Feios, porcos e maus cidadãos

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Trabalho frente a frente com um grafiteiro, dos seus vinte e tantos anos. Excelente pessoa. Tirando isso, é um cabrão da pior espécie. Porque emporcalha a cidade. Sonho com o dia em que os grafiteiros sejam levados para o Campo Pequeno em camiões, imaculados camiões, de um COPCON cuja missão fosse a de impor a ditadura do belo. Lá, seriam obrigados a ouvir a obra completa de Claudio Monteverdi, as vezes necessárias até se arrependerem e assinarem papéis variados ou desmaiarem exaustos, ficando com mazelas incuráveis a servir de exemplo.

Qualquer grafiti é uma violação do nosso direito a viver a cidade em liberdade. É uma fealdade que se pode apagar. E deve.

Pussy


Que querem as mulheres?, perguntou bovinamente Freud, famoso cocainómano do século XIX. A resposta é tão antiga quanto a realeza do Antigo Egipto: querem gatinhos. De tal maneira que um dos truques mais baixos para captar visitas num blogue é publicar um vídeo com gatos. Aparecem logo mulheres excitadas com as criaturas, arrastando outras criaturas excitadas com as mulheres. Felizmente, aqui no Aspirina ainda ninguém teve o mau gosto de recorrer a tamanha obscenidade.

Camilo nas Escadinhas do Duque

Quando há editoras a serem compradas em lotes, trata-se aqui de ler a certidão de nascimento de uma nova editora: Bonecos Rebeldes veio ao mundo num dos lugares mais bonitos de Lisboa – as Escadinhas do Duque. Mais em concreto no nº 19 A.

O regicídio e João Franco de Rocha Martins foram a aposta na área da História. Depois surgiram três livros de poesia: O livro da pobreza e da morte de Rainer Maria Rilke, A árvore seca de Alexei Bueno e Sortilégios da terra de Zetho Cunha Gonçalves. No campo da prosa temos Daniel Defoe com Diário da peste de Londres, e de novo Rilke com O pintor de nuvens e outros contos. Estão disponíveis no catálogo desta editora três livros para jovens leitores: A caçada real de Zetho Cunha Gonçalves e A dama de ouros e O paraíso dos cães com os heróis Bob e Bobette. Sem esquecer O Príncipe Valente e o Tarzan de Russ Manning numa edição que utiliza as matrizes originais, é impressa em papel couché e tem esmerados textos informativos.

Por fim chamo a atenção para a edição de Os Narcóticos de Camilo Castelo Branco, um escritor que é de todos os tempos. Vejamos apenas algumas linhas sobre a perseguição aos judeus no tempo de D. João III: «A Inquisição foi uma fatalidade necessária então. Talvez que a perseguição actual aos judeus da Alemanha não tenha outra explicação e, por isso, ao senhor Fernando Palha e a nós se nos afigura monstruosa. Aproximemos D. João III de 1536 do imperador Guilherme de 1882 e vermos à distância de trezentos anos os mesmos quadros revoltante e uma bandeira religiosa hipocritamente desfraldada e espadanada de sangue.»

O Aspirina B é um dos padrinhos desta nova editora. Aqui foram divulgados alguns dos seus projectos. Hoje a editora é uma realidade.

Velhos

Comeram o pão que as mães amassaram. Às vezes não havia nem uma côdea no armário. Esperaram as festas maiores para dar à boca o sabor da carne. Eles aprenderam a cavar quando o sacho era ainda do seu tamanho. Elas começaram a varrer a casa quando a vassoura era ainda mais alta do que elas mesmas. Não foram à escola, porque o alfabeto não matava a fome. Não tiveram creches nem infantários onde despejar os filhos. Quando algum caía, não havia mais tempo do que para o animar dizendo “não se chora, não foi nada”, e continuar a cuidar do lume. Curvaram a cerviz perante os poderosos, porque os pobres não se podem dar ao luxo de ter orgulho. A sua mesa preservou velhos sabores, aprovados por dezenas de gerações. A sua voz entoou canções da idade do tempo na ilha. As suas mãos não permitiram que rebentassem para sempre as cordas da viola-da-terra. Adoraram Deus e veneraram os Seus santos. Respeitaram e foram respeitados. Sonharam com uma velhice cheia de bênçãos bíblicas. Agora, sentem uma acusação em cada hora de abandono. Dizem-lhes que são um peso que custa a suportar. Como se Portugal não estivesse vivo porque eles viveram. As rugas das suas faces são um resumo biográfico escrito pelo tempo que a vista, embaciada, não pode ler em pormenor. Mas as pernas acumulam o cansaço de todos os degraus da vida. Não mentem. Têm os braços cansados de acenar vezes sem conta a umas mãos em adeus num carro visto por trás. E choram, às escondidas. O coração não lhes dá para mais. Qualquer dia, qualquer noite, um sopro leve, um derradeiro sopro. Outros os pés que farão por eles a última caminhada. E umas gotas de água e sal… Com um pouco de sorte, haverá também umas lágrimas do hissope e uma cruz mal feita, entre a testa e o peito, de meia dúzia de anojados. Terão amado a sua terra até ao fim. Até ao fim da vida. “Ah! se eu fosse novo e soubesse o que sei hoje…” dizem. E sonham outros mundos. Mas teriam feito e dito as mesmas coisas. Seriam felizes. E, depois de velhos, pensariam que não tinham sido.

