luxuriante

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No momento em que todos se roem porque não irão ver o filme do último sopro de Marylin, diverte-me o estatuto atingido pela pornografia. Retirada dos confins de cotão entre colchão e estrado de machos com muito a esconder, a exposição dos genitais passou ao trívio da trivialidade. Do hábito saudável de damas que ostensivamente não usam cuecas, por um bom arejamento (já dizia a minha madrinha que as pombinhas deviam andar ao léu sempre que possível), ao atestado de vulgaridade de herdeiras milionárias, o leitmotif do sexo está em tudo, especialmente na arte.
A artificação do sexo rebate o conceito de pornografia, como os orientais provaramalguns séculos. John Currin, capa da última Art Review,* mete no chinelo qualquer prosápia de um Jeff Koons na dessacralização do sexo. Pegando em clássicos da arte ocidental, e com evidente referência à sofisticação dos enquadramentos das gravuras orientais, Currin* seduziu o mercado com uma pintura opulenta de temas eróticos. O sexo vende e, no caso, a preços de seis algarismos. Quando há quem compare um felácio com um beijo com muita língua em números desta envergadura, e os nivele, já não podemos estar a falar de pornografia: o objecto perde relevância para o modo como é representado. Todavia é feito o aproveitamento da experiência comum da pornografia, a da atracção pelo voyeurismo. Aqui, sátira executada com rigor kitsch biedermeier.
Currin recicla o imaginário da idade de ouro da pintura figurativa, recorrendo à época dourada da pornografia, os anos 70, altura em que ainda deixavam pessoas feias, ou de aparência normal, fazerem-no. Nesta dupla apropriação, Currin mostra que sabe pintar, embora o recurso ao suporte fotográfico possa explicar eventuais dificuldades no escorço, aqui e além. Representa a textura da carne e embutidos de composição, como panejamentos e detalhes de natureza-morta, com mestria conservadora. Apesar do apelo das vanguardas e da suposta morte da pintura, o virtuosismo tende à legitimação pública.
Há, no entanto, um problema constante com a exibição do sexo. Pouco importando quão abertos possamos ser em relação à causa e suas causas, ao grau artístico da cena e seu carácter majestático, prevalece um mas. Um pudor relacional, resguardo que Currin explicita. Lamenta ter que proibir os filhos de entrarem no seu estúdio, e não poder discutir o trabalho apresentado com os pais, no clima apoteótico que inaugura as suas exposições. Mas o embaraço não o tolhe. E as imagens são uma delícia de dolce vita. Mesmo se não atingem a modernidade que encontrei em Lequeu. Descoberto aqui, em plena Aspirina.

*Links obtidos por cortesia da comentadora Marcel Duchamp.

233 thoughts on “luxuriante”

  1. E esta?

    A arte pode ser quase tudo…

    apetece-me dizer: o que os filmes fazem… de certeza que depois do “Instinto Fatal”, quadriplicaram as mulheres, que andam sem cuecas por aí…

    só não sei se cruzam e descruzam as pernas como a Stone…

  2. Parece-te, luiseme, que ainda havia mulheres suficientes para que quadruplicasse o número das que…?
    E esta intimidade vale seis dígitos?!…
    (Susana, proibiste o teu filho de espreitar o Aspirina?)

  3. sem-se-ver, ficou sem se ver…

    luis eme, de facto o mote não era nada mau.

    daniel, pelos vistos vale, se falamos de cotações de mercado. outros valores serão sempre menos absolutos, porque dependentes de juízos.
    quanto aos meus filhos (porque são dois), pouco interesse têm pelo aspirina. aliás, nenhum. mas se nada exibo, também nada escondo. o mais velho, se vir (e tanto pode ver aqui como na revista) é capaz de achar graça por vários motivos, pois tem catorze anos. e dirá, ainda, bem está mesmo bem feito, parece quase real!, pois tem catorze anos, idade em que se aprecia a representação mimética. e é capaz de corar. o pequeno não ligará nenhuma, mas seria capaz de dizer que nojo, a tocarem as línguas. de resto é como te digo: não há problema com conteúdos em arte ou literatura, aqui em casa, nem com a nudez dos corpos. pode haver estranheza, ou incompreensão, ou demasiada areia para uma pequena camioneta, como me aconteceu quando apanhei uma coisa do apolinnaire em idade demasiado tenra. não vejo grande diferença, só porque vejo, pois que onde se conversa tudo aparece como revelação.
    por outro lado, dão constantemente com imagens, essas de alguma gravidade, pois vão além do sexo e sua representação. como uma apresentação de um filme, a meio da tarde e dos desenhos animados, há uns anos, que assustou o meu filho com um estrangulamento em plena cópula. e que remédio, se não conversar sobre isso.

  4. Hello, Afinal Portugal não está tão mal como parece!

    Como diria Georges Bataille, só o desjeo é activo e só ele

    nos torna felizes !

    Avanti. Niet

  5. niet, obrigada pelo teu optimismo relativista.

    lia, o efeito será variável; pelos vistos consigo teve um efeito de choque. a última frase mostra-me a improbabilidade de que me responda, mesmo assim tento: porquê o choque?

  6. De facto, a pornografia só é chocante quando a sexualidade está doente. E estar doente é o seu estado normal – ainda não se sabe o que é o sexo. Daí, ser tão violento.

    Excelente poste, susana.

  7. Não me choca absolutamente nada. Mas não acho absolutamente nada de especial. Gosto de pornografia, mas tem que ter arte. Isto aqui é má pornografia a fingir que é arte (o pseudomistério do espelho), mas não é uma coisa nem outra.

    Fetichismo da cadeira, que é uma cadeira de secretária “Courthouse”, bela peça de madeira (mogno, faia, etc) cheia de curvas. Cadeira de tribunal, assim lhe chamam nos EUA. Aqui na versão de secretária, com rodinhas. Parece tirada dum daqueles quadros de erotismo contido do Edward Hopper, mas não.

    É isso: o Hopper com a braguilha aberta.

  8. claudia, falar do Menezes, agora, é uma banalidade. Há 3, 6, 9 e 12 meses é que teve graça. Entretanto, tornou-se uma desgraça. E resta saber se o PSD lhe vai sobreviver…

  9. A fronteira entre a pornografia e o sexo bem sabemos que pode ser bem ténue e andar pelo fio da navalha.
    Bom é que o sexo seja natural… nas suas distintas abordagens. Quem sabe o peso de querermos entender o sexo se torne mais leve para todos e este se possa distanciar da pornografia.

    ” meio da tarde e dos desenhos animados, há uns anos, que assustou o meu filho com um estrangulamento em plena cópula. e que remédio, se não conversar sobre isso”…é mesmo isso… conversar sobre isso.

  10. valupi, violento, talvez. pelo menos com força, poder, a ponto de nem se ser capaz de falar sobre o assunto.
    e obrigada.

    nik, o pseudomistério do espelho não pertence à pintura. nem a cadeira. a pintura é aquela que está sobre a parede do lado esquerdo, a imagem uma fotografia do canto do atelier. escolhi-a não só porque preferi esta pintura no conjunto das disponíveis, mas sobretudo porque nos dá a sua escala, e a escala dos originais é sempre um dado fundamental.

    joni, tens razão. e do que não se fale não haverá alívio da carga.

    mana, boa pergunta.

    z, diabólicas senhoras.

  11. Susana
    Falemos a sério deste “poste” que o Valupi considerou excelente, e tu pelo menos pensaste que era bom, pois caso contrário não o trarias aqui.
    Esta obrazeca é kitsch, é no mínimo de um maneirismo serôdio, arrepiante. Estão lá demasiados pormenores vulgares da pornografia para que o quadro alcance a pretensão de ser mais do que isso. Tapasse o pintor os seios e os genitais da amante, e ninguém lhe daria um chavo por tal coisa. E depois percebe-se que é cópia de uma foto, em pose ensaiada.
    Sabes, Susana, qual foi até hoje a imagem erótica mais bela que já vi? (Falo de erotismo mesmo, não de pornografia.) Os olhos da Natalie Wood no filme “Os Prazeres de Penélope”. Que, para quem não conhece, explico que os tais prazeres nem sequer tinham nada que ver com cama, mas com cleptomania.

  12. «A artificação do sexo rebate o conceito de pornografia, como os orientais provaram há alguns séculos.»

    E os frescos de Pompeia, entre tantos outros? E os vasos gregos? E alguma arte paleolítica? A César o que é de César… Os «ocidentais» já haviam provado isso há mais tempo. DE resto, muito bom poste.

  13. Ahhh este sim, este sim… quase que me ia vindo para cima do portátil… mas desviei a tempo, não fosse conspurcar a aspirina :)

    Depois essa mulher… prenderam-me mais os seios que a vagina – que belos, hum…

    (ainda nem li o texto, nem sei se vale a pena :))))

  14. No filme «Esplendor na relva» a Natalia Wood até está vestida mas é uma maravilha, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Sim inesquecível de erotismo e sem se despir.

  15. Como a malta não segue os links e tu, mana, na tua total ignorância pensaste que era bom (de acordo com o crítico de arte Daniel de Sá), aqui fica um pequeno apanhado de mais uns ignorantes que também têm algum apreço pelas “obrazecas” do Currin.

    “John Currin’s work draws upon a broad range of cultural influences that include Renaissance oil paintings, 1950s women’s magazine advertisements, and contemporary politics. He has been featured in more than 20 solo exhibitions, including “John Currin,” a paintings exhibition organized in 2003 by the Museum of Contemporary Art, Chicago, which traveled to the Serpentine Gallery, London, and the Whitney Museum of American Art, New York. His drawings were the subject of a 2003 solo exhibition organized by the Des Moines Art Center, and which traveled to the Aspen Art Museum and the Milwaukee Art Museum. Currin’s paintings and drawings are the subject of a 2006 monograph, to be co-published by Rizzoli and Gagosian Gallery.”

    Não podem ver uma pessarinha aberta…

  16. interessantes links Susana. (não percebo o choque! o abraço dos amantes lembra-me a escultura “o beijo” de Rodin, duas obras igualmente belas, só que aqui Currin é até mais generoso na roupa :)

  17. Ganda barrete me enfiaste, Susana. Bom, assim, sem pseudo-mistério, o quadro é-me ainda mais indiferente. Agora ficou braguilha aberta sem Hopper…
    Da foto, prefiro, de longe, a cadeira. Por quaisquer 400-500 dollas compras uma em boa madeira, também as há em cerejeira. Até têm, no assento, um relevo ao meio para o reguinho das nádegas.

  18. Alto e pára o baile! Da minha parte, ó gibel, o único choque foi saber que uma vulgar cena de sexo atingia preços de seis dígitos. O suficiente para ir ao Lido ou ao Moulinn Rouge durante toda a vida. E essa de invocar “O Beijo”, de Rodin, não lembraria ao Diabo.
    Catarina C, quando referi um “maneirismo serôdio”, não fazia a mínima ideia de que o rapaz tivesse “cultural influences that include Renaissance oil paintings”, e, para quem sabe um mínimo destas coisas, sabe também como elas estão ligadas. Se gostas destes exercícios foto-pintados, então aconselho-te Norman Rockwell, esse um criador quase sublime de cenas do quotidiano. Nus por nus, continuo a preferir os de Goya ou dos impressionistas. Olha, e, tal como os olhos da Natalie Wood, vejo muito mais erotismo na famosa “Rapariga com Brinco de Pérola” do que numa treta destas. Tudo o que é demasiado explícito perde o encanto. Por isso é que, se estiver uma praia cheia de corpos ao léu e aparecer uma rapariga de saia em que o vento faça carícias, nem que seja para lhe mostrar dois dedos da coxa, os olhos masculinos deixam de prestar atenção às “majas desnudas”. Coisas da hipófise…

  19. eu nem sou de comentar muito em estilo chat, mas sinceramente há aqui coisas que me apetecem assinalar em voz alta.

    Algum pretensiosismo disparatado (vide Daniel de Sá (e digo-o respeitosamente, até porque não sou do género troll que se sente estimulada a usar as caixas de comentários para disparar “caralhadas” em todas as direcções como quem faz uma purga às entrenhas, como aliás aqui também se vê na tradicional forma de troll destas coisas, mas adiante) na análise da qualidade artística de um quadro que por sua vez está enquadrado numa foto que por sua vez pretende trazer um quadro de simbolização a um post, esse sim em texto escrito, ao qual é retirada qualquer importância.

    Mas já que falamos do quadro, para mim é simplesmente obsceno. Isso não lhe retira nenhuma qualidade artística, mas acho-o obsceno. Ou seja, a pessarinha da rapariga (como dizia a catarina) não me atrai, é demasiado exposta e crua, pouco distante de um bife tártaro. Mas onde eu quero chegar é que não creio que se deva confundir obscenidade com pornografia. A pronografia é uma forma de negação da qualidade artística, a obscenidade pode ela em si ser o mote da realização artística.

    Mas nada disto é relevante, aliás, centrar-me no gratuito da figura e sobre ela assentar os meus comentários é de um facilitismo da análise enorme e de um menosprezo para com a mensagem do post. Mas nisso não vou ser diferente da maior parte dos comentários, e também eu vou ficar por aqui.

