É Tarantino? Não, são os Wilco

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Tinha hoje prometido a mim mesmo escrever sobre o fantástico Death Proof de Tarantino e acrescentar alguma gravitas à avalanche de parvoíces que se tem escrito sobre o filme: nem são bem os gajos que detestaram o filme que me irritam, mas os iluminados que utilizam expressões tipo «lixo de luxo» ou «alta baixa cultura» para descrever essa obra prima. No entanto, como estive hoje todo o dia a ouvir pela primeira vez o novo Sky Blue Sky dos Wilco, não vou poder, hélas, demonstrar os meus dotes de demiurgo circense e vão apenas ser brindados com dois MP3zitos no HTML que é para aprenderem a não desviar o vosso browser para blogues tão mal frequentados como o Aspirina B. A crítica tem cascado um pouco no álbum (repararam na forma Pacheco Pereira como mudei de assunto? Isto não é para todos), sobretudo pelos rapazes terem deixado de lado a veia mais experimentalista de discos como Summerteeth (vénia) ou Yankee Hotel Foxtrot (dupla vénia). Apesar disso, Sky Blue Sky contém uma bela dúzia de grandes canções, estupidamente íntimas e megalómanas, recheadas de solos de guitarra que provam que a azeiteirice, quando possui o grau certo de acidez, é algo de muito audível e recomendável (os fãs dos My Morning Jacket sabem do que estou a falar). Deixo-vos aqui dois belos exemplos: «Impossible Germany» e «Side with the Seeds». Nem os Lynyrd Skynyrd se atreveram a levar o rock tão a sul.

Em ordem a

Em ordem a esclarecer a legitimidade do uso da expressão em ordem a, volto a um assunto que recebeu de jlm um reparo e, depois, uma tomada de posição exemplarmente inteligente. A questão até oferece o picante da polémica erudita. Ora, dá-se a fortuna de privarmos com o Fernando Venâncio, entre outros eventuais companheiros de viagem com autoridade e gosto para expressarem o seu gosto com autoridade. Mal seria não colhermos tão abundante saber.

Vale o desvio

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Quem, descendo o mapa, vai para Monte Gordo, ou para toda a metade leste do Algarve, pode deixar a auto-estrada e ir conhecer mais um recanto do país: Mértola, o maior museu do Alentejo. Ali o espera, há bem dez séculos, uma das maravilhas de Portugal.

O autor do «post» é, concedamos, suspeitíssimo. Calhou-lhe nascer lá. Mas vá, você mesmo, tirar teimas.

A deusa em Monte Gordo

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Paulo Moura é, decididamente, um grande talento da história breve. Uma delícia, lê-lo ao domingo
no Público. Hoje, o episódio leva-nos ao algarvio Monte Gordo (que ele grafa estranhamente «Montegordo»), em 1963, quando Ingrid Bergman aí apareceu em biquíni e foi multada pelo
cabo-de-mar.

Há – há sempre, num grande escritor – alguma efabulação à mistura. Há, também, algum exagero nas cores negras do Portugal da época. Paulo Moura nunca o conheceu, e só o entende como tragédia da manhã à noite.

Mas é um raro prazer lê-lo. Ao magnífico criador de cenários.

Dê-lhes rijo, Arquitecto!

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Hoje, no «Sol», escreve José António Saraiva, o director, a propósito do Iberismo
e de Saramago:

«A classe média portuguesa olha para o enorme desenvolvimento que a
Espanha registou nas últimas décadas, compara-o com o marasmo português
e conclui: integrados na Espanha seríamos mais prósperos, mais ricos e
mais felizes.
Ora, é uma ilusão pensar assim.
Basta olhar para o que aconteceu em muitas empresas portuguesas que
foram compradas por espanhóis: a investigação deixou de ser feita em
Portugal e passou a ser feita em Espanha, os quadros superiores
portugueses foram substituídos por espanhóis nos lugares-chave, os
portugueses ficaram em posição subalterna e acabaram por se sentir
estranhos no seu próprio país.»

«Quando Saramago disse que a integração na Espanha é inevitável,
estava implicitamente a dizer que os portugueses não têm vontade de
continuar a ser independentes (ao contrário dos bascos ou dos catalães,
que no próprio dia em que o franquismo caiu ressuscitaram os seus
valores).
Portugal poderá perder a independência.
Mas só se os portugueses quiserem.
Daí que a posição mole, distraída, desinteressada, capitulacionista
ou abertamente anti-nacionalista da esquerda portuguesa seja um mau
sinal.»

Com um obrigado ao Carlos Luna.

