a pequena altruísta

Há um ano foi o Gigante Egoísta, numa altura em que ainda liam por socalcos. Hoje, um cadavre exquis, jogo que entusiasma os meus filhos na escrita como no desenho. Folhas de papel já preparadas, divididas em doze faixas horizontais e com as dobras vincadas, asseguraram número igual de participações. Não conheciam o exercício, o que potenciou galhofa e catarse.
Surpreendeu-me o drama em crescendo próximo do momento da leitura. Todos queriam, zangavam-se, asseguravam o melhor desempenho. Alguém chorou porque o resto do grupo foi peremptório na recusa da distinção. Na mesa do meu filho discutia-se estratégias. Para as meninas deveria ser uma delas, pois todas eram fluentes, e tinham maior facilidade em reconhecer a escrita na caligrafia alheia. Dois rapazes ignoravam-nas e disputavam entre si o privilégio. O meu filho, a sentir-se anfitrião ou por temperamento, fazia cerimónia. E a menina de branco teve uma ideia.

Colocou dez lápis de cor sobre o tampo. Cada um deveria retirar uma cor de cada vez, em duas rodadas. Quem acertasse na cor em que pensara, leria. Calhou ao meu filho, com o lápis preto. Um processo falho de rigor, pois de impossível verificação, criou a única ausência de exaltações e amuos. Todos acreditaram na escolha secreta. Terão confiado, pela iniciativa de auto-exclusão implícita, pelo gesto altruísta. O meu pequeno ficou radiante e corado, frente ao sorriso resoluto dela. No fim a menina pediu para falar e agradeceu-me a brincadeira. Desconfiei ter sido, esta, menos importante do que a descoberta. Obtendo a concórdia, ganhou liderança. Cresceu. Sorte minha haver, para o sorriso, receitas infalíveis.

[Dois resultados, um em bruto, o outro editado:

Um dia um porco de três cabêças morreu porque era muito mau mau matava. Todos os dias viajava até a lua e subia montes de gomas gigantes e pegajosas laminas de barbiar. A barba do senhor Pedro tem escaravelhos a entrar e a sair de uma boca gigantesca e nojenta mas como o homem era borro e por isso soisidouse , foi para o hospital dos elefantes e ficou bom gelado de banana e morango gelatinada com buracos de baratas mortas no somitério têm orelhas de burro e rabo de macaco.

Era uma vez um sapo maluco que gostava de comer ervilhas. Mas um dia veio um monstro ranhoso e matou uma pessoa e depois foi para o museu da criança à exposição. Para a seguir ir à feira de Carcavelos comprar sapatos. Após algum tempo descobriu que tinha borbulhas à volta dos olhos e fez um jantar para os extraterrestres de Urano. Enquanto isso o sapo continuou a gostar de ervilhas, mas chegou um macaco num monociclo e o pássaro comeu o gato muito grande e peludo. Mas de repente o gato comeu o pássaro e gostou. Depois o tempo passou e ficou sem um único cabelo, tentou fazer um jogo de mata bonecos e conseguiu.]

17 thoughts on “a pequena altruísta”

  1. Duas excelentes histórias. Uma que nos renova a fé na alma humana, outra, a que o Rui Pinheiro aconselhou, que nos faz acreditar que o pior da maldade é aprendido ao longo da vida. A diferença entre mentir por amor ou por desrespeito está bem demonstrada. Obrigado à Susana, ao RP e à menina de branco e seus companheiros.
    E, se me permitem, uma historiazinha de uma mentira ingénua… e boa. A minha neta tem dois anos e meio. Depois de passar o fim-de-semana com os outros avós em Óbidos, onde brincou muito com um cãozinho de nome Gaspar, quando voltou para casa chamou a mãe por avó e o irmãozito, de três meses (Tiago), por Gaspar. A minha filha disse-lhe a brincar: “Chamaste o nome de um cão ao mano!” Ao que ela respondeu prontamente: “Foi o nome de um rei.”

