Anti-elegia da Beira-Tejo

Um sonho de Outono: sermos editores de José Luís Tavares

*

Vejo-os balouçando nas patas trôpegas,
palmípedes vorazes sob a garoa febril.
Ardeu-se-lhes a juventude nas plumas desgrenhadas
e já nem este mijo outonal os faz recear a pestilência
fosforescendo como um desígnio cautelar.

A tantos foram alimento por tardes soneteiras,
mas agora que o céu oculta vozes e cores
e deus essa babugem cantante,
quem acende nas margens hesitantes
o tumulto irmão da ira?

Ó aves, que um falcoeiro outono
difracta em sarro, nuvens, fogueiras,
agora sois apenas ténues fotogramas
iluminando a insónia — o tempo,

esse relojoeiro cego, quebrou vosso encanto;
baixou sobre vós a heráldica da dissolução;
embora a reverência compassiva cascateie
louvores em jacentes metros doutrora.

Vós, aéreos náufragos, concedei-me o passo
vacilante com que à tarde o frio trazeis
em vossos desdoirados bicos — ficará,
decerto, o azul doutra lembrança,
coloridos prospectos apreçando o sol
olhando lisboa cinza agora sobre o rio.

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