Aspirina Box #9 (Primal Scream)

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Coisas novas na Box, desta vez dedicada em exclusivo à minha banda favorita de todos os tempos (versão Julho 2007): os Primal Scream. É uma pena que muita gente apenas os conheça devido a essa obra-prima que foi SCREAMADELICA (1991), sobretudo se tivermos em conta que foi depois da entrada do Mani, o ex-baixista dos The Stones Roses (vénia), que a banda conquistou o título da banda britânica mais relevante dos últimos 20 anos (que me perdoem os Massive Attack e os Radiohead). Resolvi assim elaborar uma pequena selecção de 10 temas que mostra que o enorme talento dos rapazes em géneros tão distintos como o acid-jazz, o dub, a pop, o rock, o ambient house e a música electrónica. Se um dia deus nosso senhor me conceder a graça de ver os meninos ao vivo, prometo passar a escrever a sua graça com letras maiúsculas. Ou ir a Pátima a fé.

«A Profecia de Saramago»

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No COURRIER INTERNACIONAL de hoje, o director Fernando Madrinha
publica o seguinte comentário.

«Ainda há pouco tivemos um ministro, por sinal com origem ideológica
idêntica à de José Saramago, a proclamar o seu iberismo. Agora, veio o
Nobel da Literatura profetizar, não pretendendo armar-se em profeta, que
Portugal acabará por integrar-se na Espanha. E que esta,
«provavelmente», pssará a chamar-se Iberia, como a companhia de aviação.
Saramago não explica como ocorrerá a integração – se por imposição de
Madrid, se a pedido dos portugueses, se por consenso ou osmose – mas,
interrogado sobre se Portugal passaria a ser uma província de Espanha,
responde: «Seria isso». Não precisa, pois, de dizer mais nada.

«Por natureza e definição, os profetas vêem mais longe do que o comum
dos mortais. Mas também acontece enganarem-se, ou, pelo menos, nunca
serem compreendidos. Pode ser o caso do nosso admirado Nobel. De
qualquer modo, esta não é a primeira ocasião, nem será a última,
decerto, que ele desce ao povoado, lança a sua provocaçãozita e deixa os
jornais a discuti-la, enquanto se recolhe ao sossego de Lanzarote,
talvez sorrindo de sarcasmo no seu íntimo. Ou de satisfação por ter-se
colocado outra vez no centro de uma polémica, ele que aprecia polémicas
e tem lucrado com elas – desde a censura de Sousa Lara, em que foi
vítima, até ao «Ensaio sobre a Lucidez», em que foi agente provocador.
Desta vez, houve em Espanha e noutros países até, quem se associasse à
discussão. Mas ninguém, por acaso, veio corroborar a sua leitura,
aplaudir a sua visão, concordar com o seu «projecto». Pior: ninguém o
levou muito a sério nem à sua profecia, o que não é bom para um grande
escritor que costuma gerir tão bem as suas intervenções e a sua imagem.

«Provocação ou «marketing» editorial, talvez ambas as coisas, estas
proclamações iberistas são daninhas e indesejáveis. Não por se recear
que alastrem ou desanimem os concidadãos mais duvidosos do seu
patriotismo, que sempre existiram. Apenas porque induzem em erro aqueles
que, não conhecendo os portugueses, passem a vê-los com o olhar
distorcido do Nobel; porque só ajudam a engordar o vírus da desconfiança
na relação entre os dois povos; e ainda porque, podendo promovê-lo e aos
seus livros em Espanha, rebaixam e diminuem muito o escritor em
Portugal. É pena, por Saramago. E muito triste que o nosso autor mais
celebrado seja tão azedo e displicente para com o país onde nasceu, a
ponto de não lhe importar que ele desapareça como Estado independente.»

Com um obrigado a Carlos Luna.

Os corvos de Blackheath Park

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Pelas cinco da tarde, quando a longa fila de carrinhos de bebé se dirige do portão do Greenwich Park para o interior do Bairro de Blackheath, uma nuvem de corvos vem colocar o negro nas margens do pequeno lago. É o mesmo negro das burcas de Hyde Park sempre em grupo e sempre seguidas por um homem discreto e silencioso mas presente. Ao mesmo tempo, no Museu da Cidade, ali paredes-meias com a Catedral de São Paulo, dois brasileiros começam a fechar o café e a arrumar as cadeiras. Mesmo ao lado, numa sala do Museu, repousa numa bancada o livro gigante com as biografias inacabadas de todos os mortos do dia 11 de Julho de 2005.

Duas semanas antes o meu filho passou durante cinco dias por aquela mesma escada da estação de King´s Cross àquela mesma hora. Foi quando frequentou a British Library à procura de elementos sobre o Marquês de Alorna (vice-rei da Índia) para a sua tese de mestrado. Embora não pareça, o sorriso do primeiro-ministro que decidiu a invasão do Iraque em função de uma mentira fabricada (armas de destruição massiva) é tão negro como os corvos de Blackheath Park. E tão negro como as burcas de Hyde Park. E como o livro do Museu da Cidade, cheio de biografias inacabadas de jovens que não queriam morrer.

Quando os dois brasileiros fecham o café e arrumam as cadeiras, quando os visitantes começam a sair, o livro dos mortos fica imóvel sobre a sua bancada na sala cheia de silêncio. Tão imóvel como os mortos que eram jovens e não queriam morrer naquela escada da estação de King´s Cross, naquela amanhã de Julho.

