Apologia de Patrícia e Rafael

Princípios dos anos 80 numa Escola Secundária em Lisboa. O 8º D tem fama de turma terrível. Alguns repetentes parecem indomáveis, e alguém decidiu que vão ficar juntos. Um dos poucos professores do sexo masculino na turma é o setor de Matemática. Tem os cabelos no ar e cara de Einstein grosseiro. Quando se põe a escrevinhar no quadro, e ouve conversas, é de poucos avisos. Começa a resmungar vitupérios imperceptíveis e dispara pedaços de giz na direcção do ruido. Uma vez, enervou-se tanto que chegou a atirar o apagador à cabeça do José João, que nunca se cala, mas falhou. Noutro dia, mandou para o chão tudo o que estava em cima da sua mesa, incluindo o livro dos sumários, num grande gesto dramático. Teve o seu efeito, mesmo se improvável vir a saber qual. Vejo o setor de Matemática algumas vezes, no fim-de-semana, todo composto a ir comprar o jornal ou a tomar café, e gosto muito de lhe dizer boa-tarde. Mas não é sobre ele a história, é sobre a professora de Português. Acho que deve ser bonita, mas é tão mais velha do que eu que nem penso nisso. Acontece que nas suas aulas há grande animação. O José João, sempre o mais maluco, tira pintelhos e esfrega-os na boca do choninhas da frente. O Álvaro manda papéis de um lado para o outro da sala, e respondem-lhe. O Manel não pára de rir, não sei com quê. Outros sopram nas esferográficas sem carga, o que faz uns sons marados. De cada vez que a setora vira as costas no quadro, o barulho de fundo, constante, transforma-se em alarido, balbúrdia. A tribo sabe que tem a presa encurralada, por isso avança para o esquartejamento. Numa certa aula, as lutas de papéis ganham tal furor bélico que os rapazes deitam carteiras pelo chão a servir de barricadas. A setora sai da sala a chorar e não volta mais, nunca mais. Meses passados, vem outra, a qual nos fala com grande calma e simpatia. Mas, no seguimento da batalha, um grupo de valentes guerreiros é chamado ao Conselho Directivo. Eu sou um deles, não sei porquê, talvez por ser repetente. Vamos enfrentar o professor Vítor, o presidente, de quem se diz ser o animal mais feroz da escola. A pequena e atafulhada saleta de um barracão pré-fabricado vai-se enchendo com o bando dos 4, calhando ser o último a entrar. Ainda não tenho os dois pés dentro quando a porta é empurrada com pujança viril pelo iracundo e barbudo Vítor. Umas amostras da minha epiderme, zona do ombro, são agora posse de um pedaço de madeira da escola. Está dado o mote, segue-se meia-hora de ameaças, antevisão de expulsões e calamidades familiares, entremeadas pela repetição da frase que não esquecerei, Porque eu não tenho medo de ninguém, de ninguém!, locução expelida com estrondo superior ao que a porta fez ao encontrar a parede. Uma coisa fica rapidamente esclarecida: o professor Vítor não tem medo de muita gente, e nesse conjunto de números complexos incluí-se, inequivocamente, o grupo de 4 rapazes do 8º ano de escolaridade à sua frente. Isso pode ser atestado pelo tom de voz estridente, rosto crispado, postura corporal agitada e os regulares avanços na nossa direcção só para ficar olhos nos olhos, calado, esperando alguma coisa que não chega a nomear. Dizemos que sim, e que também, e pois. Fazemos protocolares promessas de eterno retorno ao comportamento ordeiro. Quando o super-homem acaba o responso, o qual tinha ido bem para além do mal, descobrimos que Deus pode estar morto mas nós, e até ver, não fomos destruídos. Estamos é mais fortes, e mais fortes ficamos de cada vez que contamos aos outros o confronto com o profe Vítor, só para exibir orgulhosas cicatrizes e medalhas. É assim, 13 e 14 anos e já dominamos o essencial da filosofia nietzshiana; quem disse que não se aprende nada na escola? Mas quando voltarmos das férias grandes é que vai ser bom: droga, violência e prostituição, cardápio para um 9º ano inesquecível e romântico.


O que relato acima é uma banalidade, seráfica banalidade. Era fácil reunir milhões de histórias iguais e muito piores ou, de facto, gravemente piores. Bastava que cada um contasse uma ou duas das suas, e alguns têm dezenas. Já na Escola Preparatória — lembro: frequentada por crianças entre os 10 e os 12 anos — as temáticas de sexo, droga e violência faziam parte do meu quotidiano, da iniciação social. Quando chego ao Secundário, no lisboeta Padre António Vieira está bem viva a memória e mitologia dos irmãos Baltazar; os quais, final dos anos 70, dominaram de tal modo o estabelecimento que até de motorizada se passeavam nos corredores, para lá das cenas de pancadaria regulares e outras formas bandidas de oprimir alunos, funcionários e professores. Esses manos eram apenas uns caciques entre tantos, de uma época entre tantas. Essa escola, PAV, estava cercada por bairros de barracas, os roubos eram diários. Um jogo de futebol no campo ao ar livre podia a qualquer altura ser interrompido por chuva de calhaus e perseguições selvagens. Não havia qualquer forma de garantir a segurança e cada um aprendia a safar-se ou vivia aterrorizado. À porta da escola avistavam-se os ladrões, esperava-se que desaparecessem como se espera que a chuva passe, mas em choradinho. Nesse tempo, para os atrevidos ou que o queriam parecer, era da praxe ir roubar para os supermercados, mercearias, cafés. Quem não roubasse era maricas, seria expulso do grupo e perseguido, humilhado. Grupelhos ligados à extrema-direita nazificada recrutavam alimárias para escaramuças entre liceus. Tomava-se contacto com facas, soqueiras, correntes, barras de ferro, propaganda irracional. Havia droga em todo o lado, variada, dada. Ninguém sabia ao que andava nem ao que ia, mas o movimento era constante.

