purpurinas científicas

Uma senhora foi à escola falar sobre ciência. A Ciência Brilhante, contou-me o meu filho, valeu bem os dois euros que paguei, porque aprenderam muitas coisas. Aprenderam, por exemplo, que não é a poluição o que destrói a camada do outono; antes torna-a mais espessa. E depois é mau, porque a luz do sol vem e dobra para ali. Mas também não se sabe tudo sobre a camada do outono, porque ela não se vê. Parece que só se consegue ver por dentro a partir de um foguetão. O pior é se o foguetão acerta num sítio onde ela está muito grossa e forte, e faz barreira invisível e tau, o foguetão bate e cai para trás. O foguetão, filho, o foguetão não passa?! Ai, não ligues, pois, os aviões é que não conseguem passar, não é?
Conheço uma criança da idade do meu pequeno cuja mãe tinha um excelente método. O miúdo tinha dois anos e fazia muitas perguntas. Ela respondia o que é que achas que é? ou não sei, diz-me tu porquê. E ele congeminava qualquer coisa, quase sempre efabulações com sentido lógico.
Uma das coisas boas da aprendizagem é tudo ser ainda possível. Aviões a embater nas camadas do outono e a fazerem ricochete. Ou a descoberta de um intestino doce e outro salgado, pela filha de uma amiga. Do filho de outra chegou-me a poesia da água com gás, num sabor a pés dormentes. Quando lhes falta, completam os espaços em branco. A imaginação permite atribuição de sentido e, nela, o encontro de metáforas. A minha mãe sempre me disse, e com toda a razão: filha, quando não souberes, não fiques calada. Inventa.

9 thoughts on “purpurinas científicas”

  1. Susana
    Esta tarde passei uma hora inesperadamente deliciosa com crianças da pré-primária e do 1º ciclo. Uma educadora de infância convidara-me para ir lá, a um lugarinho chamado Ribeira Funda, que passa por ser dos mais problemáticos da ilha. E é-o, de facto, pois o conheço muito bem. Nunca imaginei que pudesse ter quarenta e tal crianças daquelas idades, durante uma hora em silêncio absoluto, ou fazendo perguntas espontâneas cheias de sentido. Como se maravilharam a ouvir falar dos brinquedos e brincadeiras de antigamente, das viagens entre as ilhas no limite do risco em pequenos barcos, e, maravilha das maravilhas, o “quadro” (foi assim que lhe chamaram) pequenino que lhes mostrei, a velha ardósia, que dizíamos “pedra”, e que valia por todos os cadernos e sebentas deste mundo. Ou aquelas professoras (elas mesmas interessadas em histórias que não são do seu tempo) têm feito milagres, ou nós é que não nos apercebemos de que eles estão à nossa disposição, seja na camada do ozono ou do outono. Tanto faz.
    Bonito, meu Lírio.

  2. é o que eu digo sempre… aos meus alunos! (lol)

    espaços em branco? só se estivermos perante seres abúlicos…

  3. Também adoro o momento da pergunta porque eles adoram esse momento de experimentar perguntar. Não estão sempre incomodados em passar para o momento da resposta mas em ver como são as perguntas dos outros, ver se têm as mesmas perguntas dos outros, fazer perguntas e ver como os outros reajem a estas.

    E gosto do lançar para inventar soluções, respostas. Mas também gosto muito de marcar os momentos em que não se sabe. às vezes um menino depois de pensar responde: “não sei.” e eu digo: “boa, é dificil saber que não se sabe”. A primeira vez que faço isso eles ficam espantados. Não há momentos não sei nas escolas (!?!? como é possivel). Esses momentos são do privado, do silencioso.

    E acima de tudo: adoro visitas às escolas: sabes que as há, que outros vivem que eles adoram ter visitas. Sim: viva as visitas às escolas!

  4. daniel, o que contas lembra outra coisa: essas são as idades ideais para a promoção do encontro entre gerações. em que a curiosidade está no máximo e o preconceito no mínimo. encontro precioso, porque lhes dá a noção de História, além do fascínio das histórias. e já reparaste que mostram, eles, um interesse bem maior por aquilo que foi o passado dos avós do que essas idades exibem relativamente ao universo das crianças?

    emiele, o conselho é delicioso, sim. era-nos dado no contexto escolar, no pressuposto de que uma tentativa inventiva poderia conter algum acerto, ou pelo menos revelar a capacidade de procurar.

    sem-se-ver, e se os há – ou quase, pois talvez haja brancas sem espaços completamente vazados. o branco sempre é alguma coisa, nem que seja uma espera.

    dina, o teu prazer e os teus relatos são sempre uma frescura sadia.

    valupi, faz todo o sentido: não te esqueças do relevo dado à protecção ambiental…

    z, um óbito com vida eterna e um renascimento. sobre darwin deve ser dito que deveríamos distribuir os louros entre ele e wallace, no que toca à descoberta da selecção natural. o primeiro documento científico sobre o assunto era, aliás, em co-autoria. o próprio darwin respondia que ao dizer-se darwinismo poderia bem dizer-se também wallacismo.

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