Os olhos do abutre

A pedido da Sininho, sob pressão de várias famílias, e desvairado com os elogios que cobriram o primeiro capítulo, aqui coloco o segundo de Deus Chega no Próximo Avião. Mas não se promete mais nada.

*

Vai fazer em Abril oito anos que vim para a Água Líquida. Entrei pela mão do dr. Domingos Pompeu, que Deus tenha, um homem bom como poucos conheci, e que me foi buscar ao Observador, me «comprou», expressão muito dele, chefe de uma equipa reunida a dedo. Eu estava bem no jornal, estava mesmo nas minhas sete quintas, era conceituado, «adorado», no tocante dizer da Micas, enfim não havia razão de mudanças. Via-me ganhar tranquilos cabelos brancos – e ganhei alguns – naquele cubículo do terceiro andar onde me cabia passar a pente fino a edição. Todos me estavam gratos para a vida inteira. É que ninguém resiste à imagem do director lendo a nossa peça, exactamente a nossa peça, e dizendo consigo «Dá-lhe um jeito, este sacana!». Eu era o copydesk mais invejado de Lisboa, valia uma fortuna. E foi essa fortuna que o excelente dr. Dominguinhos sacou um dia ao banco.

A transferência, se deu aquele brado todo, deu também horas amargas aos proprietários do Observador. O semanário mais apresentável do País – da Península, dizia-se – passou a sair à rua falho dos brios que os meus olhos de abutre asseguravam. Dez anos naquilo levei, contas redondas. Fui descoberto aos vinte e quatro, e nunca mais o jornal foi o mesmo. Tudo me caía sobre a escrivaninha, tudo me invadia o ecrã. «O Gildo passa os olhos por isso», «O Gildo depois ajeita». Era o meu estandarte, pudera transformar-se no meu pesadelo. Consegui meter lá a Viviana e o Artur, dei-lhes um curso nos meus segredos, e pude um mês por ano afastar-me para o Alentejo, com a Clara e o Diogo.

Na Água Líquida fui recebido em triunfo. A editora saíra da zona de perigos, e achava-se naquela etapa eufórica em que até os maus autores acabam contagiados. Diante da minha secretária se sentaram um dia, encolhidos, minguados de palavras, três actuais best-sellers. Fui parteiro de outra gente, mais modesta, mas mesmo assim hoje meninos do meu orgulho. Tive, até este momento, o gosto de vê-los, a esses, salvos do desvaire que toma aos outros, os que, ainda os capítulos finais estão por pensar, têm já edições esgotadas. Quanto escritor não há entretanto por aí – dói-me, só de nisso pensar – que vai ler a escolas os capítulos mais inteligíveis do seu livro, deliciando os putos com a minha fluência, com a minha inventiva. Nenhum irá jamais confessar que fui eu quem, à débil trama primitiva, ao tosco da locução, trouxe luminosidade, deu robustez. E, se, em parte recôndita do cólofon, um ou outro consentiu que se assinalasse, em tipo seis, tipo oito, «Revisão de Hermenigildo Vilena», mesmo isso desaparece, nunca descobrirei por que artes, às edições seguintes.

Simplesmente, jamais me deixei tomar de vinganças. Sou um tipo discreto, sempre o fui, e retiro gozo suficiente de uma escondida contribuição para glórias alheias. Sem descanso, continuarei a fazer, também, o trabalho miudinho, ir verificar uma data, um nome de personagem ou localidade, a grafia exacta de um barbarismo. Cuidarei de que as estações do ano se sigam coerentemente, de que as personagens não mudem levianamente de nome, de profissão, de estado civil. Irei sempre ver se tal marca já existia à época, se tal designação já fora popularizada, se aquela estação ou linha de metro já estava aberta, se o tempo de uma viagem de carro combina aceitavelmente com as distâncias. Continuarei a estimular a coerência no relato, no retrato íntimo das personagens, no que se pode saber e no que se deve ignorar. Quando um livro sai do meu computador, sai irreconhecível. Mas era aquele o livro com que o escritor sonhava, o livro que agora chamará seu, com naturalidade, com infantil confiança. Aí está um prazer que ninguém me arranca.

