Inversão? Perversão?

Da crónica de Rui Tavares, hoje no Público:

«Se falo em “carreira” é porque Durão diz na mesma entrevista [ao DN e à TSF] que não gosta da expressão “carreira política”. Declarações portentosas vindas de quem, sobre a Guerra do Iraque, diz ainda o seguinte:

“Não temos que estar de forma nenhuma arrependidos da posição que tomámos. Portugal não perdeu nada, também na Europa, com isso. Repare, depois das decisões que tomei, fui convidado a ser presidente da Comissão Europeia e tive o consenso de todos os países europeus. O que demonstra que o facto de Portugal ter tomado naquela altura aquela posição não prejudicou em nada, em nada, a imagem de Portugal junto dos seus parceiros europeus.”

Durão Barroso pode não gostar da expressão, mas faz da sua carreira política a medida de todas as coisas. Aquelas frases sugerem bem como funciona a sua cabeça e a de tantos políticos como ele. Portugal não tem que estar arrependido do apoio à invasão do Iraque. Porquê? Porque “não perdeu nada com isso”. Não perdeu o quê: honestidade, credibilidade, autoridade moral? Nada de tais coisas; foi a nossa “imagem” que não sofreu. E como sabemos que a nossa “imagem” não sofreu? Porque a carreira de Durão o “demonstra”.

Esta é a mais pura inversão moral. A carreira de um indivíduo é a medida da imagem de um país. A imagem de um país é mais importante do que o seu comportamento. E a opinião dos parceiros – em geral mais ricos, poderosos e brancos – é mais importante do que o destino de gente que é menos qualquer dessas três coisas.

Muitos anos, muitos jornais e muitas crónicas depois, pergunto-me se será demasiado ter uma palavra sobre os quinhentos mil mortos e quatro milhões de refugiados desta guerra. Mas afinal, os portugueses não devem preocupar-se com isso, porque Durão Barroso veio depois a ser nomeado para um cargo importante. Mais alguma coisa interessa?»

Primícias 3

Lá fora batem rijos os aços do comboio furando a noite, alguém lhe chamou idêntica, será verdade. Do que não há que duvidar, se ela própria o afirma, é chamar-se Geneviève esta mulher, e regressar a casa depois duma semana inteira de lições numa escola de sociologia, malquista ciência esta em Portugal, se todas, há séculos, o não são. E de novo lhe aflora ao rosto uma surpresa, agora sim, real e verdadeira, quando sabe serem portugueses estes viajantes de gesto polido, de semblante cortês um pouco melancólico, que falam bem francês e se dirigem a Paris. Dos portugueses, que há anos povoaram a França, tudo quanto lhe consta é serem eles muito sofridos nos trabalhos rudes e elas porteiras humílimas, quem é que falou um dia em rainhas destronadas, uns e outros vivendo em bidonvilles, e a salvarem às vezes da lixeira, a horas da madrugada, bonecos manetas e ursinhos de olhos vazados, com que os filhos hão-de brincar. De Portugal tem sabido alguma coisa pela imprensa, no último ano falou-se bastante duma revolução de flores com militares à mistura, ou duma estranha revolução de militares misturados com as flores. Ao dizer isto a mulher riu-se do jogo de palavras, e logo tropeçou no ar subitamente sério de Gabriel, que não apreciou o trocadilho, para socióloga andará a senhora pouco atenta às realidades do mundo, chama-se a isso na minha terra espeto de pau em casa de ferreiro. Geneviève acusou o toque, faiscou-lhe no olhar uma vibração imperceptível, um virar subtil de agulha, e foi então que deixou cair o pedido cortês, fala-me da tua revolução.

Gabriel apanhou do assento a revista que pusera de lado, alisou-lhe a palma lenta da mão sobre o joelho, ganhou alguns segundos na busca deste fio de novelo emaranhado, e começou a responder.

A minha revolução é uma história marcada há muitos anos num calendário antigo, minha cara senhora, a minha geração tinha-a inscrita no destino desde há séculos, como se os portugueses vivessem ainda no tempo das tragédias gregas, suspensos da mão de fados caprichosos. Nessa história muitos lances dariam para rir se tão trágicos não fossem, alguns de nós se habituaram há muito a olhá-los como farsa e viram costas, por lhes parecer este o modo mais fácil de os esquecer, quem vai agora averiguar razões. Ademais não se deslinda em meia dúzia de palavras, sem esforço e muito tempo, ainda bem que Paris fica longe, a uma noite inteira de caminho.

E, se por algum lado havemos de começar, dir-lhe-ei que existiu em Portugal, um dia, um rei magnânimo e beato, ninguém lhe veio a chamar rei-sol porque um francês qualquer se antecipou, o qual se divertia a assistir aos autos-de-fé dos padres na ribeira do Tejo, e gastou o melhor da vida a povoar o reino de bastardos, que semeou a esmo nos abrasados ventres da freiria incontável de Lisboa. Um dia chamou para lhe estudar o reino o senhor Merveilleux, naturalista suíço, reputado de fama e promissor de nome, pois quem não tem ciência paga por ela, toda a vida assim foi, mormente em se tratando do rei de Portugal que não tem precisão de olhar a despesas, assim se mantenham firmes os filões de oiro do sertão do Brasil.