Dizer-se que estamos pior do que no passado quanto à disciplina nas escolas e nas aulas, seja qual for a referência temporal preferida, não é apenas uma imbecil mentira, é também um acto de má-fé. Tudo à nossa volta está mais seguro e controlado, desde a qualidade das polícias à iluminação das ruas, da diminuição da pobreza ao aumento da informação, dos meios de transporte colectivos e aparelhos de comunicação pessoais. O que se poderia dizer, mesmo ficando pelo domínio da opinião, é que estamos indubitavelmente mais disciplinados, talvez até amorfos e passivos quando comparados com gerações anteriores. E constate-se a ambivalência hipócrita de tantos: cada ex-estudante, seja qual for a sua idade e grau de escolaridade, está com ganas de provar que a sua foi a mocidade mais estouvada, que o tempo esteve preenchido com homéricos desafios às autoridades: pais, professores, instituições, cidadãos e polícias, regras, leis, moral, racionalidade e destino. Os relatos nascem úberes de encantadora nostalgia, descrevendo actos de violência, destruição e crimes de variada tipologia, todos envoltos em efusiva memória festiva — os bons velhos anos em que tudo parecia possível e estava ainda por inventar. Ou, nas mais discretas rememorações das senhoras, uma torrente de aventuras apaixonadas, arriscadas, loucas. A esta distância, e para os próprios, são a prova de que viveram e se cumpriram, que também eles, algures, foram divinamente livres.

Quem pode achar graça a uma juventude autodisciplinada e dominada, adulterada, que nunca transgrida? Só os velhos decadentes e fracos, que se revoltam contra a própria impotência e querem anular a fúria juvenil com o seu ressentimento decrépito. E que haja velhos decadentes e fracos com 30 anos, mesmo com 20, é que mete medo ao susto.

40 thoughts on “Apologia de Patrícia e Rafael”

  1. bem observado, esse final. não sei como foi no tempo dos meus pais, porque eles insistem que antigamente não era assim, como os professores contam que é agora.
    haver repetentes era uma mais-valia, até para as aprendizagens dos mais novos. lembro-me da minha melhor amiga do segundo semestre do 2º preparatório, que estava como externa do reformatório anexo e tinha 16 anos. explicava-me a técnica do gamanço e mostrava-me revistas pornográficas (em BD, nada de muito explícito) que tirava de debaixo do colchão do pai. também foi ela quem me ensinou que podia dar estalos aos rapazes que andavam no apalpanço, que eles não retaliariam.
    eu sempre fui muito certinha, mas nas minhas turmas do secundário as zarabatanas de bics com bolinhas de papel eram a normalidade, ou as rasteiras a quem passava nas coxias (mais dissimuladas se fossem professores). droga sempre houve. acompanho o meu filho e vejo que, por exemplo, já não têm as mesas de trabalho completamente cobertas de inscrições amorosas ou insultuosas. o que há é casos pontuais de indisciplina grave em relação aos quais os professores já não dispõem dos meios de antigamente. não foram os adolescentes que mudaram para pior, desapareceram algumas regras. a estupidez de os impedirem de chumbar também acrescenta um mal-estar. se um aluno não aprendeu a matéria no ano anterior, é lógico que irá estar ainda mais desfasado e desatento, por conseguinte mais propenso ao disparate.
    ainda há tempos li por aí um texto de que gostei, fazia a apologia dos furos (contra as aulas de substituição) e do baldanço, das saídas da escola escondidas dos pais, etc. era de uma mulher das que leio, mas já não me lembro qual…