  20. (peço desculpa ao Daniel de Sá pelo “disparatado”. Tem um toque de agressividade gratuita que aqui tanto critico e que não era minha intenção acentuar. considere-se ‘não escrito’)

  21. Daniel, não me lembro de ter dito que gostava ou deixava de gostar. Acho piada, tal como o Zé, que toda a gente comente a qualidade ou falta dela da imagem que ilustra o, esse sim, post da Susana (ninguém deve ter lido…tou memo a ver)
    Pois tá bem essa teoria do tapar as vergonhas. Mas se as mamas desnudas estiverem no Rossio, quero ver quem é que olha para as saias ao vento. Não é uma questão de explícito ou não, é uma questão de quantidade de mamas desnudas por metro quadrado. Coisas de matemática…

  22. Bom e se fosse uma pessarinha aberta destas no Rossio tinhamos um engarrafamento pela Av. da Liberdade acima a entrar kms pela A1, isto sem falar nos mortos e feridos, nas tropas de choque e na quantidade de delegados de propaganda de clínicas de remoção indolor do pelo.

  23. Tá bem, abelha…ganda treta. Tudo nesse quadro é circunstância. Provoca um bocadinho de frisson aqui no Aspirina B e numa qualquer galeria de arte fina. Não provocaria tesão nenhuma num dos cinco milhões de sites pornográficos que existem por aí, com coisas iguais. Mas essa, para além do mais, tem o certificado de arte passado pelos tabeliões de um qualquer cartório notarial do oficio. Se não tivessem dito à Susana que esse quadro é arte, a Susana não o colocaria aqui. Transgressão mesmo, no sentido de Arte, foi a Origem do Mundo, do Courbet, no Séc. XIX. A partir dai.. bof. O Jeff Koons, pelo menos, punha algum sentido do mundo nos bibelots pornográficos que fazia. Era um lixo brilhante. Agora isto.. dou-lhe mais um valorzito se souber que aquilo é mesmo pintadinho pelo pintor. Tem jeito para o desenho. Quanto ao resto, tou comó outro: vou ver os links: háde aparecer alguma coisa mais excitante.

  24. Corrijo: “O Jeff Koons, pelo menos, punha algum sentido de humor nos bibelots pornográficos que fazia.”

    Pedro

  25. daniel, concordo inteiramente contigo quanto a falarmos sério sobre o post. no entanto lamento que comeces por não seguir o teu repto, uma vez que sobre o post nada dizes: só falas da imagem que o ilustra. o mais que se lhe acrescenta de alguma relevância é o teu preconceito. não obvia que o teu comentário seja sumarento, mesmo se pelas margens.
    pouco importa se pensei que o post era bom, já trouxe aqui posts piores; por outro lado, a “qualidade” de um post avalia-se segundo parâmetros difíceis de definir, pois tudo se prende com o papel multi-task de um blog. deixarei a questão de lado, não me pronuncio em causa própria. dir-te-ei que sim, claro, gostei de o fazer e de o pôr aqui (não é essa a ideia de estar num blog?), o que é diferente de o ter pensado «bom».
    surpreende-me o teu uso de vocabulário, começando pela «obrazeca». pergunto-me o que pensarias tu se um pintor viesse aqui chamar «obrazeca» a uma qualquer peça literária que estivesses a comentar. dirias desfaçatez!, não? o juízo que enuncias é digno, é teu, e mera opinião. mais não nos traz do que o teu gosto. enganas-te ao presumir que sem sexo ninguém pagaria, pois currin já estava habituado a obter boas críticas e a vender caro antes de pintar temas explicitamente sexuais. és tu quem não daria um chavo por tal coisa, e digo-te mais – nem eu.
    passamos aqui para outra questão: uma coisa é o gosto pessoal, outra é a apreciação crítica. eu não os confundo. acho graça à pintura de currin pela sátira que comporta e pelas questões que levanta (e não por outras coisas que parece levantar…). além disso, como pintura, é bem executada. gosto mais de outras coisas, de outros artistas, mas fico contente com o lugar para todos. em suma, gosto que exista.
    finalmente, o argumento desesperado da fotografia, e mais!, o da pose ensaiada. dissequemos. a fotografia tem sido amplamente utilizada pelos artistas, e antes dela outros recursos possibilitados pelas invenções da óptica. muito indica que ingres utilizava um truque de projecção do campo visual observado para o papel, designado por câmara lúcida. outros usaram a câmara obscura, como o autor que referes da rapariga do brinco. bonnard, um dos meus amores, usava a fotografia regularmente. desde os primórdios da fotografia que esta é usada – e, precisamente para reter, na maioria dos casos, a pose ensaiada. desta vale a pena falar – acaso os pintores que não usavam fotografia tinham alguma outra solução se não a pose ensaiada? e, por outro lado, se aqui não se tratasse de uma pose ensaiada, mas de um instantâneo retirado do real, não seria, aí sim, muito mais grave, porque revelação, e não encenação, de verdadeira intimidade?
    esta pintura é erótica, sim, daniel, se não o fosse não suscitaria essa reacção. no entanto é uma forma de erotismo que não te apela ao gosto. não te esqueças que o mesmo aconteceu ao déjeuner sur l’herbe no tempo dele. e não estou a fazer aqui comparações qualitativas, mas de contexto temporal. finalizando, é de esperar, quando se toca em tabus.

    antónio sequeira, tens razão, então se formos para a celebração do sexo como força criadora, encontramos representações totémicas do falo e da fertilidade feminina a torto e a direito. só que essas obras não têm nem de longe a divulgação das imagens orientais. nos frescos de pompeia, talvez os mais atrevidos entre os que enumeras, estou certa de que se estivessem em melhor estado lá encontraríamos penetrações bem descritivas. por outro lado, no ocidente foi uma tradição que se quebrou, devido ao puritanismo instituído pela religião, enquanto o politeísmo dá mais espaço ao humano e ao telúrico. ou seja, desabituámo-nos do sexo como presença na nossa cultura e arte.

    elypse, graças a deus o html não se conspurca. quanto a valer a pena ler o texto, não faço ideia.

    z, ou o blog dentro do blog, lindo. fazer cem anos a dançar. :-)

    jcfrancisco, gostei do teu «até» em articulação com o «mas». e se te enviassem uma foto com o cabeçalho «natalie wood de pernas apartadas» estou certa que te dirias que horror, nua não tem graça nenhuma, vestida é muito melhor, e apagarias o ficheiro sem ver e sem pensar duas vezes.

    catarina, pois, as instâncias que legitimam a atribuição de valor artístico sucedem-se numa hierarquia complexa em que a opinião individual só tem relevância se proveniente de alguém legitimado pelo sistema. e este é regido pelo conhecimento e apreciação por consensos mais ou menos alargados, em que os pares são determinantes na validação, como em qualquer matéria.

    gibel, grande gargalhada. :)

    nik, diria, então, que és um comodista. eu também preferia a cadeira, já tenho as paredes demasiado cheias.

    zé, gostei do teu comentário sobre a imagem, mas fiquei para aqui a roer-me sobre o que tens a dizer sobre o post e não queres dizer…

    catarina, claro, a raridade faz a força. do mesmo modo, se aparecer uma mulher nua em pleno louvre, todos os japoneses irão desviar as suas objectivas da mona.

    peter, exactamente: transgrediram bem mais esses, como o courbet, que ainda hoje é banido por ferir susceptibilidades púdicas. e atenção, a mim isto choca nada. acho engraçado os tempos do mundo, os diferidos, em que uma imagem como esta pode suscitar repulsa. mas vai sem surpresa.

  26. Daniel, as impressões que uma imagem me causa serão as minhas; as tuas serão as tuas; se foi inspiração do “inimigo”, olha, paciência :)

  27. Eu não comentei o quadro por ser mais uma imagem na lista do chamar a atenção para o que está por baixo, não para o que eleva forçosamente a pessoa enquanto pessoa. É o que está a dar. Se fosse a ti, punha mais um e mais outro e mais aqueloutro. Pode ser que batas o recorde das audiências. O que está doente não é a sexualidade, é a cabeça das pessoas.

  28. O texto da Susana pretende explicar o quadro. Por isso só falei deste. Se pareceu pretensiosismo, paciência, é uma opinião. Pior foi a Catarina C ter-me chamado “crítico” sem ao menos ter tido o devido cuidado de pôr entre aspas. Mas se um simples apreciador de arte, ignorante como um cepo mas com olhos que ainda vêem bem, não pode dar a sua opinião acerca de uma pintura, então chapéu, meus amigos. Apesar de que tanto direito tenho eu de não gostar desta coisa como têm outros de a julgar uma obra-prima. E a nenhum deles me atrevo a chamar “pretensioso” ou “crítico”.
    Siga o baile.

  29. susana, a violência que aponto é aquela que nos cerca, ou habita, onde não se sabe o que é a sexualidade – e onde se cometem crimes, ou se cede a dignidade, ou simplesmente se vive iludido, por efeito de uma sexualidade alienante. É o que está subsumido nesse “mas” que referes. Este desconhecimento é preenchido por monstruosas, ou pífias, considerações morais. Esta conversa está a trazer exemplos disto mesmo.
    __

    Daniel, na tua primeira resposta à susana começas por me fazer referência e citar; facto que estranhei (pois te sirvo apenas de munição retórica, por via do intento de ironia), mas que vou aproveitar para te interpelar.

    E a pergunta que faço é a seguinte: acaso não te aparece, a ti, a vulva como um dos símbolos mais fascinantes – e ternurentos – da criação?

    E também esta: por que razão devemos ter vergonha, ou sentir incómodo, quando em presença dos órgãos genitais de um ser humano, seja qual for o seu sexo e idade?

    Aguardarei, impaciente, pelas tuas respostas.
    __

    claudia, mas com tanto sítio para mandar o PSD, que iria ele fazer no caralho?

  30. Eu gostei do teu post Susana. Também não percebo quem vem vêr, quiça lamber-se e depois faz moral. Se há coisa que é líquida na blogosfera é que só ‘lá’ vai quem quer, sibretudo se falamos entre adultos.

    Claudia, mas a sexualidade é a cabeça das pessoas, o resto é instrumental, e aliás só cresce ou fica molhado por via da cabeça, o Daniel fala da hipófise, eu inclinava-me mais para a pituitária, mas claro com o neocortex a fazer das suas, seja bloqueios ou perversões. A História da Sexualidade do Foucault é um bom texto. Só consigo entender a pecaminosidade como instrumento de controlo ideológico sobre a reprodução e a pegada ecológica, e os reguladores associados da propriedade e da distribuição demográfica.

    Cada época e região tem a violência baseada num certo código legitimador, correspondente ao nível de cultura do sapiens da altura. Estou a relêr O Último Cabalista de Lisboa e tanta orgia de violência e loucura, tem por base um travejamento não gratuito: a seca – de que derivou a fome e agravou a peste – para tal bastou literalmente saltar uma fagulha para incendiar um rasto de destruição entre a comunidade judaica de Lisboa, milhares chacinados como um absurdo. Se havia tantos conventos era para manter o morgadio como instituição viável e estável.

    Eu queria era viver na Grécia antiga, para experimentar. Tinha guerreiros, amigos, pitonisas, filósofos e poetas, e outros. Mas já agora quem não foi a Pompeia deve estar aí online algures, vejam os frescos e o Príapo, em particular.

    Se a economia é a epiderme, a ecologia é a derme da biogeografia e da paisagem.

  31. claudia, nem o quadro nem o texto, mas ninguém te obriga a isso. sempre abordaste o tema, agora. a tua opinião de ser «o que está a dar» e aquilo da audiências é já qualquer coisinha…

    daniel, o texto não pretende «explicar o quadro». se fosse a «explicar o quadro» teria falado de enquadramento, linhas de força, composição; escala de representação e escala do gesto; relações figura/fundo; contrastes cromáticos; construção de volumes, padrões e texturas; claro/escuro; tratamento de superfície; sei lá, o diabo a sete. eu usei uma imagem para abordar uma situação pontual integrada num tema mais vasto.
    quanto à tua reclamação à catarina, não vejo o problema: foste crítico e falavas de arte (mesmo que não concordes). foste, portanto, crítico de arte e não há mal nenhum na crítica. bem pelo contrário, quanto mais melhor e quanto melhor, mais. por mim, será sempre bem recebido para dizeres o que te aprouver.
    mas penso que se a tua atitude foi considerada pretensiosa pelo zé, terá sido pela classificação de «obrazeca» e pelo tom peremptório com que dizes que a obra não pode alcançar mais do que o «ser pornografia». sei que apenas deste a tua opinião, mas também te sei capaz de admitires que o reconhecimento da subjectividade própria pede um pouco mais de humildade na emissão de juízos que depois dizes serem «ignorantes». acho que o teu juízo foi moral e não artístico, daí o ímpeto.

    z, concordo contigo.