Comprovam os achados botânicos da utilíssima genciana, curadora de pestes e abundosa nos altos lugares da província da Beira, que o suíço meteu pés aos caminhos e fez o que dele se esperava. Mas não ficou por aí. Homem atento e oportuno, vindo a saber das descargas de salitre que os mercadores traziam da Holanda, concebeu o plano de explorar os abundantes filões de Alcabideche. E apresentou os seus empenhos numa noite, ao serão com o velho marquês de Fronteira, vedor da fazenda, presidente do desembargo do paço, membro do conselho de estado e mordomo-mor da rainha austríaca. Havia de parecer adquirido o desembargo da empresa, melhor porta não havia onde bater. Porém, em vez do bom despacho, o que o homem ouviu foi apurada lição de ciência política, e a prova cabal, se falta cá fizesse, de como em Portugal é subtil e engenhosa a arte de governar.

Diz o marquês que numerosos estrangeiros vêm apoquentando el-rei com suas memórias e propostas, visando enriquecer-se a si próprios e ao reino através da agricultura ou das manufacturas, ignorantes de que tais iniciativas e empreendimentos não convêm ao bem do estado, e menos ainda ao sossego e à ventura dos seus habitantes. Pois já que Deus fez do reino o dono de todo o ouro que se tira do Brasil, quase sem ter de cavar, e pois que esse ouro está distante, a mais de duzentas léguas para o interior, o único perigo à vista é a cobiça dos países estrangeiros, que, assaltando os nossos portos, poderiam vir a privar-nos do desfrute de tais tesouros. Nada disso acontecerá, porém, enquanto os ingleses dispuserem do país como vazadouro dos produtos das suas terras e indústrias, caso em que verterão o seu sangue até à derradeira gota, para nos defenderem.

Não têm outra escolha os ingleses, senão trabalhar e proteger-nos, e lá terão a paga assegurada, chega a dizer-se que o ouro do Brasil não alcança a pôr pé em terra portuguesa, que sai das nossas naus para entrar nos porões das armadas inglesas. E assim será, porém do mal o menos, antigamente eram as fragatas holandesas o baú do ouro das Índias, sem mais contrapartida. Pois nós damos aos ingleses maior lucro do que todas as outras nações juntas, sendo eles os únicos a embarcar os nossos vinhos do Douro e as nossas tenras vitelas do Barroso, para uns e outras nos falta a nós aguçado paladar.

Havemos, isso sim, de temer-nos de franceses, prosseguiu o marquês, de quem gostamos mais que dos ingleses, já que somos da mesma religião, e até lhes damos a casar as nossas filhas. Mas a protecção duns nos é mais útil do que a amizade doutros. Os franceses podem fazer-nos guerra sem ferir o seu comércio, e já o teriam feito se não se temessem, no que seriam prontamente ajudados por outras potências marítimas, zelosas das parcas moedas de ouro que os ingleses lhes deixam. E se estes não levam tudo é por mera artimanha política, já que poderiam fazê-lo, dispondo, como dispõem, abundantemente, de toda a qualidade de mercadorias que nos convêm.

Iguais são os motivos por que não desejamos dar-nos à exploração das minas de cobre do Algarve, e das minas de estanho e prata das partes setentrionais do reino, pois assim iríamos arruinar um dos ramos do comércio inglês. Vós sois suíço, vindes dum país que não tem interesse em contender connosco. Por isso vos falo com o coração nas mãos, e vos revelo o político segredo em que assenta a nossa ventura. Só com Roma não podemos manter altercações, já que Roma, embora precisada de nós, nem por isso deixaria de nos prejudicar. Demasiada bulha vem fazendo el-rei, sem falarmos agora do dispêndio de fazendas, só para que os núncios de Sua Santidade em Portugal tenham direito ao chapéu cardinalício. Para açular a inveja dos nossos vizinhos, bastam as bênçãos que Deus nos distribui no Brasil. Havemos, pois, de viver em paz com toda a cristandade, e governar-nos por tal forma que, se uma parte das nações conspirar em perder-nos, a outra se desunhará para nos defender. Deus nos valerá!

Mas não valeu.

Há quanto tempo não danças?

Estava para começar este texto com “As pessoas dividem-se em dois grandes grupos, as que […]”. O meu daimon avisou-me, a tempo, do duplo erro. É que as pessoas não se dividem, mas juntam-se. Em pequenos grupos. Para dançar. E há quanto tempo não danças?

Sonho com uma Escola onde, ao se concluir a escolaridade obrigatória (e tudo o que é bom deve ser obrigatório, que ninguém se engane), os alunos denunciem à polícia quem conduza alcoolizado, se tornem viciados em teatro e odeiem aqueles que deixam entulho nos baldios e lixo nas praias, ao ponto de lhes querer bater com alguma força para lá da necessária. São estes apenas alguns exemplos de critérios de sucesso escolar que eu irei impor ao País logo que tenha esse poder. Um outro critério é o de saber que a vida é para ser levada a dançar. Quem não dança, sofre. E pode dar-lhe para escrever. Quantas cartas, quantos livros, quantas carreiras de escrevinhador público (quantos blogues!), teriam sido evitados — com proveito próprio e geral — se os seus autores tivessem ido dançar em vez de se terem posto a escrever mal amanhadas lengalengas? É que a escrever, nada resolvem. E depois dá-lhes para escrever ainda mais. É desgraçado.