  2. tenho 39 anos.
    Em boa verdade passei boa parte dos meus anos de estudante em escolas privadas. Mas depois entrei para a António Arroio, acabadinha de passar de Escola de Artes a “Liceu”. (A A. Arroio, em Lisboa, era o liceu que só tinha uma área a partir do 9º ano. Depois ou se ia para Belas Artes ou Arquitectura)
    Uma das minhas antigas Directoras (eram cinco, num dos externatos) olhou horrorizada para a minha mãe quando esta lhe comunicou que eu ia para a A. Arroio (ainda hoje se usa o feminino, de Escola de Artes) e tentou fazê-la mudar de ideias – pois se ia perder uma “cliente” – dizendo que aquilo era escola de gente maluca.
    Sem dúvida que notei diferenças. O ensino era pior nas matérias que não eram fulcrais.
    Na António Arroio existiam desde os “punks” aos chamados “surfistas”. Havia droga pois então. A desinformação era enorme. Fumava-se à vontade o vulgar tabaco, no átrio, que os artistas não são para contrariar e a campainha soava tão baixa, para não perturbar as almas criadoras, que muitas vezes não se ouvia.
    Foi uma época de algumas greves e “manifs”. E comparar uma manifestação – onde supostamente os jovens poderiam ser verdadeiramente terríveis – ao que tenho visto em determinados vídeos filmados dentro de salas de aula, seria caricato, pois parecíamos cordeirinhos ao pé das educadas “criancinhas” que tenho visto nesses vídeos.
    Ou eu estudei noutro planeta, ou tive muita sorte.
    Que a educação precisa de reforma é uma realidade há muito dita e redita. Pois se nem sobre as aulas de educação sexual há consenso…
    Mas que algo na vida actual anda a impedir os PAIS de também participarem na educação dos seus filhos é uma realidade. Que muitos professores se deixam andar é outra realidade.
    Que quem paga o pato são as gerações vindouras é mais uma realidade.
    Agora por favor. Não me venham com telemóveis/diário e coisas igualmente absurdas. Não misturem.
    Má educação é má educação. Quer a dada através de livros cada vez mais caros, quer a dada por professores desinteressados ou pais que só agora andam a ver como os filhos se portam, no YouTube.
    Cada macaco no seu galho. E porque é que agora os macacos escolhem ramos que se partem tão facilmente, talvez seja o que importa saber.

  3. ehehe, fomos colegas, numa perspectiva diacrónica. Quando lá andaste ainda lá estava o Floriano de Carvalho? E o ‘barco à vela’?

  4. Fabuloso texto. Excelente reflexão. Era assim de fato quando andáms na escola. E também acho que i final está de acordo com a qualidade do texto. Vim cá parar através do Olivesaria já que aqui falaste de alguns personagens do bairro dos Olivais.Há muito que não encontava uma reflexão tão bem esgalhada na blogosfera!

  5. Tive a minha fase de formação, enquanto adolescente, em São Paulo. Não querendo fazer do ridículo, que passarei a expor, uma bandeira (que me envergonho), mas indo ao encontro no que concerne à violência:

    Fui um desses alunos insubordinados e irreverentes. Recordo-me, já depois de ter sido expulso do Caetano de Campos, de ter ouvido uma professora dizer: “Em 28 anos de magistério nunca encontrei um aluno assim”. Estava, então, no Fidelino de Figueiredo, onde após lançar uma cadeira contra o peito de uma professora, ter ficado impossibilitado de estudar em colégios do Estado. A partir dali, só em privados.

    Também fiz parte de gangs, e no colégio Marina Cintra, onde se centrava grande parte do gang do “Branca de neve”, um negão portador de hostilidade considerável e com alguns homicídios no currículo, penduravam-se professores de pernas para o ar nas janelas do 2º e 3º pisos do edifício.

    Aqui chegado, em 1982, ingressei na escola Avelar Brothero, em Coimbra, não foram precisos mais de 2 meses, para ser convidado a sair – e após conversações, disseram que ali só poderia estudar à noite – não poderia permanecer com os alunos diurnos.

    Creio que este tipo de violência atenuou, pelo menos tive oportunidade de viver com 3 professoras até ao momento, e constatei que a perda de autoridade é uma realidade. A falta de respeito e o desleixo é gritante. As razões, essas, serão sempre distintas e complexas – do porquê que alguns alunos têm este e outros tipos de comportamento. Isto pode parecer absurdo vindo da “boca” de um ex-aluno como eu – diria que deixamos o patamar da violência física e passamos à psicológica. É com naturalidade que vejo tal classe reivindicar por mais autoridade, mais respeito, etc.

  6. Testemunho sério, parabéns! É incrível como as pessoas se esquecem do que fizeram, do que é ser adolescente. Houve a cena do video – a professora não soube lidar com a situação – e o disparate desatou! Perdeu-se o sentido do ridículo, ficou tudo insano! Por isso, obrigada por este banho de realidade.

  7. “z”, parece-me que nós é que se calhar fomos colegas, mesmo numa perspectiva sincrónica…

    “À canos” que não me passava pela mente a recordação do “Barco à Vela”! E nem sequer foi meu professor… Quanto a esse tal Floriano, já não me recordo. Só se fosse o S’tor de Português, cujo único nome que resta na minha memória era o que nós (ou outros antes) lhe atribuíramos: o Pívias. Contudo, nunca mais esqueci a prótese, a epêntese, a paragoge, a aférese, a síncope, a apócope e todos os demais fenómenos que tipificam a evolução do Latim para a Língua Portuguesa, que ele nos ensinou…

    Recordo ainda o de Francês, que também atirava com o giz, ou o apagador, na direcção de qualquer (ainda que reduzidíssimo) ruído e se chamava Norberto (de bigode), a “vaca” Rosália (a minha primeira, e excelentíssima, aliás, S’tora de Inglês), a Periquita (de Ciências), elegante e boazona, mas com uma vozinha agudíssima que nos fazia rir (e com quem gozávamos à fartazana, dada a sua total indiferença face à nossa indisciplina – chegávamos a mudar e de novo a recompor, subrepticiamente, toda a organização física da sala de aula nos breves momentos em que ela escrevia no quadro), da querida Professora Lígia, de Geografia, que nos acompanhava a pé na perigosa travessia da mata dos índios até ao Relógio (e que me acompanhou também, e aos restantes alunos dos Olivais, no ano seguinte para a inauguração do moderno Liceu D. Dinis) e, claro, do nosso exemplar S’tor de Matemática, exemplo de Professor possante e fisicamente amedrontador, mas apesar disso sensato, muito competente e até assaz cordato connosco. Só o nome não ficou…

