Charmes do ócio

Sob a insustentável pressão de três Costas – o JP, o Confúcio e um discreto indivíduo que paira benfazejo sobre o Aspirina – aqui vai mais um capítulo, o terceiro, de certo romance in fieri. Não se promete mais nada, nadinha.

*

Vá-se lá entender como estas coisas transpiram. Haverá, terá de haver, leis a reger os humanos. A ordenar o vaivém no palco dos nossos actos, mesmo os mais medidos, mesmo os mais falhados. Como compreender, de outro modo, que um autor modestíssimo, e, para dizer tudo, uma futilidade de cima a baixo, como é o Damião Marreiros, se tenha permitido os tons insolentes com que esta tarde me filou? Eu havia passado o fim-de-semana a aparelhar-lhe as cenas do romance, tentando alentar os parcos méritos de um ou outro episódio, esbatendo a brusquidão de golpes de teatro, estranhamente abundantes. Nunca rejeitei nenhum original, por mais desesperado de formas. Tudo quanto me veio ter às mãos acabou publicado. Cheguei a lutar, contra toda a coerência, contra toda a sanidade, pela obra mais disforme, o enredo menos aconselhável. Quando, há três ou quatro semanas, me trouxe O Olhar do Ciclope, foi um mesureiro, suplicante, Damião quem insistiu em narrar-me «em poucas palavras» o essencial da intriga. Meia hora levou no intento, surdo ao meu desejo, ao meu quase direito, de vir a ler-lhe a história com um mínimo de lastro, com algum resíduo de surpresa. «Só terá a ganhar com isso, Marreiros.» Não me ouviu. E daí, sou sincero: sem esse dengoso relato, ter-me-ia sido incomparavelmente mais difícil entrar pelo desnorteio a que ele chamara ‘romance’. 

Pois bem, hoje, foi um outro Damião Marreiros que me entrou no gabinete. Sim, é verdade, tenho desde há pouco um gabinete. A última desavença com o Luciano teve o bom efeito de se me dar finalmente um espaço próprio, onde possa sem constrangimento, meu e deles, receber os autores, expor-lhes o que melhor entendo, ouvir-lhes as dúvidas, aparar-lhes as defesas. Era meu hábito levá-los para o café, onde a conversa, e mesmo a discussão, tinham o charme do ócio, e onde estávamos, eu sobretudo, ao abrigo das antenas do Luciano, da Irene, do Marcos, que nunca perderiam uma observação, uma réplica.

«Você estragou-me o romance», prorrompeu o Damião, cruzando a perna. A Micas tinha-nos trazido dois cafés. Fiz-me de parvo. «Acha?» A brandura não o desfez. «Está visto que não entendeu nada.» Escolhi alargar a volta, sabendo-se que pode levar tempos a convencer um autor. «O que é que o senhor Marreiros acha que não entendi?» «Nada», atirou, «o melhor escapou-lhe.» «O melhor?» «Sim, o que a Joana vai fazer na casa de praia. Ela nunca foi lá, não percebeu? Ela nem sabe onde a casa é. São tudo sonhos. O Filipe já morreu.» «O Filipe já morreu?» Do meu espanto escorria sinceridade. O Damião destraçou as pernas. «Logo vi que você…» E não foram as reticências, foi uma atrevida, como dizer, uma impune ameaça, o que logo movimentou todos os meus alertas. Confessei: «O senhor é livre de ter em conta as minhas propostas. Eu não sou aqui patrão.» Logo me achei defensivo em demasia, segredei-me que, para insolente, insolente e meio. Só que eu ainda não digerira o inesperado do episódio, daí aquela vacilação. É isso, ninguém é perfeito.

Facto é que o Marreiros, que vinha para a guerra, não previra o meu recuo. «Deixa-se então o que eu entreguei.» Mas era-lhe audível a convicção abalada. Também ele, depois da minha trabalhosa leitura, intuíra fraquezas na narrativa. Simplesmente, o mundo teria que ser muito melhor do que é, e o Damião mais esperto do que nasceu, para sermos poupados ao que então sobreveio. Vi-o levantar-se, reunir as peças, dirigir-se à porta e, já com a mão no trinco, atirar: «Não se apoquente. Mais dia, menos dia, você troca com o doutor Malta. Ficam-lhe as vírgulas. Espero que se divirta.» E, antes que eu pudesse atinar com um gesto, com um tom para a voz, desapareceu.