Portugal está numa gravíssima carência dançarina. A sempiterna crise — que é moral, antes de ser política e económica — dá-nos baile também porque já não bailamos. Os nossos avós e bisavós e tetravós, os mais rurais, com quase nada para pôr em cima do corpo e do prato, alegravam-se nas festas de uma forma plena, sublime, erótica. Dançavam e cantavam; ao longo do ano e do dia. Nós, em comparação, usamos a abundância para privarmos o corpo da sua liberdade, para vivermos empanturrados e saciados de miséria corporal. É que um corpo que não dança, não fala. E se não fala, não ama.

O que mostro não é dança, é cinema. Cinema que dança. Duas das minhas obras-primas favoritas, de toda a arte do século XX, cabem em poucos minutos e têm Cyd Charisse a lembrar-nos que as pernas também servem para nos levar para perto. E cada vez mais perto. Levarem-nos para a dança, para o espaço que se atravessa com o corpo a puxar pela alma — ou seja, para aquilo que em nós ainda está por chegar. E que sempre estará a dançar connosco.

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Ticha, trate-me por Ticha

Ontem, para documentar a primeira visualização pública do É dreda ser Angolano, escrevi à pressão uma pequena (vá lá) rábula em que deslocava o protagonismo do documentário para… a ficha técnica. A ideia original era gravarmos isto em vídeo à entrada do São Jorge, logo a seguir à projecção. No entanto, a forma calorosa como as cerca de 100 pessoas que assistiram ao visionamento receberam o documentário impossibilitou a filmagem da coisa (o documentário vai entrar agora em fase de pós-produção para os retoques finais de imagem e sonoplastia). Como não sei quando irei convencer o Pedro Costa da Fazuma a gravar este mambo tipo reportagem-entrevista, deixo aqui o guião em bruto. A ideia original era bem gira e surgiu durante uma conversa entre mim, o Pedro Costa e a Carolina Bernardo. Se não gostarem da resultado final, a culpa é, naturalmente, deste vosso escriba.

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Elvira

Elvira ia, desprevenida de penas desta ou da outra vida, aos matos ou ao moinho, e não lhe dava cuidado pensar muito em virtudes que, na sua idade e pela sua condição, eram difíceis de guardar. Do mato voltou sempre igual a como ia, mas na solidão do moinho teve o seu amor de perdição. Se é que amor se podia chamar àquilo, o moleiro na sua ardência juvenil, ela com pouco entusiasmo conformada, porque ele lhe moía o alqueire de milho sem descontar a maquia devida pelo seu trabalho. E mais pudera, se ao menos essa pequena graça lhe não fizesse!…
Habituada a muitas fornadas, a mãe logo notara, na primeira vez, farinha a mais. Admirada, perguntou a Elvira:
– O moleiro esqueceu-se de maquiar o nosso milho?
Bem bom que os pulos do coração não se notam, se não se leva o ouvido ao peito ou a mão ao pulso, e assim escapou de deixar a descoberto uma clara aparência de que escondia alguma culpa muito grave.
– Não senhora, como a gente são pobres, ele teve pena e não maquiou.
Tendendo o pão da maquia a mais, sem mal cuidar no que ouvira, a mãe levantou os olhos para o tecto negro do fumo, e exclamou, como que numa jaculatória de acção de graças:
– Ainda há gente boa neste mundo!…
Quando Elvira percebeu que ia ter um filho numa idade de ter irmãos somente, não pensou que o Mundo se acabasse por causa disso, mas que se acabaria o seu mundo. Iria morrer de vergonha, matava-a a mãe, matavam-na as más línguas – e todas tinham razão nessa morte, que deveria ser quase como morrer deveras. Com muita ansiedade e muito medo esperou o dia de levar a saca com o grão para moer, três noites seguidas em que mal pregou olho, três dias em que mal provou bocado de pão.
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Anti-elegia da Beira-Tejo

Um sonho de Outono: sermos editores de José Luís Tavares

*

Vejo-os balouçando nas patas trôpegas,
palmípedes vorazes sob a garoa febril.
Ardeu-se-lhes a juventude nas plumas desgrenhadas
e já nem este mijo outonal os faz recear a pestilência
fosforescendo como um desígnio cautelar.

A tantos foram alimento por tardes soneteiras,
mas agora que o céu oculta vozes e cores
e deus essa babugem cantante,
quem acende nas margens hesitantes
o tumulto irmão da ira?

Ó aves, que um falcoeiro outono
difracta em sarro, nuvens, fogueiras,
agora sois apenas ténues fotogramas
iluminando a insónia — o tempo,

esse relojoeiro cego, quebrou vosso encanto;
baixou sobre vós a heráldica da dissolução;
embora a reverência compassiva cascateie
louvores em jacentes metros doutrora.

Vós, aéreos náufragos, concedei-me o passo
vacilante com que à tarde o frio trazeis
em vossos desdoirados bicos — ficará,
decerto, o azul doutra lembrança,
coloridos prospectos apreçando o sol
olhando lisboa cinza agora sobre o rio.

Charmes do ócio

Sob a insustentável pressão de três Costas – o JP, o Confúcio e um discreto indivíduo que paira benfazejo sobre o Aspirina – aqui vai mais um capítulo, o terceiro, de certo romance in fieri. Não se promete mais nada, nadinha.

