O Ilhéu da Vila

Já que é para abandalhar o Aspirina, abandalhemos todos. E que me desculpem a rudeza deste soneto aqueles que me julgavam mais comedido.
Não fiz mais do que atender a um pedido do inefável Dr. Luciano da Silva, homem famoso pela sua crença no Colombo português, embora eu não seja vilafranquense. Explico. Ele descobriu uma notável semelhança entre o ilhéu de Vila Franca e os órgãos reprodutores e suas vias de acesso femininos, com um farilhão ao lado que é evidentemente um símbolo fálico. (E eu que ainda não reparara nisto nem no resto… que incultura sexual!) E desafiou os poetas de Vila Franca a fazerem poesia inspirados nesse tema. Mas, melhor que esta explicação, será consultar o texto do próprio, no endereço que vai abaixo.

http://www.dightonrock.com/ocolondavilafancadocampo.htm

Ilhéu da Vila

Uma erótica vulva de basalto,
Redonda, bem formada, como um halo.
Contempla-a, sombrio, um negro falo
Que a seu lado se vê bem posto ao alto.

Que angústias viverá em sobressalto!
O erecto, viril membro, é como um galo
Com franga que não pode consolá-lo
Porque ele não consegue dar o salto.

Imutáveis estão, e assim se fitam:
Ela ardendo em desejo, ele cismando.
(Quantos seres humanos os imitam!)

Para não desejá-la, o pobre rijo
Enquanto a olha vai imaginando
Que o mar à sua volta é todo mijo.

Superstições

Devido a circunstâncias laborais, tenho conhecido muitos espanhóis. Os espanhóis são, dizem-me eles, muito supersticiosos. Já conheci uma boa dezena de casos que ficam histéricos com gatos pretos, espelhos e coisas afins. Há um hábito em particular a que eu acho piada, que é o de colocar alhos em locais estratégicos. O pai de um amigo punha-lhe alhos no porta luvas do carro para o livrar de acidentes e maus encontros. Também lhe adiou bastante a saída de casa, já que a moça de quem ele gostava na altura achava que ele andava sempre a cheirar a comida e que arrotava no carro, o guarro. Também conheci um cientista que usa as mesmas técnicas, e coloca alhos junto a locais estratégicos do seu laboratório, particularmente quando acha que as experiencias lhe correm mal e quer que lhe comecem a correr bem. Esta história deu-me uma particular vontade de rir, ao imaginar artigos na Nature descrevendo, entre os mais diversos aparelhos de cromatografias, espectrofotometrias, ressonâncias e infravermelhos, a presença de uma cabeça de alho de cerca de 100 g, colheita de 2007, Junho.

No entanto, e como me fez notar uma amiga, qual será a diferença entre um cientista que coloca alhos ao pé dos aparelhos, e um cientista que reza e pede a deus que o ajude?

Sonho de mulher na cidade de cimento

Teu corpo é uma planície pequenina
Onde eu sou um lavrador à procura
De fazer com a língua na tua vagina
Sementeiras de paixão e de ternura

Faço dos meus lábios uma charrua
Bem levada pela força dum tractor
E à noite quando vem a luz da Lua
Teu corpo é uma seara só de amor

Na tua boca-vulcão sugas o lume
Aceso na pele dos meus sentidos
Enlouqueço a pensar no perfume
Nos dias longe de ti tão perdidos

A tua boca é uma oitava maravilha
Pois concentra como em ninguém
A força impetuosa de uma filha
E a serena sabedoria de uma mãe

Continuar a lerSonho de mulher na cidade de cimento

Fitna – II

O nosso amigo Carmo da Rosa pregou uma inteligente, e clássica, partida a propósito da publicação do vídeo Fitna. Os resultados estão à disposição dos interessados; e valem, para mim e principalmente, por esta evidência: o problema do terrorismo islamita, mais as melindrosas e desvairadas questões conexas, não se resolve com o silêncio das vítimas, muito menos com silenciamentos. O facto de ser uma ameaça potenciadora, ou geradora, de desequilíbrios psíquicos (vide exemplo nos comentários), e de posições confusas (vide exemplo nos comentários), e de contradições obscenas (vide exemplo nos comentários), mais urgente e meritório torna o diálogo com os apavorados, os medrosos e os preconceituosos. Até com os imbecis.

