Numerologia – III

21. No principio, a oposição garantiu que o PS não iria escapar à denúncia dos problemas nacionais. Pelo meio, a oposição protestou por se estar a dar importância às questões nacionais. No final, a oposição declarou que foram umas eleições estritamente nacionais. Se o PS tivesse ganhado, a oposição diria que não se podiam tirar ilações nacionais a partir do resultado das Europeias, obviamente, acrescentando que uma abstenção tão alta reforçava a impossibilidade de extrapolar para fora do contexto. Aliás, tivesse o PS ganhado fosse por que margem fosse, a oposição apareceria a dizer, sem se rir, que a abstenção era o seu não-voto de protesto.

22. O PSD andou a segunda semana de campanha a queixar-se de Vital, gritando que ele tinha sido um porcalhão por se atrever a pedir uma qualquer declaração acerca do BPN, um caso que em nada de nada de nadinha de nada se relaciona com a história do PSD desde o cavaquismo, como é do domínio público. Chegaram a domingo a acreditar nas sondagens, convencidos de que iam perder, já só esperando que fosse por poucos. Se fosse por poucos seria uma enorme vitória, anunciariam logo que estavam a crescer, que o ciclo tinha começado a mudar; ou seja, não baixavam os braços, e lá iam para o segundo round sem terem ido ao tapete. Como lhes saiu o Euroabstenções, Rangel e Manela dispararam sobre o Governo com a única ideia que aquelas cabeças produziram até à data: paralisação geral da governação. Há uma salazarista metáfora por detrás desta insane provocação anticonstitucional — a do dinheirinho debaixo do colchão. É assim que este PSD representa Portugal na sua retórica, como uma casinha de gente humilde e trabalhadora cujas parcas poupanças da sofrida vida correm o risco de ser desbaratadas de hoje para amanhã a mando de uns estroinas, arrastando a família para irrecuperável pobreza e acabando os desgraçadinhos no meio da rua só com um colchão, dois tachos e a roupa do corpo. Entretanto, pelo menos 1.127.128 portugueses, ao dia 7 de Junho de 2009, acreditam neste partido. Quem será que toma conta deles quando não estão a votar?


23. A ideia de que o Governo tem de interromper o seu programa porque está a 3 meses de eleições, a vingar como norma implícita daqui para o futuro, levará a um progressivo aumento do tempo de latência executiva. A seguir, um qualquer partido reclamará contra o próximo Governo por se estar a 3 meses dos últimos 3 meses, pelo que se aplicará a mesma lógica que deu origem ao primeiro interdito. Dentro de algumas legislaturas, os Governos em Portugal passam a ter um período de apenas duas semanas para executarem o seu programa, o resto do tempo estará já demasiado próximo das eleições.

24. A Fenprof disse que os resultados das Europeias provam que os portugueses foram votar a pensar exclusivamente nas políticas do Governo. Por isso, a Fenprof exige que o Ministério da Educação lhe dê razão e abandone a sua responsabilidade de governar o sector. A Fenprof é constituída por professores.

25. O discurso de Louçã na noite eleitoral apontou ao PSD. Anacleto Louçã é um rapaz de 52 anos que ambiciona ser primeiro-ministro. É um general, inevitável admirador secreto de César e Napoleão. Daí lhe vem a energia que anima a sua postura padreca de quem nunca se cansará de nos dar um sermão, nos castigar a inércia, expurgar a sujidade moral. E os sermões irão piorar, porque o vício só conhece uma direcção. Enquanto apontava ao PSD, mostrava a barriga.

26. O BE vive do melhor marketing de todos os partidos, porque tem o discurso mais juvenil, mais demagógico e mais populista. Tudo receitas que funcionam, havendo engenho e arte. Quem vota BE não quer discutir política, quer é tratar do seu caso, da sua fomeca. É um partido de narcisistas, com uma rigorosa atenção à imagem e à cultura da imagem. Mas o BE também vive, e decisivamente, de uma operação de ocultamente, de fingimento, de hipocrisia em grande escala. Para atingir as faixas descontentes genéricas, o BE não pode revelar a sua concepção de sociedade nem os valores que moldam o seu projecto de poder. Tem também de aparecer genérico, indistinto; e sempre, sempre, do lado dos mais fracos contra os mais fortes. E quem são os mais fortes? Aqueles que governam, sejam eles quem forem, olha o raio da pergunta!