    Alunos, lembro-me do (actual) Dr. Estêvão Pape, o mais mediático, que foi da minha Turma, mas também de dois gémeos, dos simpáticos irmãos Costa e Silva, um dos quais da minha turma, outro famosa “estrela” fugidia de um reclame televisivo da altura (em que ele aparecia a praticar basquetebol) e, recentemente, vim a saber que fui contemporâneo dos mais velhos e ultra-conhecidos hoje Santana Lopes e Francisco Louçã!

    Foi apenas um ano no L. P. A. V., mas foi talvez o de melhores memórias de toda a minha vida de estudante… Claro que a isto não será alheio o facto de, nesse ano, eu ter aquela mágica idade dos doze anos (“que saudade ingrata”…). E sei que, após o 25 de Abril, o Liceu se “abandalhou” ao ponto a que se conta neste Artigo. Excelente e lúcido, aliás.

  8. O Dr. Estevão Pape é um grande médico e um grande caçador. Meu diabetologista, descobri que era diabético quando o entrevistei para uma reportagem sobre os diabéticos no Ribatejo. Por mero acaso…

  9. O meu liceu foi o Camões. Tinha peças para todos os gostos, dos alunos aos profes, passando pelos auxiliares. Todos ou quase todos fizeram história. Ainda sou do tempo do Totas, Sérvulo Correia, o Reitor. Apanhei a filha como professora e todo o liceu a ‘apanhou’ como presidente do conselho directivo, anos depois. Havia o pátio dos rapazes e o pátio das raparigas. Os grandes momentos eram as aulas prácticas de Físico-Química, (tive o Salvador do Carmo, outra figura do liceu, ele e a mulher) porque os laboratórios ficavam no pátio do sexo oposto. O mesmo com os ensaios do coral, a primeira iniciativa mista.
    Eu pertencia a um grupo de certa forma privilegiado: fazia parte da Rádio do Liceu, um universo à parte no Camões. Também misto, muito misto, mesmo. Tive Vergílio Ferreira, Mário Dionísio, Ondina de Vasconcelos, sei lá ..

    Anyway, antes que me perca para aqui nos sonhos molhados da minha adolescência, digo o que me recordou este texto do valupi.
    Lembrou-me duas figuras incríveis do Liceu Camões, um professor e um aluno. O profesor chamava-se António Ornellas e usava um bigode à Dali que, ao pé dele, era um prodígio de contenção. Era conhecido por setor Tótó Ornelas e tinha uma mania irritante: atirava com o ponteiro por dá cá aquela palha. E atirava para fazder jus à sua fama de maluco, ou seja, acertava onde acertasse, que se lixe, dizia (e fazia) o Tótó Ornelas. E lá voava o ponteiro, que por várias vezes aleijou a sério este ou aquele que levava com ele na cabeça, na cara, onde calhasse.

    Tinha o nosso Tótó uma vítima de eleição, um rapaz alto, sempre muito bem vestido, à homem, blazer, calça engomada, sempre no prumo. Destacava-se po r todas as razões: o vestir, já o disse, era músico de uma bandinha de liceu (chamada Katharzis, não me esqueci), tocava teclas. E, sobretudo, destacava-se pelo seu cabelo loiro e longo, quase até à cintura, muito escorrido e impecavelmente penteado, que ondulava no seu andar característico, muito direito, costas para trás, marcial. Somos amigos, algo distantes, é certo, mas amigos, até hoje. O país veio a conhecê-lo como Zézé Beleza, coisa que nunca lhe ouvi chamar nos anos em que crescemos a par.

    Pois o Tótó Ornelas embirrava especialmente com o Beleza, como era chamado. O seu divertimento preferido, nos dias de passanço (inúmeros, mais que os outros) era virar-se de repente e atirar o ponteiro na direcção do Zé Beleza. Grande alarido, tudo em pé, o Zé muito enfiado, e o bom do Tótó atirava a de sempre, em voz alta, de falsete, a fechar a brincadeira: «Ó Beleza, pá, diz lá: tu és paneleiro, pá?Com esse cabelo, pá, és paneleiro, pá?» E ria, ria muito, ria e tossia, tossia e ria. Nós, a turma, achávamos o máximo aquele setor que até dizia ‘paneleiro’ e era um ganda maluco. Até o Zé Beleza gostava do Tótó.