E o Fitna? As centenas de milhões de crentes muçulmanos não pareceram muito preocupadas com as peculiaridades da política holandesa, e as manifestações foram raras e sem entusiasmo. A reacção mais violenta, e ironia das ironias, ainda é a de Kurt Westergaard, o qual protestou por aparecer o seu famoso boneco à má-fila, sem o terem sequer avisado. Para os distraídos, fica claro quais são os limites da liberdade de expressão: os direitos de autor. Qualquer outro limite, e excluindo a legislação aplicável, é inadmissível e deve ser denunciado como ofensa à Civilização.

Por cá, jornalistas e blogues preferiram ignorar a surpreendente peça de Geert Wilders. Não me pagam para explicar o fenómeno, mas como observador aponto para um aspecto notável do Fitna: em nenhum passo se promove a violência contra pessoas, etnias ou credos. Aliás, desconfio que o registo baralhou por completo os axónios a muito boa gente, contribuindo para explicar a mudez geral. O que fica da narrativa é uma comunhão com o sentimento de perplexidade perante a aberração de actos e intenções. A mensagem poderia — e deveria! — ter vindo de um crente islâmico, pois o mal faz vítimas entre todos os que procuram viver em paz.

Entretanto, um palonço saudita, de seu nome Raed Al Saeed, deu que falar com o vídeo Schism. O filme é completamente idiota, risível de tão tonto, mas assinala a possibilidade de diálogo com a nova geração de muçulmanos cosmopolitas. Basta que eles consigam entender que a religião cristã já foi derrotada faz tempo, muito tempo. O cristianismo não passou de um momento da cultura ocidental, o que veio a seguir é uma divindade muito mais poderosa: a liberdade.

luxuriante

crrun.JPG

No momento em que todos se roem porque não irão ver o filme do último sopro de Marylin, diverte-me o estatuto atingido pela pornografia. Retirada dos confins de cotão entre colchão e estrado de machos com muito a esconder, a exposição dos genitais passou ao trívio da trivialidade. Do hábito saudável de damas que ostensivamente não usam cuecas, por um bom arejamento (já dizia a minha madrinha que as pombinhas deviam andar ao léu sempre que possível), ao atestado de vulgaridade de herdeiras milionárias, o leitmotif do sexo está em tudo, especialmente na arte.
A artificação do sexo rebate o conceito de pornografia, como os orientais provaramalguns séculos. John Currin, capa da última Art Review,* mete no chinelo qualquer prosápia de um Jeff Koons na dessacralização do sexo. Pegando em clássicos da arte ocidental, e com evidente referência à sofisticação dos enquadramentos das gravuras orientais, Currin* seduziu o mercado com uma pintura opulenta de temas eróticos. O sexo vende e, no caso, a preços de seis algarismos. Quando há quem compare um felácio com um beijo com muita língua em números desta envergadura, e os nivele, já não podemos estar a falar de pornografia: o objecto perde relevância para o modo como é representado. Todavia é feito o aproveitamento da experiência comum da pornografia, a da atracção pelo voyeurismo. Aqui, sátira executada com rigor kitsch biedermeier.
Currin recicla o imaginário da idade de ouro da pintura figurativa, recorrendo à época dourada da pornografia, os anos 70, altura em que ainda deixavam pessoas feias, ou de aparência normal, fazerem-no. Nesta dupla apropriação, Currin mostra que sabe pintar, embora o recurso ao suporte fotográfico possa explicar eventuais dificuldades no escorço, aqui e além. Representa a textura da carne e embutidos de composição, como panejamentos e detalhes de natureza-morta, com mestria conservadora. Apesar do apelo das vanguardas e da suposta morte da pintura, o virtuosismo tende à legitimação pública.
Há, no entanto, um problema constante com a exibição do sexo. Pouco importando quão abertos possamos ser em relação à causa e suas causas, ao grau artístico da cena e seu carácter majestático, prevalece um mas. Um pudor relacional, resguardo que Currin explicita. Lamenta ter que proibir os filhos de entrarem no seu estúdio, e não poder discutir o trabalho apresentado com os pais, no clima apoteótico que inaugura as suas exposições. Mas o embaraço não o tolhe. E as imagens são uma delícia de dolce vita. Mesmo se não atingem a modernidade que encontrei em Lequeu. Descoberto aqui, em plena Aspirina.