*

Vá-se lá entender como estas coisas transpiram. Haverá, terá de haver, leis a reger os humanos. A ordenar o vaivém no palco dos nossos actos, mesmo os mais medidos, mesmo os mais falhados. Como compreender, de outro modo, que um autor modestíssimo, e, para dizer tudo, uma futilidade de cima a baixo, como é o Damião Marreiros, se tenha permitido os tons insolentes com que esta tarde me filou? Eu havia passado o fim-de-semana a aparelhar-lhe as cenas do romance, tentando alentar os parcos méritos de um ou outro episódio, esbatendo a brusquidão de golpes de teatro, estranhamente abundantes. Nunca rejeitei nenhum original, por mais desesperado de formas. Tudo quanto me veio ter às mãos acabou publicado. Cheguei a lutar, contra toda a coerência, contra toda a sanidade, pela obra mais disforme, o enredo menos aconselhável. Quando, há três ou quatro semanas, me trouxe O Olhar do Ciclope, foi um mesureiro, suplicante, Damião quem insistiu em narrar-me «em poucas palavras» o essencial da intriga. Meia hora levou no intento, surdo ao meu desejo, ao meu quase direito, de vir a ler-lhe a história com um mínimo de lastro, com algum resíduo de surpresa. «Só terá a ganhar com isso, Marreiros.» Não me ouviu. E daí, sou sincero: sem esse dengoso relato, ter-me-ia sido incomparavelmente mais difícil entrar pelo desnorteio a que ele chamara ‘romance’. 

Pois bem, hoje, foi um outro Damião Marreiros que me entrou no gabinete. Sim, é verdade, tenho desde há pouco um gabinete. A última desavença com o Luciano teve o bom efeito de se me dar finalmente um espaço próprio, onde possa sem constrangimento, meu e deles, receber os autores, expor-lhes o que melhor entendo, ouvir-lhes as dúvidas, aparar-lhes as defesas. Era meu hábito levá-los para o café, onde a conversa, e mesmo a discussão, tinham o charme do ócio, e onde estávamos, eu sobretudo, ao abrigo das antenas do Luciano, da Irene, do Marcos, que nunca perderiam uma observação, uma réplica.

«Você estragou-me o romance», prorrompeu o Damião, cruzando a perna. A Micas tinha-nos trazido dois cafés. Fiz-me de parvo. «Acha?» A brandura não o desfez. «Está visto que não entendeu nada.» Escolhi alargar a volta, sabendo-se que pode levar tempos a convencer um autor. «O que é que o senhor Marreiros acha que não entendi?» «Nada», atirou, «o melhor escapou-lhe.» «O melhor?» «Sim, o que a Joana vai fazer na casa de praia. Ela nunca foi lá, não percebeu? Ela nem sabe onde a casa é. São tudo sonhos. O Filipe já morreu.» «O Filipe já morreu?» Do meu espanto escorria sinceridade. O Damião destraçou as pernas. «Logo vi que você…» E não foram as reticências, foi uma atrevida, como dizer, uma impune ameaça, o que logo movimentou todos os meus alertas. Confessei: «O senhor é livre de ter em conta as minhas propostas. Eu não sou aqui patrão.» Logo me achei defensivo em demasia, segredei-me que, para insolente, insolente e meio. Só que eu ainda não digerira o inesperado do episódio, daí aquela vacilação. É isso, ninguém é perfeito.

Facto é que o Marreiros, que vinha para a guerra, não previra o meu recuo. «Deixa-se então o que eu entreguei.» Mas era-lhe audível a convicção abalada. Também ele, depois da minha trabalhosa leitura, intuíra fraquezas na narrativa. Simplesmente, o mundo teria que ser muito melhor do que é, e o Damião mais esperto do que nasceu, para sermos poupados ao que então sobreveio. Vi-o levantar-se, reunir as peças, dirigir-se à porta e, já com a mão no trinco, atirar: «Não se apoquente. Mais dia, menos dia, você troca com o doutor Malta. Ficam-lhe as vírgulas. Espero que se divirta.» E, antes que eu pudesse atinar com um gesto, com um tom para a voz, desapareceu.

Olhei-me dentro de mim, e vi-me calmo. Coisa inaudita, já que, por bem menos do que aquilo, costumo dar comigo em pânico. Mas não. Em qualquer esconso da mente, algo me sugeria que, na vida, havia coisas mais atrozes do que a missão que o Luciano pudesse desempenhar na Terra. Que, ao fim e ao cabo, a minha labuta, se era compensada com o lisonjeiro ascendente que me cabia, não me deixava menos esgotado, deprimido, envergonhado por interposta pessoa. E, maior mal ainda, ao mesmo tempo que, fim-de-semana após fim-de-semana, eu aprontava best-sellers, o meu casamento definhava e o meu filho crescia sem mim. Não, a Clara nunca mo lançou em rosto, mas as minhas façanhas literárias clandestinas tiveram sempre de parecer-lhe mais absorventes do que a existência dela. E só espero que o Diogo, vinte e um anos ajuizados, tenha aprendido a distinguir entre o comedido carinho que sempre lhe dei e um autêntico desinteresse. Mas nem disso estou certo.

Assistir a um jogo de futebol é perder a alma

Escrevo sobre livros desde 1978 (iniciei-me no Diário Popular) e continuo a considerar que ler um livro por semana faz bem à saúde. Se for para manter uma coluna num jornal, então ainda melhor. Ganha-se pouco, mas é muito divertido.