27. Se o CDS valesse 8,3% do eleitorado para as Legislativas, essa seria a grande novidade saída das Europeias.

28. O debate no PS favorece a tendência que prefere capitular, entregar à esquerda imbecil a vitória depois de 4 anos e meio de combate. Não traz qualquer surpresa, surpreendente foi a postura reformista do Governo.

29. Uma das melhores e mais fortes democracias no Mundo não sofre com a alta abstenção, e até elegeu para presidente um preto cujo nome lembra o do arqui-inimigo. A abstenção é só um efeito, não uma causa. Para reduzir a abstenção, algo tem de se aumentar em correspondência directa. Por exemplo, aumentar a formação política no currículo do ensino obrigatório. Por exemplo, aumentar o culto dos símbolos nacionais doadores de identidade, como a bandeira, o hino e os monumentos, acabando com a tirania da esquerda imbecil que os quer apagados da História. Por exemplo, aumentar o sentido de missão nos partidos de modo a que assumam responsabilidades e competências didácticas e pedagógicas ao nível da cultura política, explicando a natureza, sentido e dinâmica das instituições públicas e sua influência no quotidiano de curto e longo prazo do cidadão. Por exemplo, mas há mais.

30. Falar-se de um Sócrates invencível, e dizer-se que as Europeias destruíram esse mito, lembra-nos que a sociedade é composta por vários tipos de malucos, alguns muito bem pagos para botarem faladura. Fora das realidades alternativas, todos sabemos que a 1ª maioria do PS só foi possível porque o País tinha passado pelas mãos do traidor Barroso e do inqualificável Santana, levando a um inaudito despedimento presidencial. Essa situação está esquecida, embora não enterrada. Na noite da vitória socialista em 2005, no que foi um anticlímax espectacular se comparada com a invasão popular aquando da vitória de Guterres, quase que não se festejou nas ruas. Havia um sentimento colectivo de vergonha e desânimo, Portugal tinha batido no fundo e a desmoralização era absoluta. Só pedíamos que algo se fizesse, qualquer coisa que nos devolvesse a dignidade. Sócrates, e a sua equipa, fez isso e muito mais. Muitíssimo mais, de facto, pois nos anos seguintes as soluções adoptadas começaram a gerar riqueza económica e cultural, só tendo sido travadas por uma catástrofe internacional. E neste período também nunca tantos se sentiram com tanta segurança para exercerem a sua liberdade de expressão, manifestação e oposição, tendo o Estado e o Governo sido exemplares no respeito dos valores democráticos. Conservemos na memória, por isso, a euforia da celebração do PSD nestas Europeias; o mesmo partido, e com as mesmas caras, que em 2005 foi derrotado depois de nos ter derrotado a todos com a sua incompetência e soberba de classe. Fizeram agora uns gatos pingados mais barulho do que vários milhões há quatro anos. Só quatro anos.

10 thoughts on “Numerologia – III”

  1. És delicioso mesmo quando não concordo contigo. Mas no essencial se calhar até concordo, amanhã venho cá reler. Quando pus aquele link da mázona estava aqui com um sorrisinho maroto a pensar se ia eriçar pêlo. Hoje fui para a mata e levei A Republica a pensar em ti e não só.

  2. Valupi, O que tentas justificar?

    Não vês que só 26% de 31% dos portugueses em condições de votar votou no PS?

    Podes escrever em circulo e repetir-te até à exaustão que não altera o facto anterior.

    É bem provável que o sócrates venha a capitular nas legislativas. Duma coisa não tenhas dúvidas, há muita gente a fugir para a esquerda imbecil. Suponho que esses sejam também, para ti, imbecis, embora já tenham sido, uma vez mais para ti, pessoas eruditas que “emboutaram” de um dia para o outro, como se de uma doença se tratasse.

