Velhos

Comeram o pão que as mães amassaram. Às vezes não havia nem uma côdea no armário. Esperaram as festas maiores para dar à boca o sabor da carne. Eles aprenderam a cavar quando o sacho era ainda do seu tamanho. Elas começaram a varrer a casa quando a vassoura era ainda mais alta do que elas mesmas. Não foram à escola, porque o alfabeto não matava a fome. Não tiveram creches nem infantários onde despejar os filhos. Quando algum caía, não havia mais tempo do que para o animar dizendo “não se chora, não foi nada”, e continuar a cuidar do lume. Curvaram a cerviz perante os poderosos, porque os pobres não se podem dar ao luxo de ter orgulho. A sua mesa preservou velhos sabores, aprovados por dezenas de gerações. A sua voz entoou canções da idade do tempo na ilha. As suas mãos não permitiram que rebentassem para sempre as cordas da viola-da-terra. Adoraram Deus e veneraram os Seus santos. Respeitaram e foram respeitados. Sonharam com uma velhice cheia de bênçãos bíblicas. Agora, sentem uma acusação em cada hora de abandono. Dizem-lhes que são um peso que custa a suportar. Como se Portugal não estivesse vivo porque eles viveram. As rugas das suas faces são um resumo biográfico escrito pelo tempo que a vista, embaciada, não pode ler em pormenor. Mas as pernas acumulam o cansaço de todos os degraus da vida. Não mentem. Têm os braços cansados de acenar vezes sem conta a umas mãos em adeus num carro visto por trás. E choram, às escondidas. O coração não lhes dá para mais. Qualquer dia, qualquer noite, um sopro leve, um derradeiro sopro. Outros os pés que farão por eles a última caminhada. E umas gotas de água e sal… Com um pouco de sorte, haverá também umas lágrimas do hissope e uma cruz mal feita, entre a testa e o peito, de meia dúzia de anojados. Terão amado a sua terra até ao fim. Até ao fim da vida. “Ah! se eu fosse novo e soubesse o que sei hoje…” dizem. E sonham outros mundos. Mas teriam feito e dito as mesmas coisas. Seriam felizes. E, depois de velhos, pensariam que não tinham sido.

Daniel de Sá

23 thoughts on “Velhos”

  1. Não é nenhum “reply”, é a confissão da minha nabice. Foi a primeira tentativa de pôr aqui alguma coisa. Saiu mal, mas as palavras salvaram-se. Embora possam não ter salvação. Mas isso é outra história.
    Daniel

  2. Susana
    Obrigado. Mas eu sou desarrumado por natureza… e feitio.
    Valupi
    A felicidade?… Por exemplo, ler um bom texto. Teu ou de outro qualquer. Ou ver alguém chegar de longe, sem pensar no dia da partida.

  3. Nesse caso, Daniel, és um homem repetidamente feliz, arrisco. Não por causa dos meus textos, escusado seria precisar, mas por tanto livro que há para ler; fora o resto que também se lê e não é livro.

  4. belo texto sim!

    «Seriam felizes. E, depois de velhos, pensariam que não tinham sido.»

    ora aqui está o que há que evitar, esquecer que se foi feliz, ou ter vergonha de dizê-lo. Tolos mas felizes (só para espertos).

    z

  5. Se tu soubesses, Daniel, a falta que cá faziam alguns dos teus parágrafos, (se parágrafos usasses)… tinha-los posto ontem.

  6. Meus caros amigos
    Vim fazer a visita habtual ao Aspirina antes de deitar. Obrigado pelas palavras bonitas. Um momento de felicidade, percebes, Valupi? É que não podemos ser felizes o tempo todo, mas estes momentos de felicidade são um pouco como uma comida de que gostamos muito. Logo que acabamos de comer, desaparece a sensação de prazer. Mas ficamos saciados durante horas.
    Um abraço.
    Daniel

  7. “Daniel Cohn-Bendit (Maio de 1968)

    Uma das Figuras do Maio de 68 em Paris, que é actualmente uma espécie de menino da mamã dos deputados europeus e da imprensa parlamentar, co-presidente dos Verdes Europeus, é autor de afirmações pedófilas, imbecis e de mau gosto.
    Durante as manifestações de 1968 e, segundo eles, para chocarem os valores vigentes, despiram-se com criancinhas e estiveram a tocar nos sexos uns dos outros, ou seja, segundos os valores vigentes da actualidade, este Deputado Europeu, esteve em práticas PEDÓFILAS. “