Esta semana calhou-me A misteriosa chama da Rainha Loana de Umberto Eco. Na página 362, o autor conta que um dia o pai o levou a ver um jogo de futebol e tudo aquilo lhe pareceu sem sentido. Logo, se o mundo não tem sentido, é porque Deus não existe. Foi falar com o Padre que lhe respondeu: «Meu filho, acreditaram em Deus grandes escritores como Dante, Manzoni e Salvaneschi e tu queres ficar atrás deles?»

Lembrei-me desta história quando li, no Record do dia 10, a atribuição de uma medalha de lata a Laurentino Dias porque o secretário de estado do Desporto insinuou que são os árbitros quem decide os campeonatos de futebol em Portugal. Por sua vez, o presidente de Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol terá desvalorizado a frase do membro do Governo, mas não deixou de dizer que este seu dito não ajudou em nada a imagem da arbitragem.

Ora, nas primeiras nove jornadas, a equipa do Porto beneficiou de cinco golos irregulares. Na segunda jornada (Sporting), na terceira (Leiria) na quinta (Paços de Ferreira), na oitava (Leixões) e na nona (Belenenses) os azuis e brancos tiveram cinco golos ilegais. Não é de estranhar que o secretário de estado tenha dito o que disse.

Eu deixei de comprar jornais e vou lê-los ao barbeiro. A vida está difícil e há cada vez mais gente a fazer o mesmo. A alma do futebol já se foi; o que fica é o clubismo. O emblema na lapela, o cartão no bolso e o cachecol na mão são as últimas memórias da alma do futebol. Memórias apenas. Porque a alma já não existe.

É dreda ser Angolano

É só para avisar a malta que se interessa por essas coisas (há gajos para tudo, né) que amanhã, 6.ª-feira, às 20h, no âmbito da extensão VIMUS do Festival Cosmopolis, o Cinema São Jorge irá ser o palco da primeira visualização pública de É dreda ser Angolano, um mambo tipo documentário inspirado nessa obra-prima da música urbana lusófona que é Ngonguenhação do Conjunto Ngonguenha. Tudo muito humildemente produzido e enrolado pela Rádio Fazuma. Graças ao gentil convite do Pedro Costa (que, a par do Luaty da Silva, é o verdadeiro mentor deste projecto), tive o privilégio de colaborar na feitura do documentário e, se tal não colocasse em cheque a minha lendária modéstia, diria que o resultado de quase dois anos de trabalho é absolutamente avassalador.

Até lá, fiquem com o videoclipe do tema «É dreda ser Angolano» do Conjunto Ngonguenha, que funciona como um mambo tipo trailer do mambo tipo documentário. Apareçam: verão que não se irão arrepender. Ah: e se houver um gajo a manifestar-se de forma histérica durante a projecção, já sabem que sou eu.

Os olhos do abutre

A pedido da Sininho, sob pressão de várias famílias, e desvairado com os elogios que cobriram o primeiro capítulo, aqui coloco o segundo de Deus Chega no Próximo Avião. Mas não se promete mais nada.

*

Vai fazer em Abril oito anos que vim para a Água Líquida. Entrei pela mão do dr. Domingos Pompeu, que Deus tenha, um homem bom como poucos conheci, e que me foi buscar ao Observador, me «comprou», expressão muito dele, chefe de uma equipa reunida a dedo. Eu estava bem no jornal, estava mesmo nas minhas sete quintas, era conceituado, «adorado», no tocante dizer da Micas, enfim não havia razão de mudanças. Via-me ganhar tranquilos cabelos brancos – e ganhei alguns – naquele cubículo do terceiro andar onde me cabia passar a pente fino a edição. Todos me estavam gratos para a vida inteira. É que ninguém resiste à imagem do director lendo a nossa peça, exactamente a nossa peça, e dizendo consigo «Dá-lhe um jeito, este sacana!». Eu era o copydesk mais invejado de Lisboa, valia uma fortuna. E foi essa fortuna que o excelente dr. Dominguinhos sacou um dia ao banco.

A transferência, se deu aquele brado todo, deu também horas amargas aos proprietários do Observador. O semanário mais apresentável do País – da Península, dizia-se – passou a sair à rua falho dos brios que os meus olhos de abutre asseguravam. Dez anos naquilo levei, contas redondas. Fui descoberto aos vinte e quatro, e nunca mais o jornal foi o mesmo. Tudo me caía sobre a escrivaninha, tudo me invadia o ecrã. «O Gildo passa os olhos por isso», «O Gildo depois ajeita». Era o meu estandarte, pudera transformar-se no meu pesadelo. Consegui meter lá a Viviana e o Artur, dei-lhes um curso nos meus segredos, e pude um mês por ano afastar-me para o Alentejo, com a Clara e o Diogo.

Na Água Líquida fui recebido em triunfo. A editora saíra da zona de perigos, e achava-se naquela etapa eufórica em que até os maus autores acabam contagiados. Diante da minha secretária se sentaram um dia, encolhidos, minguados de palavras, três actuais best-sellers. Fui parteiro de outra gente, mais modesta, mas mesmo assim hoje meninos do meu orgulho. Tive, até este momento, o gosto de vê-los, a esses, salvos do desvaire que toma aos outros, os que, ainda os capítulos finais estão por pensar, têm já edições esgotadas. Quanto escritor não há entretanto por aí – dói-me, só de nisso pensar – que vai ler a escolas os capítulos mais inteligíveis do seu livro, deliciando os putos com a minha fluência, com a minha inventiva. Nenhum irá jamais confessar que fui eu quem, à débil trama primitiva, ao tosco da locução, trouxe luminosidade, deu robustez. E, se, em parte recôndita do cólofon, um ou outro consentiu que se assinalasse, em tipo seis, tipo oito, «Revisão de Hermenigildo Vilena», mesmo isso desaparece, nunca descobrirei por que artes, às edições seguintes.