Olhei-me dentro de mim, e vi-me calmo. Coisa inaudita, já que, por bem menos do que aquilo, costumo dar comigo em pânico. Mas não. Em qualquer esconso da mente, algo me sugeria que, na vida, havia coisas mais atrozes do que a missão que o Luciano pudesse desempenhar na Terra. Que, ao fim e ao cabo, a minha labuta, se era compensada com o lisonjeiro ascendente que me cabia, não me deixava menos esgotado, deprimido, envergonhado por interposta pessoa. E, maior mal ainda, ao mesmo tempo que, fim-de-semana após fim-de-semana, eu aprontava best-sellers, o meu casamento definhava e o meu filho crescia sem mim. Não, a Clara nunca mo lançou em rosto, mas as minhas façanhas literárias clandestinas tiveram sempre de parecer-lhe mais absorventes do que a existência dela. E só espero que o Diogo, vinte e um anos ajuizados, tenha aprendido a distinguir entre o comedido carinho que sempre lhe dei e um autêntico desinteresse. Mas nem disso estou certo.

19 thoughts on “Charmes do ócio”

  1. Este terceiro capítulo confirma a minha constatação, por contraste, no segundo: os diálogos são fulgurantes. Ignoro os andamentos seguintes – e ressalvo que esta leitura dos três primeiros capítulos avulsos não pode ser confundida com a leitura dos três primeiros capítulos do romance (até porque o romance ainda não existe…) – mas atrevo-me a louvar aquilo que me surpreende por o saber arte dificílima: aprisionar o pensamento sem o tolher no movimento. Caçadores de presas vivas, quem escreve diálogos com esta profundidade cinzelada e transparência fuzilante está obrigado a deixar-se ler.

  2. fernando, tenho uma sugestão diferente: por cada capítulo que aqui nos deres, escreve mais um. assim tu chegas ao fim, e nós chegaremos a meio. todos ganham, incluindo os editores – quem chega a meio não prescinde da metade omitida. não sou sovina, gosto é de bons negócios.

  3. Não recuses o romance. Muitos “best-sellers” não agradaram a montes de editores. Outros caem no goto do maralhal, e pronto. Segundo o Miguel Torga, no “Diário”, a maior parte das palavras “inventadas” por James Joyce no “Ulisses” foram erros de tipografia. Recuso-me a fazer juízos sobre o irlandês, para não ser classificado como inculto, mas confesso que não pertenço a nenhum grupo que comemore o “Blooms day”.
    Quando é que acabas o livro?

  4. Estimados leitores,

    A fórmula da Susana – um capítulo escrito por cada capítulo divulgado – não é mal pensada, mas reflecte nitidamente a perspectiva do leitor simpático. O capítulo escrito seria uma espécie de paga pela disponiblilização de outro ao público. Simplesmente, a escrita tem um timing próprio. Uma pessoa pode estar um mês sem lhe vir nada, e escrever cinco capítulos numa noite de mágica insónia.

    Dito isto, uma sinceridade: também eu estou a gostar da experiência. Antes de colocar aqui um capítulo, dou-lhe uma demão, levíssima é certo – palavra aqui, vírgula acolá -, mas útil. É uma boa razão para vo-los dar a ler.

    Pergunta o Daniel quando acabarei eu o livro. Não faço ideia. Tenho a primeira parte no papel, a segunda na cabeça, portanto pronta a escrever, a terceira e última vagamente planeada. Só que a vida tem destas coisas: não me escolheu para romancista, e sim para outras coisas, igualmente apaixonantes, e com a vantagem de convencerem eficazmente um patrão.

    Resta-me enganar a vida. Estou pronto a tentá-lo.