Daniel de Sá

Ditirambos

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Obrigado Fernanda Lapa. Traduzes, encenas, representas. Fumas. E eu, no meio da sala, contei: 1 minuto. Para as primeiras moléculas activarem o meu olfacto. O Virgílio também fuma. Cachimbo. 1 minuto igual ao teu. Pensei: é proibido fumar em recintos fechados. Pensei: um teatro, mesmo que se chame São Luiz, é um espaço livre.

Antes de o ser já o era. Banal, a trama. Era-o em 1978, mas não era o que importava. O cinema faz-se com histórias banais e olhares nunca vistos. Com que então, a mãe não ama a filha. Ora a grande merda.

E depois subimos. Para o beberete. Era noite de estreia. De beberete. Fernanda Lapa tem um cão que me fez rir.

Sempre. Que vou pouco ao teatro.

E la nave va

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Quase 10 anos depois, uma acusação. O caso é paradigmático, um exemplo escolar de como se faz corrupção ao mais alto nível estatal e governamental. Não espanta que a populaça se cale perante as raras notícias deste desporto tão difícil: acusar políticos e/ou gestores públicos de corrupção. O povo que foge aos impostos é o mesmo que foge à democracia, não perde tempo com histórias sem final feliz, que obriguem a pensar. O povo não sabe nem quer saber do que seja a cidadania, não se importa de comer restos. E está bem assim, porque eles não sabem o que fazem já há muito tempo. A sua responsabilidade política só dá para aplaudir as fanfarronadas decadentes de Santana no circo, não vai mais longe.

Já quanto ao António Vitorino, guarda pretoriano do Poder, a sua culpa não morre solteira, nem desconhecendo os melífluos sabores e odores do pecado. Este político de elite sabe que o dinheiro comido pelos comparsas, seis milhões de euros para os bolsos e 25 milhões de prejuízo para o Estado, tem um preço moral. Daria para fazer muito pela populaça, fosse o que fosse. Mas a tal populaça inveja os corruptos. Não irá chatear o Vitorino. Não lhe irá perguntar pela sua responsabilidade, uma qualquer que ele descobrisse em si, ou lá perto. E assim, por ser assim, e por assim ser, exactamente assim, ele nada dirá, nem uma palavra.

É isto. Todos sabemos que os animais não falam.

Conta-me o teu sonho

Não sei se há blogues de sonhos. Daqueles assim em que o mantenedor, ou a mantenedora, logo pela manhã (e, Planeta afora, a todo o instante é manhã) nos conta em que andou metida, ou metido, nas horas anteriores.

Não sei, repito, de nenhum blogue destes. Mas hão-de existir, estatisticamente – isto é, com base no que sabemos desta humanidade e desta bloguítica.

Confessar os sonhos havidos pode ser tentador (quem nunca interferiu na tranquilidade matinal de alguém com um «Tive esta noite um sonho maluco»…), mas não consigo conceber que, mesmo numa relação íntima (e sobretudo numa relação íntima), se contem os sonhos como quem responde a um «Que tal hoje o trabalho?». E assim é que está bem. Dentro da maior intimidade partilhada, é preciso que exista um espaço onde se esteja, e se fique, garantidamente sozinho.

Isto quanto aos sonhos «desta noite».

Mas há os sonhos recorrentes – os que se contam encetando por «Eu costumo sonhar com…» – e esses são bem mais inócuos, e participáveis. Vou contar um meu.

Um razoável número de sonhos, situo-os em bairros periféricos de Lisboa. Bairros que, estou perfeitamente convencido, não existem. Mas ando por lá horas perdidas, entretido em actividades de toda a ordem, que não vêm aqui ao conto.