Mas, pobre de mim, não será dos autores que vai esperar-se que refiram, em entrevistas, o senhor que lhes cozinha e tempera as obras-primas. Todos terão sempre uma escusa magnífica, e eu serei o primeiro a aprová-la. É que o meu benemérito ofício não tem, nunca teve nome. Porque, como chamar a esta minha função, tão rarefeita, quase incorpórea? A de «redactor»? A de «revisor»? A de «conselheiro redactorial», como a Noémia gostaria de me titular? A de «editor», pondo-lhe a melhor pronúncia britânica? O dr. Cícero Pompeu apresenta-me às visitas como seu «coordenador literário». É, de tão inócuo, quase adequado. Sem título a que segurar-me, sem categoria com que se me defina aos olhos das gentes, eu faço meio mundo feliz, e, tranquilamente, não existo.

15 thoughts on “Os olhos do abutre”

  1. Sininho, várias famílias e pessoal do elogio ao primeiro capítulo: aprendam. Muito cuidado com aquilo que se deseja, corremos o risco que aconteça mesmo, é uso dizer-se.

    Apagadomaseficiente Gildo: percebo-lhe o brio e o segredo. Só nós sabemos o que valemos, certo? Boa sorte (dizem a vanessa e o ben) na carreira.

    Caro fmv: bela prosa. Não é que me interesse, evidentemente, mas quando é que publicas o terceiro capítulo? E onde, já agora?
    Não é que me interesse, claro, mas enfim.

  2. Fernando, isto não pode parar! Lembra-te – um avião não é como um carro!

    (Estou aqui à rasca, sem saber o que argumentar para te convencer a oferecer-nos mais uma posta desta tua iguaria que tens deixado, inadvertidamente, a macerar no teu disco rígido… )

  3. Gostei muito da personagem e do desenho da personagem até porque desde 1978 vivo nessa área mas só tenho duas dúvidas: será Vilhena e não Vilena o nome do copy desk? Dominguinhos leva «u»» ?

  4. Zé do Carmo,

    O tipo chama-se, cheio de originalidade, VILENA – e não VILHENA, que era um tanto mais pró térreo.

    Já «Dominginhos» está bem observado. Vai-se já corrigir.

  5. Querido Abutre,

    Finalmente juntos.

    É assim. Eu dou aulas de português. Para explicar essa coisa marada do uso de «ser» e «estar», dou-lhes frases do tipo «Este blogue é uma bela merda!» e «Este blogue está uma bela merda!». E esclareço que, quando dizemos «Este blogue está uma bela merda!», estamos a dar um elogio, um pouco atrasado, mas mesmo assim com o implícito reconhecimento de que, em dias de antanho, a «merda» esteve menos «bela».

    Tenho alunos inteligentes. Mas isso já tu percebeste.

  6. Também com um nome destes o que é que se esperava? Coisas bonitas não, de modo nenhum. É mais um «pobre» que anda por aqui a disparar em todas as direcções mas com escasso CV e pólvora seca.

  7. Maravilhoso pitéu de prosa, este seu. E olhe que sei do que falo – pois não é exactamente essa, entre outras missões tão ou mais insignificantes, a minha principal missão? Um grande abraço. E sim: junte-se o meu nome à lista dos que querem – “precisam de” será, provavelmente, a forma mais correcta de o colocar – alimentar-se da sequência desta prosa.

    Um grande abraço para si, Fernando.

  8. fernando, aludes a uma questão que não me é estranha. fico sempre com uma sensação de desamparo quando quem me sai do colo se espalha. falo do teu último comentário, claro.

    quanto ao 2º capítulo, só tenho a dizer-te obrigada.

  9. Sem querer ser ambíguo, mas aceitando esse destino, o melhor do segundo capítulo está na antecipação do terceiro. É que não há duas sem três (lá porquê não sei, mas é assim). É mesmo uma obrigação a que não podes fugir, caro Fernando, sob pena de fazeres ruir centenas de anos de sabedoria popular.

  10. FMV, não faças a vontade ao RVN. Ele não se importa que publiques, por isso deves publicar. Diz-lhe que é no blog das sete vidas do gato, como comentário a uma qualquer calinada contra o Sócrates. Por exemplo, que nisto de Sócrates nunca fiando, o melhor é a gente ir desde já condenando os que o condenam, ainda que sejam amigos como o RVN. Amigos nossos, não dele, Sócrates, entenda-se.
    Ah, e já agora, afinal há duas sem três ou não há? Estou do lado do Valupi, nesta questão.

  11. Fernando, o Hermenegildo não estará a ficar impaciente? Por defeito, se pudesse, arrancava uma resma de cabelos para tricotar. Se!… Se pudesse.

  12. esclarecendo:
    amigos do óbvio: eu adorei o texto do benâncio.
    amigos da ironia: já sabiam, certo?
    amigos em geral: e a trabalheira que vocês me dão?

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