José do Carmo Francisco

o nariz dos outros

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Décadas depois de os olhos orientais investirem na cirurgia estética e encomendarem incisões que os tornassem redondos, cabe ao Irão o florescimento do negócio, em busca da imagem de Hollywood. Por razões de indumentária nas mulheres, a mudança é procurada nas partes visíveis, das quais o nariz recolhe a preferência. Narizes mais pequenos, finos e arrebitados são a grande ambição, dizendo-se que o nariz iraniano tende a ser grande e adunco.
Escassas vozes se levantam, proclamando ser esta busca de padrões ideais de beleza uma contaminação da cultura ocidental, obcecada com a imagem. As autoridades religiosas não se pronunciaram, e o cirurgião com maior fila de espera defende que Alá há-de aprovar a acção em benefício da beleza. A moda tanto pegou, que um nariz coberto de adesivos se tornou um adereço fashion. Há até raparigas a cobrir o nariz com um penso sem terem feito a operação, que custa cerca de mil e quinhentos dólares. E, assim, vão para a escola mais bonitas.
De um nariz proeminente e aquilino dizia-se um nariz com raça. Sem miscigenação, faz-se o nivelamento dos rostos.

susana

Sócrates no máximo da arrogância

O nosso primeiro-ministro é conhecido pelas manifestações de arrogância, e pouco mais. Isto, segundo as bem informadas, e melhor formadas, forças da oposição; entretanto comandadas pelo poeta Alegre, dado o tilt ocorrido nas chefias dos partidos à direita. Ora, a arrogância socrática parece ter atingido um novo máximo. Ao fazer frente a Jardim na lei do aborto, podemos afirmar, com razoável segurança, ter a arrogância do nosso Primeiro chegado à Madeira. Trata-se de uma torpe ingerência num território autónomo habituado a governar-se sozinho, coitadinho, sem outra ajuda para lá das centenas de milhões de euros enviadas todos os anos pelos desprezíveis cubanos. Os propósitos de Sócrates são óbvios: asfixiar a peculiar concepção de democracia do soba das bananas. Durante 30 anos, Jardim recolheu a conivência de todos os políticos que exerceram o Poder, sem espinhas. Com que direito o arrogante do Sócrates vem agora querer aplicar uma lei da República? Acaso a Madeira é algum Charrua onde o déspota do jogging imagina que pode pôr a mão?

Quem se sabe comportar é o PSD, mantendo-se caladinho. Para quê tomar uma posição, uma qualquer, quando está em causa continuar a garantir o feudo político e os negócios instalados? Afinal, há ou não há autonomia? É que se há, o pidesco Sócrates devia ficar-se pela economia, onde consta que anda a ter ganhos como ninguém acreditava ser possível. Ou ficar-se pelas reformas, contra a maralha instalada em décadas de privilégios e incompetências. Aí é que ele está bem, pois dá para mandar umas bocas de ocasião. Agora, ir afrontar a paradisíaca Madeira? E por causa da porcaria da aplicação de uma lei?! É preciso ser-se arrogante, entre outras coisas.

Conversa de café

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«O homem, pá, tem gosto naquilo. O gajo anterior também, claro. Mas tinha de dizer isso prá gente ver. Este, não. Entra pelos olhos que ele grama o ofício. Se calhar é até por isso que se
vai saindo… bom, assim. Tás a ver?».

Depois de ter visto a entrevista na Sic.

A pedido de várias famílias, foi-se ouvir melhor o registo. Mas as conversas de café são muito enigmáticas.

clareiras

Olharmos a linguagem do corpo como recomenda José Gil. Meta-linguagem que chega a ter códigos; flutuantes, culturais, icónicos. Mas não é só isso. Dizes. No que dizes está o teu pensamento, mas só és inteiro no pensamento de alguém. No teu és apenas muito pouco de ti.
Se te olho, te vejo, ganho o gesto. Revelação tua e no que te trai. Louise Bourgeois explicava, numa entrevista, como se equilibrava o domínio discursivo da jornalista com tudo aquilo que ela mesma captava e transmitia através da visão e respectiva cultura.
Ele falava comigo. Observava o movimento das bochechas, os olhos sem se atreverem a fixar-se em mim. As mãos dele agitavam-se, esfregou a face, nervoso. Eu descrevia para mim e pensava como tudo o que acontece é diferente do imaginável. Dizia ser eu aquela em quem pensava quando via uma nuvem e eu perguntava-me como podia ele confundir todas as nuvens que eram só tuas.
A acção tinha qualquer coisa incaracterística da vigília. Assistia como se inevitável, sem decisões. E havia ainda a ausência de tempo. Como um narrador externo, falava sempre contigo. E isto? Não é linguagem. Não sei o que vale. Valor talvez nem seja, valendo tudo para mim.
O teu rosto, sempre o teu rosto. E então entraste-me devagar e ficaste quieto a crescer. A encher-me as medidas. Não quero vir-me, guardo a tesão. Não sei o que seja. Mas vale um gesto.