    Felizmente são estes, nos quais me incluo, que não são reféns do partido A ou B e que votam naqueles que julgam melhor (ás vezes menos mal) defender os seus interesses.

    O problema do governo com os eleitores é fácil de explicar: Pensa no rapaz de 1ª linha o nos de 2ª linha e quantos identificas genuinamente com PS. Pois é, poucos esse é o problema. Não representam a matriz cultural do PS.

    Não nos digas que ainda não quiseste ver que este governo governa mais à direita que o do Barroso. Não chega meter umas leis pelo meio para parecer que se governa à esquerda.

    A perda de votos do PS nestas eleições é fácil de compreender, uns foram brancos, admito daqueles PS’s que jamais votariam noutro partido, mas que, contudo, não conseguem votar novamente neste PS, outros fugiram para o BE e para a CDU. Eventualmente alguns para o PSD, talvez aqueles que preferem um partido que se diz liberar do que um que se diz de esquerda e governa como se fosse liberar.

    Enfim, podes continuar a numerar as tuas visões cor de rosa, isso não alterar nem os factos nem, provavelmente, te continuará a garantir o tacho!

    Larga o vinho

  3. Ai , V , esquece. A democracia representativa , sem mecanismos que punam quem não cumpra o programa que leva a eleições é treta igual aos cremes anti rugas ou anti celuliticos : a gente esfrega , esfrega , põe , põe , e nada. E nós , ainda parecendo , não somos parvos. Não podendo fazer nada , não votamos , ou votamos ao deus dará naquele que nos possa fazer o menor mal possível até os votos brancos terem o seu lugar no parlamento ou até aparecer gente séria que a coisa que mais queira é viver no meio de gente feliz e não ter quem o cate ( macacos à disputa de poder , resume-se assim o masculino).

  4. E para votar , caro V , a única coisa que é necessária é que o nosso voto corresponda aqui,lo em que votámos. E quanto mais consciência política tivermos mais deixaremos de votar em coliformes , pá. Nem sabes o que andas a pedir. O mal não está no povo , está naqueles que têm para lá uns problemas de mal amados e mal fodidos e querem compensar através do poder e dinheiro.

  5. Valupi, estou contigo no sentido em que quero, sem dúvida, que o PS tenha mais votos nas legislativas que o PSD. O meu voto é sempre à esquerda, embora aí com geometria variável: votei no Guterres no 1º mandato, doente que estava do cavaquismo e de ver o Nogueira e a mulher a dançarem o vira para sacar uns votinhos.

    Já não percebo tanta pirraça contra o Bloco. Já te disse que não tenho hoje nada a ver, fui fundador por via indirecta e depois directa, saí em 2006 e nem convivo por lá, no entanto reconheço que o Bloco vai trazendo para cima da mesa problemas e propostas que se revelam lúcidas.

    Acho inevitável que o Socrates não tenha maioria absoluta, a menos de um milagre, é verdade que os portugueses podem ser muito surpreendentes mas não é nada provável. Nessa hipótese o mais viável é um entendimento com o Bloco, que infelizmente se retirou de qualquer solução de participação no Governo, coisa que aliás não entendo nem aceito.

    A direita vale aquilo que somou nestas eleições e nada mais, eles foram todos votar como mostram os 8% do CDS, o busílis é a abstenção.

  6. mais uma série de tiradas certeiras: a nº 30 é de facto top. as legislativas levarão necessariamente a comparações entre este governo e o anterior (ignorando o santana). se houver seriedade e honestidade nas análises (suspeito que não pois se até analistas do calibre de um luís delgado, à espera de tacho num futuro governo psd, ou da conspirativa serra lopes, à espera da eterna vingança, são considerados imparciais) não haverá menor dúvida de qual foi o melhor governo. mas a comunicação social apostou tudo na não recondução do actual pm (os motivos talvez estejam nos patrões) e veremos os analistas entertainers a continuarem a debitar as suas falsidades, acolitados por jornalistas coniventes ou simplesmente ignorantes. do outro lado teremos um sócrates sozinho, sem apoio dos seus que se veja (excepção ao aspirina), contra toda esta tralha (a incluir também igreja católica, cap, associações de pme, belmiro&soares dos santos,…..). já vimos que o homem é de aço, não foge no meio da maior tempestade dos últimos 50 anos, e também terá tomates, estou certo, para colocar esta tralha toda ao tapete.