  2. sem-se-ver, pois é. e ainda por cima eles estão sempre a acontecer-nos. : )

    rui, fizeste muito bem e agradeço-te o duplo esforço (estavam à espera de aprovação, acontece às vezes quando têm links). esse filme deve ser visto.

    daniel, eu nem sei se a menina de branco mentiu. o que achei mais bonito foi a absoluta confiança do resto do grupo. ninguém questionou, não se ouviu um «mas como é que nós sabemos que era nesse que estavas a pensar?!».
    entretanto, ao deitar, perguntei ao meu filho se ele tinha chegado a dizer alguma coisa. explicou-me que não reclamou para si a leitura por saber que não era o melhor e lhes disse isso mesmo. «eu não leio assim tão bem para ter que ser eu a ler, mãe». talvez ela tenha desejado compensar a única humildade à vista, ou achado justo ser o meu filho a ler, por ter sido eu a levar o jogo; ou pode ter sido mesmo um acaso. foi giro ter-se resolvido a coisa entre os únicos meninos presentes capazes de dispensar o protagonismo – e talvez por isso mesmo o resultado não tenha gerado protestos, pois estavam fora da contenda.
    esperta e precoce, a tua neta. e desejosa de brincar com o mano como pôde brincar com o cãozinho…

  3. É genético, Susana. É genética a arte de fazer de conta que há acasos felizes, é genética a capacidade de resolver conflitos. E é genético saber ganhar fazendo de conta que se perde. São assim, as meninas de branco. E as de outras cores, também…

  4. susana:

    Estive um pouco indecisa em vir aqui. O JCF disse-me, no domingo passado, que o FV tinha saído do Aspirina. Soube os motivos. Soube outras coisas. Por isso, a vinda e as palavras.
    Não passo por cá há séculos! Fiquei seriamente magoada, tu sabes. Reparei na diferença: de comentadora, fazes, agora, parte dos autores. Li alguns posts teus. Não deu para ler muito porque o tempo é pouco para o meu Sarrabal e outras coisas em que estou envolvida.
    O Valupi continua e ainda bem. Vi que o Carvalheira desistiu. Mas reparei também nos nomes ou pseudónimos dos novos comentadores. Não me lembro de ter lido nenhum na altura da minha colaboração. Os outros desapareceram todos? Aqueles que apareciam quase diariamente a fazer comentários? O tempo passa e as coisas mudam, não é? Desculpa lá tratar-te por tu, mas foi assim que sempre dialoguei contigo. Cada vez escreves melhor!
    Achei curioso este teu post “A Pequena Altruísta”. Ultimamente, criei no Sarrabal espaços para as crianças – textos meus sobre elas ou mesmo textos delas. Depende de nós (autores e família) que elas leiam o que lhes é dedicado. Há coisas fabulosas. Como o testemunho do Daniel de Sá. É uma pena que o tempo, por vezes, as apague da nossa memória. Assim, ficam registadas.
    Saudações para ti e para o Valupi (com o Zé temos sempre a escrita em dia)!

    Soledade Martinho Costa

  5. Tinha que vir dar o ar da sua graça no meu canteiro de amores-perfeitos…
    Há aqui alguém que me diga se devo ou não devo pôr os morangos no frigorífico?

  6. comendador, essa compreensão do ente feminino é que já não será genética, ouso, mas uma dívida á sensibilidade implacável de vossa excelência.

    soledade, muito obrigada pelas tuas aparição e apreciação, embora eu ache que não estou a escrever melhor (como vês vou também tratar-te por tu, ao contrário do que fiz antes. uma pessoa habitua-se a uniformizar o tratamento…). (estás então em posse de mais dados do que os demais, eu incluida!)
    há aí algumas confusões, lembro-te: quando fechou a Soca e entrei no aspirina ainda cá estavas. cruzámo-nos as duas por aqui, como autoras.
    quanto aos comentadores, não sei, não consigo precisar. creio que muitos continuam, mas já vês: se até os autores sofrem de alguma volatilidade, que será dos comentadores, tanto em presença como em assinatura…
    hei-de ir espreitar esse espaço infantil de que falas, no teu sarrabal. é verdade que uma das razões que me levam a escrever sobre os episódios que se passam na vida dos meus filhos é ficar um registo. bem sei como gostam de conhecer histórias deles do passado e, ao contrário do que sempre pensamos, algumas das mais giras perdem-se, quando não registadas.
    gostei muito da tua visita, até porque está aí o verão… ;)

    claudia, não vamos nada, a soledade é muito bem-vinda. e deves pôr os morangos no frigorífico, se ainda não o fizeste.

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