  8. tenho para mim que a felicidade é servida em fatias fininhas, daquelas a que a minha avó chamaria “antes-te-não-visse”. Pequenos momentos de tempo que se guardam porque ali, naquele segundo, saímos de nós olhamos para nós e perguntamos – preciso de mais alguma coisa agora, aqui? não, estou feliz”. Tenho dois na minha vida, guardados numa caixa tupperware para não serem estragados pela humidade da vida. não me recordo da data, do tempo, da cor do céu, ou de quem estava para além de quem tinha de estar. sei que felicidade deve ser aquilo. estão separados por mais de vinte anos, mas são os meus bens mais preciosos.

  9. daniel,
    uns dias de meia ausência fazem com que só agora te deixe umas linhas nesta prosa habitual (já desisti de te chamar brilhante, tenho uma reputação de originalidade a defender).
    faço-o por isso só hoje, que estou mais velho.
    por mim passaram nestas últimas horas alguns momentos que não vão voltar, nem que eu fizesse exactamentre a mesma coisa em cada um deles e tudo e todos fizessem igual para termos um remake feliz do tempo que passou.
    a vida não se repete nunca e a gente não se repete nela, nem quando erramos em séries de zero a cem com as mesmas frases, os mesmos gestos, as mesmas indiferenças, os mesmos ódios e os mesmos amores.
    somos sempre diferentes de nós próprios, mesmo em cada uma das vezes que nos pretendemos iguais e coerentes. e depois de velhos, temos para connosco próprios a obrigação de pensar que afinal não chegámos a ter uma ínfima parte da felicidade que merecíamos.
    que queres? hoje estou exigente.
    abraço-te

    rvn

  10. RVN
    Chegaste tarde, mas chegaste muito bem. Já não esperava mais visitas interessantes e interessadas como a tua. Sempre bem-vinda e sempre querida. Mas nem por isso deves sentir-te obrigado a vir e a dizer que vieste.
    Mais velho, é isso? Olha, o pensamento mais lúcido que vi sobre a idade foi mais ou menos o seguinte: lembre-se de que nunca mais será tão novo como é hoje.
    Um abraço. E, se não podes estar feliz, ao menos alegra-te.

  11. Esse do “ao menos alegra-te” como conclusão do “se não podes estar feliz” é daninho. Tal como a felicidade é letal (por ser término), e os seus arautos não atentam à armadilha, também é comum ignorar o que seja a ontológica alegria, como acaba de fazer o nosso prezado Daniel. E ignora não por estar privado de capacidade cognitiva, poder intelectual e mestria literária (bem ao contrário), mas por equívoco semântico e conceptual: a alegria pode ser uma emoção (uso comum) ou um sentimento (uso dramático), mas também pode ser um estado de ser (uso espiritual). Que estado? O que se liga ao princípio vital, à absoluta realidade de se estar vivo e, permitam-me, de se ser vida.

    Por aqui, há alegria até na dor, no sofrimento. Há alegria com lágrimas ou no silêncio e impávida quietude. É um último recurso para o desesperado, a substância da esperança. É a contemplação da glória. Mas nunca, nunca, o estupor da felicidade.

  12. Valupi, com essa me tramaste. É que nem percebi se estás ou não de acordo comigo. Cheguei a ir ao dicionário ver o que diz a respeito de alegria, e ela até pode ser uma planta da América, também chamada gergelim. Pelo menos aprendi isto. E, com a tua explicação, arranjei motivos para me consolar por a ode à alegria, que inspirou o que alguns consideram o 5º andamento da Nona, ser o pedacinho de música de Beethovenn que menos me entusiasma. Nem sei se tem algo que ver com terem feito dela uma espécie de hino da Europa.

  13. “O Socialismo, a religião da esquerda, é um dos caminhos mais rápidos para o empobrecimento de uma sociedade”

  14. Só agora consegui teclar duas palavras. Muito bom o texto que junta duas coisas: sabedoria e competência a escrever. É mais uma coisa que fico a dever a Daniel de Sá, além daquele manjar na Maia, foi em 1992 e ainda hoje os meus filhotes falam nele. Além de organizar e tratar de tudo ainda o pagou. «Forte bruto!» como dizia a minha avó quando alguém fazia um acto de generosa amizade multiplicada.

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