17 thoughts on “Se és professor, precisas de duas lições”

  1. Lembrei-me de uma coisa do Dewey.

    Ele escrevia (não bem com as palavras que vou usar…) que quando o miudo sobe à árvore e descobre o Oceano e grita “está ali o Oceano” o facto de já ter sido descoberto antes dele não retira a originalidade da descoberta.

    Gosto desta frescura da originalidade!

  2. Claro que retira originalidade. Originalidade ou novidade é algo de objectivo.

    É isso mesmo o que o miúdo deve descobrir: que o que ele primeiro julga novidade, afinal não o é. Só assim poderá crescer, buscar e descobrir algo de realmente novo.

  3. Fui recuperar a citação como ela aparece em Dewey:

    “It may be thought absurd to demand originality of everyone. But I think this idea of absurdity is due to having a wrong measure by which to judge originality. It is not to be measured by its outer product; it is rather an individual way of approaching a world that is common to all. An individual is not original merely when he gives to the world some discovery that has never been made before. Every time he really makes a discovery, even if thousands of persons have made similar ones before, he is original. The value of discovery in the mental life of an individual is the contribution it makes to a creatively active mind; it does not depend upon one’s ever having thought the same idea before. If it is sincere and straightforward, if it is new and fresh to me or to you, it is original in quality, even if others have already made the same discovery. The point is that it be first-hand, not taken second-hand from another.” [Dewey, “Construction and Criticism” 1929, (LW5:128-9)]

    Um bocadinho grande mas era para chegar ao: the point is…

    Algumas das consequências:

    1. “We live, someone has said, in a haphazard mixture of a museum and a laboratory” Reconhecimento de que não vivemos num mundo “completo” e “dado” “terminado” mas num mundo que estamos simultaneamente a fazer (ao focalizar interesses, ao investigar certas coisas, a gozar outras coisas).

    2. “Education is one of the great oppotunities for present day pioneering” Reconhecer que um dos papeis da educação é o de cultivar e fortalecer esta atitude de viver em primeira mão (e de não a sufocar). Dewey descreve o modo como os pioneiros viveram o mundo e quer apontar como esse é o ambiente que vivemos, ainda que já não o sintamos como os pioneiros: queremos resolver problemas, gozar muito bem todas as coisas e ficar com um mundo mais facil. A escola pode funcionar como essa viagem para o novo mundo. Entre várias coisas implica que a escolarização deve apontar para a experiência de primeira mão e não apenas a de segunda mão. E um dos problemas é: como comunicar as coisas que foram adquiridas sem esmagar individualidade.

    3. “Each individual that comes into the world is a new beginning” Valorização de cada individuo como participante activo do mundo (pois se a não estamos apenas preocupados com os resultados as pessoas não são”avaliadas” pela sua capacidade de trazer um producto novo para o mundo. Trazem-no na medida em que são um elemento individual novo. O problema de não reconhecer isto é o de deixar que a experiência de segunda mão aniquile a individualidade permitindo a possibilidade do comportamento “mimetico”

    4. “The chief difficulty with adults is very much like that from which children suffer in schools. We do not know what we really want and we make no great effort to find out.” Responsabilização dos individuos. É mais fácil aceitar o que nos é dado. Não só poupa esforço como coloca a responsabilidade fora.

    5.”Creative activity is our great need; but criticism, self-criticism, is the road to its release” Força-nos a reconhecer os laços da criatividade com a capacidade critica porque já que a criatividade não é medida pelo seu resultado temos que nos ocupar com quais os critérios que usamos para prestar atenção a esta em vez daquela coisa, de fazermos este e não aquele gesto, de gozarmos este em vez daquele prazer, etc.

    ……….

    Se levarmos isto a sério podemos fazer coisas mesmo novas!

  4. dina, e que é isso de “levarmos isto a sério”? Atenção, estou apenas curioso, não à procura de pontos de refutação. É a tua expressão, em ligação com os princípios genéricos que citaste, e sumariaste, que me acirram o interesse.