  7. Isto da numeralogia e do Tarot ainda continua?! Não há dúvidas de que o paleio esotérico gosta de complicar o que é simples. Perante uma conta simples de fazer como o 2 2=4, o bruxo Valupi consegue descobrir (para já!) mais 30 resultados ou pontos alternativos e paralelos. São coisas que os bruxos descobrem quando se põem a analisar outras dimensões que estão para além da realidade. Mas a verdade é que se tipos como o Kepler e o Newton também se dedicavam ao estudo destes fenómenos esotéricos, eles sempre descobriram as leis básicas e essenciais da realidade material, ao contrário do Valupi que, incapaz de aceitar as evidências desta realidade, se dedica a manipular as suas cartas de tarot para desviar as atenções. Por outras palavras, em vez de analisar as verdadeiras razões da derrota do PS Pinto Sousista, dedica-se ao estudo do mau-olhado lançado pela «esquerda imbecil», das conspirações feitas pela «direita ranhosa», das más conjugações dos astros com efeitos na atitude abstencionista de muitos portugueses: tudo «razões» exteriores ao próprio Pinto de Sousa e à sua governação, claro, porque essa espécie de espírito superior e perfeito merecia ter outro destino que não o da sua morte e descrédito aos olhos de quem, tarde mas ainda a tempo, deixou de acreditar nos fantasmas com que os evocadores e devotos do espírito, como o valupi, costumam ameaçar os inocentes. É assim que os aldrabões ganham a vida…

  8. Valupi, de todas as análises que li e ouvi acerca destas eleições, a tua análise, quer pelos argumentos, quer pela forma como os apresentas, deixa a concorrência a milhas. Por outras palavras, e aposto que os teus alunos pensavam o mesmo, aprende-se sempre contigo e é um prazer ler-te :)

    Concordo contigo quando dizes que a escola e os políticos deviam dedicar mais tempo à formação política das pessoas. Ninguém nasce ensinado e a memória dos factos históricos é demasiado curta. A maioria de nós concorda que a democracia, com todas as imperfeições que possa ter, é o melhor sistema que a Humanidade inventou. É muito recente e para que funcione e evolua tem de ser, acima de tudo praticada, mas não se perde nada se for correctamente ensinada. Isto é pelo menos o que nos diz o bom senso, apesar de haver quem pense que o bom senso de nada serve, por exemplo, na educação e defenda que só especialistas nas várias áreas podem formar e resolver os problemas dos alunos. Pois, eu penso, que o bom senso deve ser a última coisa a eliminar, seja de que área for. Os professores faziam um enorme favor à sociedade se dedicassem algum tempo a explicar aos alunos que a democracia não é só ter liberdade para apontar os erros a quem governa, mas que devia ser sobretudo criticá-los de forma construtiva e apresentar ideias alternativas àquelas com as quais não concordamos. Isto apesar de não serem políticos profissionais.

    Quanto ao futuro, ou seja, as Legislativas, ainda não me esqueci do passado. Nas Europeias, houve muita abstenção, muito voto em branco, muitos votos nos pequenos partidos, sendo que tudo isto é, obviamente, normal em democracia. Mas na realidade, apesar de tanto voto de protesto, o país vai ter de ser governado por alguém e as duas únicas alternativas são Sócrates ou Ferreira Leite.
    Ou avançamos e mantemos a esperança de que este país é igual a tantos outros que obtiveram sucesso, ou regressamos aos fantasmas do passado, com complexos e medo de tudo e mais alguma coisa, e não tarda muito estamos todos a guardar o dinheiro debaixo do colchão.

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