Exemplos há muitos, seu palerma

Discurso de António Barreto no 10 de Junho é dos melhores que ouvi nos últimos anos. Afixem-no em toda a parte: escolas, repartições, tribunais, empresas.

Zé Manel a tuitar como se estivesse na varanda dos Paços do Concelho

Que se comece por fazer justiça ao ditirambo: o discurso de António Barreto deixa-se ler. Trata-se de uma imparável colecção de lugares-comuns, pois sim, mas estão dispostos com simpática elegância e meritório ritmo. É uma peça cujo público-alvo natural seria a população escolar, e não os altos dignitários da Nação no dia da mesma. Infelizmente, em Portugal não se cultiva nem a retórica nem a oratória, o que muito nos atrofia intelectualmente, mas este discurso tem o timbre de exaltação contida, e a vacuidade ilustrada, ideais para entusiasmar inconsequentemente algumas turmas do Secundário, talvez certos estudantes universitários, no final de um ano lectivo ou ciclo de formação. E é só.

Não vale a pena perder tempo na hermenêutica. Basta um exemplo:

A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política.

É óbvio que o Barreto, um dos mais reputados e barulhentos senadores do regime, desconhece a existência de uma realidade europeia que une países e cidadãos há décadas, e de uma forma tão íntima que até leva ao vigoroso e espontâneo contacto físico entre estranhos: o futebol. Se o vetusto e hierático Barreto, sociólogo, não inclui na sua reflexão a existência deste sistema de criação de trânsitos, afinidades e identidade, de que raio poderá ele falar que justifique a nossa atenção? E ainda pior, se ele ignora este sistema económico e cultural tão importante para centenas de milhões de cidadãos europeus, como é que vamos conseguir explicar ao Barreto que nunca como agora se interiorizou a consciência política de vivermos num espaço farol da Humanidade no que diz respeito à democracia, aos direitos humanos e à qualidade de vida? Haja alguém que explique ao homem qual a nova importância do turismo, das migrações e dos intercâmbios académicos, científicos, institucionais e empresariais para o surgimento e reforço de algo nunca antes visto na História: a união dos europeus.

Barreto, o teu exemplo de opinador tem feito mais mal do que bem à sociedade portuguesa. És paternalista, sectário e virulento. Por isso te escapam tantos exemplos que desmentem o teu ponto de vista. Olha, há mais exemplos desses do que chapéus na cabeça dos europeus.

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PS - E, já agora, haja alguém que convença o Jaime Gama a disponibilizar o seu discurso proferido na Assembleia da República neste 25 de Abril; seguramente, esse sim, o melhor discurso dos últimos muitos anos, tanto no conteúdo como na forma. Fui aluno da sua esposa, a professora Alda, no meu 8º ano de escolaridade, a Português. E até sei onde eles moram, e até nos cruzámos neste domingo eleitoral, mas não tenho tempo para lá ir tocar à porta e pedir aquilo a que temos direito. Por isso, se conheces a figura, ou se conheces aquele que conhece aquele que conhece aquele que o conhece, eis a tua missão: despacha este assunto, passa o recado, e avisa a malta.
PS2 – Estive lá à procura e não dei com ele, talvez por estar tão à vista. Muito obrigado, Mónica.

12 thoughts on “Exemplos há muitos, seu palerma”

  1. já agora eu também gostava de ler esse discurso do Gama que nem vi na tv,

    o Soares chamou-lhe peixe de águas profundas há anos mas eu simpatizo algo porque me faz lembrar um olifante,

  2. Também acho que o homem está a ficar xexé, todos lá chegaremos, se Deus quiser!
    Os velhos republicanos-xé-xés que assomavam à janela da CML nos dias 5/10 dos anos 70 têm que ser substituídos. 25 de Abril, sempre!

  3. Caro Valupi, o meu amigo vai agora por caminhos nunca antes navegados, ou é mais uma forma de estilo? Comparar o quê? O Sr. PAR (Presidente da Assembleia da República) com o Sr. Mestre-de-cerimónias do 10 de Junho (MC)? Do Sr. PR. já tu deste despacho e bem há dias. Do Sr.PAR, retirando os termos “eronisar” no 4º (o que terá querido dizer?), o “represtinar” no 8º (devia estar a pensar nalgum artigo da Constituição), e a totalidade do penúltimo paragrafo, é tudo pastilha bem mastigada.
    Há muitos anos…pensa que não faltou a nenhum (é do 25 de Abril que se trata). É obra, como muito bem afirma, os líderes devem ter ideias, é esse, seguramente, o seu grande mérito. Um verdadeiro dom. Um dom tardio, pelo texto dá ideia que esteve no posto de comando da Pontinha, muito angustiado pelo desenrolar dos acontecimentos. Decoro, mais decoro, ó Gama não devias ir por aí. Se és de facto um herói deves dar público testemunho dos detalhes, ou estavas já nas águas “profundas”, meio que dizem ser o teu por natureza?
    Quanto ao MC, fez um manual de história tipo Telescola uma aula de estilo Mr. Zandinga uma prédica tipo IURD, sumariada de recomendações Unionistas, e lembranças Pavlovianas para todos. Moral meus senhores, moral. Não foi pago à linha seguramente, mas devia. Veneno.

  4. O discurso do Barreto não passa de um discurso de um sociólogo de merda. repito: sociólogo de merda. Algum português já se sentiu asiático em vez de europeu? Ou africano? Ou indio, da américa do sul ou do norte? Pois aquela sumidade da nossa sociologia apregoa que nós setimo-nos europeus coisa nenhuma!
    Foda-se, que até falo mal!

  5. Um bom exemplar de “bananalidades” para otário escorregar. Assim como assim, fica o serviço feito.

    Este texto deve ter sido uma borla para a Comissão do 10 de Junho e o António Barreto não deve ter tido tempo para se debruçar sobre estes assuntos. Depois sai assim. Parece ser feito por alguém que adora ser português, mas lá no fundo aprecia é os espanhóis ou as qualidades dos alemães. Ou por aí.

    Mas o Barreto vai redimir-se breve. Agora na fundação do patrão jerónimo martins, em seis meses resolve Portugal. Sem facciosismos nem convulsões sociológicas.

    Num país onde o PR, douto economista e financeiro, confessa que nunca pensou que a indústria do futebol fosse capaz de pagar 100 milhões de euros pelo CR7… Ui, ui, ficamos logo conversados sobre elites intelectuais. E se eles gostam de passar doutoramentos pelo lombo, uns dos outros.

  6. Pois eu não achei mesmo NADA DE ESPECIAL..este tipo parece que tem um registo do não-poder, mas é um sociólogo do regimen!! bem disfarçado!
    dalby

  7. Desde que os auxiliares dos médicos, vulgo enfermeiros, alguém lhes disse que depois de andarem a ler uns anitos uns manuais da treta, pensam que já são intelectuais. Arre

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