    Liceu Camões, 74/75/76/

  10. Sobre como a tempo modifica e de como é dificil de lidar com a referencia temporal

    No livro da Doris Lessing, The Golden Notebook, a personagem que escreve os varios diarios a certa altura escreve referindo-se ao modo como escreveu sobre os acontecimentos no diario preto onde escreve coisas sobre o escrever (que complicada ficou esta frase…):

    “Looking back at those week-ends they seem beads on a string, two big glittering ones to start with, then a succession of small unimportant ones, then another brilliant one to end. But that is just the lazy memory, because as soon as I start to think about the last week-end, I realize that there must have been incidents during the intervening week-ends that led up to it. But I can’t remember, it’s all gone. And I get exasperated, trying to remember – it’s like wrestling with an obstinate other-self who insists on its own kind of privacy. Yet it is all there in the brain if only I could get at it. I am appalled at how much I didn’t notice. living inside the subjective highly-coloured mist. How do I know that what I ‘remember’ was what was important? What I remember was chosen by Anna, of twenty years ago. I don’t know what this Anna of now would choose.” (137)

  11. Mais uma recordação dos anos 80… boa Valupi!

    Acho que ainda vais a tempo de vestires uma toga. A sério.

  12. susana, é impossível encontrar um denominador comum para cada época, tantas as diferenças sociais, culturais, regionais, locais, pessoais, e outros ais. Por isso, também os teus pais (cá está) têm razão, claro.
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    Raquel Vasconcelos, os pais nunca participaram na educação dos filhos. Ou, se calhar, nunca participaram tanto como agora…
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    z, só andei no Padre 2 anos, e não guardo esses nomes. Aliás, não guardo nomes de quase nenhum professor.
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    JPN, e eu cheguei trabalhar com um dos irmãos Baltazar, o Tiago. Um bacano do melhor, e que nada teve a ver com as cegadas, por ser o mais novo.
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    Elypse, a tua experiência é valiosa.
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    Joana Alves, não posso concordar mais: perdeu-se o sentido do ridículo.
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    A. Castanho, invejo a tua memória.
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    rvn, esse Totó Ornelas seria um dos maiores sucessos do YouTube. Tens muito, e bom, para contar, aposto, desse tempo magnífico.
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    dina, a citação termina com aquilo que vou chamar de “falsidade”, só para te provocar. Pois, e certamente, a Anna do presente sabe o que escolheria no passado…
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    sininho, vestir uma toga? A que propósito vem isso? Não quererias antes dizer “apanhar uma tosga”?

  13. hehehe, e agora que voltei aqui até parece que estou a referir os meus pais como velhos decadentes e fracos, quando os vejo justamente ao contrário, cada vez melhores. não falava do ultimissimo parágrafo, mas das considerações finais sobre o que é, e sempre foi, ser-se adolescente, irreverente, inconformado e desobediente. penso que naquele tempo as raparigas de modo geral sofriam uma passagem abrupta de crianças para mulheres. e os rapazes, como umas poucas raparigas mais livres, tinham outras lutas e outros contextos que não os da escola. outras possibilidades, também. o meu pai, por exemplo, recusou-se a frequentar a mocidade portuguesa, no tempo de liceu. só isso era já um desafio que dispensaria as vulgares desobediências para fazer frente.

  14. Volupi, se falarmos em género, o homem passou a participar mais na educação dos filhos. Mas eu diria que passou a estar mais com os filhos… não a educar mais.
    Mas sei que não era isso que dizias.
    Permite que discorde. Eu sou da geração que decidiu que fora muito resguardada, e que dá agora uma enorme liberdade às suas crianças. uma geração cercada de teorias vindas da psicologia – alguma correcta – e que não sabe como as encaixar na educação dos seus filhos.
    Mas isto dá pano para mangas… e é daqueles debates em que não há consenso.

  15. V,

    NÃo. NÃo É UMA FALSIDADE.

    O que a Anna sente é que quando olha para o passado falta-lhe o estar presente no passado. Por isso falta-lhe aquilo que faz com que no ‘agora’ se preste atenção aquilo e não a outra coisa. E talvez pior, como não é possivel recuperar esse sentir do passado também não é possivel recordar aquilo que não foi ‘marcado’ para mais tarde recordar. Por isso ela luta contra si propria, certa de que existem outras coisas na memória a que ela não tem acesso.

    Isto porque ela sabe (embora não o diga explicitamente) que às vezes as memórias assaltam-nos sem querer. Como se tivessem uma lógica própria. Por isso ela se refere a um tipo de privacidade.

    Mas o que é mais interessante é quando ela escreve que “I am appalled at how much I didn’t notice”. Porque ela só o pode dizer porque agora repara no que antes não reparara. Talvez isso sugira falsidade… mas na verdade o que acontece é que não lembramos o tempo passado a sós, há sempre novos acontecimentos que nos lançam para o passado, pessoas com memórias diferentes das nossas que nos relembram que o passado tinha outras coisas que nós não nos relembravamos… Não há falsidade apenas tomada de consciência do ‘highly-coloured mist’.

    A pergunta que me ocorre é o valor do tempo que passou. A Anna fala em acontecimentos que se passaram há vinte anos atrás (mas nos quais ela já era uma quase adulta … okay isto não aparece na citação)… mas será que a passagem do tempo é suficiente? Ou seja que podemos confiar que a passagem do tempo faz acontecerem coisas que necessariamente levam à possibilidade da consciência?

    SIm. SIm, claro que a Anna sabe e saber a dizer-se uma falsidade doi.