Simplesmente, jamais me deixei tomar de vinganças. Sou um tipo discreto, sempre o fui, e retiro gozo suficiente de uma escondida contribuição para glórias alheias. Sem descanso, continuarei a fazer, também, o trabalho miudinho, ir verificar uma data, um nome de personagem ou localidade, a grafia exacta de um barbarismo. Cuidarei de que as estações do ano se sigam coerentemente, de que as personagens não mudem levianamente de nome, de profissão, de estado civil. Irei sempre ver se tal marca já existia à época, se tal designação já fora popularizada, se aquela estação ou linha de metro já estava aberta, se o tempo de uma viagem de carro combina aceitavelmente com as distâncias. Continuarei a estimular a coerência no relato, no retrato íntimo das personagens, no que se pode saber e no que se deve ignorar. Quando um livro sai do meu computador, sai irreconhecível. Mas era aquele o livro com que o escritor sonhava, o livro que agora chamará seu, com naturalidade, com infantil confiança. Aí está um prazer que ninguém me arranca.

Mas, pobre de mim, não será dos autores que vai esperar-se que refiram, em entrevistas, o senhor que lhes cozinha e tempera as obras-primas. Todos terão sempre uma escusa magnífica, e eu serei o primeiro a aprová-la. É que o meu benemérito ofício não tem, nunca teve nome. Porque, como chamar a esta minha função, tão rarefeita, quase incorpórea? A de «redactor»? A de «revisor»? A de «conselheiro redactorial», como a Noémia gostaria de me titular? A de «editor», pondo-lhe a melhor pronúncia britânica? O dr. Cícero Pompeu apresenta-me às visitas como seu «coordenador literário». É, de tão inócuo, quase adequado. Sem título a que segurar-me, sem categoria com que se me defina aos olhos das gentes, eu faço meio mundo feliz, e, tranquilamente, não existo.

O RAPTO DAS ASPIRINAS

Na sexta-feira abateu-se uma catástrofe sobre o AspirinaB. Foi logo após a saída dos últimos enfermeiros que se encontravam nas novas instalações, ainda em acabamento. Indivíduos por identificar invadiram o edifício. O incidente foi relatado e parcialmente filmado por um popular que se encontrava nas imediações. Quando eles saíram, com as aspirinas amarradas e amordaçadas, arrastando-as a toque de caixa, eu escondi-me, contou.Receei filmá-los a meter as aspirinas no camião, não fossem partir-me a câmara, ou pior!, levar-me também. Mas seria capaz de os identificar em qualquer lado. Eram de estatura mediana e estavam vestidos de preto, todos encapuçados.
Pouco depois, deu-se a explosão, da qual apresentamos também videoprints. Os bombeiros mostraram-se impotentes na luta contra as chamas, acabando o edifício por ruir, ao fim da noite. De madrugada o fumo substituía as labaredas e os mirones foram evacuados por perigo de sufocação.
Neste momento, e porque pudemos contar com reforços inestimáveis, já temos tudo de pé. Uma falha técnica está a atrasar o visionamento das imagens e estas irão para o ar assim que possível. Podemos voltar a brincar ao recreio da escolinha. Eis-nos, então, de regresso às aulas.

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Raul Brandão – do «Mercure de France» ao Círculo Eça de Queirós

É uma das novidades da «saison» este «Portugal no Mercure de France – aspectos literários, artísticos, sociais, de fins do séc. XIX a meados do séc. XX». A tradução e a coordenação cabem a Madalena Cruz e Liberto Cruz e a edição é da Roma Editora. Este livro é um monumento de 707 páginas com a reunião das crónicas escritas ao longo de 50 anos por Philéas Lebesgue sobre os livros de escritores portugueses que lhe iam chegando à sua casa de La Neuville–Vault e que entre 1896 e 1951 recenseou na revista Mercure de France. Raul Brandão é um dos mais assíduos frequentadores das páginas do periódico. Desde 1896 até à sua morte inesperada no dia 5 de Dezembro de 1930.

Horas depois do lançamento deste livro, estou no Círculo Eça de Queirós ali ao Chiado e assisto à apresentação de um livro de entrevistas de António Ferro a Salazar. Não vejo Rita Ferro, velha conhecida minha da revista Ler, mas Mafalda e António oferecem-me uma verdadeira preciosidade. Trata-se do fac-símile do protesto dos homens de letras, jornalistas e artistas portugueses em 17 de Julho de 1923 contra a Censura policial à peça teatral «Mar Alto» de António Ferro.

Numa lista de escritores, jornalistas e artistas plásticos que inclui António Sérgio, Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, Aquilino Ribeiro, Alfredo Cortez, Luís de Montalvor, Artur Portela, Eduardo Malta, Augusto Santa Rita e Mário Saa, a presença do nosso querido major em primeiro lugar num protesto contra a «precipitada e injustificável proibição de um drama por uma autoridade policial» é hoje, em 2007, um sinal.

Mudam os tempos, mudam as vontades, mas não mudam as coisas essenciais da vida.