  32. Valupi, é óbvio que a vulva é o mais fascinante elemento da criação, e não apenas um símbolo. Quanto à vergonha, sabes bem que é uma questão cultural. Até Pêro Vaz de Caminha percebeu isso, apesar de não estar habituado.
    E onde é que eu dei o mínimo sinal de me ter sentido incomodado com isto?
    Susana
    Eu sempre entendi que aqui todos são bem-vindos. Não me atrevi nunca a pensar-me uma excepção.

  33. pois, daniel. respondia à tua observação: «se um simples apreciador de arte, ignorante como um cepo mas com olhos que ainda vêem bem, não pode dar a sua opinião acerca de uma pintura, então chapéu», para saberes que pelo contrário, a tua opinião é bem-vinda, seja ela qual for. não falava em presença, e nem me cruzava o pensamento que te atrevesses a pensar tal coisa, de facto.

  34. A única coisa com interesse nesta treta nem foi falada. O jogo de voyeurismo da gravura colada na parede que se excita ao espelho e a luz da candeia do corpo feminino exposto na floresta do Duchamp a iluminar por trás (Etant Donnés).

    “Explicar o quadro” seria falar disto. E, já agora, da cadeira à Hopper, como bem viu o Nik.

  35. Valupi, estou enjoada de politiquices. Não vejo um homem que se aproveite no panorama político! E o caralho é bom de mais para se enviar para lá um PSD.

  36. Fora isso o sujeito não tem o menor interesse E gosta de provocar com um erotismo aparentemente estimulante que mais não é que doentio. As mulheres dele têm sempre aquelas mamas apetitosas mas, depois, vai-se a ver e são pessoas marcadas pela morte. Por isso é que este evoca o do Duchamp que também fala do mesmo- da brutalidade da posso de um corpo, idêntica ao desejo do serial killer. Aqui é a gravura que tem olhar de taxionomista.

    Nada nesta brincadeira aponta para euforia sexual mas para o seu engano. Daí o espelho, daí o mobiliário morto e luz de quem espreita restos.
    Isto é uma brincadeira com o Etant Donnes do Duchamp e com os espelhos do olhar pornográfico.

  37. z, nova oportunidade se aproxima! :))

    marcel, já cá volto. mas aviso o que já avisei: a imagem é mais que a pintura, a alusão ao duchamp (ou ao hopper) repousa no olhar culto, não existe na pintura.

  38. Não há pintura sem citação nos nossos dias. Isto não é “olhar culto” mas pastiche. O pós-modernismo é isso- citação da citação.

    Ninguém pode imaginar realismo num quadro que todo ele é inviável e coloca uma gravura barata a ver-se ao espelho e ser espiolhada por trás, com uma luz a incidir no ponto g.

    E todo o ambiente é outra falsidade de citações de ambientes despovoados e monótonos dos quadros do Hopper.

    A brincadeira está no logro. E v.s ao colocarem-se no olhar da gravura barata leram-na como ela- de modo falso. O Duchamp colocou uma porta com buraquinhos para se espreitar os restos da rapariga morta na floresta. Este colocou a gravura a devassar-se, nós a irmos na conversa e a luz ao fundo, no escuro- a “apanhar” o curso à fraude.

  39. eu confesso que gosto mais de mexer do que ver, restos da minha formação neopositivista de feição táctil, a puxar ao neanderthal

    aliás não sou nada voyeur hoje em dia, faz-me sempre lembrar aquela citação do Shaw ‘todo o espectador é um cobarde e um traidor’, mas só a aplico liminarmente a mim próprio, os outros deixo com eles, mas não consigo ser amigo de um homem voyeur, não confio, já mulheres aceito muito melhor

    que bom que também gostes dos gregos Claudia, ainda hoje insuperáveis. Podíamos passear os dois de túnica de linho branca e sandálias a interpretar o vôo dos pássaros. Tu fazias de pitonisa e eu dava um jeitinho de alexandre. O hefestion depois ia lá ter. E a narcisa havia de andar contente.

    Susana, neste domingo virão notícias dos romanos no jornal, tinha dado a minha palavra de z à zazie que havia de recuperar a dimensão sagrada da paisagem na inteligibilidade do objecto e lá vai. Mas a história vai ter vários episódios, this is just the beginning…

    Do sensível ao inteligível, este é o percurso da semiótica

  40. susana, não queres brincar aqui um dia com um Escher? Gosto tanto de mundos impossíveis, neste imanente, mas que não o seriam num espaço complexo mais dimensões

  41. eu disse que fazia de alex, claudia, não de socrates, mas olha que se não me engano no Symposium está lá dito que quando se levantou de manhã calçou as sandálias, mas agora não vou à procura, já tou de pantufas, e ainda tenho de morder umas pataniscas ali.

    ‘entre o céu e o mar’ nunca me cansa, ilustrei dois artigos meus com ele já lá vão vinte anos, quase ninguém por cá o conhecia então

  42. Susana,

    graças a deus? ó diabo!

    o texto está giro – pelo menos gostei de o ler. porém, em toda esta temática de sexo/sexualidade, creio que o objectivo das palavras é esse mesmo, lembrar-nos que pouco têm de essencial :)

  43. Por muito que me custe assumi-lo, só me concentrei na tela (e eu gosto de passarinhas) depois de me deliciar com a construção do post.
    Que ao contrário do quadro é pornográfico e não erótico. Eu explico. A pornografia foleira troca o erotismo pelos clichés da dominação masculina, mas existe uma outra pornografia que apesar de mais explícita (the horror, the horror!) do que o erotismo como o definem (ou o pintam) bebe deste a maioria das referências (sim, sou um consumidor do género desde a adolescência e sei distinguir as subespécies).
    E o texto da Susana explica essas diferenças subtis, nomeadamente nos linques para que nos remete, de forma nua e crua.
    Muito mais do que a gravura (nada pornográfica, nessa perspectiva, pois sem pila só mesmo as cenas lésbicas vingam no hardcore), apesar da sempre bem vinda e no meu entender discreta nudez da avezinha ali pintada.
    Não sei se me fiz entender.
    Mas gostei do post à brava.

  44. I like the picture ..e o n´número de post´s sssssssssssobe … bom para as estatísticas… como já foi aqui referido…. que bom q mts não se entendam… objectivo, penso eu, da bloquista.
    Tb gostei do texto e de algumas contestações ao mesmo

  45. marcel, o olhar culto era o teu. o que te dizia é que a «gravura barata» é a própria pintura, o resto detalhes da fotografia que coloca a tela à escala, numa parte do estúdio do pintor. ou seja: a cadeira, a luz (no ponto G?!), o espelho, são elementos, casuais ou não, da fotografia.

    no entanto eu também acho que a pintura do rapaz remete tanto para a euforia sexual como para o seu engano (pois não podes considerar um sem a outra). basta olhar com alguma atenção para algumas das suas citações (sobretudo «as três graças») para vermos a possível referência a um apelo tremendamente erótico, se contextualizada a obra no seu tempo e ao modo como é transposta para o nosso. qualquer representação, e quanto mais distante do objecto representado, mais pode aproximar-se dos conceitos, mas também do artificialismo.

    quanto à anamorfose do duchamp, essa é já outra liga. ele todo é um só campeonato. o juan brossa tem uma frase que diz: o primeiro homem que comparou uma mulher a uma flor era um poeta. o segundo, um imbecil. tem graça duplamente, porque o brossa também andou ao ready-made… ;)

    z, também acho que a cabeça é o meu ponto mais erógeno. não há como a inteligência na erotização das relações.
    e quando, e onde, vamos poder ler o que contas sobre a paisagem?

    claudia, algo me diz que andas inquieta.

    elypse, discordo, como acabei de dizer acima. mas é sabido que para os homens o estímulo preponderante é o visual.

    shark, adorei a tua hermenêutica. :))

    joni, obrigada. e acertas, é bom que haja discussão. os consensos dão sempre para desconfiarmos.

    z e joni, salvei dois comentários vossos do spam, estavam no meio dos viagras e das amoxicilinas. não sei com qual destes foram confundidos, faites vos choix.

  46. sim, não pensei em nenhuma especificação, mas acrescento que o sexo faz parte da vida.
    qual podridão e porquê, claudia? em quê uma parte da anatomia humana é menos representável – porque, presumivelmente, menos apresentável – que, por exemplo, uma maçã? ou é o beijo e tudo o que é representado de uma relação de amantes que reflecte a podridão? ou estás a falar do padrão do papel de parede?

  47. Susana,

    quanto à imagem: não me digas que para as mulheres não é igualmente o principal factor? Se não, em que interesse reside a essência feminina em relação ao homem? O que é que desperta o interesse inicial por uma determinada pessoa senão a imagem/gestos/forma de estar? Essa coisa da essência tem que se lhe diga – para mim parte sempre da aparência… no fundo são só imagens dentro da imagem. Sempre me deu uma certa vontade de rir quando se fala de essência.

    Imagina-te num bar ou afins. A certa altura topas um homem, daqueles que pensas (lá por dentro do que há mais dentro): “hum, interessante” (para não ir mais longe). O que aconteceu à essência? A atracção nasceu de onde? Do que ele te disse? Até pode ser, mas enquanto imagem, não?

  48. elypse, fazes duas perguntas. sobre a generalização, apenas te posso dizer aquilo que os estudos científicos (testes psicológicos, experimentais, que permitem retirar conclusões pelas estatísticas) nos dizem: para a mulher, nessa primeira atracção, o que mais conta é o poder. ora nos dias de hoje a ideia de poder é tão diversa quanto a psicologia individual.
    quanto a mim, e na situação que descreves, claro que aprecio a festa para os olhos. mas não chega. se esse homem muito atraente se aproximar e disser nada de jeito ou se mostrar parvalhão, torço o nariz. efectivamente acontece-me mais sentir desejo perante a exibição de inteligência e humor do que pelo aspecto físico. mas isto sou eu, conheço imensas mulheres que se perdem por homens bonitos.

  49. Sim, mas isso do humor e da inteligência vem depois – não quero crer que tenhas interesse, no sentido que aqui se aborda, por um homem com erudição e humor tendo oitenta anos… logo, a essência reside sempre na aparência.

    Quanto à outra questão: é claro que o poder (o dinheiro e o estatuto) que o homem tem exerce fascínio nas mulheres, por isso é que muitas delas (para não dizer a maioria) vive a dar umas por fora. E é por isso que escrevi:

    a propósito de cornos
    se não os vês é porque os tens

  50. Eu faço parte dos imensos homens que se perdem por mulheres bonitas.
    Mas também aprecio muito a inteligência. Sentido de humor, tão raro, já é a cereja no topo do bolo (ex aequo com uma atitude empenhada na cama).

  51. Mas, vamos lá a ver: o quadro é apenas o que está colococado na parede e o resto foi montagem tua?

    É que tudo o que ele faz são releituras de quadros de museu. Desmontando-os ou recriando-os com uma linguagem deliberdamente barata.

    Aqui está um jogo idêntico ao das Meninas do Velazquez mais um remake ao Etant Donnés do Duchamp.

    O que é que o espelho reflecte?

    reflecte a gravura colocada na parede que se excita a ver ao espelho ou. seguindo as coordenadas da perspectiva, só podia reflectir algo que está fora de cena.

    A cadeira, tão destacada pela luz, está vazia. Porquê?

    Se alguém pudesse ser reflectido no espelho devia ter estado sentado na cadeira?
    Sim, até certo ponto- porque a textura onde ela se senta (na gravura) é a mesma da cadeira.

    Mas, a cadeira está vazia e o que aparece reflectido no espelho só podia ter sido uma cena que se passasse aí- nesse lugar vazio.

    Onde estão os protagonistas do quadro?

    O que é aquela janela escura- buraco-negro- iluminado por uma candeia?
    Que ligação tem com o quadro?

    Com o quadro só pode ter uma ligação de linguagem. Porque evoca o espelho das Meninas do Velazquez- com o casal real lá reflectido e fora da cena de representação; e evoca a candeia a gaz do Duchamp que fala de montagens de desmontagens em kit de viagem, sobre um corpo retalhado na paisagem.

    Aquela luz por trás da janela/tela- abre o espaço para uma caixa negra. Mas é daí que sai o ponto de fuga para aquilo de que o quadro fala- o tal ponto G- o tal casal e a passarinha da excitação- que estão na tela, mas só poderiam estar no outro vértice do triângulo. O que fica fora de cena.

    De resto- todo o ambiente pseudo-erótico é falso porque o escritório está despovoado e a única existência que existe é a de um objecto kitsh de prazer- a gravura a desmultiplicar-se em olhares predadores de voyeurismo solitário e banal.

  52. È impossível falar-se do Currin sem ter conhecimento da história da pintura e da história da gravura.

    Porque tudo o que ele fez, como disseste, é replicar e piratear quadros e temas de museu. Se não se sabe quais são evocados não se pode fazer falar o quadro.

    Não existe realismo nos nossos dias que não seja linguagem acerca dos modos de fazer da própria linguagem artística.

    Para o resto- o retrato, há muito que existe a máquina fotográfica.

    O que o John Currin faz é idêntico ao que toda a tradição das trans-vanguardas faz, desde que a nova representação deu conta da perda da pintura/pintura. Evoca todos os clichés do género e satiriza-os.

