Ninguém conhece melhor os ventos e as ondas que um marinheiro. Por isso sabe quando o mar é de morte. E, se a terra fica a vante, cada vaga pode anunciar fim, funeral e sepultura. Nessa condição pouco mais é estar dentro de uma lancha desgovernada do que agarrado a um destroço.
Mar pela Proa, o livro, novela em pormenor de romance num ritmo alucinante de conto, leva-nos nessa viagem quase última de baleeiros da Calheta do Nesquim, em que, durante três dias, o mar enlutou a terra.
A narrativa corre, vertiginosa. Constante, como que escrita ou dita num só fôlego, semelhante ao som das vagas que saltam as amuradas dos navios mas que, ao rebentarem nas rochas, ouvidas ao longe são apenas uma zoada persistente. E o leitor fica preso nessa teia de palavras, de incertezas e de medos.
O escritor tem sempre nas mãos o destino das suas personagens. Mas, aqui, Dias de Melo dá a impressão de que não se atreve a tocar na sorte que coube viver àqueles homens de quem, e por quem, dá testemunho. Parece que não lhes muda uma vírgula nas cristas nem nas cavas das vagas em que escrevem a vida. À boca da morte há quem se confesse. Há quem viva toda a vida em três dias dela somente. Há quem queira quase tanto salvar o bote que lhe deu pão como manter vivo o último fio de esperança de ainda pôr, pelo seu próprio pé, os pés em terra.
Dias de Melo alcança, nesta narrativa envolvente, medonha e bela, tremenda e fascinante, o equilíbrio perfeito. O equilíbrio das palavras com que narra e das palavras de quem fala. O autor discorre e corre pelo texto fora com a alma na ponta dos dedos, com o coração aflito. Como se ele mesmo, que sabe o que vai contando, ouvisse ainda a história e sentisse os mesmos temores. Repete, num eco com semelhanças de absoluta realidade, a voz, as vozes, dos homens à deriva no mar e no destino. Cada homem se distingue dos outros pelo modo como sente, cada voz se ouve diferente pela maneira como diz. E a sua própria, a do escritor que nasceu para o ser mas que bem poderia ter sido baleeiro e ter estado em tais perigos, é outra, num ritmo musical de fuga.
São de Dias de Melo alguns dos mais belos livros que se escreveram nos Açores. Este tem dentro gente da sua Calheta do Nesquim, gente igual a ele mesmo que dessa gente sempre quis ser seu igual. Por isso é talvez a mais extraordinária das suas obras. Com sabor de crónica e de romance. Com a força bastante para tornar universal, nas suas páginas, a sua aldeia. A aldeia casa comum de um tempo em que a vida de alguém era parte da vida de todos, até aos limites onde chegassem os seus passos, os seus remos ou os seus nomes. De um tempo em que a alegria e a tristeza eram comunitárias. Ainda que algumas traições pusessem em causa essa harmonia da dignidade de ser gente.
O remo que Dias de Melo não usou por profissão terá feito falta na vida dos baleeiros do Pico. Alguém o terá manejado por ele. Mas a sua escrita não poderia ser substituída por nenhuma outra, por nenhuma de outro. O melhor da saga de um século ter-se-ia perdido. A maior parte da vida vivida em terra e no mar pelos seus baleeiros, que ele fez nossos, teria morrido na sua morte. Mas, de cada vez que abrimos um livro de Dias de Melo, de cada vez que voltamos às vagas deste Mar pela Proa, como às pedras que ele escreveu em negro ou às águas que pintou com o sangue rubro das baleias, sentimos que eles vivem, os baleeiros. E as suas viúvas e os seus órfãos. Nenhum baleeiro de Dias de Melo será jamais enterrado no chão do esquecimento. Ele garantiu a todos a perenidade da vida na memória das gentes.