Não sei que título hei-de dar a isto

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Uma mulher com este rosto adorável, de sua graça Margaret Heffernan, tem de dizer coisas e loisas muito certas. Em especial para um português a trabalhar em Portugal. Porque nós, os portugueses a trabalhar em Portugal, temos em 157% a probabilidade de estarmos sob a alçada de um palhaço qualquer que mergulha de cabeça no perfil de incompetências aqui caracterizado. Trabalhei com um patrão que exibia as 10 pechas apontadas, mais umas 20 não referidas. Ou seja, trabalhei a mando de um típico, normal, mediano, banal, comum gestor português. Esta alimária (Inertissimus Administratoris Lusitanus) não percebe a ponta de um neurónio de relações humanas e dinâmica de grupos. No fundo, desconhece por completo o que é uma pessoa — e não tem ninguém à sua volta com o discernimento e coragem moral (às vezes, também coragem física) para lhe dizer que ele, ou ela, é uma autêntica besta. A baixa produtividade nacional tem a sua primeira causa na alta imbecilidade de quem dirige, como os nossos emigrantes confirmam em todo o cu do Mundo.

Chamo a atenção para o último ponto, o qual é o mais importante de todos (para mim; e talvez para a autora, por encerrar a diatribe). Voltarei a ele em breve, pois relaciona-se com uma nova concepção do trabalho que remete para este salto civilizacional que estamos a dar, e onde seremos todos intelectuais, cientistas e artistas, no próximo paradigma económico — quer te dês conta disso ou continues a olhar para o palhaço.

Sentença exemplar

Lá pelo ano de 1858, na ilha do Faial, havia um homem, viúvo, que tinha o usufruto dos bens da mulher defunta. E tinha também uma criada, que não sei se fazia parte do usufruto, mas que parece que ele usufruía. E por isso lhe dava a vestir as roupas da amantíssima esposa que Deus levara a contas jovem ainda. Pois contas lhe pediu um herdeiro da senhora (o embargante), exigindo que ele lhe entregasse os atavios da dama extinta, ou deles prestasse caução. A questão foi levada a tribunal, e mereceu uma curiosíssima sentença do juiz da Horta, homem que, pelo seu sentido de humor, deve merecer a nossa admiração perpétua. Quem tal não admirou foi o Tribunal da Relação, que nesse tempo havia em Ponta Delgada, que mandou dar-lhe uma grande descompostura, de cuja leitura foi encarregado o juiz da comarca mais próxima, que era no Pico. O juiz da Horta teve de descer da sua cadeira, e, à vista e aos ouvidos de todos o seus inferiores, foi assim que ouviu a severa admoestação. Que não merecia, penso eu. Opinião que se perceberá melhor passando a uma das partes mais interessantes da sentença, na qual o juiz justificava a decisão em favor do embargante, que se insurgia contra o facto de o embargado dar a vestir à criada as roupas da mulher finada. Sentenciou a seu favor, é certo, mas aproveitou para ridicularizar o homem, como se verá.

“Seria o embargante qual outra primavera de touca, caso se apresentasse enfeitado com um dos vestidos daquela relação a fl. 3; sobrepondo o apertado espartilho, tornando-se assim uma jovem fantástica; e demais se ainda em volta do seu níveo colo voltas desse de fios de finos corais, e se cobertos os dedos de brilhantes anéis, e em desdém sustendo fresco de que, seria, não uma encantadora bela, mas uma decrépita personagem hábil a afugentar assustadas crianças. Era justo pois no requerente arredar para longe esse espectáculo sem privar contudo o mesmo embargante do usufruto de tais objectos.”

Na sentença se faziam outras judiciosas considerações, como aquela em que se justifica, pela leis de Deus e da natureza, que o embargante, também viúvo (e assim se percebe para quem quereria as roupas e atavios) sentisse como é frio o frio que sente quem vive só. Eis, a esse respeito, outro mimo. (Mas faço este parêntese para dizer que, no texto, está “ultémas”, que suponho tratar-se de “ulemas”, como o são os talibans, capazes de inventar sempre a melhor maneira de ler o Alcorão a seu favor.) “Verdade é que o ano não vai bem para enlaces matrimoniais. Uns saem mancos, aleijados, outros farfantes e de estulta impostura, mas não é decerto a tanto que se pretende expor o embargante, que antes quer seguir o conceito do velho abade do Bispado de Viseu, que tendo-lhe recomendado observar a constituição do mesmo Bispado que só consente aos revd.ºs párocos ter criadas em casa de cinquenta anos de idade, o bom e inteligente Abade, seguindo a opinião dos sumos sacerdotes ulemas, e para cumprir aquela disposição, tinha duas criadas, cada uma de vinte e cinco anos.”

O poder de encaixe das pessoas

Um romance anda a fazer-se. Há-de chamar-se Deus chega no próximo avião, mas não me comprometo. O primeiro capítulo será como vai aqui. Mas sem este visual de blogue.

*

Nunca hei-de perceber porque é que, tarde ou cedo, toda a gente rompe comigo. Até os mais íntimos, até os mais indiferentes. «Não dês as culpas logo a ti», consola-me a Noémia. Por vezes, insiste: «Tens tantas qualidades, tantas! Mas é isso também, acho que é isso, o que fere as pessoas.» E explica melhor: «Elas não aguentam o ciúme que lhes fazes.» A Noémia tem sempre estas profundidades.