    É um provocador que percebeu que a linguagem visual do espectador está impregnada de novela. Por isso faz novela nos quadros, novela suburbana na História da Arte.
    Como se bastasse um pouco de maquilhagem para qualquer pessoa banal poder teatralizar os mitos da antiguidade ou os eternos mitos do prazer e do consumo.

    Tudo isto é shit e tudo isto se vende. Podia ser a legenda.

  53. A8inda era possível pegar em mais detalhes e clichés evocados no quadro- como as teles viradas de costas colocadas ao fundo. Mas fiquemos por aqui.

    Menos que isto e dizer-se que é tudo uma questão de texturas e de gravura fora da pintura não é nada.

    A menos que, volto a fazer a pergunta- tenhas feito uma montagem com um quadro dele e o resto não faça parte da pintura/quadro/objecto artístico numa tela do Currin.

    A pergunta é retórica, já que não fizeste montagem nenhuma mas também não percebeste absolutamente nada do que ele pintou.

  54. Ainda deixo outra pergunta. O espelho é espelho que reflecte a gravura que está na parede e que nunca poderia ser reflectida daquele ângulo.

    Porque é que ele faz isto? De que fala o quadro? Quem é aquele casal objecto de prazer?

    O que é que o mito de Pigmaleão (às avessas) tem a ver com isto?

    Qual é o grande cliché da pintura e do nu?

    dou uma dica- isto fala do pintor e do modelo.

    Da falsidade da representação artística.

  55. exacto, e eu vou perder-me a dar uma volta por aí, táctil – eu gosto daquele c ali, mas quando fôr mais coroa se calhar dispenso, não sei não

  56. que raça de cú descaído é essa? Eu gosto é de bundinha rija e gulosa e mais não digo que é feio, assim até perdia o apetite

  57. Daniel, o teu incómodo revelou-se de várias formas. Primeiro, convocaste o filho da autora do poste – por que raio?!… Gostava muito de saber, já agora. A seguir, questionas a legitimidade da publicação, num rodeio que me chegou a envolver. Finalmente, desprezas o texto e só te preocupas em desvalorizar a pintura (a qual apenas aparecia como referência e ilustração, não como objecto de análise – já o autor, sim, estava em causa).

    Essa necessidade em distinguir entre pornografia e erotismo, para excomungar a primeira e santificar o segundo, indo parar ao olhos cleptomaníacos da Natalie Wood e às praias ventosas, indicia um alvoroço que te leva a confundir uma obra de pintura com a suposta “vulgar cena de sexo” (?!) que nela se representa. Convenhamos que a pintura é algo mais, ou diferente, do que a sua figuração.

  58. elypse, eu não diria que a questão etária é uma questão de aparência; imagina um homem de 80 anos cheio de plásticas muito bem feitas. poderia ter a aparência de um homem da minha idade, mas continuaria a ter 80 anos. ou outro exemplo, o paul newman, que mesmo em velho sempre achei um homem mais bonito do que muitos ícones de hollywood, sem deixar de ser velho demais para mim. trazes um factor importante, mas que não tem a ver com a aparência física, mas com a compatibilidade de maturidades, energias, longevidades, compreensões de contexto. desse ponto de vista posso dizer-te que à partida, e sem saber que partidas o destino prega, prefiro homens da minha idade, mais coisa menos coisa, mas por razões de empatia. lá está, se pegas no aspecto físico desse ponto de vista, então um menino de 20 anos seria mais atraente; mas não para mim, para mim seria um bebé.

    marcel, minha cara, o que te disse foi que a pintura é aquela tela pendurada na parede do lado esquerdo, enquadrada na fotografia que usei aqui. não se trata de montagem minha, eventualmente será composição do pintor ou do fotógrafo que fez a reportagem para a revista de onde fiz a cópia. as telas viradas ao contrário parecem não significar mais do que a normalidade: saberás que num atelier, onde se pinta, é costume virar as telas para a parede, não vão elas levar com algum salpico de tinta. o espelho devia andar por lá, até porque o autor da pintura usa por vezes o seu próprio corpo como modelo da figuração. claro que a pintura está reflectida no espelho; que te leva a dizer que não poderia estar reflectida naquele ângulo?! é só fazeres um teste em casa. e não te esqueças que o modo como uma forma aparece reflectida não é fixa, depende da posição do observador, no caso a objectiva. finalmente a cadeira: então o homem não pode ter a cadeira que lhe apetecer? aliás o nik já confirmou vários confortos da mesma.
    sim, ele apropria-se de temas clássicos e sim, há um maneirismo nessa atitude que de resto ele não refuta. who cares. de qualquer modo não usa as composições mas outras características nas citações. e então? a história de tudo está repleta de citações. as ideias novas constroem-se sobre o legado das antigas e não encontras literatura, cinema, pintura, música, que não contenha citações, referências, influência. também isso faz parte da identidade, pelo movimento autónomo de pertença.
    estás muito preocupada com a hermenêutica da imagem, mas eu nem por isso. não gosto assim tanto desta pintura, interessa-me mais o fenómeno. no entanto diria que fala muito mais do pintor que do modelo. até o modo como currin responde às entrevistas me leva a crer que não está na linha da “marca sociológica” como intenção (sabemos que ela é inevitável como contexto), mas da indómita vontade que faz o poder de autor. naquela onda do «faço porque posso, porque quero, porque gosto». uma atitude em que se borrifa para as classificações e taxonomias do estilo, porque a ideia é a da liberdade.

  59. Continuo sem perceber.

    Qual é o quadro que o Currin pintou?

    O quadro que ele pintou é apenas a gravura colada na parede com o gajo no apalpanço e lambidela ao modelo?

    O resto é fotografia do estúdio dele?

    Aquela porta por trás é a porta da casa dele que foi apanhada na fotografia? e aquele espelho no chão é um espelho que ele tinha no estúdio e que foi apanhado na fotografia a reflectir em ângulo inviável a gravura da parede?

    E a cadeira está ali porque ficou na foto mas não foi pintada por ele?

    E as telas e pincéis em cima da mesa também calharam de estar lá e foram apenas fotografados juntamente com a gravura na parede?

    Pura e simplesmente não entendo. E duvido que tenha aparecido aqui alguém que tenha percebido que o Currin só pintou a gravura que está na parede já que o resto são objectos reais dele que ficaram na foto.

    O que daria algo tão patusco quanto um espelho verdadeiro, do senhor Currin a reflectir uma gravura com caixilho de madeira que nem está na gravura pendurada na parede…

    Aguardo esclarecimento para este acto de magia fotográfica.

  60. não é para perceber Marcel, é só para ver, e voar, ou navegar se preferires. Que coisa! Agora vires tu com esse travejamento neopositivista para dar-nos cabo dum belo impossível, à conta duma realidade que se arrisca entediante

    apanhei uma molha, logo comi papos de anjo

  61. ó rapariga teimosa, basta saber qualquer coisita de geometria descritiva para ver que o reflexo é autêntico. não há caixilho de madeira, o que percebes como caixilho é a sombra da tela sobre a parede, ora vê lá a sobreposição no cantinho e compara com o lado esquerdo. claro que a sombra vertical, do lado esquerdo, está oculta pelo relevo da própria tela, por isso te parecem incompatíveis. quanto ao resto, só a tua desconfiança para achares estranho que num atelier estejam coisas que são habituais num… atelier. da porta, ou janela, atrás nada sei, mas sei que o estúdio é em tribeca e do que percebi não é a casa dele.

  62. É que, nesse caso, eu comprava já era o fotógrafo.

    Deve ser um mágico. Um fotógrafo que consegue captar um reflexo num espelho de uma gravura colocada em cima, na parede, que nunca poderia ser aí reflectida e que ainda tem o dom de criar caixilhos por meio de disparo da máquina é mesmo genial.

    E a iluminação então nem se fala. Ele abriu a porta (onde?) do estúdio do Currin e trás, conseguiu apanhar o breu do corredor apenas iluminado por aquela lanterna estranha lanterna de campismo que parece saída do Etant Donnés do Duchamp.

    É de mestre. Só me espanta porque é que não vendeu ele a proeza e deixou os méritos da gravura tosca da parede ao pintor.

  63. 2:47h = 13 = 4

    dá-se o transe
    saio entre mulheres que amam
    e tantas outras que desamam
    vou de encontro à multidão
    à alienação, à solidão

    imagino o meu amigo,
    escritor – escritor a sério,
    a lançar Tarot em busca de azar

    num outro plano
    do corpo os olhos
    uma mão estende-se dando-me uma carta
    “free pass” (?)

    não sou poeta
    sou mais que isso
    não acabo na escrita
    nem propriamente começo
    não retoco os sentimentos com cosmética
    e muito menos os realço com adereços desnecessários

    afinal, quantas vezes será preciso focar
    o tema amor, para demonstrar que o desconheço?

    (não me encontro bêbedo
    pelo umbigo – nada disso
    encontro-me drogado pela lucidez)

    recorro à carta
    ao magnetismo que me faz erguer a cabeça
    e fitar os vampiros no alpendre do espaço

    entro no jogo
    acedo ao amplo salão
    repleto de mortes e
    se devo optar por uma
    neste mundo onde a essência reside na imagem,
    ao contrário do que tentam fazer crer,
    escolho a que melhor a representa
    … sento-me, então, à mesa com a ceifeira

    na tentativa de a seduzir
    no sangue a identidade revela-se

    noto que se esmerou
    colocou rímel e sombreou as pálpebras
    com o intuito de dar um ar fúnebre
    tudo numa questão de fazer questão
    até pintou os lábios, a puta, em sinal de chamamento:

    “anda vem”

    por dentro digo
    não vou nada minha puta
    estou lúcido, LÚCIDO
    porém, desenvolvo a sedução
    acaricio-lhe o rosto
    agarro-lhe as mãos e de seguida toco-lhe os seios
    pouco depois, com uma profundidade
    que desconhecia, digo-lhe:
    Amo-te, anda, quero-te muito

    eis que desaparece
    como qualquer boa puta que se preze

  64. Mas ainda existem mais fenómenos de terceiro grau nesta fotografia.

    Para além de um espelho mágico que o Currin tem no seu estúdio- capaz de reflectir o que está fora do ângulo de visão e não reflectir o que estaria à sua frente, temos outro fenómeno.

    È que o fotógrafo conseguiu tirar esta foto praticamente às escuras. Aquela “tela negra” a recordar os buracos do Etant Donnés e mais os quadros na parede das meninas de Velazquez, afinal é um espelho!

    Um espelho negro e a dita lanterna que estaria no corredor da abertura da janela do estúdio (como estava a porta do estúdio do Velazquez no Alcazar, afinal é um mero espelho que reflecte uma pobre de uma lampadinha que o Currin deve ter no tecto deste estúdio.

    Coisa milgrosa, porque o fotógrafo chegou lá à noite, mandou esta chapa e vá de apanhar o quadro negro de um quarto às escuras, que, por bruxedo, fica iluminado, conseguindo acrescentar magicamente uma moldura negra ao reflexo fabuloso da única coisa que o palerma do pintor foi capaz de amanhar- a gravura barata colada na parede. Sem caixilho sequer.

    E depois, há marchants de arte que vendem o pintor e não detectam este prodígio da fotografia de reportagem para revista…

  65. o espelho está inclinado, por isso apanha a tela naquela posição. já te expliquei que não há caixilho, mas sombra, só a tua obstinação te leva a insistir na impossibilidade. a margem do lado esquerdo é o perfil da tela, pintado de escuro, que por razões de perspectiva fica no mesmo alinhamento que a sua face (mera questão de desenho). por isso vês a sombra a partir desse vértice. faz uma maquete em casa e logo vês. quanto ao corredor, põe os olhos de ver ao perto e verás uma daquelas janelas de vidro escuro que há aos montes em nova iorque. provavelmente será uma janela interior, de uma arrecadação ou de um saguão, onde há um candeeiro daqueles, que até pode ter sido lá colocado para a foto. enfim, mas como queiras. claro que isso não é reflexo, é fundo. o espelho é apenas aquele objecto de moldura de madeira, colocado em posição enviesada sobre a bancada.

  66. E as texturas, meu Deus… como é que o fotógrafo ainda foi capaz de acescentar “texturas” às apalpadelas num atelier meio às escuras, como o comprova aquele espelho negro que reflecte a única iluminação da sala.

    E as sombras de um gravura que se transformam em caixilhos salientes reflectidos por diapasão, num espelho que está virado para outro lado…

    Realmente, esta bodega acabou por ficar interessante com a descoberta da Susana. O Currin pintou uma banalidade, igual a muitas outras banalidades de desmontagem dos clássicos da pintura e o fotógrafo era bruxo. Tupou do que ele estava a falar (já que se preparou um bocadinho mais para a reportagem que a autora para este post) e conseguiu este prodígido de fotografia.

