Ticha, trate-me por Ticha

Ontem, para documentar a primeira visualização pública do É dreda ser Angolano, escrevi à pressão uma pequena (vá lá) rábula em que deslocava o protagonismo do documentário para… a ficha técnica. A ideia original era gravarmos isto em vídeo à entrada do São Jorge, logo a seguir à projecção. No entanto, a forma calorosa como as cerca de 100 pessoas que assistiram ao visionamento receberam o documentário impossibilitou a filmagem da coisa (o documentário vai entrar agora em fase de pós-produção para os retoques finais de imagem e sonoplastia). Como não sei quando irei convencer o Pedro Costa da Fazuma a gravar este mambo tipo reportagem-entrevista, deixo aqui o guião em bruto. A ideia original era bem gira e surgiu durante uma conversa entre mim, o Pedro Costa e a Carolina Bernardo. Se não gostarem da resultado final, a culpa é, naturalmente, deste vosso escriba.


REPÓRTER
Boa tarde. Estamos aqui no quartel-general da Rádio Fazuma
para entrevistar o famosíssimo realizador da fichas técnicas Bernardo Eliseu
que irá logo à noite estrear a sua ficha técnica no mítico cinema de São Jorge.
Bernardo, está nervoso com a estreia?

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha.

REPÓRTER
Ticha, está nervoso com esta estreia?

BERNARDO ELISEU
Não é bem um estreia.

REPÓRTER
Ante-estreia?

BERNARDO ELISEU
Pré. Sub. Sub-pré-ante-estreia.
É uma cena nova que já se faz muito lá fora
e que estou a importar pela primeira vez em Portugal.

REPÓRTER
Ok, Bernardo…

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha.

REPÓRTER
Ticha, está nervoso com a SUB-PRÉ-ANTE-ESTREIA
da sua mais recente ficha técnica?

BERNARDO ELISEU
Bem, não se pode dizer que isto seja uma estreia para mim.
E ainda menos uma pré-estreia ou uma pré-ante-estreia.
Ou sequer uma sub-coiso.

REPÓRTER
Mas o Bernardo…

BERNARDO ELISEU
Ticha.

REPÓRTER
Mas a Ticha…

BERNARDO ELISEU
O, por favor. O Ticha.

REPÓRTER
Ok, mas o Ticha é que disse que era uma sub-pré-ante-estreia…

BERNARDO ELISEU
Sim, da ficha técnica, mas não minha.
Como sabe, já realizei mais de uma centena de fichas técnicas.

REPÓRTER
E está, vá lá, expectante?

BERNARDO ELISEU
Um pouco. Em Portugal, quase ninguém respeita esta forma de arte que é a ficha técnica.
A televisão é uma desgraça. A SIC e a TVI já nem sequer as exibem.
E a RTP faz aquela coisa inacreditável que é passá-las em fast forward.

REPÓRTER
Mas as salas de cinema ainda as exibem na íntegra, certo?

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha.
Sim, é verdade, as salas de cinema são ainda o último reduto das fichas técnicas.
Mas, salvo algumas honrosas excepções, o público português não respeita as fichas técnicas
e sai da sala antes delas chegarem ao fim.

REPÓRTER
E o que é que o Bernardo…

REALIZADOR
Ticha, trate-me por Ticha.

REPÓRTER
O que é que o Ticha tem feito para combater este estigma?

BERNARDO ELISEU
Muito, imenso, tudo. Em primeiro lugar, há dois anos que me dedico
única e exclusivamente à confecção de fichas técnicas.
Para grande tristeza dos aficcionados da sétima arte,
deixei de fazer legendagem e agora é mesmo só fichas técnicas.

REPÓRTER
Qual é o seu método de trabalho?

BERNARDO ELISEU
É o mesmo de qualquer realizador. Há uma primeira fase de introspecção
em que abro o Word, mudo o background color para preto
e travo um diálogo silencioso com as musas.

REPÓRTER
Utiliza sempre um fundo negro?

BERNARDO ELISEU
Claro. Sou old-school, como imagina.
Uma ficha técnica que se preze tem sempre um fundo negro.
Há cerca de quatro anos atrás, um pendor iconoclasta levou-me a mudar a fonte
de Arial para Courier New e, desde então, tenho vindo a testar novas fontes.

REPÓRTER
Garamond?

BERNARDO ELISEU
Não conheço. É um realizador francês?

REPÓRTER
Não, é uma fonte.

BERNARDO ELISEU
E não faz parte do vosso código deontológico não revelarem as vossas fontes?

REPÓRTER
(Pausa) O Ticha estava a falar do seu processo de criação…

BERNARDO ELISEU
Sim, depois dessa fase de introspecção
em que batalho perante a angústia da folha em preto,
as minhas mãos percorrem o teclado como se fosse um piano.
Pego num texto qualquer (quase sempre receitas de cozinha)
e testo fontes, kernings, espaçamentos entre parágrafos, alinhamentos, etc.
Isto até ficar com um patchwork da coisa.
Depois faço save e começo a trabalhar noutro template.

REPÓRTER
E depois?

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha. Depois, é aguardar que me chegue uma encomenda.
E depois tento descobrir qual é o template que melhor se adapta ao apêndice.

REPÓRTER
Ao apêndice?

BERNARDO ELISEU
Sim. Ao filme ou ao documentário.
É o termo técnico que se dá àquelas confusões longas e chatas
de sons e imagens: apêndices.

REPÓRTER
E depois como é que integra a ficha no filme ou no documentário?

BERNARDO ELISEU
Actualmente, na era digital, faço um copy paste do Word para o Final Cut Pro.
Depois, exporto aquilo tudo sem compressão para um ficheiro Quick Time,
zipo-o e envio o ficheiro ao realizador do apêndice.