*Links obtidos por cortesia da comentadora Marcel Duchamp.

purpurinas científicas

Uma senhora foi à escola falar sobre ciência. A Ciência Brilhante, contou-me o meu filho, valeu bem os dois euros que paguei, porque aprenderam muitas coisas. Aprenderam, por exemplo, que não é a poluição o que destrói a camada do outono; antes torna-a mais espessa. E depois é mau, porque a luz do sol vem e dobra para ali. Mas também não se sabe tudo sobre a camada do outono, porque ela não se vê. Parece que só se consegue ver por dentro a partir de um foguetão. O pior é se o foguetão acerta num sítio onde ela está muito grossa e forte, e faz barreira invisível e tau, o foguetão bate e cai para trás. O foguetão, filho, o foguetão não passa?! Ai, não ligues, pois, os aviões é que não conseguem passar, não é?
Conheço uma criança da idade do meu pequeno cuja mãe tinha um excelente método. O miúdo tinha dois anos e fazia muitas perguntas. Ela respondia o que é que achas que é? ou não sei, diz-me tu porquê. E ele congeminava qualquer coisa, quase sempre efabulações com sentido lógico.
Uma das coisas boas da aprendizagem é tudo ser ainda possível. Aviões a embater nas camadas do outono e a fazerem ricochete. Ou a descoberta de um intestino doce e outro salgado, pela filha de uma amiga. Do filho de outra chegou-me a poesia da água com gás, num sabor a pés dormentes. Quando lhes falta, completam os espaços em branco. A imaginação permite atribuição de sentido e, nela, o encontro de metáforas. A minha mãe sempre me disse, e com toda a razão: filha, quando não souberes, não fiques calada. Inventa.

A sombra luminosa

Poemas: Marta Furtado (jovem poetisa natural da Ribeira Grande, publicação póstuma) e R. Tagore;
Título e outras citações: Armindo Trevisan (teólogo brasileiro);
O texto restante é meu.
“Num campo de Nada
os olhos minúsculos de uma besta
enredada no escuro
tremem de medo dentro do corpo
enorme colossa.l”
Um campo de nada que poderia ser de tudo. O vaso vazio é mais fácil de encher se for pequeno, mas se a alma humana é grande, imensa, nada a saciará nunca. Como um
“Minotauro embevecido,
(que) consigo
ao espelho, no dia em que se viu
tornou-se frágil narciso
e perdeu o sentido.”
O espelho, a luz-sombra do eu inquieto a que só a perfeição basta. Mas não pode partir-se o espelho. Nem obrigar o espírito às limitações do reflexo. Talvez num qualquer Nirvana. Talvez Rabindranath, o sublime, capaz de o sentir quando disse
“Mesmo que eu tivesse o céu
com todas as suas estrelas
e a terra com os seus tesouros sem fim,
eu pediria mais.
Se ela fosse minha, porém,
qualquer cantinho neste mundo me bastaria.”
A poesia é uma das formas primordiais do Belo. A comunicação por excelência das ideias imperecíveis. O próprio Cristo a terá usado, seguindo a tradição do seu povo habituado a guardar a sabedoria onde não poderia perder-se: na memória colectiva.
“Existe nos Evangelhos uma dimensão poética essencial”
mas o próprio
“Jesus não encontrou uma página em branco que devesse ser inaugurada; a página já estava escrita.”
O que é preciso é mudar as formas, se necessário acrisolá-las até, para as adaptar às exigências de quem ouve, ainda que sejam apenas um solilóquio. Ainda que, se fossem cores, tivessem de ser feitas de todas as cores para conterem todas as ideias. Porque “o poeta, por definição, é alguém que deixa em aberto suas palavras, fugindo às definições.”
O poeta é alguém que é maior do que a sua própria vida, como se não coubesse nela e tivesse de criar um espaço de poesia que acolhesse a sua liberdade condicionada. Um pequeno mar onde possam desaguar os seus sentimentos, porque “só a poesia resguarda aquela área em que o sentido pode ficar /…/ fecundo, engendrando novos sentidos.”
Muitas vezes, quase sempre mesmo, a inquietação que aflige o poeta não é a sua própria, mas a dos outros.
“O suor dos escravos
ou a seiva dos algodoeiros
entranhados na Terra?”
Esta é uma forma excelsa de sabedoria: a consciência de que o mundo somos nós todos, de que não há lugares de privilégio previamente reservados.
“É a primeira vez que venho ao mundo
daí que não saiba nem sinta absolutamente nada.”
Mas a forma suprema da sabedoria é o amor. Que não se aprende, faz parte da vida. Quem o nega não renuncia aos outros, renuncia a si mesmo.
“A Humanidade
ou está numa mata de ouro
ou num matadouro
conforme convém à loucura.”
Para isto é preciso um corpo com todos os seus sentidos, pois estes é que são as portas da alma.
“Que farei eu só com a minha alma?”
Estes poemas da Marta, como os de Michel Quoist, são para rezar. Por isso, contrariando a lógica, mais que a resposta dada à pergunta feita
“Nada “
pode dizer-se, sem receio de errar: Tudo.

