Não sei se há blogues de sonhos. Daqueles assim em que o mantenedor, ou a mantenedora, logo pela manhã (e, Planeta afora, a todo o instante é manhã) nos conta em que andou metida, ou metido, nas horas anteriores.
Não sei, repito, de nenhum blogue destes. Mas hão-de existir, estatisticamente – isto é, com base no que sabemos desta humanidade e desta bloguítica.
Confessar os sonhos havidos pode ser tentador (quem nunca interferiu na tranquilidade matinal de alguém com um «Tive esta noite um sonho maluco»…), mas não consigo conceber que, mesmo numa relação íntima (e sobretudo numa relação íntima), se contem os sonhos como quem responde a um «Que tal hoje o trabalho?». E assim é que está bem. Dentro da maior intimidade partilhada, é preciso que exista um espaço onde se esteja, e se fique, garantidamente sozinho.
Isto quanto aos sonhos «desta noite».
Mas há os sonhos recorrentes – os que se contam encetando por «Eu costumo sonhar com…» – e esses são bem mais inócuos, e participáveis. Vou contar um meu.
Um razoável número de sonhos, situo-os em bairros periféricos de Lisboa. Bairros que, estou perfeitamente convencido, não existem. Mas ando por lá horas perdidas, entretido em actividades de toda a ordem, que não vêm aqui ao conto.
Olho para a planta da cidade – que conheço como à palma da mão – e não sei sequer onde colocar tais subúrbios, quase sempre de um urbanismo irresponsável, mas essa é a parte menos original. Este, um sonho recorrente, nem bom nem mau, e às vezes divertido.
Mas, certa noite, aconteceu-me o reverso disto tudo. Sonhei-me num local da cidade, que efectivamente não conhecia, algures ao Alvalade. E que sucedeu? Tempos depois, em visita real, ele revelou ser, muito pormenorizadamente, como eu o sonhara. Ruas, casas, passeios, pequenos parques, e até um arco.
E pronto, paro aqui. Isto, sonhos, é mesmo tentação.