    A Anna está em pânico, porque agora que saber isso todos os acontecimentos devem estar moldados por saber. E agora já não pode mais dizer “If only I knew that”. É um retorno a situações semelhantes do passado mas com o passado no corpo, não é bem a pesar mas a fazer-se notar.

    É de tal maneira dificil que a única coisa que consegue fazer é ler e escrever os seus quatro diarios na esperança de que um último quinto diário a consiga salvar (o diário dourado) Para falar melhor disto tenho que acabar o livro… e como é grande vai demorar um bocado.

    Por isso invento o que a personagem vai ver…

    Mas o pânico aparece também com uma estranha sensação de calma, de que não há pressa de tomar decisões e que há espaço para ler e escrever nos diarios e que chegará a altura de escrever outras coisas porque, como Doris Lessing diz num outro sitio, “I once said in my autobiography that living is like going up a mountain: every time you go a little higher up, the view looks completely different.”

  16. susana, é isso: diferentes contextos, os mesmos desafios.
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    Raquel Vasconcelos, essa geração é a dos nossos pais. Eles é que são os “heróis” das revoluções de 60, o que os levou para uma crise de identidade na hora de serem pais, abdicando da “educação” por disfunção ideológica. Quem tem filhos agora, vive apavorado. É consequência de uma maior urbanização e circulação de pessoas e informação. Ainda não se estabeleceu um conjunto de procedimentos generalizados para lidar com este aumento de complexidade, mas não faltam sugestões.

    Gostava de saber o que entendes por “educação”. E deixo-te um reparo: a liberdade, se o for, é sempre “enorme”.
    __

    dina, a falsidade é essa mesma de se considerar que se pode “olhar para o passado” e não se estar “presente no passado”. É óbvio o nível em que o discurso se coloca, o de um psicologismo vulgar, mas eu estou a provocar-te para um novo olhar sobre essse mesmo olhar que detecta uma ausência. Repara: o presente também é um olhar…

  17. Volupi,
    Temos pais diferentes.
    Mesmo a geração que actualmente tem cerca de 32/33 anos se questiona sobre como anda esta “malta”. Ainda ontem falava com uma professora de faculdade de 32 anos (com nove anos de dar aulas em cima) que dizia: nós sabíamos ter respeito.
    E sobre a miudagem mais jovem, com uma amiga que esteve mais de uma década na área da ocupação dos tempos livres (conhecida por ATL) também o assunto vinha muitas vezes à baila.
    Ou são círculos de pessoas diferentes.
    Claro que mesmo dentro dos meus amigos existe uma ou outra excepção. Daqueles que eram mais rebeldes. Curiosamente grandes pais hoje em dia. Talvez porque as bases da “tal educação” lá estivessem.
    Educação começa no “muito obrigada” e antes disso passa por não ver garotos deitados no chão do centro comerciais, os pais entre o alheado e o não terem mão neles… Passa pela noção de respeito.
    Não concordo quanto à questão de a liberdade ser sempre “enorme”. Em especial a partir do momento em que são impostos limites.
    E a pré-adolescentes e adolescentes existe a necessidade de colocar limites muito definidos.
    Até aos adultos, se virmos bem, eles são colocados… ou não existiria uma imensidão de sinalefas que nos dão indicações sobre como nos comportarmos numa estrada, num restaurante, num hospital… etc.

  18. V,

    Deve haver algo que me está a falhar… releio o que escreves várias vezes… a minha primeira reacção foi: “Sim, Claro” … mas fico a pensar que se me provocas para um novo olhar o “claro” pode ser sinal de que eu talvez não o esteja a ver…

    Podes explicar melhor o “novo olhar”?

  19. Raquel, tens grafado “Volupi”, o que trás sugestões interessantes, mas falha a vogal. Quanto ao que entendes por educação, não me satisfaz. Se a educação se limita a ser um qualquer conjunto de limitações, de obrigações, de regras, será um falhanço. Porque não passa da lei do mais forte, do poder da imposição. Dito isto, é óbvio que uma criança tem de ser dominada em certas dimensões e situações, mas isso não passa de um aspecto de um processo muito mais vasto e profundo.

    A educação consiste na capacidade de criar seres humanos autónomos, que pensem por si, que aprendam pela vida fora. Por isso, os valores fundantes e fundamentais da educação são a confiança e a liberdade (ou seja, a educação é o amor…). Uma criança tem de errar muito se o propósito for o de lhe dar a melhor educação possível. Assim, a criança tem de confiar muito para muito poder descobrir. É isso a liberdade, o poder de descobrir.

    Parece-me que estás a ser egoísta.
    __

    dina, provoco-te para que atentes na retórica, na técnica literária. A passagem que trouxeste é um exemplo de manipulação criativa, não um testemunho ou uma reflexão. Nesse sentido, chamo-a de “falsa”, mas não estou a julgá-la moralmente.