A sério. Se há coisa que não entendo, são os invejosos. Eu posso ter, e de certeza tenho, todos os outros pecados capitais, mas a inveja é-me estranha. Invejar, invejar o quê? O que eu quiser conseguir, hei-de tê-lo por mim próprio. E se não, não. O mundo não acaba aí.

O caso do Luciano Malta, sirva esse exemplo. Jamais me apanhou a tratá-lo mal, tive sempre o cuidado de envolver em modos afáveis as reservas ao trabalho dele, convidei-o até várias vezes para almoçar. Era uma maneira de falarmos da família, dos gostos, da sua Constância natal, que tanto refere e onde tem ainda casa, falarmos enfim do que calhasse, tudo menos do trabalho. Porque, julgo eu, é assim, nesse terreno pacato, que os entendimentos crescem. Pois disse-me sempre que sim senhor, mas achou mil desculpas para nunca irmos tomar sequer um café.

E, ontem, foi o que se viu. Pôs-se aos berros, disse inconveniências, tudo diante dos colegas, e não me admiraria que na direcção lhe estivessem a ouvir os mimos. Por mim, fiz quanto pude para acalmá-lo, disse-lhe duas ou três vezes que sim senhor, tinha razão nisto e naquilo, fui mesmo ao ponto de propor trocarmos de funções: eu fazia as correcções mais miúdas, as vírgulas, a ortografia, mexia só em algum vocabulário, ele que amaneirasse depois os textos à sua vontade, falasse com os autores, decidisse com eles o produto final. Procurei ser desinteressado, mostrar que a minha posição ali não era tudo na vida, bem sabendo que a Irene, atenta ao ecrã, estava a seguir-nos a conversa, a sonsa, ansiosa por ver se era desta que eu me espalhava. Pois tanto me valia ter estado calado. Quanto mais terreno eu sacrificava, mais o senhorito perdia as maneiras. Que eu era um cínico, um impostor, um pedante, que hoje em dia «as letras do burgo», termos dele, não estavam à espera das camisas-de-forças em que eu sonhava amarrá-las, e que não era já a primeira vez, nem a segunda, que um autor da casa tinha ameaçado levar os originais a outras paragens.

«Luciano», disse-lhe eu, e quis dar a impressão de que procurava ainda as palavras. «Se as coisas, para você, estão já nesse pé, parece-me altura de a direcção ser avisada.» Parou o gesto, recuou, quase perdia o equilíbrio. Depois, desgrenhado, espumando incapazes raivas, despediu para lado nenhum a sugestão definitiva: «Vá pró car…». Deixou o dito assim, e desembestou dali, enquanto da pasta se lhe perdiam canetas de várias cores. A Irene ergueu ao céu os bem desenhados punhos: «Que mal fiz eu a Deus…» Mas também a eloquência lhe ficou por aí.

Ia eu buscar um café ao andar de cima, quando o dr. Cícero, no corredor, me barrou o caminho. «Chegue aqui». E fez-me entrar no gabinete. «Quer tomar alguma coisa? Toma, que vão sendo horas do meu uísque.» Senti que apreciaria que lhe apanhasse a graça, e eu fiz-lhe a vontade, embora sem o talento que tanto me favorece nestas ocasiões. «Você anda stressado.» Disse-mo, e logo sorriu, enquanto servia generosamente os dois copos. «Esse stressado, aposto, não lhe saía vivo das unhas.» Corrigiu: «Das mãos.» É esta a minha triste fama: a de puritano, a de castigador dos desbragamentos de linguagem. Não, nunca saberão eles a tolerância a que, desde há muitos anos, me venho obrigando.

«Sabe, Gildo», meditou ele, «o poder de encaixe das pessoas…» Mas foi sentar-se, mais propriamente caiu na cadeira, e ergueu o copo com uma indecisão que denunciava outros uísques no bucho. «À sua, Hermenigildo.» «À nossa, doutor Cícero.» O que era cerimónia a mais nas nossas relações. E o doutor atirou, fixando os infinitos, e englobando o Luciano Malta, a editora, a avenida dos Defensores de Chaves, o planeta, a parte reconhecível do universo: «Não ligue, Gildo. Até lhe ficava mal. Você está muito, mas muito, acima disto tudo.» Ficámo-nos olhando, como se algo de decisivo tivesse sido suspenso. Segundos depois, desatávamos a rir, regalados. Já só se falou do campeonato.

A ninfa

Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que neles cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo. O lábio húmido, a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.
Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembrança as deusas primtivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila, era um sinal pagão.
Dava escola para os lados de Aveiro, e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira, ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a exigia.
Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia do mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa, do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as gaifonas atrevidas, nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.
No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Uma outra que vinha do comboio e seguia para Trevões havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.
A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. Ela deixou-se ficar, rendida a semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava acostumada.
A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de gentilezas, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.
A ninfa ainda cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.
Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, encolheu-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha, depois apagou a luz, ergueu num braçado a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.
Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se num silêncio. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o ranger do bragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia, de lágrimas, de sangue, de suores.
Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa, era ainda madrugada, foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.
O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os códigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e era caso resolvido.
Quando o outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ele guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do Criador.
O pai da ninfa já estava à espera dele, encostado no alpendre. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficou surpreendido, não queria acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e começou a ladear, a ver se era bem verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.
As mulheres espreitavam à janela, e havia gente que parava nas hortas, a olhar silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem correr estrada abaixo, atrás doutro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.
Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo de um deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.
Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O primeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que nos serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.