  5. Oh Dina, Dina,

    Que ludovina me saiste, a defenderes a filosofia educacionalista dum admirador do naturalmente extinto sistema soviético. Se calhar daqui a uns dias pões-te a choramingar muito moderna sobre as mortes dos infelizes nos malvados gulagos. Deverá depender de como acordas de manhã, principiando um mundo novo, alterado com mais umas laranjitas ou minhocas de quintal. Claro que não vou esquadrinhar o teu escrito para encontrar as inevitáveis e costumadas baboseiras, tenho mais que fazer,mas pensa nestas palavras sobre o teu ídolo:

    “In 1896 the famous John Dewey, then at the University of Chicago, said that independent, self-reliant people were a counter-productive anachronism in the collective society of the future. In modern society, said Dewey, people would be defined by their associations-not by their own individual accomplishments. In such a world people who read too well or too early are dangerous because they become privately empowered, they know too much, and know how to find out what they don’t know by themselves, without consulting experts”. – Kurt Johmann

    Não domino o inglês como tu, obviamente. Fico portanto à espera que me expliques se haverá alguma diferença entre o que aqui acima se diz das ideias dele e os motivos do teu enorme entusiasmo. SE o homem estiver a ser demagogo também aceito.

    NB Não tive pachorra nem tempo para espreitar esta nova aventura videoica do Valupi. Que ele me perdõe.

  6. Oi Valupi. Obrigado por perguntares.

    Na verdade queria responder-te o melhor possivel e fui revisitar o Dewey. Soube-me bem porque há muito que não relia e revivia a minha leitura dele. Mas quando acabei de escrever pensei que (para além de me ter levado imenso tempo e ter ficado a pensar que parece que descobri uma nova maneira (mas boa) de fugir ao trabalho…) queria dar levesa também aquilo que escrevia… tentei vários finais mentalmente e por fim escrevi isso de levarmos a sério porque me fez sorrir.

    Acho que me fez sorrir porque aqueles pontos são … longos. Dizer simplesmente para os levar a sério era … em si uma graça… mas ao mesmo tempo é verdade que os levo a sério… as minhas respontas mentais tentavam dizer como é que eu tinha assimilado estas coisas…

    Vou tentar responder melhor:

    Levar a sério é

    … hoje de manhã estar enervada porque com a confusão da saida para a escola o meu filho foi só com torradas porque me esqueci de lhe dar o leite. Porque quando saimos de casa à pressa acabo sempre por me esquecer de algo e hoje foi o leite dele. Estava chateada comigo e apetecia-me dizer: Não podemos sair de casa à pressa porque, estás a ver, esquecemos o leite. E respirei fundo e disse a sorrir: não posso ficar a engonhar na cama de manhã… porque senão depois quando me levanto tenho que fazer tudo à pressa e esqueço-me de coisas importantes como dar-te leite. Mas nem sempre é facil responsabilizar-me.

    … quando hesito num gesto do quotidiano porque algo me custa dizer a mim própria que todos os meus gestos contribuem para o mundo um bocadinho e como quero contribuir. E depois suspiro e faço… às vezes é dificil, outras vezes fácil e dou a mim propria imensos crachas invisiveis, outras vezes penso “oops tenho que pensar mais sobre isto”, etc.

    … no trabalho que faço nas escolas: o importante não sou eu (que o meu trabalho fique bem visto, que os meninos gostem de mim, etc) mas que haja momentos para cada um dos individuos no que eu lhes vou possibilitando fazer. Quando faço às vezes uma pergunta e recebo silêncio e depois um “não sei”. Aquele momento de silencio às vezes é uma das melhores coisas que posso proporcionar (um espaço para isso). [isto, claro, é dificil porque nem sempre é fácil distinguir o que são os momentos para cada um…]

    … saber reconhecer que em certos momentos tenho que confiar noutros (essa é a minha responsabilidade): que quando escreveram tinham em mente clarificar assuntos, que quando não me dizem nada é porque não sabem mesmo e não estão a esconder, …. etc…
    (talvez a citação do Dewey dada pelo Crotalo tenha a ver com isso – no mundo onde as pessoas não se responsabilizam não se apercebem que têm também a responsabilidade de decidir confiar nos outros e reconhecer que não são seres isolados…. na verdade crotalo não sei qual foi o contexto em que o Dewey disse isso… nem sei porque é que o Kurt Johmann o cita e com que intuito e se tenta explicar o que quer dizer e, claro, Dewey pode ter dito muitas coisas absurdas… ou mesmo responder irritado com a primeira coisa que lhe aparece na cabeça…

    …. construir maneiras de fazer coisas com outros (está é talvez a parte que está menos visivel nas consequencias…) mas deixo para outra ocasião…

    o ultimo ponto já estava a forçar-me porque sinto isto como incompleto… mas já estou a demorar muito… e a ser muito longa.

  7. dina, não poderás ser muito longa, só demorar muito. Isto porque o html é ilimitado – e de graça!