  67. oh diabos que isto está disparado em zona crítica

    exagerei nos papos de anjo, que isto anda aqui uma coisa dulcíssima para cima e para baixo

    portanto acho que vou fazer uma birra

  68. Eu acho é que o fotógrafo merece um prémio e uma reportagem científica aqui no Aspirina.

    Porque é que o espelho encostado ao “armário” do fundo ficou preto e só consegue mostrar um reflexo de uma sala quase às escuras?

    Porque será que numa sala às escuras, onde apenas consegue ser reflectida num espelho elevado, uma lâmpada que estaria no tecto da sala, conseguimos depois ver tudo iluminado, com sombras mágicas no outro espelho que está no chão e aquele permanece nas trevas?

    Só fenómenos de física quântica…

  69. Já para não falar nos outros fenómenos da cor e das texturas. O Currin tem um estúdio apenas ilminado por uma lâmpadita e consegue ter uma parede do fundo, do lado direito da sala, cor de rosa, com textura de tal ordem líquida que até escorreu para a tela que estava a preparar e que apenas tem essa cor da perede escorrida para lá, mais uma pincelada esverdeada.

    E mais, ainda, conseguiu espetar um interruptor na tela em vez de ser na parede… Ou então a parede do estúdio dele é tão mágica quanto a máquina do fotógrafo e vai ganhando as cores do “ambiente” do que ele imagina vir a pintar…

  70. vá lá, acertei numa! Nós, os raposos, achamos que isto anda num desgoverno, ter que andar com a cauda a pingar e com um contador em que não se pode fiar, por muitos papos de anjo que nos estejam prometidos, não há como descansar.

    vou mas é hibernar

  71. E ninguém reparou na magia dos caixilhos? viram bem como o Currin consegue ter um espelho negro apenas emoldurado de um lado e apoiado nos restos da moldura no lado esquerdo? e como o espelho se prolonga em negro na parede?

    É de facto um grande artista, este pintor. E ainda mais o genial fotógrafo que ainda foi capaz de lhe sujar um pedaço de lado da cadeira (com a tinta acizentada que escorre da parede para ela), ao bater a chapa para a fotografia.

    Quanto ao interruptor também deve ser para vender juntamente com as telas. O gajo engana-se e prega-os nelas em vez de os pregar na parede. E tem armários que entram para dentro da parede de tal maneira que até fazem curva no rodapé….

    Agora conseguir fotografar tudo isto às escuras e não ir para o MOMA é que é inacreditável.

  72. Mas gostei muito da parte da análise da “vontade indómita do pintor”, à Leni Riefensthal. Para terminar:
    Heil Hitler !
    Viva a Liberdade!

  73. não, a pachacha da claudia não!!! não dá antes para continuar a comentar em tons morais? murais?? seja o que for. mas a pachacha da claudia não!

  74. marcel, és uma taralhouca. mas gostei muito que tivesses voltado a passar por cá. eu podia continuar a tentar explicar-te e até te fazia um desenho se prometesses que irias tentar perceber, pois já te conheço e sei que nada adianta quando só queres ficar na tua. mas só uma coisinha. aquilo escuro a que chamas espelho não é um espelho, o espelho é aquela coisa mais abaixo onde está uma imagem reflectida. essa coisa escura é obviamente um vidro e a tal candeia está do lado de lá, onde vês um espaço às escuras por detrás de um vidro preto. isto é o mais provável, mas até podia tratar-se de um painel pintado de preto com uma lamparina pintada, que diferença faria isso? pois é óbvio que há duas fontes de luz do lado de cá, atrás do observador, pelas formas das sombras e seus cruzamentos. e é também óbvio que o espaço que contém a pintura, mesa e cadeira está bem iluminado. aquilo do interruptor não é evidentemente uma tela, parece mais uma parede de pladur meia tosca. pois vês que tem a mesma textura que aquela onde assenta a tela, que parece colocada à pressão sobre a bancada, cuja forma não é ortogonal – o que acentua a confusão relativa à posição do espelho. será de presumir que por detrás da parede em que assenta a tela a bancada continua, sendo um arrumo para telas de pequena dimensão. mas isto do treino visual é complicado, bem sei que para o cepo insensível a subtileza das aparências e a sua descodificação em correlações com o real são complicadas.
    a «vontade indómita»: não conheces nenhum pintor, pois não? eu apresento-te alguns.

    faz uma coisa: espreita a revista. percebes melhor o estúdio, se isto tanto te preocupa (eu acho que não, a tua grande preocupação é marrares comigo). vale a pena, porque tem uma exposição do pistoletto, com umas figuras hiper-realistas pintadas sobre espelhos, nos quais se reflecte o espaço e os visitantes, numa construção muito engenhosa. vais ver, a coisa tem graça, é intrigante, confunde.

    claudia, ah! não era reprovação, era ciúme! achas a tua muito mais bonita e meritória. pois se é assim, faz pela vida: há mercado para isso. aqui não, tem paciência, a propósito de quê?

  75. Portanto, esta senhora está convencida que eu sou outra pessoa e já entrou no insulto.

    Por mim não quero mais conversas. Está aqui um quadro que dizem que é uma fotografia e que a única coisa que foi pintada foi o que aparece colocado na parede.

    Eu acho que isto é inviável. Pelas razões que já enunciei. Não sei como é que se pode tirar uma fotografia destas e muito menos como é que se podem pregar tomadas de electricidade a telas. A menos que se diga que aquele fundo é uma parede verdadeira, da casa do pintor, com um móvel encostado à parede onde estão suspensos um espelho e uma janela que dá para um corredor.

    Para isso ser possível, tinha de se perceber como é que o artista anda a pintar as paredes da casa com em pinceladas verde, e como é que a tinta cor-de-rosa da parede do fundo até escorre para um pedaço do espelho (canto inferior direito) como anda por cima do dito armário e ainda escorre para baixo.

    Faltava explicar como é que a cadeira que foi fotografada ficou suja de cinzento da tinta da parede e ainda explicar todas aquelas sombras impossíveis como a falsa sombra da tela que está virada de costas e entra pela parede adentro.

    Mas é simples. Quando a autora do post colocar aqui o exemplar do quadro e não isto que diz que é uma fotografia do atelier do artista, fica-se a ver quem é maluco. Ou quem se arma em entendido de !perspectivas” tintas, cores, texturas.

    Eu digo que tudo isto é pintado. O quadro do Currin é isto mesmo que se está a ver. Não há aqui fotografia de mais nada a não ser do exemplar vendido.

    A Susana que prove que o contrário. Podia até digitalizar a revista de onde retirou este texto.

  76. Foi dito que há uma janela que dá para um vão e que aquele escuro é desse vão com uma lâmpada por trás- e agora já é uma tele negra com uma lamparina pintada. Coisa absolutamente disparatada porque basta ter olhos e ver que é uma representação de um reflexo de uma lâmpada vulgar.

    Eu afirmo ser impossível ie não se percebe como é que uma janela negra continua para baixo até ao móvel.

    diz-se que existe um móvel e não se explica como é que o tampo dele está sujo da tinta cor-de-rosa da parede.

    diz-se que a tomada da eletricidade não está pregada a “mais uma parede de pladur meia tosca” que o Currin decidiu esborratar com pinceladas de tinta verde e cor-de-rosa igual à restante da parede que também passa por dentro do móvel e até suja o dito espelho.

    – diz-se que achar que isto é delírio é “mas isto do treino visual é complicado, bem sei que para o cepo insensível a subtileza das aparências e a sua descodificação em correlações com o real são complicadas”.

    Donde se conclui que esta senhora é uma ordinária que nem uma conversa civilizada é capaz de ter.

    Apenas porque escreveu um disparate e não há ninguém que seja capaz de a apoiar provando que estamos perante uma fotografia e não perante uma pintura.

    Prove que é assim e vamos a ver quem é o calhau ceguinho.

  77. Já agora deixe aí a fonte onde se baseou e um link para o artigo e museu que comprou o dito quadro.

    Porque há por aqui uma afirmação fácil de se comprovar. Basta ver-se o quadro sem ser nesta reprodução que colocou no post.

    Eu afirmo que é impossível que haja aqui uma qualquer sala ou escritório ou atelier real fotografado por um reporter para uma revista.

    Tudo isto é pintura. O quadro foi fotografado na íntegra.

  78. ui. tenho cá uma paciência… mas vá, que ser professora é para mim uma missão.

    marcel, eu sei quem tu és, e só precisei do primeiro comentário. deves ficar orgulhosa pelo reconhecimento automático, que a marca da autoria não é para todos. qual foi o insulto? taralhouca? ah… é que a causa é o teu discurso, sempre a fazer vista grossa às explicações que te dão. agora, por exemplo, aventas como hipóteses discernidas por ti várias coisas que tenho estado a dizer-te em repetição. acabei de te dizer que a tomada está sobre uma parede, quem conheça telas vê perfeitamente que aquilo não pode ser uma.
    porque é que há-de ser a casa do pintor? tens alguma coisa contra os estúdios? naquele canto há uma bancada. a bancada é em cunha, terminando sob o segmento de parede rosa. essa parte do canto, presumivelmente muito estreita, tem uma parede com uma tomada, que parece feita de pladur. a bancada segue para trás da outra parede em que assenta a tela. sobre a bancada assenta o espelho, que tem dois cantos em ângulo recto (do lado esquerdo) e dois em curva (os do lado direito). como a bancada ali faz cunha, a posição do espelho é enganadora. não há tinta sobre o espelho. a tinta na cadeira (que é uma mescla clara, não podendo tu de modo algum inferir que é o branco da parede – corrijo posteriormente, trata-se de falha da digitalizagão, na fotografia não se vê a mancha na cadeira) e a mancha verde na parede são coisas normais em qualquer atelier. os pintores são uns grandes porcalhões e nos ateliers costumam pintar e sujar o que calha e lhes apetece.

    eu não me armo em entendida, sou de facto entendida: vi a imagem, tive acesso ao contexto, observei outras pinturas, aliás algumas neste link e neste, que permitem perceber que a tua leitura como o que é a pintura, seria uma construção do autor completamente descontextualizada do conjunto. quanto à digitalização, a fotografia foi digitalizada a partir da revista. quanto ao texto, não percebi; estás a sugerir que não seja da minha autoria? e eu não tenho que te provar coisa alguma. nem tu a mim, de resto.

  79. tens muita graça. atacas indelicadamente e depois fazes de virgem ofendida quando te reciprocam o tom. será um bocado difícil ter outra certeza que não a de o quadro ser apenas aquilo que está na parede. quanto mais não fosse bastaria conhecer as outras pinturas e ver as outras fotografias feitas no atelier, incluindo a do pintor, para se saber o que é espaço interior e o que é pintura. quanto ao corredor, vão, lâmpada, pladur, etc, limitei-me a descrever o que ali vejo, sem certezas, pois nunca lá fui. who gives a shit. apenas te garanto que aquilo que ali está não é a pintura. quanto ao museu, ora deixa ver… a revista saiu este mês, com as telas fotografadas no atelier, telas essas que se destinavam a uma exposição próxima. é capaz de ser difícil encontrar esse link, a não ser que saibas de telas com o dom da ubiquidade.

  80. Eu já enviei a imagem a entendidos pelo que aguardo outras opiniões.

    Fora isso não sei do que está a falar nem com quem me está a confundir.

    Apenas reparei no quadro, achei uma certa piada às citações usuais do Currin, neste caso com o tema do enigma da tela e da representação.

    Nem me passou pela cabeça que v. estivesse a dizer que se tratava de uma fotografia da casa do artista com o quadro pendurado na parede.

    Só reparei que era essa a sua ideia nestes últimos comentários. Como mais ninguém concordou e eu acho inviável, pelos argumentos expostos, não precisa de gastar latim comigo.

    Eu aguardo a análise de outras pessoas. Até porque fiquei com curiosidade, uma vez que me parece de tal modo óbvio ser impossível existir uma parede verdadeira com uma armário verdadeiro e uma tomada aplicada numa tela ou aquela mancha negra com reflexo de lâmpada. Já para não falar nos restantes detalhes que enunciei.

    Como, pelos vistos, a entendida em arte e treino de olhar é v. , custa-me a crer tamanho engano. A não ser por uma questão de se dar conta tardiamente do engano.

  81. Eu não sugeri nada. Não percebo parte das suas insinuações.

    Eu limitei-me a pedir-lhe, caso queira, em copiar o texto que vem na revista, que a levou a dizer que há aqui uma reportagem fotográfica da casa do pintor e que a única coisa que ele pintou é o dito quadro que se vê na gravura,

    Como disse que fez este post por ter lido esta informação, eu pedi-lhe que a colocasse aqui, na primeira pessoa, da tal revista de onde retirou a imagem e a informação, uma vez que deixou muitos links para muita coisa mas nenhum para este tema do post.

  82. Portanto, tirou isto da capa da última Art Review, que deve ter consigo e lá dentro é que tem de vir a informação de que se trata de uma fotografia de um espaço real- o atelier da casa do Curri e que a única coisa que ele pintou foi a representação erótica que aparece colocada como tela na parede.

    Vou confirmar se isso vem escrito na revista, caso não queira ter a gentileza de digitalizar a passagem. Até porque se quem disse isso foi o autor da revista, não percebo em que é que v. foi chamada ao caso, já que não a imagino colaboradora de Art Review.