  20. val,
    para mim ficou claro, fez-se luz na escuridão que existia onde deveria morar um comentário ao teu post mais recente, o do blogodrama, sabes? Pois eis que chega pela Raquel a pista para a explicação de muito do que vai acontecendo contigo, ao redor da tua escrita, por ela e por ti em função dela. Cá vai: Há uma insustentável valúpia no teu ser, caro amigo, que te inspira a valuptuosidade que todos lemos. Essa valúpia é o teu sal e a tua tentação instintiva, natural. E, mesmo que para alguns possa ser insustentável, essa valúpia do teu ser agrada-me, na maioria das vezes. Digo-te isto com leveza, deves interiorizá-lo com leveza igual e só me mandar à merda depois, no fim.
    Pronto, tá dito. Um brigadinho à Raquel.

  21. VAlupi (que grande gargalhada dei agora! Realmente decidi “ler” o teu nome daquela forma… coisas do subconsciente…)

    “Dito isto, é óbvio que uma criança tem de ser dominada em certas dimensões e situações, mas isso não passa de um aspecto de um processo muito mais vasto e profundo.”
    Ou antes, a conversa é que seria “muito mais vasta e profunda” pois nem me passou pela cabeça que explicaria a temática da educação em apenas um ou dois parágrafos.

    O que dizes: “A educação consiste na capacidade de criar seres humanos autónomos, (…) Assim, a criança tem de confiar muito para muito poder descobrir. É isso a liberdade, o poder de descobrir.” está correcto. Mas parece-me (de leituras anteriores de posts teus) que criaste um limbo, onde a criança pode errar o que lhe apetecer para aprender.

    Estarei a ser egoísta? Temos que aprender a sê-lo. Mas não me parece que se aplique a nada do que disse.

  22. O meu “claro” ficou mais claro.

    A tua provocação tem pelo menos dois caminhos

    1) Retorno ao motivo porque o post me lembro o que esta personagem diz:

    Sempre me irritou muito a noção “no meu tempo”. Quando não era o meu tempo calava-me com o meu mau feitio. Mas agora vejo pessoas ao meu lado falar do “no nosso tempo não era assim”. A verdade é que eu não tenho nem memória de que era nem de que não era… porque me lembro de outras coisas… porque o “nosso tempo” não é tão “nosso”…

    mas por outro lado, há aquilo que gosto de chamar “ver a razoabilidade nos outros”. Penso: se se lembram assim dos tempos antigos com essa luz… talvez estejam a ver qualquer coisa que eu não estou… Não são invadidos pelas duvidas dos psicologismos vulgares que aparecem ilustrados em alguma literatura.

    Mas esse desencontro de olhar do passado não é só fruto desse desencontro de memória mas também porque é dificil manter coerencia com o passar do tempo (e assim que escrever coerencia começo a hesitar… o que quero talvez dizer é continuidade…). Por isso me lembrei da passagem. Achei que de algum modo o intenso drama que aquele pequenino bocado da personagem mostra um pouco isto que confusamente aqui escrevi.

    2) [gosto mais deste caminho] o valor de verdade da ficção.

    Sim, a ficção (bem um bocadinho de ficção) não é a mesma coisa do que o “testemunho” ou “reflexão” e nessa perspectiva é falso mas… não aponta também direcções? Não sugere ideas? Não é também uma metáfora de testemunho (de quem cita ou de quem escreve)?

    Gosto deste tema… que é outro tema do do post… de que modo é que a ficção carrega ou traz verdade? … Deve de algum modo ser testemunho, pois quando não é dizemos que há falsidade nas palavras… mas nunca percebi como é que se vê isso…

  23. Rui, vou atribuir à tua indómita criatividade a sugestão de te mandar à merda, pois se apenas me valer dos meus limitados recursos nunca tal me ocorreria. Contudo, aproveito a tua presença e interrogo: de que escuridão falas?
    __

    Raquel, para mim, o conceito de egoísmo aplica-se à temática dos limites, aquela que explanaste. É egoísmo por só dar conta de um dos lados da questão, o que inibe. Mas tens toda a razão, sim, claro, não temos parágrafos que cheguem para explicar estas coisas, aqui – ou agora.

    Mais dois acertos: temos de aprender a ser egoístas, como disseste; a criança pode errar o que lhe apeteça, como dizes que disse – mas com esta ressalva: errar não no sentido em que se aplauda o 5 como resultado de 2 + 2, mas errar no sentido em que se encoraja a criança a sair do caminho e a não se assustar se estiver perdida.

    Falamos de crianças? Então, falamos de adultos. Os mais carentes de educação, aposto que concordas.
    __

    dina, a literatura tem características comuns ao testemunho e à reflexão, havendo testemunho e reflexão que até pode assumir integralmente essa forma. O que me interessou na citação que trouxeste foi o cliché: de que o passado nos é inacessível, de que algo se perdeu. Ora, perdeu-se tanto do passado como se perde do presente; ou talvez menos…

  24. val,
    (és de olhão, pouco te escapa. Fosses galo de galinheiro povoado e pouca franga fugiria ao teu cocar de salto ao mínimo facilitar, é só um palpite…)

    A escuridão de que falo é a do ‘não sei que diga’ sobre o que não tem assunto, no fundo. Repara. O teu post distribui pontos aos iis que escolheste e cada um terá os seus para pontuar, não é de razões que se trata, para mim. Seria uma opinião coxa, se eu tivesse que ter uma sobre o blogodrama. Não tenho competência ou antiguidade que justifiquem sequer ter uma, para além da perda óbvia de conteúdo, na óptica do leitor. Sinto a falta da variedade que conheci, é certo, e para o meu gosto pessoal o cocktail de medidas exactas que me habituei a saborear ficou escasso no cognac, pese a excelência do que sobrou. Mas não vejo razão para drama, blogo ou outro. E vê: fez-se luz na tal escuridão.