REPÓRTER
Fascinante. Sei que recebe imensas encomendas. Como é que as selecciona?

BERNARDO ELISEU
Como calcula, gosto de desafios. Por isso, é raro aceitar convites nacionais.
Tirando o que vai sub-pré-ante-estrear esta noite,
o último apêndice português em que participei foi o do filme Corrupção.
Havia ali um caso bicudo para saber se o filme era ou não do João Botelho
e não pude dizer não a um desafio desta envergadura.
O Manoel de Oliveira, por exemplo, está farto de me pedir
para fazer as fichas técnicas dos seus apêndices.
Ele acredita que o prestígio das minhas fichas técnicas
poderia convencer os telespectadores a verem os seus filmes até ao fim.
O gajo é velho, mas não é burro.

REPÓRTER
E por que razão nunca aceitou esses convites do Oliveira?

BERNARDO ELISEU
Falta de tempo. Recebo muitos convites do estrangeiro.
Eles apreciam o meu trabalho, questão de bom-gosto.
Há cinco anos atrás, um rapaz francês chamado Gaspar Noé
até promoveu a minha ficha técnica a genérico.

REPÓRTER
Está a falar do Irreversible?

BERNARDO ELISEU
Isso mesmo, era esse o nome do apêndice.

REPÓRTER
Mas esse filme está montado em flashback,
não se pode propriamente dizer que a ficha tenha sido promovida a genérico…

BERNARDO ELISEU
E como que acha que ele teve essa ideia, hum?
Ele viu a minha ficha técnica e gostou tanto dela que disse:
«Oh, putain! Il faut absolument que cette fiche technique
soit le générique de mon appendice!».
Foi por isso que resolveu montar o apêndice daquela maneira: de trás prá frente.

REPÓRTER
E como é que recebeu o convite
para fazer a ficha técnica do É dreda ser Angolano?

BERNARDO ELISEU
Por e-mail.

REPÓRTER
Sim, por e-mail e…?

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha.
O Toni Fazuma escreveu-me um e-mail a dizer que adorava o meu trabalho
e pediu-me para fazer, e estou a utilizar as palavras dele,
um mambo tipo ficha técnica para um mambo tipo apêndice que estavam a fazer.
Fiquei sensibilizado, até porque, no e-mail, ele tratava-me sempre por Ticha.

REPÓRTER
Já tinha um template feito para essa ficha técnica?

BERNARDO ELISEU
Já, sim. Uma coisa verdadeiramente espectacular
feita em fonte Britannica sobre um belo fundo negro, que me pareceu
muito apropriado para um apêndice dedicado à música angolana.

REPÓRTER
Gostou do documentário, portanto.

BERNARDO ELISEU
Não, não, nada disso. Eu nunca vejo os apêndices antes de fazer
as minhas fichas técnicas. Isso é batota.

REPÓRTER
Não percebo. Como é que faz uma ficha técnica
sem ver o respectivo filme ou documentário?

BERNARDO ELISEU
Bem, não vou estar agora a revelar os meus segredos, mas sempre lhe digo
que, numa ficha técnica, há 10% de ficha e 90% de técnica.

REPÓRTER
E como é que comenta as notícias que saíram esta semana na imprensa
que afirmavam que alguns nomes que surgiam a bold na sua ficha técnica?

BERNARDO ELISEU
Isto é completamente mentira. Jamais utilizo sublinhados ou negritos.
De resto, os meus advogados já tomaram conta da ocorrência.

REPÓRTER
Um jornal afirma que há um nome que surge a piscar,
supostamente porque o realizador lhe pediu para dar um certo destaque…

BERNARDO ELISEU
Meu amigo, sou sempre eu que faço o casting das minhas fichas técnicas.
O produtor manda-me o elenco das pessoas que participaram no apêndice
e depois faço uma selecção. Sabe, há nomes que ficam mesmo mal
numa ficha técnica e, por isso, escolho uns poucos da lista e invento outros.
Sem querer levantar a ponta do véu, a ficha técnica que vai sub-pré-ante-estrear esta noite
não tem qualquer realizador, porque cheguei à conclusão
que a palavra «REALIZAÇÃO» ficava mal em fonte Brittanica.
Apenas não escolho a música, porque o Word não abre ficheiros MP3.
Mas já escrevi à Microsft e eles já estão a tratar disso.

REPÓRTER
Ou seja: não há existe qualquer relação
entre uma ficha técnica da sua autoria e o respectivo filme?

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha. A pergunta está feita ao contrário:
a questão não é saber se a ficha técnica é fiel ao apêndice,
mas se o apêndice é fiel à ficha técnica.
Muitas vezes, depois de mandar a ficha técnica,
o realizador resolve contratar pessoas homónimas aos nomes que inventei.
Já houve actores que mudaram de nome. É muito giro.

REPÓRTER
Bernardo, muito obrigado pelo seu tempo.

BERNARDO ELISEU
Ticha, trate-me por Ticha.

REPÓRTER
Votos de sucesso para a sub-pré-ante-estreia da sua nova ficha técnica.

BERNARDO ELISEU
Obrigado, estou certo que vai tudo correr bem. (Pausa).
E isto, afinal, o que é? Um apêndice tipo reportagem?

REPÓRTER
Sim, é isso. É um extra para o DVD…

BERNARDO ELISEU
E vocês já têm alguém para fazer a ficha técnica?

REPÓRTER
Bem, isto não tem ficha…

BERNARDO ELISEU
Não é «ficha», é «Ticha». (Pausa). Ticha, trate-me por Ticha.

6 thoughts on “Ticha, trate-me por Ticha”

  1. Foi feito à pressa, está em bruto e depende mais da interpretação do que das soluções do texto. Mas que importa? É uma apendicite que dispõe bem.

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