Olho para a planta da cidade – que conheço como à palma da mão – e não sei sequer onde colocar tais subúrbios, quase sempre de um urbanismo irresponsável, mas essa é a parte menos original. Este, um sonho recorrente, nem bom nem mau, e às vezes divertido.

Mas, certa noite, aconteceu-me o reverso disto tudo. Sonhei-me num local da cidade, que efectivamente não conhecia, algures ao Alvalade. E que sucedeu? Tempos depois, em  visita real, ele revelou ser, muito pormenorizadamente, como eu o sonhara. Ruas, casas, passeios, pequenos parques, e até um arco.

E pronto, paro aqui. Isto, sonhos, é mesmo tentação.

Olha que giro: «Tags (separate multiple tags with commas: cats, pet food, dogs)»

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A melhor coisa do mundo é, obviamente, a Roísin Murphy. Sempre me pareceu que a vocalista dos Moloko tinha um superavit de carisma e talento que não era compatível com o facto de se apresentar ao mundo sob o nome de uma dupla. Por isso, foi com grande alegria que, dois anos após o excelente Ruby Blue, acabo de ouvir finalmente o não menos admirável Overpowered. O novo vídeo da menina foi realizado pelo grande Daniel Wolfe e é um digno sucessor desta pequena obra-prima. Tanto a música como o vídeo constituem uma reencarnação de uma das duplas mais geniais da década de 80: Michael Jackson e Quincy Jones. Ou não houvesse hoje em dia mais ninguém no mundo capaz de encher de forma tão sublime um videoclipe com dois passinhos de dança trajada com uma roupa tão catita (esta última frase é particularmente gay, eu sei, às vezes dá-me para isto, mas reparem agora como vou tentar disfarçar com a última frase deste post). Aquelas pernas bem que poderiam frequentar alguns cafés da cidade do Porto.

Aspirina Box

immmm.jpg Coisas novas na box. Em primeiro lugar, temos Emily Haines (uma das grandes surpresas do ano) com o hipnótico «Crow Surf On A Cliff», seguido da Robert Wyattíssima versão de «Hasta Siempre Comandante» (absolutamente inacreditável o que ele faz com este clássico), Radiohead com «Reckoner» (um dos grandes momentos do novo álbum, muito DJ Shadow), Animal Collective com «Reverend Green» (sem dúvida a melhor canção que ouvi este ano), Of Montreal com uma canção cheia de grrove que ouvi há algumas a fechar um episódio do Weeds, Jens Leckman com o genialmente retropiroso «Postacard To Nina» e Familjen com o muito dançante «Det Snurrar I Min Skalle» (lembram-se do vídeo?). Depois há duas viagens ao passado distante: Serge Gainsbourg & BB em «Bonnie & Clyde» e a mais bela canção que Bob Dylan escreveu na década de 80: «Blind Willie McTell». Termino à bruta com «Staturate» dos Chemical Brothers.

Retrato breve de Filipa em Vila Franca

Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Continuar a lerRetrato breve de Filipa em Vila Franca

Panda Bear: «Comfy in Nautica»

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É oficial: nunca ouvi tanta música boa como em 2007. Para além dos novos discos de Robert Wyatt, Radiohead, Studio, Animal Collective, Of Montreal, LCD Soundsystem, The Field, Phay Grand (prometo falar desse génio do rap angolano em breve), Emily Haines, Blonde Redhead, Bat For Lashes, Deerhof, Jens Lekman, The National, The Bees e Wilco, há um disco que tem estado permanente a bombar no meu ipod: o inqualificável Person Pitch de Panda Pear, um dos vocalistas e percussionista dos já citados Animal Collective e que, pelos vistos, vive há já alguns anos em Lisboa. Tive a oportunidade de ouvir o rapaz tocar o disco ao vivo em Serralves e a experiência foi absolutamente magnífica e hilariante (Noah Lennox conseguiu despachar metade da assistência ao fim de poucos minutos de uma imparável sequência non-stop digna de fazer corar de vergonha qualquer soundsystem). Faltava, no entanto, um videoclipe que fosse capaz de transpor em imagens o universo musical do mais digno herdeiro do espírito de Syd Barrett e Brian Wilson. Após o psicadelismo descontrolado (e meio decepcionante) que foi o vídeo de «Bros», Patrick O’Dell conseguiu finalmente fazer justiça ao disco, via «Comfy in Nautica». A sério, ouçam e vejam esta maravilha de som e luz solar nas calmas e com o coração aberto. É, de longe, o mais belo e inspirado videoclipe que vi este ano.