  25. Ocorreu-me algo que não me tinha ocorrido. Na verdade o acesso ao passado pela memória, pelo que é consciente é uma coisa. Mas depois há a memória do corpo, dos hábitos… uma memória que só se sabe quando somos apanhados de surpresa por ela. Além disso há o modo como os acontecimentos e os momentos se juntaram à nossa pessoa.

    Sim também acho que se perde tanto do passado como do presente… nunca tinha pensado nisso mas quando leio reajo logo: sim.

    Mas uma das coisas interessantes são as relações. Quando os adultos de hoje dizem: no meu tempo não era assim. Eles esqueceram-se mesmo? Têm outras memorias. O que é que no agora os faz esquecer?

    Não sei se é menos o que se perde do passado… porque pergunto-me logo como conseguiriamos medir essa quantidade, essa intensidade.

    …. mas adoro a possibilidade de medir a intensidade!

  26. Rui, pois é isso: não haver razões para drama. Mas isso, e como também referes, é apenas um ponto de vista. Outros viram e viveram o seu drama, e assim se fez história. Partilho do sentimento da perda, como leitor deste blogue, mas é só e quase nada. O resto é bom: liberdade. Não se esqueça que o Fernando e o Jorge são coisa bem diferente de uns míseros anónimos sem talento, têm eles muito mais o que fazer – incluindo continuar na blogosfera, em blogues próprios ou colectivos, se lhes der para aí. Por exemplo, no teu; não era espectacular?… Já lá passa largas temporadas o Daniel, seria uma reunião de notáveis escribas a fazer muita gente roer-se de inveja.
    __

    dina, lembras muito bem: a memória do corpo. E agora é continuar: a memória é sempre do corpo, e há um corpo de memórias (tal como há um corpo de memória…). Se assim é, e é, vemos outra aspecto: o corpo é sempre diferente, único, irrepetível – onde está o nosso corpo com 5, 10, 15 e 20 anos?…

    Nesse sentido, voltar ao passado, ou viver o presente, é uma redescoberta, ou recriação, corporal.

  27. “Falamos de crianças? Então, falamos de adultos. Os mais carentes de educação, aposto que concordas.”

    Claro, em muitos casos e também com muitas excepções.
    Para depois te dizer o que já sabes: não há adultos carentes de educação sem crianças carentes de educação.

  28. Oh! Como gostei de “recriação corporal”!

    Só nos faltou o tempo do futuro. Uma vez a pensar sobre algumas das coisas que eu faço pensei que a educação é um desejo para o futuro, uma aposta.

    Se calhar deviamos falar mais das apostas e dos desejos que temos para o futuro para conseguirmos entendermo-nos melhor sobre o que estamos a fazer na educação…

  29. Lembro-me disso “quase” tudo o Floriano de filosofia batia com a mona nos candeeiros quando ia a ler no meio da rua.
    Havia um prof de história o Custódio que era passado por ter sido preso pela PIDE
    Havia um jogo feito com uns quadrados no chão com giz onde a fuga era feita pelos cantos e quando um tipo era apanhado levava uma surra de todo o tamanho
    As RGE’s (balda às aulas e aviar porrada no liceu mais próximo)
    Secretárias umas em cima das outras era garantido que a aula nem começava
    Esconder o livro de ponto na aula de inglês com um prof que havia (acho que era meio panasca) o gajo abanava-se e ia-se embora a dizer que se ia queixar ao Conselho Directivo
    Bons tempos
    O João zilhão morava ao fundo da rua é agora afamado arqueólogo da pré-história.
    Só é pena o VITOR GASPAR TER LÁ ANDADO se fosse hoje ia comer rãs no lago da entrada!

  30. Ó Zarco lembro-me perfeitamente desses ainda me lembro de uma prof de matemática parecida com a mulher do obama e uma prof de geografia “boa como milho” com 20 e poucos anos. Os zilhões eram 2 e acho que tinham também uma irmã. Esse de inglês uma vez quando entrou na sala no 1º piso em frente ao corredor tinha o livro de ponto encostado ao tecto por cima de uma pilha de mesas e cadeiras, deu meia volta ao cavalo e nessa semana nem apareceu lá mais. Havia um Semedo que uma vez no funda da sala desenho uma “queca” a prof de português passou-se da cabeça e entrou e saiu aos gritos toda horrorizada… Belos tempos.

  31. Ah.
    Lembro-me de um tipo ter tido a melhor nota num teste de filosofia com o Floriano e no teste tinha relatado um jogo de futebol.
    Outro gajo passado desses tempos, o 28. Alguém se lembra do bintóito (28) prof de música na Eugénio dos Santos, anos 70?

  32. que delícia, Val, de lição de que transgredir (nos) é sempre preciso. e até é por isso que nem me dói o teu trás em vez de traz ali em uma das respostas. :-)

    (é à Val facadas charrado, que risota) :-)

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