O livro da minha vida – Dia Mundial do Livro

«Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira

Ler «Uma abelha na chuva» em 1969 numa Lisboa temerosa, vagarosa e desenhada a preto-e-branco foi, para mim, a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a sua meninice: «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje para mim inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão: amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1953 como o autor pressente (mais de vinte anos antes…) o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Eu tinha dezoito anos e a minha paixão pela literatura nascera no Ciclo Preparatório em Vila Franca de Xira com os poemas de Cesário Verde e com os contos de D. João da Câmara e de José Loureiro Botas. O primeiro dava-me o Mundo, o segundo dava-me a Cidade, o terceiro dava-me o Campo no Inverno e a Praia no Verão. Mais tarde as fotografias de Augusto Cabrita e o filme de Fernando Lopes com Laura Soveral e João Guedes nos principais papéis vieram dar outra visibilidade ao livro em cujas páginas a morte duma abelha pode ser também a metáfora da morte dum certo tempo português. E este romance é a perfeita memória descritiva dessa mesma morte. Porque tudo aqui funciona em harmonia, o tempo interior das personagens, seus sonhos e angústias, mistura-se de forma feliz, acertada e completa com o tempo geográfico, uma aldeia perto das lagoas pantanosas mas a dois passos do mar onde as ondas das marés vivas levarão de noite o corpo do cocheiro assassinado. «Uma abelha na chuva» é um excelente ponto de partida para alguém descobrir o autor de uma das mais importantes obras de poesia e romance do século XX. Ainda me lembro, tantos anos depois, das últimas palavras do romance depois de alguém num grupo de mulheres chamar o Dr. Neto porque a Clara em desespero se tinha atirado ao poço da olaria: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»
Nota final – Só o facto de pensar que estas palavras possam vir a ser traduzidas para brasilês deixa-me, desde já, arrepiado.

