O marketing da revolução

Tenho gratas memórias dos tempos de antena e cartazes do PSR. Durante o cavaquismo, foram fogachos de criatividade que tornavam menos bafiento o ambiente político, simulavam uma modernidade que a minha displicente adolescência estava longe de topar apenas manhosa. Hoje, o Bloco tem eficazes cartazes, eficaz demagogia e eficaz populismo. Há também uma avidez eleitoral que intoxicou de cinismo Louçã e quem espera que ele seja um segundo Cunhal — levando ao extremo, e desnaturando-as, as características da comunicação herdada de um período romântico, quando se corria por gosto e aventura. E deu nisto, o filme supra, um espectacular manifesto da tonteira e vacuidade do Bloco.

Faz parte de uma trilogia, e é o único que se aguenta ver duas vezes, embora seja uma xaropada monumental. Mas as peças têm variados pontos de interesse, como os elevados valores de produção, a submissão às fórmulas convencionais da memória cinéfila e o facto de serem narrativas absolutamente irrelevantes para o cidadão. Quem encomendou, quem criou e quem aprovou, conseguiram o feito notável de esvaziarem de sentido as temáticas que, aparentemente, se propõem tratar.

Dirão os bloquistas: não passam de uns filmes, a nossa comunicação tem muitos outros elementos, momentos, canais, veículos, conteúdos, mensagens. E responderemos: então, porque os fizeram? Porque, tal como Miguel Portas disse há dias, se o PSD e o PS são como a Coca-Cola e a Pepsi, o BE precisa de lembrar ao seu eleitorado que, sendo uma aguinha sem gás, tem sabor a fruta madura.

11 thoughts on “O marketing da revolução”

  1. Apetece-me utilizar a mesma frase com que o Daniel Oliveira termina a sua crónica de hoje no Expresso em que aborda os casos mediáticos que envolvem crianças. Concordo com ele. Só que este “filme”… está mesmo a pedir:
    “Mas podíamos deixar as crianças fora do nosso circo.”

  2. O meu televisor está equipado com um poderoso sistema SL (Skip Louçã). Assim que aparece o rosto, o nome ou a voz do conhecido seminarista, a emissão passa logo para o People & Arts ou o MyZen. Pode regular-se o SL de modo a skipar também o Daniel Oliveira, o Rangel, a Guedes, o Crespo e os manos Portas.

    É um descanso. O meu televisor agora está limpo e cheira bem, já não é preciso desinfectá-lo uma vez por mês.

  3. Tenho gratas memórias dos tempos de antena e cartazes do PSR. Durante o cavaquismo

    Nessa altura dava um jeitão, não é?
    Agora em relação ao trafulha “S” já não dá jeito

  4. É bem verdade que se aprende pouco ou nada a ouvir a oposição e a vontade que dá é arranjar um televisor como o do Nik. Mas por outro lado, como é que os podemos avaliar, comparar e criticar se, de vez enquando (sempre, pode fazer mal), não os lermos ou ouvirmos?
    Se não desse uma espreitadela ao que escrevem, não me tinha apercebido, por exemplo, da forma inacreditável como descrevem a vida e a carreira política da eurodeputada Ana Gomes. Se não soubesse o papel que ela teve na independência de Timor, ou que foi eleita pelos outros eurodeputados a melhor eurodeputada na categoria em que concorreu, o que aconteceu pela primeira vez a deputados portugueses, ficava com a ideia que a senhora dava para tudo menos para política, e convencida que era outro erro de casting na lista do PS.
    Também me tenho apercebido que os simpatizantes da direita por não terem ninguém que os motive a ir votar, tudo têm feito para, de forma mais ou menos velada, apelar à abstenção. Com o óbvio objectivo de, posteriormente, desvalorizarem o mérito dos que forem eleitos. Enfim, tudo em prol da democracia.

  5. da Ana Gomes gosto eu, que pena ela não ser candidata à câmara do meu concelho, mas também não percebo esta mania de porem eurodeputados misturados deputados e candidatos às câmaras, nunca se percebe quem é que lá vai ficar e parece que há sempre falta de gente.

  6. NIK esse engenho é de facto fantástico.

    Hoje dei-me ao trabalho de passar numa dúzia de lojas de televisores entre as quais algumas grande superfícies à procura do dispositivo, no meu caso, era SS (Skip sócrates) em toda a lojas me disseram que estava esgotado sistematicamente e que têm uma lista de espera de alguns milhares em cada loja.

    Acho que quando chegar a minha vez já não vai ser necessário!