  5. susana,
    Alma de produtora, argumento de eficaz barganho, que coisa assustadora num criativo!

    valupi,
    «Caçadores de presas vivas, quem escreve diálogos com esta profundidade cinzelada e transparência fuzilante está obrigado a deixar-se ler.»
    Que coisa bonita de se dizer, porra. Que coisa bonita de se dizer.

    benâncio,
    Não te atrevas à vaidade. Por favor. Juram-me que é pecado.

  6. RVN,

    Quando topares com algum escritor que não seja vaidoso, avisa, sim? Vou logo a correr.

    Não digo que a vaidade seja suficiente. Há-de não ser. Mas que é necessária, isso parece-me lei deste particular universo.

    E que nos move aqui – que te move a ti – senão uma saníssima vaidade? Se for pecado, banalizou-se muito.

  7. Cruzar e descruzar, traçar e destraçar. Será então: «O Damião destraçou as pernas.» Talvez a Micas pudesse, não destrançá-las, mas destrancá-las.

  8. Orlando,

    As pernas estão, agora, «destraçadas». Obrigado.

    Lembro-me de que, relendo, achei estranho aquele «destrançou», mas deixei estar. É facto: a gente «traça» as pernas, não as «trança».

    Vai ficar um romance perfeito.

  9. Z,

    Saberá o secretário de estado do que está a falar? Ele pensará que sim, mas eu duvido.

    Fala ele de «promover o ensino do português como instrumento de afirmação de Portugal no mundo». Com efeito, trata-se da «terceira língua ocidental mais falada». Contudo, Jorge Pedreira defendeu uma «estratégia comum no âmbito da CPLP» como mais uma via para dar visibilidade à língua portuguesa.

    Quer isto dizer que a CPLP vai ser atrelada para «instrumento da afirmação de Portugal no Mundo»? Se, o português é a terceira língua mais falada no mundo ocidental (ou, mais pomposamente, a «terceira língua ocidental mais falada no mundo»), a que país se deve isso, hoje?

    A promoção da língua portuguesa é, neste momento, a promoção do Brasil. Goste-se ou não. Nós seremos apenas seus bons, ou maus, promotores.

  10. Fernando eu estou-me nas tintas para os protagonistas, acho graça a língua portuguesa a bailar por aí, em todos os cambiantes. Ou quase todos, porque há um sotaque brasileiro do sul que me pões pelos em pá e não gosto, mas tudo bem.

    Em qualquer caso há muitos e muitas que gostam de Portugal, mas não dizem abertamente não vá dar para o torto. Fica no sorriso.

    Seja como for, eu acho bem que isto seja articulado no âmbito da lusofonia, que dá uma bela salsa que deixa os outros todos baralhados e já está, até porque afinal era uma boa idéia.

    As comunidades cristãs de Damão e Diu pedem escolas portuguesas. As vacas também me pareceu que sim,

  11. tens razão, fernando. no entanto o meu ponto de vista não era tão mercantilista. a ideia era outra. por cada capítulo que escrevesses, fazias-nos dois favores: davas-nos um dos anteriores e continuavas o romance.
    para ser franca surgiu-me um receio, o de nos dares a ler a parte já escrita e esta depois cristalizar, por já ter partido, impedindo o seguimento. no entanto era parvoíce minha, vi continuando a pensar no assunto. o que acontece com a pintura não acontece com a escrita, porque a primeira tem uma materialidade diferente – quando vai embora deixa de te pertencer. e na escrita há uma multiplicação sem fim, uma plasticidade que permite até vires a alterar o que já partiu, sem mossa maior.

  12. já agora, o cabram do tricheur não pense que é mais teimoso do que moi

    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1311082

    Querem baixar as taxas de sinistralidade? Simples, baixem as taxas de juro

    é óbvio, ou querem que explique tudinho, de como as pessoas com prestações mais altas andam a tomar mais anti-depressivos para ficarem mais competitivas e stress dá pumba!

    a taxa de juro é o principal regulador sistémico do ritmo das nossas sociedades

    Ora, parece que quem decide sobre a taxa de juro do euro é o conselho de governadores onde anda lá o nosso constâncio, sa faute

    o tricheur é só para fingir

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