No Nordeste, em S. Miguel

Naquele tempo, o Nordeste ainda era longe. Dentro do concelho a viagem fazia-se numa estrada de que, em dias secos, se erguia um pó amarelado, finíssimo, constante. Nada nem ninguém se movia nela sem assinalar a passagem com nuvens de poeira. Que persistiam, insidiosas, se não havia uma aragem que as desfizesse sobre as searas, contra as casas, nos vales e nos outeiros.
Pela primeira vez o viajante foi além da Vila. Passou a Lomba da Pedreira, presépio armado durante todo o ano. Ficava para outro dia percorrer as suas ruas como pastor em Belém. E, de súbito, poucos quilómetros adiante, a mais inesperada das surpresas. A estrada alargava-se e era de asfalto. Haviam ficado para trás os barrocais das míticas ribeiras do Nordeste – a da Mulher, a Despe-te Que Suas, a do Guilherme… Perdidas, nas milhentas curvas do caminho e da paisagem, as tremendas arribas da Achada, das Feteiras, da Algarvia… Por aquelas bandas a ilha é sempre com mar ao fundo, mas apenas a servir de moldura, longe, como se a ilha e o mar nada tivessem que ver entre si. Como se vivessem desavindos e só por acaso e a contragosto se tocassem na orla das escarpas.
Da estrada de asfalto o viajante não sabe o prodígio que a deitou ali, no mais improvável dos lugares, porque não se vê vivalma que a use ou ao menos lhe ponha a vista em cima. Mas ela continua a revelar um mundo cada vez mais estranho e mais fascinante. Ali, onde a ilha começou a ser feita há mais de quatro milhões de anos, tudo acontece à semelhança do final de um poema sinfónico, em que o tema se repita no ribombar de toda a orquestra. A cada curva passada o viajante olha à procura da diferença. E esta surge-lhe, mais que todas, no espanto de uma ribeira que, como as outras, desce dos lados onde o Pico da Vara galga o céu.
O viajante pára. Alguém dos que o acompanham disse: “Ninguém fale.” Mas não era preciso. O único que se atreveu a falar foi aquele que pediu silêncio.
Não sabe o nome da ribeira que contempla, extasiado. Apenas percebe que ela desce a montanha como se tivesse pressa de fugir das alturas da Tronqueira. Depois acalma um pouco, e a falha geológica que aproveita para deitar-se ao mar alarga-se sem poupar espaço. As margens, até ao leito que se não vislumbra, estão adornadas com quase todas as espécies de árvores que há na ilha. A completar o espectáculo, o canto de milhares de pássaros. Nem um se avista. Nem de um sequer se distingue a voz, que assim de longe ecoam todas em uníssono.
Depois há-se saber que aquela ribeira é a dos Caimbos, porque, ao atravessá-la, os primeiros que por ali andaram usavam uns ganchos para se agarrarem às margens quando as subiam. Quanto à estrada que primeiro o surpreendeu, dizem-lhe que foi obra dos Serviços Florestais, que fizeram no Nordeste talvez os melhores actos de amor à Natureza de todas estas ilhas. (E naquele pico de onde a ribeira desce, o do Bartolomeu, que seria morada digna de duendes, há-de fazer-se um miradouro de conto de fadas.)
O viajante esquece a beleza triste dos povoados por que passou até chegar ali. Tinham todos a cor dos dias cinzentos do Inverno. Como se nunca houvesse sol durante o dia nem luar nas longas noites. Mas ama-os, na sua velha modéstia, deleita-se no contraste da sua pequenez com a imensidão do cenário. E tem confiança de que tudo há-de mudar. Só não imagina que será tanto e tão depressa. O que aquela gente sofre por estar viva! Há em todos, no entanto, uma delicadeza natural, uma boa educação que lhes anda agarrada à alma como os incensos e as conteiras nas ravinas mais inacessíveis.

O Fernando, o Jorge e o blogodrama

No dia 31 de Março, o Fernando anunciou a sua saída. Neste momento, em que publico, não há mais nenhum escrito dele, nem em comentário, nem em post. E a mim não chegaram emails, telefonemas, mensagens escritas, pombos-correio ou sinais de fumo com declarações a respeito, sequer meras pistas. Significa que ignoro as razões para a súbita partida, estando como outros que o interrogaram na caixa. Mas sei o seguinte: independentemente das hipóteses credíveis (uma delas, por vários apontada e com alta probabilidade, remete para aqui — mas pode não ter sido esta a causa, ou terem sido várias, esclareça quem souber), não se deve substituir a palavra de outrem. Se nada se quer explicar, pois que nada se tente adivinhar. Tenho, porém, algo a dizer na ocasião.

Foi a blogosfera que me fez conhecer pessoalmente o Fernando; nomeadamente, foi o BdE. Na minha primeira aspirina, celebro esse encontro. Em Janeiro de 2006, anuncio a sua entrada, por ter sido eu a sugerir o seu nome numa altura em que o Luis Rainha queria fazer crescer a equipa original. Seguiram-se dois anos de ainda mais estreito convívio, comigo sempre surpreendido com a sua generosidade temporal para com aqueles que passavam, ou montavam acampamento, nestas novas tertúlias que são os blogues. A sua presença chegou a ser decisiva para a continuidade do Aspirina B, após a saída de quase todas as vedetas, quando se esperava que o blogue tivesse um convencional fim. Nesse Verão de 2006, Fernando Venâncio e Jorge Carvalheira, principalmente, mantiveram o espaço activo e apelativo.