  83. Se a casa é dele ou atelier ou o que quer que seja já é fuga da sua parte para a demagogia.

    É simples- v. diz que existe aqui uma fotografia de um espaço real onde a única coisa que é tela pintada é a cena erótica que aparece como tela pendurada na parede.

    Eu digo que isso é impossível e que é tudo pintura. Faz tudo parte do quadro.

  84. marcel, as minhas desculpas, então. gastei tanto tempo consigo por ter pensado que era uma visita já minha conhecida e que apesar do mau feitio eu muito aprecio. ela e eu estamos habituadas a trocar mimos vários. é incrível não se tratar dessa pessoa, pois é igualzinha em tudo, até no ritmo. coincidências. afinal também há sósias blogosféricos. «Podia até digitalizar a revista de onde retirou este texto.» foi a frase que interpelei pela sugestão implícita: qual texto que retirei?.
    e volto a dizer, altinho: ESTÚDIO!, não casa. isso não vem escrito na revista, mas está à vista. que é o estúdio do artista vem escrito, portanto a demagogia é sua. a imagem não vem na capa, a capa tem a fotografia do pintor. a revista está à venda. pode lê-la onde lhe aprouver. ah, e o tema do post é meu, tem aqui o link em primeira mão. boa noite.

  85. eu sou gamado em impossíveis logo pela manhã, aprendi com o Carrol.

    Então e ninguém aqui fala de política? Imagine-se o terror de ter a pachacha ressequida da Fleite à frente do PSD. argh! só espero que a dança dê risada…

  86. mas Marcel, todos nós te reconhecemos desde o princípio, nada a fazer, o estilo é como uma impressão digital a que se junta o tempo longo, como em tempos dizias.

    Deu-te para uma desconstrucionista positivista, eu nem dei muita atenção, desde que vi a chiclete fiquei a pensar noutras coisas, mas é porque está de chuva, acho eu – que a seguir vêm umas pastagens muito fresquinhas e verdinhas. Também eu estou danado para ir esfegar o pelo, mas tenho de ter cuidado para não apanhar um carrapato, tu ainda tens as garças para catar o lombo

  87. Pensava que a fotografia do quadro era um elemento decorativo, o ponto de partida para o texto…

    Afinal não era. A própria Susana já só quer saber da fotografia…

    É caso para dizer: «o que uma rata faz, ainda por cima das peludas, cada vez menos na moda…»

  88. Vamos lá a ver se nos entendemos.
    Estamos perante um óleo, uma serigrafia, um papel kodak, uma xerox de alta qualidade ou um plasma.
    E a cadeira. Trata-se de patine ou um genuíno “feira da ladra”?
    Susana, porque não dividir este post em dois ou três, mesmo? Aqui vão as minhas sugestões
    A) sexo x porno
    B) será que o gajo fotografa oiu pinta
    C) tema livre

    E que tal postarmos sobre a nova ministra espanhola da defesa, Carmé Chacan?

  89. z, olha que com a fleite talvez se apresentassem com algumas possibilidades de alternativa. pelo menos haveria nexo e um discurso estruturado… mas a simpatia é nenhuma, de facto.

    luis eme, a fotografia foi discutida porque o equívoco da marcel duchamp (ou marceau…?) levava a uma leitura completamente diferente da correcta, relativamente ao autor da pintura. trata-se de uma questão de rigor. e uma ilustração nunca é meramente decorativa, é, ou deve ser, um complemento.
    mas já que falas nessa parte da anatomia que figura na pintura, vou dizer-te que ela é mais uma razão de escolha. se reparares, o habitual na pornografia é aparecerem púbis totalmente depiladas. esta aparece, como bem dizes, “fora de moda”. ora isso não só é mais um afastamento da pornografia como uma reiteração do anacronismo: remete para as representações (que as há) do tema no passado, quando os penteados púbicos eram au naturel. a graça da coisa é que surge aos olhos do espectador culto, que conhece a história da arte, como uma impossibilidade: remete para obras do passado, ao apropriar-se dos meios da pintura das mesmas e de modos de representação, mas coloca-as noutro tempo, o nosso, gerando um conflito. essa é a única violência: coloca a perversão onde nós estamos habituados a reconhecer uma particular noção de classe, a do classicismo.
    eu gosto da imagem e aproveito para dizer porquê: a vulva é bonita. além disso aparece num olhar desapaixonado, simplesmente a descrição de uma perna aberta. sobre ela, nos mesmos termos, aparecem as mãos do homem e da mulher, o que é uma representação muito amorosa. se há alguma “obscenidade” é no beijo, o que desloca a concepção do que é sexo, e pornografia, para outra coisa, muito pública, pois qualquer um que ande de transportes públicos vê beijos cheios de língua aos montes. e beijos dão-se às claras. ou seja: coloca o ser pornográfico na forma de representação. e, ainda, acho muito sensual o modo como está representada a área da coxa e passagem para as nádegas, pintura essa verdadeiramente erótica. e digo pintura, porque estou a olhar para um tratamento de superfície, que tanto podia ser o interior de uma coxa como de um braço, seria sensual à mesma.
    a marcel estava numa desvantagem em relação a mim, pois a imagem na revista é mais nítida, permitindo afirmar com segurança o que tentei explicar-lhe. mas ela poderia ter superado a desvantagem a partir do que lhe expliquei, do que tentei desenhar sobre a imagem e a partir das outras pinturas do autor que a contextualizam.

  90. Bem, uma coisa é certa – o valor do quadro, a partir destes comentários/análises vai valer, no mínimo, o dobro

  91. susana, é engraçado constatar que aqui ninguém tenha sentido de humor e não saibam distinguir quando gozo e quando falo a sério. Estão-me a ver sinceramente a escarrapachar aqui as minhas partes pudibundas?
    Quem levantou o tema acerca das partes menos nobres foste tu, susana, em mal de mercado, talvez. Não gosto do quadro, do tema, das cores. É lúgubre, bom para voyeuristas, mas é um bom chamariz para chamar as atenções. Destoa no blog em geral. Tantos quadros há, mas excelentes quadros e tinhas logo que escolher este… A Primavera, as hormonas, o apelo incosnciente para as funções do baixo ventre, ah ah ah. Peço imensas desculpas por estas afirmações tão cruas – aliás tão despudoradas quanto o quadro – mas quem disse que eu andava em mal de mercado? Não fui eu decerto.

  92. Susana, espero que não seja preciso eu descascar psicopoliticamente a senhora, deixa-me dizer-te que não é nada agradável, e não falo da vida privada que não conheço nem quero, falo da construção do deficit monstro como instrumento da tomada de poder, a que se segue o discurso da tanga do Burroso, e a máxima ‘vão-se os anéis e fiquem os dedos’ da bruxa, a que sucede a titularização da cobrança das dívidas fiscais ao citygroup, o roubo das jóias da coroa na Holanda por um seguro miserável, a catástrofe incendiária de 2003 onde foi buscar uns trocos para pagar estudos ‘técnicos’.

    trocos comparados com o valor real e simbólico, vidas humanas incluídas, de tudo, mas sempre são muitos milhões para quem fica ganzado com isso

    como podes imaginar as dívidas incobradas são só para alguns, aquelas que prescrevem

    eu subo acima de um penhasco e vomito sobre Portugal se essa criatura volta a governar-nos

  93. joni, hehehe. sobre a senhora que recomendas nada sei, mas se postares sobre ela avisa, que vou lá ver.

    elypse, o que acontece num blog em portugal não afecta a bolsa artística norte-americana…

    claudia, talvez saibas que um clássico do humor é responder como se fosse a sério ao que é um evidente disparate brincalhão.
    eu levantei o tema das partes menos nobres? quais são as partes menos nobres e onde levantei eu esse tema?
    não gostas do quadro? e que tenho eu a ver com o teu gosto? essa agora.

    z, não estou esclarecida a esse respeito, mas de facto o que apontas é grave. referia-me apenas ao contraste evidente com o menezes, pólos opostos.

  94. Para mim, são menos nobres, sem gosto. Se fosse o manual do Grey, diria, sim senhor, interessante, mas acontece que não gosto do quadro e o meu gosto conta tanto como os dos outros, os que gostam e os que não gostam.

  95. Sinceramente, já temos a Britney, a Aguilera e a Paris… Devem ser seguidoras apologistas das referências de baixo nível. O pintor ajuda no caminho a seguir. Pode ser que haja luz no fundo do túnel, ah ah ah.

  96. se é para ti que são menos nobres, então és tu quem levanta o tema da menor nobreza. não tenho hierarquias no sujeito do meu olhar, mas reajo ao interesse que este suscita. mesmo na condenação há um interesse. e o interesse é interessante.
    e lá que há luz ao fundo do túnel isso é inegável. ao fundo do túnel há fertilidade, fecundidade, nascimento. e ainda um imo de alguém, e prazer. enfim, há uma mulher, como no resto do seu corpo.

  97. Susana, quem não deve ter achado muita piada ao sucesso galopante do “Luxuriante” é o Valupi.

    Então não é que o seu “Fitna 2” só tem meia-dúzia de comentários e tu estás quase a ultrapassar a centena e meia?

    Não sei se ele roi unhas ou não… só espero que não faça como a Cláudia e se ofereça para oferecer algum pedaço do corpo ao manifesto, na guerra pelas audiências…

  98. luis eme, tens toda a razão. Acho que a Susana quis dar um golpe baixo, com esta muita-vergonha toda. E, depois, acabo com o meu querido poste às moscas. Tá mal, pá.

  99. É fotografia, como se pode confirmar aqui ou
    aqui

    Tinha sido simples e mais rápida a confirmação, já que a cadeira nem está suja de tinta e tudo o resto deriva da má digitalização do exemplar que foi colocado no post.

    Mantém-se que é mil vezes mais interessante a foto que a pintura do Currin e confirma-se que houve deliberada encenação para o retrato.
    O que prova que o senhor nem talento tem para pintar, o cenário que tinha ali, à mão beijada, aproveitado que foi para a fotografia. Ele limita-se a “épater le bourgeois”
    O quadro é antigo, não se trata de nenhuma obra original para nenhuma exposição. O resto vem na revista que é à borla. Basta fazer inscrição.

    Se alguma provocação queriam fazer com o sexo, bastaria terem coragem para postar a Natacha Merrit

  100. Nesta longa lista de comentários uma coisa que me eternece são os nomes dados à cona: PASSARINHA, PACHACHA, VULVA.

    Só pergunto, alguém fode uma passarinha? Ou uma pachacha? Ou uma vulva?

  101. Pelo menos a Cláudia desviou o assunto dos caixilhos e das sombras e o camandro e levou-o para um fulcro da questão muito mais interessante.
    E eu não acho feia a passarinha do quadro, até porque não alinho na onda depilada, nem pouco nobre (pouco nobre? Por detrás de cada passarinha existe uma rainha!).
    Acho também que o Valupi tem um timing desastrado, além de que devia pôr os olhos neste post da Susana e perceber (como publicitário que se preze) o que é verdadeiramente apelativo para a audiência.
    (Desculpa, pá. Valores mais altos e coiso…)
    :)

  102. elypse, podes explicar? ou é um trocadilho a propósito de línguas?

    valupi, lamento. muito. mas como podes ver neste segundo link que a marcel deixou, o currin também se empenha, pela tematização da pornografia, na luta contra a ausência de liberdade da cultura islâmica. não se perdeu tudo.

    claudia, a conclusão é tua. não concordo com ela.

    marcel. teria sido simples largares a teimosia a acreditares que se eu defendia o que via tão acerrimamente era por não haver margem para dúvidas. mas agradeço os links, excelentes, e assim que possa irei integrá-los no texto. pena afinal não seres quem eu pensava, que assim identificaria a proveniência dos links com um agradecimento para o teu blog. não vejo onde está a data que coloca a pintura no passado, na revista nem aparecia em legenda. mas sendo um artigo que antecipava a sua próxima exposição na sadie cole’s, era a dedução possível. onde viste a data?
    do interesse da pintura ou do interesse do cenário, ou do interesse da narrativa acoplada nas alternativas que julgavas melhor, nada disso interessa, porque tudo isso é apenas produto da tua imaginação. eu não posso falar de uma pintura que não foi feita. seria absurdo fazer a única afirmação que a tua reclamação poderia almejar: que se fosses pintora e soubesses pintar como o currin farias pinturas muito melhores. ok. pode ser.

    jdias, tens razão. esse é o nome que costumo dar. mas eu tenho uma cona prosaica. só da minha posso falar assim. com as outras uso algum comedimento, não vá a linguagem insultar alguma pombinha sensível.

  103. Susana,

    não é nada cunnilingus…

    com essa da “cona prosaica” o diálogo deixou de fazer sentido neste registo – passemos ao outro

  104. claudia, mas são muitas as pombas que se dão, essa a sorte do mundo.

    elypse, não iria tão longe.

    shark, eu acho que não tens razão. se a zazie tivesse passado por aqui haveria muito mais comentários. e ela passa sempre nos posts do valupi, mas de mim não gosta nada.

    z, obrigada.

    valupi, estou desolada. eu não queria dar cabo do blog.

