menos pois Pedro Homem de Mello nasceu em 1904 e é apresentado como um «menos-de-trinta-anos». A crise é a de 1929 que provocou suicídios em Nova Iorque e muitos pobres no Mundo.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não te apetece fazer amor”, pergunta-me, esfomeada, C., corpo estendido pelos lençóis por suar. “Sim, apetece”, respondo. “Mas pensei que fosse incomodativo, para ti, deixar-te aqui sozinha a meio da noite”, explico. E, alguns segundos depois, saio de casa, a caminho dos braços de M.

Lembretes

– Sócrates foi à Madeira de surpresa, porque lhe deu na veneta. Ia distribuir Magalhães e pouco mais. Tão pouco e tanto: 7 horas chegaram para reduzir Jardim a um bufão que não morde nem assusta, já só faz barulho no quintal. A oposição ficou caladinha, desorientada com a operação relâmpago. Sócrates mostrou, de novo, ter uma das características mais atípicas na política portuguesa: a imprevisibilidade criativa.

– PCP e BE vivem em permanente ameaça de fratricídio. São dois irmãos que habitam em zonas contíguas, mas díspares. PCP é rural, BE urbano. Acusam-se mutuamente de serem falsos, como qualquer seita que se preze. O PCP vê no BE o simulacro, a dissidência ao serviço do inimigo. O BE vê no PCP a estagnação, a morte lenta. Nunca se irão entender porque se conhecem bem demais para confiarem um no outro.

– Cavaco Silva é o pior Presidente da República de que há memória, e neste lote estou a incluir Américo Thomaz. A sua ligação a Dias Loureiro, chegando ao cúmulo de fazer conselheiro de Estado uma figura que era fonte de gozo dentro do próprio PSD por causa da sua ascensão escabrosa, é indelével e não tem defesa. Espero que tenha castigo eleitoral.

– Esquizofrenia é isto: o PSD ficar sem reacção perante o escândalo moral, e por isso político, do BPN. O estado de negação é a única resposta de que dispõem perante a vergonha. Implodiram.

– A oposição foi para a campanha eleitoral dizendo que o PS não poderia escapar à discussão das questões nacionais, aquelas que realmente interessavam ao povo. Ora, para azar desses partidos, Vital acabou por lhes dar razão.

– Vital revelou-se uma fera. Rangel uma galinha tonta. E a Ferreira Leite é cada vez mais engraçada, mais deliciosamente estouvada; merecendo que a História lhe faça justiça pelo enorme sacrifício de andar a fingir que o PSD existe.

– 2009 já só tem 7 meses para dar cabo desta merda toda.

Vinte Linhas 358

«Um ramo de amendoeira» de António Rego

Qualquer jornalista aspira ao recolher em livro da prosa corrida do efémero do jornal. António Rego (n. 1941) é jornalista e padre; daí este seu terceiro título (Edições Paulinas) que se junta a «Palavra entre palavras» e a «Deus na cidade». O ponto de partida é um olhar sobre o Mundo: «Parece mais fácil semear o terror que a esperança. E o caos pode tornar-se mais sedutor que a harmonia». Esse olhar começa por Portugal («Portugal não é uma repartição para envio de relatórios para Bruxelas. Somos pessoas, um povo») embora não se limite ao nosso canto na Europa: «A esperança de vida como que se voltou contra a própria vida ao oferecer tempo de sobra para nada fazer». Perante a informação diária negativa («Como povo parecemos cabisbaixos, sem perspectiva») urge «discernir os sinais para melhor se ler os acontecimentos que perturbam o olhar imediato dos homens e das mulheres, mergulhados na perplexidade desconcertante dos nossos dias». É que há sempre novos e diferentes aspectos numa realidade como, por exemplo, o futebol: «As coisas não são apenas o que são. São o que simbolizam mais as metáforas que escondem, os sentimentos que expressam, as explosões de apreço ou fúria que acordam num clube, numa equipa, num país, numa pátria». Ou então o mundo da justiça: «O Cristianismo liga o eterno ao quotidiano, inspira leis e gestos, sugere a conversão do real sem se enredar no peculiar que compete a cada profissão e a cada construtor da cidade terrestre. A justiça não é um problema prioritariamente burocrático». Fiquemos com uma nota final do jornalista/padre António Rego: «Cada um vê o mundo como quer. Conta-o como entende. Mas a nossa vocação é mais alta que as nossas histórias mesquinhas».

O marketing da revolução

Tenho gratas memórias dos tempos de antena e cartazes do PSR. Durante o cavaquismo, foram fogachos de criatividade que tornavam menos bafiento o ambiente político, simulavam uma modernidade que a minha displicente adolescência estava longe de topar apenas manhosa. Hoje, o Bloco tem eficazes cartazes, eficaz demagogia e eficaz populismo. Há também uma avidez eleitoral que intoxicou de cinismo Louçã e quem espera que ele seja um segundo Cunhal — levando ao extremo, e desnaturando-as, as características da comunicação herdada de um período romântico, quando se corria por gosto e aventura. E deu nisto, o filme supra, um espectacular manifesto da tonteira e vacuidade do Bloco.

Faz parte de uma trilogia, e é o único que se aguenta ver duas vezes, embora seja uma xaropada monumental. Mas as peças têm variados pontos de interesse, como os elevados valores de produção, a submissão às fórmulas convencionais da memória cinéfila e o facto de serem narrativas absolutamente irrelevantes para o cidadão. Quem encomendou, quem criou e quem aprovou, conseguiram o feito notável de esvaziarem de sentido as temáticas que, aparentemente, se propõem tratar.

Dirão os bloquistas: não passam de uns filmes, a nossa comunicação tem muitos outros elementos, momentos, canais, veículos, conteúdos, mensagens. E responderemos: então, porque os fizeram? Porque, tal como Miguel Portas disse há dias, se o PSD e o PS são como a Coca-Cola e a Pepsi, o BE precisa de lembrar ao seu eleitorado que, sendo uma aguinha sem gás, tem sabor a fruta madura.