    O que escreves suscita-me consecutivas perguntas, porque os temas são vastos e inerentemente complexos; isto é, a sua complexidade não é obstáculo, é meio. Agora, selecciono esta interrogação: como “distingues”/compreendes/intuis os “momentos de cada um”?

    Pergunto porque afirmas conseguir, por vezes, identificar num silêncio o valor, ganho, da vossa interacção. E essa intersubjectividade/empatia desperta-me imediata curiosidade.

  8. crótalo, a tua citação é ambígua. porque nem permite distinguir o que se atribui, do que lá está, ao dewey ou ao próprio johmann. sabendo-se que o dewey defendia um modelo de ensino assente na real necessidade e contra-académico, esta frase «In such a world people who read too well or too early are dangerous because they become privately empowered, they know too much, and know how to find out what they don’t know by themselves, without consulting experts» pode ser lida como a análise do segundo sobre o papel que os “especialistas ” perderiam, num mundo (o preconizado por dewey) em que todos soubessem um pouco de tudo, ou fossem capazes de resolver as suas situações sem a consulta do saber académico. seria interessante ter um pouco mais de contexto, para aferir essas variantes, porque se situa claramente numa luta ideológica sobre a consistência do conhecimento profissional e na utilidade de “que ensino”.

    dina, não te rales muito, porque as mães estarão sempre a falhar em coisas que no fim de contas têm pouca importância (um dia sem leite aqui, um dia sem sopa ali). gosto muito do que dizes dos gestos pequeninos.
    engraçada a pergunta do valupi, pois a minha leitura foi imediata (ou talvez imediatista…); presumi ser um silêncio de reflexão, de perscrutação interior na procura de uma resposta. mas agora fico a pensar que haverá mais a encontrar o olho (numa tradução livre da expressão anglo-saxónica) – ou será o ouvido…

  9. Oi,

    Não posso ter a certeza dos momentos de cada um. A regularidade do estar muitas vezes aponta e na sequência confirma os “momentos”. Há muitos tipos de momentos e … acho que também um conjunto de modos de ir criando sensibiliudade para os apanhar e cultivar.. alguns desses momentos têm a ver muito muito com as pessoas que somos, outros dos momentos têm só a ver com o facto de sermos pessoas.

    Por exemplo, esperar em silêncio numa roda grande de 23 meninos enquanto um deles pensa é um momento desse menino independentemente de quem ele seja porque não há muitas oportunidades para se esperar por uma resposta e nas sessões que faço isso acontece. Noto como eles gostam porque muitas vezes o provocam. É bom porque entre outras coisas vamos praticando todos juntos dar o tempo que cada pessoa precisa para pensar. Por outro lado pode haver um bom momento para uma pessoa porque ela é ela… Hoje numa sessão de infantil (4 anos) estavamos a ver o que fariamos se soubessemos tudo. Perguntei à Alexis que ficou com ar de quem estava a pensar. Perguntei-lhe se queria ficar a pensar enquanto eu ia perguntado a outros meninos (na verdade evito fazer isto mas os outros estavam com muita dificuldade em esperar). Depois de ter perguntado a varios outros meninos ela pôs o dedo no ar e disse “já pensei. Crescia” Foi um bom momento para ela… foi dito com tom de conclusão, de quem pensou mesmo na possibilidade de saber tudo e o que aconteceria. Foi um bom momento para a Alexis porque é uma das mais pequenas e não tem muita paciencia para as minhas visitas e ela ainda não tinha vivido uma coisa dela nas sessões. Assim viveu esse bocadinho de atenção a uma pergunta e vocalizar uma resposta…. Mas só as futuras sessões (ou outros acontecimentos da sala) é que podem ir revelando se foi mesmo um bom momento para ela como me parece.

    Outras vezes é porque vou conhecendo os meninos e meninas e eles fazem pequenas coisas para dizer que foi bom para eles: A Ana Maria que passou por mim no corredor e disse “hoje o jogo…” e pos o polegar para cima a sorrir. Por momentos pensei que ela era a minha mãe a dizer-me “boa dina”…

    Outras vezes reconheço-me pequena… outras vezes reconheço descrições que outras pessoas me fizeram… outras vezes são os proprios meninos e meninas que relembram ocasiões (às vezes meses depois de as terem vivido)…

    E não me lembro de um engano meu mas de certeza que imagino que me engano por vezes nessa minha avaliação. Por isso, por exemplo, é bom fazer sessões com outras pessoas e ouvir como foi para elas…

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