  105. Eu tenho-me estado a conter desde que este quadro aqui apareceu, mas apetece-me alimentar a “onda de devassidão” do Valupi com uma pequena nota bibliográfica.

    Antigamente as ratas pentelhudas eram julgadas repelentes e postas a bom recato, agora há sites porno com o artigo hairy cunts na vitrine. Um entre muitos exemplos possíveis, para quem não gosta de ir lá pelos seus dedos, salvo seja:

    http://www.hairypunta.com/pics/207.html

    O site tem 800,000 imagens de 1,300 gajas pentelhudas. Qualquer uma delas é mais interessante que o quadro do Currin.

    Boa noite.

  106. olá susana

    161 comments (com o meu 162) por causa de uns ‘retratos’, com mulher, homem, beijo, vagina, clitoris e espelho ao fundo.

    é impressionante como se fala com propriedade e ‘rigor’ por aqui, a propósito de um tema que lançaste. e ilustraste muito bem.

    !

    (bolas, e a cadeira?! já me esquecia da cadeira. é que ninguém se lembrou dela)

    a CADEIRA!

    beijos (vou sair de fininho)

  107. nik, as raparigas têm um ar honesto e saudável. mas as imagens têm aquele ar asséptico da apresentação do corpinho ao senhor doutor.

    noveetal, olha que até da cadeira se falou. e bastante. nada escapou, nem a tomada dupla. beijos.

  108. Não vejo onde está a originalidade neste quadro. Banal. O espelho, o reflexo, comum na arte. As poses depravadas, comum em tudo quanto em canto hoje em dia. Arte seria, por exemplo, por cima desta tela escarrapachar uma aranha amarela, rabiscar relâmpagos fascinantes, embaciar certas partes nem que tivesse de ser as tais partes pudibundas, menos nobres, vergonhosas ou sei lá o quê, passarinhas, por exemplo. Currin ficou-se pelo caminho… Pois, perdeu-se no túnel. Falta-lhe a luz que ilumina o engenho do génio, a evidência da harmonia procurada, o gesto pictural que tudo diz.

  109. O link da revista não entrou. Ficou repetido o do jornal.

    Reparo que afinal não fui só eu quem não percebeu que a única coisa pintada foi o que aparece na parede, já que o resto é fotografia do estúdido do artista.

  110. Não tenho por hábito fazer comentários neste ou noutros bogues, mas não resisti à frase da Susana: «eu tenho uma cona prosaica», escrito assim, sem qualquer recato ou acanhamento. Antes com grosseria. Esta e outras frases escritas nos seus posts e, agora, esta reles e chocante fotografia (mas qual arte, só se for a da obscenidade!), fazem com que lhe pergunte: o que é que ensina aos seus alunos na escola? A dignidade e compostura de uma pessoa, a sua moral, também são avaliadas pelo leitor nos posts que publica num blog. Acredite que não a queria para professora das minhas filhas. Já que tanto se exige aos professores, eu só peço decência. Sabe o que isso é?

  111. Senhora professora, olhe que vindo aqui a este blog de barzebu, arrisca-se a que alguém lhe pergunte como é a sua própria cona. Fuje daqui, milher!

  112. Olha, a senhora Professora escreveu aquela palavra que começa com a letra c!… vou dizer à minha mãe!… que é prosaica?

  113. marcel, já reparei, mas já expliquei que chegue. só que no caso, será de presumir que nem leu os comentários em que eu te explico, o que não será o teu caso.

    uma professora, veja lá que suja a boca com citações dessas. aqui tratou-se de uma brincadeira provocatória com a terminologia. catherine blackledge, doutorada em ciências, escreveu uma «história da V», um estudo académico sobre a vagina e a sexualidade feminina. coisa séria, que explica a fisiologia, a história da ciência (médica, por exemplo) relacionada com o tema, as manifestações artísticas, etc. um verdadeiro tratado. também usa a palavra «cona», em alguns contextos. devemos ter medo das palavras?
    quanto aos meus alunos, parece que tenho boa reputação, não se preocupe. e, como é óbvio, sei separar as águas, coisa que a senhora deveria aprender a fazer. já agora, como é que diria do que tem abaixo do baixo ventre? ou não diria que tem uma coisa dessas, que a senhora é uma senhora e, para mais, professora, e as mulheres sérias não têm bichos desses, ai ai…?

    leaveareply, bom dia.

  114. Pois, também reparei. Quanto a este surto de moralismo claro que é disparate. A única questão que se podia colocar em causa é mesmo o gosto para épater americano rico e o modo como o gajo o explora. Fora isso, o Jeff Koons é mil vezes mais inteligente.

    Quanto ao Dégener sur l’herbe também precisava de umas liçõezinhas para o Daniel mas isso já não é da minha conta. Faz pena não se entender em que consistem os pontos nos ii nas tradições de género artístico. E o Manet foi o primeiro a chamar o nome pelos bois- qual bacanal à Giorgione, isto é um piquenique na relva. Qual vénus de Urbino, isto é a Olímpia que toda a malta sabe com quem dorme.

  115. Agora a pergunta que me interessava. Alguém tinha lata para fazer um post acerca da Natacha Merrit?

    É que aí sim, aí entra o lado negro do sexo porno (já que o primaveril é apenas uma capa da sexualidade) e entra o lado barato, verdadeiro e voyeur do voyeurismo para todas as bolsas. Em preview é para as massas; com assinatura é para os clientes eleitos; em livro é para o burguês disfarçar e dizer que é apenas erotismo.

  116. A professora diria «orgãos genitais», susana. E assim, é que na linguagem não obscena e não popularucha reles deve ser dita. Diz-se «ir ao ginecologista» e não «ir ao médico da cona». Ou é assim que tu costumas dizer? Fica a informação que, presumo, te daria a senhora professora, caso te respondesse, coisa que duvido. Eu antecipei-me, paciência!

  117. Quando eles são bons, as mulheres até costumam dizer: o meu médico da cona é do caralho. E quando eles não prestam, os homens comentam: o médico do caralho é um coninhas.

  118. Já agora acrescento, em resposta, ainda, à susana. Quanto a mim, se a professora utilizou a palavra cona, ela apenas a TRANSCREVEU DO TEU TEXTO. O vocábulo não é dela enquanto comentadora do aspirina. Lembra-te disso. Para abordar o assunto teria, forçosamente, de transcrever a palavra. Estás a meter os pés pelas mãos e nem te dás conta disso, na intenção de saíres por cima. Bom, que a mim, ninguém me encomendou o sermão. Desculpe lá, senhora professora…

  119. fc, antecipaste-te mas vai dar ao mesmo. a professora diria isso, eu como professora também. mas e a mulher que há na professora? ou será que não há mulher na professora (já agora, é o que eu penso: a senhora professora é um homem travestido)?
    e claro, como bem confirmas, é tudo uma questão de contexto. eu vou ao ginecologista e se falar com ele sobre a minha anatomia, referir-me-ei ao nome científico de cada parte. aí usaria vagina, por exemplo, palavra que nunca usaria num contexto de uma troca erótica. e quando dei o exemplo da cona era a isto que me referia: ao nome pelo qual cada um se designa, ou as suas partes supostamente pudibundas. não significa que vá conversar sobre a dita cuja com quem quer que seja aqui no blog. será atrevimento? provocação? por exemplo: um homem diz «estou com uma dorzita aqui no membro viril»?

  120. perdão, mas este diálogo está a acontecer mesmo, ou sou eu que estou a fazer uma pequena sesta em pleno local de trabalho? (espero não estar a ressonar, fónix)

  121. Ó FC, sinto ser o meu dever avisá-lo de que a sua abordagem do tema é altamente discutível. Enfim, essa do “médico da cona”… bom, é que, precisamente, muitas mulheres ainda não se terão apercebido de que o que o dito especialista faz é, precisamente, ver-lhes a, com perdão da palavra, “cona”. Ora, isso, por um lado, irá afastar muitas mulheres decentes da necessária vigilância ginecológica (não estou a dizer que precisem, atenção, antes pelo contrário), e, por outro lado, atrairá aos especialistas um bando de mulheres depravadas (vulgo “putas”), que igualmente ainda não se tinham apercebido de que o que os médicos fazem é observar e “tocar” as suas cof cof “conas”.

  122. Por outro lado… vamos lá a ver, caramba, a fórmula “médico da cona”, tem as suas virtualidades. É que temos razoavelmente de admitir que nem todas as mulheres saberão o que é um “ginecologista”. Da mesma forma que nem toda a gente sabe o que é um neurologista ou um pediatra, do que resulta que ainda se vejam placas de consultórios com “doenças dos nervos” e “doenças das crianças”. Portanto, pergunto eu, porque não “médico, digamos, do pito”, ou “médico, digamos, do grelo”. Isto, admitindo que “médico da cona” será de facto forte de mais. A mesma coisa para os homens… quantos homens saberão o que é um urologista? Aproveitando ali a deixa do Marcel, ainda que haja por aí apenas um homem ignorante nessa matéria, os melhores princípios higienistas aconselham a substituição de urologista por “médico do caralho”, à cautela. Apenas terão as mães de comprar bonés com pala larga e comprida às crianças, por forma a evitar que vejam as placas.

  123. marcel, o exemplo da merrit é interessante, porque segue o sentido inverso, em que começas pelo voyeurismo, via interesse pela pornografia e este é transposto para a arte por um sistema, através da mediatização e critérios críticos. ainda mais se pegarmos no que advogava o duchamp: fazer da vida uma forma de arte é fazer o artista, tornando-se arte o produto da sua acção. mas aqui em mais uma inversão, porque faz da vida banal, quotidiana, uma centralização do interesse, numa completa oposição ao que o duchamp dizia.
    já o currin segue um percurso contrário, e comum (enfim, hoje menos que o da natacha…): uma formação artística, e a prossecução de diferentes temáticas figurativas, até atingir uma segurança no uso dos meios e convenções da pintura, assim como de repertório, e passar à representação do sexo com recurso à iconografia porno.

  124. Acho muito felizes as designações “médico da cona” e “médico do caralho”, sim senhor. Preferíveis a conalogista e caralhologista. Bem observada também aquela sugestão dos bonés para crianças com grandes palas, para tapar as tabuletas dos médicos. O pior é que tapariam os aviões também, e as crianças têm direito a ver aviões. Só talvez se resolva com uma espécie de clarabóia na pala, que acham?

  125. “Médico do pito” também cai bem.

    “Médico das pixotas” já eu ouvi, mas referido a um célebre médico que implantava próteses penianas (vulgo pixotas artificiais) em homens impotentes.

  126. nik, dado que a maioria das formulações eufemísticas para designação dos genitais femininos, tirando aquelas que considero ranhosas para o meu gosto (como pachacha, ou rata), têm pendor poético, uma cona prosaica será uma que se sujeite à prosa, não dirias?
    enfim, a escolha surge porque não é um eufemismo, voilà. e vagina é apenas parte da anatomia dos genitais e nome técnico, vulva é o pavilhão exterior, o portal. cona é o todo.

  127. O ano passado, por estar de férias, levei a minha filha de 5 anos a uma médica pediatra, que não é aquela que a acompanha desde que nasceu. Conforme o veredicto, estava com uma ligeira infecção urinária. Dados os esclarecimentos quanto ao antibiótico, a médica aconselhou um creme, dizendo:” diariamente passa este creme na pachacha da menina”. Fiquei atónita. A palavra não escapou à criança, que me disse quando saímos do consultório: “mãe, porque é que a médica chamou pachacha ao meu pipi?”. Expliquei-lhe que tinha sido um nome feio e que não deveria repeti-lo. Não voltei ao seu consultório, nem tenciono voltar.
    Médica «pra-frentex»? Por acaso fará parte dos gestores (gestoras) ou comentadores deste blogue?

  128. ena, claudia, mas que bom! alguém que considera «cona» recatado. muito bem, estou de acordo contigo: qualquer eufemismo denuncia menor recato, pois revela a posse de algo vergonhoso. mas não tenho recato com as palavras, propriamente – onde o vês?
    quanto à pintura, não há razão para comedimentos. nada de novo, ali, desse ponto de vista, apenas nas relações temáticas estabelecidas.

    maria manuela, nesse contexto faria exactamente o mesmo – como é que uma médica pode ter tanta falta de educação no exercício das suas relações profissionais?! (essa palavra, ainda por cima, é muito feia! – mas enfim, esta é uma questão de gosto…) no seu lugar teria até feito uma reclamação.
    mas não me diga que a sua filha de 5 anos lê blogs?! tss tss, devia acompanhá-la melhor. eu controlo o que os meus apanham na net. olhe que à sua ainda lhe sai alguma sem-vergonhice, como os blogs que a senhora frequenta! cuidado.
    (e olhe: não é «veredicto», é «diagnóstico»… ou também estava a acusar a médica de ter feito juízos…?)

  129. mas eu só a acho feia. é gosto, não moral.
    de qualquer modo, sou bastante moralista. mas não confundo juízos morais com outros, nem os mascaro.