É esta a altura, especial, de deixar em preito a lembrança da viagem a uma cidade alentejana, no dia em que conheci de corpo presente o Fernando. Foi também o dia em que conheci a Susana para lá das suas palavras, naquele que foi um duplo blind date para cada um dos três. No regresso, o Fernando partilhava o seu amor pela Galiza, pelos galegos e por essa Língua nossa. Eu, ao volante, agradecia aos deuses da Internet pela graça daquele momento e daquele dia. Trago este episódio para ilustrar o que procuro nisto de comunicarmos através de um blogue: o encontro com a realidade, o aumento das possibilidades criadoras.

A Susana recebeu o pedido para que os nomes Fernando Venâncio e Jorge Carvalheira fossem retirados da lista dos autores activos. Isso selou o abandono do Fernando, a que se juntou o Jorge que saiu à francesa. Do Jorge só conheço os seus escritos, mas tendo sido igualmente uma honra ter estado na sua vizinhança literária e opinativa. A lista das Visitas antigas vai crescendo, e reúne um conjunto impressionante de históricos da blogosfera portuguesa à mistura com novatos. Alguns tornaram-se estrelinhas publicistas (ou já eram), outros animam blogues de referência, outros são intermitentes ou esquivos. Cada um se relacionou com o Aspirina B por razões diversas, em contextos díspares e despediu-se à sua maneira. Vários nada disseram, outros fizeram breves declarações, e ainda houve quem tivesse molhado o pão na sopa do dramalhão. Tudo de acordo com a banal diversidade da diversidade banal.

Os blogues são seres frágeis, tendem a ser efémeros como reflexo da sua novidade e das instabilidades psicológicas de que são espelho e especulação. Os blogues colectivos ainda mais, sujeitos a constante conflitualidade centrífuga, a que se acrescenta um peculiar regime proprietário — a quem pertence um blogue colectivo? como se tomam decisões?… Há quem utilize os blogues amiúde, ou por singular tentação, em experiências de melífluo narcisismo, como sejam essas da encenação da morte, do adeus. Outros passam por eles como por café em bairro estranho, sem apego nem saudade. No caso desta saída do Fernando e do Jorge, não se me afigura haver nada de errado, pelo contrário. Errado seria que cada um anulasse a sua liberdade. Assim, se porventura, ou por ventura, algo do que escrevi esteve na origem da saída do Fernando, tanto melhor. Os blogodramas que alimento têm sempre final feliz, mesmo quando acabam mal.

a pequena altruísta

Há um ano foi o Gigante Egoísta, numa altura em que ainda liam por socalcos. Hoje, um cadavre exquis, jogo que entusiasma os meus filhos na escrita como no desenho. Folhas de papel já preparadas, divididas em doze faixas horizontais e com as dobras vincadas, asseguraram número igual de participações. Não conheciam o exercício, o que potenciou galhofa e catarse.
Surpreendeu-me o drama em crescendo próximo do momento da leitura. Todos queriam, zangavam-se, asseguravam o melhor desempenho. Alguém chorou porque o resto do grupo foi peremptório na recusa da distinção. Na mesa do meu filho discutia-se estratégias. Para as meninas deveria ser uma delas, pois todas eram fluentes, e tinham maior facilidade em reconhecer a escrita na caligrafia alheia. Dois rapazes ignoravam-nas e disputavam entre si o privilégio. O meu filho, a sentir-se anfitrião ou por temperamento, fazia cerimónia. E a menina de branco teve uma ideia.
Continuar a lera pequena altruísta

nota: nunca fazer as coisas à pressa sob pena de se ser obrigado a adendas e correcções