  7. Guida, acompanho-te no que dizes da Ana Gomes. Mas ela não foi vítima só da comunicação social portuguesa. Acho que ela não gere bem a sua actuação política. Quando surgiu na esfera mediática, com a história de Timor, cheguei a ver nela uma possível candidata à sucessão de Guterres. Depois comecei a achá-la simplista, precipitada e um bocadinho radical, com mais perfil talvez para o partido do Louçã, que adora ser oposição a tudo e para sempre. Não era da extrema esquerda que ela vinha? Ela é que tem que decidir e ver onde quer estar: na oposição, com o velho esquerdalho, ou no poder, a tentar mudar as coisas e a fazer as reformas viáveis e necessárias.

    Quanto à necessidade de comparar para poder avaliar, eu já não preciso. A oposição não diz nada de novo há quatro anos.

    Como o televisor é meu, é a mim que ele obedece. Sempre que o governo diz ou faz qualquer coisa, lá tem que se ouvir de seguida os quatro (4) partidos da oposição, mais o sindicato e a Opus Dei, todos em fila, a dizer que estão 100% contra. Que vão, peço desculpa, para o caralho, porque em minha casa mando eu.

  8. Nik, de facto muita gente diz que a Ana Gomes tem mais perfil para estar no BE. Não concordo. O Louçã não tem perfil para ter no partido dele alguém com as características da Ana Gomes, só no PS é permitido existirem pessoas ‘teimosas’ e que pensem pelas suas cabeças. No BE quem pensa em tudo é o Louçã e o resto vai tudo atrás. Se não é assim, pelo menos é o que parece. :)

  9. Pois, mas às vezes eu acho que o PS, apesar de estar no Governo, não perdia nada em ser um pouco mais parecido com o BE. Se o fosse, talvez não estivesse agora em vias de perder a maioria absoluta.

    É esta falta de sentido de auto-crítica do PS, para consigo, mas também para com o País que governa, o mais importante que me afasta de José Sócrates, que tem de perceber que, por muito que o separe do BE e do PCP (com a mim também), o eleitorado tem de saber e SENTIR que muito, mas MUITO MAIS separa o PS do PSD (e, por maioria de razão, do CDS), o que hoje não acontece e é muito grave.

    Sobretudo porque isso pode render demasiados votos ao BE e ao PCP (votos estes que, como muito bem sabemos, SÓ APROVEITAM A CAVACO E AO PSD!)…

  10. O poder corrompe e todos têm um preço. Até mesmo o bloco, com muita pena minha, que o via como uma espécie de consciência.

  11. Comparativamente com aquele spot da antena um em que uma manifestação viria em sentido contrário ao do condutor este vídeo está uma pureza. Sobretudo no que aos valores da democracia diz respeito. Impecável, pá! Cheio de argúcia argumentativa.

    Do ponto de vista artístico também está muito jeitosinho. Talvez lhe falte um pouquinho de mais acção. Sei lá… um resgate de reféns num assalto bancário. Ou umas imagens do aparato policial de uma intervenção num bairro social. Talvez mesmo umas imagens dos distúrbios na Grécia ou dos lixos numa das cidades italianas.

    Face a estes elementos de campanha, talvez seja importante realçar o facto do Louçã ter assumido finalmente o papel de Diácono Remédios da República, que já vinha ameaçando há algum tempo. Louçã… deixa-te ir homem! Talvez um bocadinho de bigode… vais ver que não te irá nada mal para o personagem.

    O Miguel Portas só pode estar a ensaiar para o papel de Justiceiro. Justiceiro do poder económico e da promiscuidade das relações internacionais. Mas nada de velocidades, Tudo com muita calma. E fizeram muito bem terem contratado o Homem Invisível para esta campanha das europeias. Assim não há erros de casting.

    Só me ficam duas dúvidas: O Daniel Oliveira estará lá para que papel? Será um dos velhos do camarote dos Marretas? Será o Statler, ou será o Waldorf? E a Ana Drago? Uma apaixonadíssima compulsiva pelas causas como ela só pode ser a miss Piggy, mas não lhe encaixa de todo o aspecto físico.

    Por falar na Ana, adorei ontem aquelas palmadas na sua própria bancada parlamentar para calar a ministra da educação. Que pena não andar ali por perto um secretário de estado. O que nós podemos ter perdido. Fica, ainda assim, a minha vénia e, quem sabe, não está a criar aqui um fã convicto.

    Agora me ocorre… claro que o que falta no vídeo são as imagens dos professores vestidos de negro no carnaval escolar e as gemadas da ministra como entrada de um programa de culinária a enquadrar. Se os protagonistas autorizassem, com é óbvio. Com isso e com uns retoques na letra tínhamos aqui grammy pela certa.

    Ainda assim e para que não fiquem dúvidas, tal com está, o trabalho não deixa de honrar todos os portugueses.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.