  130. Susana,

    ao menos disso tens consciência – é que a certa altura, longe de moralismos, julguei que a tinhas perdido…

  131. duzentos e quatro, agora cinco, mas já de mantinha e botija, os comentos. Também, caramba, tanta tinta quando o que seria preciso era um balde de cera (ou mesmo dois!).

  132. Vamos lá a fazer o balanço do dia: uma tipa diz “cona” num blogue. Por causa disso, vêm aqui dois ou três ralhar com ela. E que não se diz cona, mas aparelho urinário ou coisa assim, que grosseria, ai ai. E a outra… a outra, senhores, explica-se! Por quem sois, isto usa-se, não tem mal e tal e coisa. Eu acho isto muito engraçado. Só não desculpo ter-me sido revelado, assim de chofre, que as professoras têm cona. Eu, que nem sabia que elas tinham aparelho genital, quanto mais cona… só falta agora revelarem que as mestras cagam. Fico como aquele personagem romântico do poema do Swift: “Célia, Celia, shits!”. Isto foi um dia muito mau.

  133. ah, agora é a figura da mãe, zelosa e trabalhadeira, que vem curar o menino, o menino partido, que está muito doentinho

    a bruxa – banqueira do Santander-Totta – quer fazer negócios, ainda por cima fá-los pechinchas

    como não podia usar a gargantilha das rainhas (só pode colar de pérolas como a Thatcher) ‘vendeu-a’, por dez reis de mel coado

    oh bruxa olha que a Thatcher tinha olhos turquesa que nos faziam estontecer

    vais-te pôr loura? platinada, please

  134. Cláudia,

    há formas e formas de discutir, e algumas são bem ridículas – era em relação a estas últimas que me referia.

    a mim custa-me ver mulheres num vernáculo digno de taberna. isso é bom para tipos como eu.
    porém, por mais boçal que seja, ainda aprecio uma mulher Mulher – as tais que não descem a certos níveis. isto porque entendo a mulher como algo quase sagrado e de mais-valia na natureza, enquanto natureza.

  135. Não gostas que eu diga caralhadas pela boca fora? Foda-se, se eu adivinhasse tanta paneleirada em boca máscula, bem me abstinha de tais foleiradas grosseiras.

  136. tu és mesmo do granito menina!, -olha ontem soube que datavam a última vez que o quartzo viu a luz, quando metido num cimento de uma parede interior

    carago!

    fica bem, vou passear mesmo, está solzinho

  137. Cláudia,

    porque haveria de gostar?

    não disse que não gosto de putas – uma mulher se não souber ser puta, não me serve. mas isto já são outros contextos…

    fica um poema, já antigo:

    O que me esgota

    são as mesas de cafés
    ansiosas pelas conquistas
    é a vontade inesgotável
    de adquirir protagonismo
    pelo simples facto de obter tesão

    o que me esgota
    são os sorrisos cada vez mais artificiais
    desnudando a parca brancura que lhes resta
    resultante da nicotina e da cafeína e de tantas outras ínas

    o que me esgota
    é observar o pudor
    dos filhos
    pela simplicidade dos pais

    é, esgota-me
    ver aqueles que dão
    porque se sentem bem a dar
    ver os que preferem (e até dizem gostar de)
    auxiliar os pobres
    porque ainda é absurdo auxiliar os ricos

    … isto é que seria um acto bondoso
    mas não vejo nenhum filho da puta a fazê-lo, a sê-lo

    é, esgota-me
    ver-vos ajudar pobres
    por recearem ser um deles
    ou por invalidarem a passagem para o céu

    esgota-me, ah como me esgota,
    ver e ouvir aqueles
    negarem os desejos de:
    lambhorguinis, iates, casas de campo
    e que até negam ter pretendido ascender ao poder
    mas só porque não vêem como

    o que me esgota
    é ouvi-los dizer:
    “não, a mim não! não me apetece
    dar um bom par de quecas
    naquelas putas do jet set
    porque não tenho uma piça
    que as satisfaça como desejaria”

    …com franqueza

    o que me enoja
    é criticarmos um gajo como Hitler
    e abençoarmos e glorificarmos
    a governação mundial que prolifera
    e que nos vai aniquilar, como aniquila presentemente
    todo o continente Africano e Asiático

    sim, o que me enoja
    é a falta de um cabrão selectivo
    que faça o mesmo mal e mostre a mesma cara
    não o faça com o encobrimento de multinacionais
    sim, um cabrão que possa eliminar todos os deficientes
    e assassinar todos os pretos,
    judeus e velhos que andam por aí aos caídos
    … enquanto eu não for um deles,
    porque este tipo de imagens choca-me profundamente…

    é só por isso que vocês não desejam um Hitler?
    por tão pouco?
    ou é por saberem
    que podem cometer as mesmas atrocidades
    mas camuflados pelas multinacionais?

    torna-se mais admissível
    por serem muitos a fazê-lo e sem rosto

    o que me esgota
    é poder ouvir o sussurro conjunto
    de vozes mesquinhas
    coscuvilharem: “o gajo passou-se”

    não, não me passei nada
    acabei de construir este estandarte
    após uma deliciosa refeição do
    McDonald’s
    que emprega 10 pretos
    por cada cem mil que mata
    e eu quero por força contribuir para a matança

    mas, atenção, não os aniquilemos por completo
    senão perderemos a referência
    para nos identificarmos como “brancos”

    … para quando um Deus Preto?… Justiça

    o que me esgota
    é ver-te abdicar de gajas bonitas
    por alegares que te fazem sofrer
    e ver-te preferir uma gaja feia,
    um objecto de foda,
    com a qual te podes divertir e superiorizar

    há que senti-la sempre próxima
    … falava do impacto imaginário da trela, olé Pavlov

    satura-me
    que ignores o problema da longevidade
    do desejar ser eterno
    por dizeres: “não sou estúpido,
    não admiro os excessos” (!)

    porém, não achas estúpido
    nem te repugna a ideia de vires a ser pai
    em ter algo por aqui que até irá morrer por ti!

    irão reabilitar
    a maralha do casal ventoso
    mas não é por empobrecerem
    a imagem da cidade
    é para privá-los da fuga aos impostos
    temos um estado que cobiça auferir
    dos rendimentos dos drogados

    há que colectá-los
    que não haja nada que exceda
    a “utilidade” da pátria

    não entendo a discriminação pelos drogados
    nem pelos homossexuais…

    se ao crescer visse o meu pai a levar no cu
    e observasse outros pais em relações semelhantes
    qual seria o meu conceito e atitude?

    somos o que vemos e não o que desejamos ser

    esta actualidade
    evolui para onde e para quê
    camuflamos o quê com estas atitudes
    entendidas como dignas
    pelas quais evitamos falsear
    as regras da boa conduta?

    para minar esta merda de sistema
    teremos que nos corromper

    já não digo que não quero morrer
    já poucas vezes consciencializo tal desfecho
    sou um cidadão evoluído
    e com tantos ao meu lado
    para o mesmo
    até me torno corajoso

    se calhar é este o segredo dos milhões
    da proliferação em massa:
    sermos muitos e muitos
    para atenuar a solidão e o pavor do inevitável

    cada vez damos menos valor à morte
    (ao que estamos a viver)
    cada vez ela nos é mais comum
    é tudo tão discreto e singelo

    cada vez mais
    me vejo parte integrante, de um grande animal,
    de todo este sistema denominado Universo

    apodrecemos a vida que nos dá a vida
    somos a seropositividade da terra
    minámos o fígado do Universo
    somos, um alto cancro com “inteligência”

    há gente ao teu lado
    esperando a tua simplicidade
    há gente a teu lado
    desejando o calar do teu silêncio
    há gente se tu fores gente

    o que me apavora
    é ter a certeza de que te verei fazer algo construtivo
    que espero não passe pela minha eliminação

    só existe uma hipótese em melhorar este mundo
    através de um controlo rigoroso de natalidade
    mas, neste preciso momento,
    os interesses das multinacionais não o permitem
    sobrepõem-se
    arquitectando e projectando
    as chupetas
    das formas mais anatómicas
    para os palatos dos nados vivos do após 2000

    tudo
    sem dar nas vistas
    como os pretos do McDonald’s

    é
    shíu… não contes a mais ninguém
    é que eu sei que tu também sabes
    que até escrevo assim, mas não sou assim
    que pior que isto é:
    pensar assim, não escrever assim, mas ser assim

    escrito em 1997

  138. Um gajo que diz “uma mulher se não souber ser puta, não me serve” tem o desplante de achar ridículo que duas mulheres discutam sobre a vernaculidade de conas e pachachas. Isto eu não acho ridículo, mas patético.

  139. Tens o direito de achar o que quiseres – mas não te esqueças de continuar a procurar (pode ser que aches, de facto). Vê os contextos…

  140. Acho graça a estes «poetas de pantufas». Pé ante pé, procuram uma deixa, uma porta entreaberta e pumba! Aí vai disto! Todos os pretextos são bons, até as c. e as p.
    Elypse: podes ser muita coisa, mas uma é certa: «poeta castrado, sim!», ao contrário do que dizia o Ary!

  141. O escultor

    decepou braços
    amputou pernas
    decapitou, cabeças (!)

    reparou:

    a dor não tem um rosto

    (vê lá se aprecias este – e diz-me, porque é que há uma exclamação a certa altura?)

  142. O “zé dos nabos” parece-me que ainda não decifrou a exclamação – é que colocar cabeças após uma decapitação é uma redundância. Já decepar e amputar aplica-se tanto a braços como a pernas, entre outras coisas.

  143. Elypse, então, perguntas e dás logo a resposta, pá? Tem lá calma.
    Para já, o «vê lá se gostas deste», lamento, mas tenho a dizer-te que também não gosto. Chamas-lhe o quê? Poesia necrófila? Género assassina? Ou simplesmente o relato de um escultor sem talento que resolve esfrangalhar a obra? Pior será se o escultor tinha um modelo a pousar para ele! Foi ao modelo ou à estátua que ele resolveu mutilar? Olha que o ponto de exclamação, digo-te já, não está a fazer lá coissíssima nenhuma! Mas vai tentando Elypse, vai tentando, que talvez lá chegues. E vê se tornas mais coerentes os teus comentários para não nos dares cabo dos neurónios, ok?

  144. Bem me parecia que tinhas andado a pensar este tempo todo, e o pior (como se atesta) é que foi para nada… continua, portanto… (numa coisa não te posse censurar – fazes jus ao nick)

  145. susana e companhia, por acaso já foram até ao Cocanha? Estão lá quatro fotografias com o “tema” de cima, mas a preto e branco. É o que faz a concorrência entre blogues. O post da zazie tem a data de 19/4 e este foi colocado no dia 17/4. Até parece contrafacção!
    Coincidência? Talvez sim, ou talvez não…

  146. sherlock, coincidência não me parece, mas se este foi mote, parece-me bem. de qualquer modo, e como podes confirmar no post linkado na última linha do meu (e que o refere, por sua vez, com link para o cocanha), a zazie já tinha falado sobre o lequeu, de quem agora volta a falar. obrigada pela tua informação, gostei de ver o post.

  147. Pois, como já foi explicado, não há concorrência nem competição, uma vez que eu é que ando, há muito tempo, às voltas com o Lequeu.

    Por acaso aconteceu outra coincidência, essa sim, lixada. O Antónimo do Herelogias, andava a fazer teasing para um post que eu não imaginava de que se tratava.

    Pois bem, como ele deixou explicado nos comentários, roubei-lhe o inconsciente- ele andava a pensar em fazer precisamente o mesmo post.

    Quanto a resto, posso dizer que até calhou de ser forma de eu “arrumar” matéria de trabalho de coisas que, por coincidência, também estou a fazer ao vivo e a cores.

  148. Galga sim, foi a do Antónimo que até ao “pedimos desculpa por esta interrupção” ainda andava a preparar o mesmo tema.

    E essa é que foi, de facto, um roubo do inconsciente.
    Quanto às minhas comparações entre os maneirismos estilísticos do Hogarth e as taxionomias do Leque ja´estavam agendadas, noutro formato, há muito. E não era, nem é, no mundo virtual.

  149. errata: Lequeu.

    É claro que, se por aqui seguir o gosto por desmontagens artísticas, é bom provável que surjam coincidências. Ainda que nunca me lembraria de pegar no Merrit. E no porno, aqui na blogosfera, é difícil de o fazer de modo inteligente. Tentei apenas uma vez e ninguém percebeu. Tanto mais que é algo que não gosto e cuja única maneira de abordar teria de ser pelo lado negro, barato, comercial e de barraca de feira.

    Ora, por aí, por pornográfico, comercial, falso, de embrulho e de barraca de feira, já v.s têm nos postes políticos do Valupi.

  150. que mania que se tem de associar coincidência a casual. Coincidência quer dizer apenas co_incidência, incidência conjunta, comum, pode ser casual ou causal, mais uma vez como a troca de duas letrinhas tem tal impacto semântico, embora para mim casual é apenas o que se desconhece a causa

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