Os menos distraídos terão assinalado uma alteração ocorrida, ontem, na barra lateral do blog, secção Autores. Aparecem, agora, os nomes dos participantes sem qualquer distinção hierárquica. Isto aconteceu na sequência do pedido que o Fernando me dirigiu: que retirasse o seu nome e o do Jorge Carvalheira da coluna dos activos. Com este gesto caiu-me definitivamente a moedinha. Desde o anúncio da sua saída, surgido no blog, até aqui, e apesar de o Fernando, posteriormente, ter respondido à minha incredulidade reiterando a irreversibilidade da sua decisão, tudo me pareceu tão improvável que mantive alguma esperança; era apenas um capricho transitório, coisa de artista. Enganei-me.
Ao mexer nos arquivos aproveitei para efectivar outra mudança, já por nós decidida antes da saída do Fernando. O Daniel e o José tinham permanecido nesta condição, anterior à mudança de plataforma, por serem seus convidados. A Isabel tinha obedecido à mesma ordem de ideias. Mas não tinha sentido. Independentemente de quem administra, na página oferecida aos leitores os contributos equivalem-se. Todos concorrem para a diversidade que nos faz e que apela a quem nos lê, numa relação simétrica de heterogeneidade. O Fernando saiu, os seus convidados ficaram, mostrando a vontade de continuarem connosco. À medida dos desejos e do estar bem de cada um, um blog vai acontecendo. Uns saem, outros ficam. Outros ainda, por agora insuspeitos, poderão cá chegar. Um blog é egoísta e narcisico: antes do vosso, existe para nosso prazer.

Vinte Linhas 255

Atirados ao chão na Juventude da Galiza

No passado dia 3 o poeta Adalberto Alves apresentou o seu mais recente livro «No Vértice da Noite» no palacete da Juventude da Galiza ali ao Torel. Falou o editor enquanto por cima de nós uma gaita-de-foles não parava de tocar. Falou Elsa Rodrigues dos Santos e a gaita continuou. O actor João d´Ávila leu poemas do livro e a gaita não parou. O autor do livro agradeceu e a gaita subiu de tom. Luísa Amaro e António Eustáquio tocaram três pequenas peças (guitarra portuguesa e guitolão) e não tocaram mais porque a gaita-de-foles não parava de fazer barulho por cima de nós. Quando no Verão passado o José Saramago se saiu com aquela do «mais cedo ou mais tarde vamos ser integrados na Espanha» muita malta não percebeu o alcance. É que ele já estava integrado desde 1992 quando a espanhola o obrigou a apagar a dedicatória às pessoas do Lavre que lhe contaram as histórias do livro «Levantado do chão». Como essas pessoas foram apresentadas ao Nobel porque Isabel da Nóbrega apareceu no Lavre com uma forguneta cheia de livros (alguns da RDA e da Bulgária…) para a cooperativa local, a espanhola mandou apagar não só o nome da Isabel mas também o das pessoas que o escritor lá conheceu através da Isabel. Esta cena horripilante vivida na Juventude da Galiza com as gaitas-de-foles por cima das nossas palavras é um terrível exemplo da dita «integração» na Espanha avançada pelo Saramago. O poeta João Rui de Sousa a quem saudei na sala ficou quase apagado perante a barulheira da gaita-de-foles. Quando desci a calçada do Lavra direito aos Restauradores com os amigos Fernanda, Patrícia e Eduardo, a gaita-de-foles da Juventude da Galiza ainda não se tinha calado. Integração? Safa!

Apologia de Patrícia e Rafael

Princípios dos anos 80 numa Escola Secundária em Lisboa. O 8º D tem fama de turma terrível. Alguns repetentes parecem indomáveis, e alguém decidiu que vão ficar juntos. Um dos poucos professores do sexo masculino na turma é o setor de Matemática. Tem os cabelos no ar e cara de Einstein grosseiro. Quando se põe a escrevinhar no quadro, e ouve conversas, é de poucos avisos. Começa a resmungar vitupérios imperceptíveis e dispara pedaços de giz na direcção do ruido. Uma vez, enervou-se tanto que chegou a atirar o apagador à cabeça do José João, que nunca se cala, mas falhou. Noutro dia, mandou para o chão tudo o que estava em cima da sua mesa, incluindo o livro dos sumários, num grande gesto dramático. Teve o seu efeito, mesmo se improvável vir a saber qual. Vejo o setor de Matemática algumas vezes, no fim-de-semana, todo composto a ir comprar o jornal ou a tomar café, e gosto muito de lhe dizer boa-tarde. Mas não é sobre ele a história, é sobre a professora de Português. Acho que deve ser bonita, mas é tão mais velha do que eu que nem penso nisso. Acontece que nas suas aulas há grande animação. O José João, sempre o mais maluco, tira pintelhos e esfrega-os na boca do choninhas da frente. O Álvaro manda papéis de um lado para o outro da sala, e respondem-lhe. O Manel não pára de rir, não sei com quê. Outros sopram nas esferográficas sem carga, o que faz uns sons marados. De cada vez que a setora vira as costas no quadro, o barulho de fundo, constante, transforma-se em alarido, balbúrdia. A tribo sabe que tem a presa encurralada, por isso avança para o esquartejamento. Numa certa aula, as lutas de papéis ganham tal furor bélico que os rapazes deitam carteiras pelo chão a servir de barricadas. A setora sai da sala a chorar e não volta mais, nunca mais. Meses passados, vem outra, a qual nos fala com grande calma e simpatia. Mas, no seguimento da batalha, um grupo de valentes guerreiros é chamado ao Conselho Directivo. Eu sou um deles, não sei porquê, talvez por ser repetente. Vamos enfrentar o professor Vítor, o presidente, de quem se diz ser o animal mais feroz da escola. A pequena e atafulhada saleta de um barracão pré-fabricado vai-se enchendo com o bando dos 4, calhando ser o último a entrar. Ainda não tenho os dois pés dentro quando a porta é empurrada com pujança viril pelo iracundo e barbudo Vítor. Umas amostras da minha epiderme, zona do ombro, são agora posse de um pedaço de madeira da escola. Está dado o mote, segue-se meia-hora de ameaças, antevisão de expulsões e calamidades familiares, entremeadas pela repetição da frase que não esquecerei, Porque eu não tenho medo de ninguém, de ninguém!, locução expelida com estrondo superior ao que a porta fez ao encontrar a parede. Uma coisa fica rapidamente esclarecida: o professor Vítor não tem medo de muita gente, e nesse conjunto de números complexos incluí-se, inequivocamente, o grupo de 4 rapazes do 8º ano de escolaridade à sua frente. Isso pode ser atestado pelo tom de voz estridente, rosto crispado, postura corporal agitada e os regulares avanços na nossa direcção só para ficar olhos nos olhos, calado, esperando alguma coisa que não chega a nomear. Dizemos que sim, e que também, e pois. Fazemos protocolares promessas de eterno retorno ao comportamento ordeiro. Quando o super-homem acaba o responso, o qual tinha ido bem para além do mal, descobrimos que Deus pode estar morto mas nós, e até ver, não fomos destruídos. Estamos é mais fortes, e mais fortes ficamos de cada vez que contamos aos outros o confronto com o profe Vítor, só para exibir orgulhosas cicatrizes e medalhas. É assim, 13 e 14 anos e já dominamos o essencial da filosofia nietzshiana; quem disse que não se aprende nada na escola? Mas quando voltarmos das férias grandes é que vai ser bom: droga, violência e prostituição, cardápio para um 9º ano inesquecível e romântico.

Continuar a lerApologia de Patrícia e Rafael

quando a escola nos dá lições

O dia das meninas já tinha acontecido. As crianças agruparam-se de acordo com as amizades e o interesse pelos temas, e ninguém as obrigou ao conceito unissexo. Havia, então, grupos de meninas e grupos de meninos.
Nas cadeiras, dispostas em C ao fundo da sala, acomodaram-se os pais, e os meninos no chão, ao meio. Um painel de pequenos professores ordenou-se em frente do quadro. O primeiro contou que iam apresentar os seus projectos. À vez, foram avançando na explicação da metodologia, mostrando páginas A4 com campos detalhados onde iam organizando os objectivos, a informação obtida, os critérios a considerar, as apreciações sucessivas e faseadas, as dificuldades e soluções encontradas.
Depois, cada grupo apresentou o seu tema, iniciando-se sempre o título, pelos autores, num coro impecável. Cada grupo tinha um cartaz, com colagens de imagem e texto. Explicaram-nos diferentes funções do corpo humano. O aparelho digestivo foi complementado com uma representação “transparente” do tronco. Sobre esta iam colando fichas rectangulares, com massa adesiva, primeiro com a legenda das partes e, retiradas estas, com os nomes das várias triturações que vão acontecendo desde a comida às fezes. O aparelho respiratório foi ilustrado com uma experiência, utilizando alguidares e garrafas de litro e meio, cheios de água, e palhinhas. As mães participantes revelaram excelente capacidade respiratória. O sistema sanguíneo e o excretório foram outros projectos.
Continuar a lerquando a escola nos dá lições