Eutrofização

O lago Chaohu mudou de cor. Vê-se, na China. Aconteceu-lhe o mesmo que ao exército vermelho. Agora é o cão de fila dos patrões planetários. Mantém na linha a força de trabalho indígena, e a toda a restante põe-lhe as pêras a três.

Assim – pudera! – mil corações derretem-se com saudades do grande timoneiro. Não fosse ele por vergonha, e até eu pedia emprestado o missalzito vermelho!

Jorge Carvalheira

Derrelictos — Telmo Correia

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Se há algo de que Lisboa precisa, sem margens do Tejo para dúvida, é de competência. Porque a competência é aquela coisa que serve sempre para alguma coisa. A competência tanto pode ser discreta como espalhafatosa, mas é invariavelmente eficaz. A competência alcança, realiza, faz milagres. E a competência tem essa graça acrescida de ser imune à incompetência. Nem todos terão competência, diz-nos o candidato no acto de anunciar a sua posse. E agora é com o eleitor, e é tudo muito simples: acaso não seria útil ter na Câmara a equipa da competência?

«O livro da pobreza e da morte» de Rainer Maria Rilke

Escrito em Paris no ano de 1903, quando Rilke (1875-1926) preparava a monografia sobre a obra de Rodin, neste livro o autor rejeita as grandes cidades: «Porque as grandes cidades, Senhor, / estão desagregadas e perdidas; / na maior parte delas germina o pânico dos incêndios / para elas não há perdão nem alívio / e os seus pobres dias estão contados.» Coloca o campo em oposição à cidade: «Há os que são ricos e aspiram ao triunfo / mas os ricos não são ricos. / Eles não são como esses grandes pastores / que atravessam as planícies verdes e claras / seguidos da massa confusa dos seus rebanhos / como as nuvens passam no céu da manhã.» A cidade é o lugar do medo. Rilke escreve um poema que é uma oração: «faz que eu seja a voz do novo Messias / aquele que diz a palavra e que baptiza / Porque a minha voz cresceu em duas direcções / fez-se perfume e fez-se grito / E faz que ambas as vozes me acompanhem / se de novo me lançares na cidade e no medo.» A cidade não é o lugar do homem («As cidades só pensam em si próprias / e arrasam tudo na sua corrida») e nelas os sem-abrigo, que andam pela noite como mortos, esperam una voz: «E se houver ainda uma voz para os defender / faz que seja forte e persuasiva». A obra de Francisco de Assis é a resposta: «Onde está esse que dos seus bens e do seu tempo / soube tirar forças para a sua grande pobreza / para se despir das suas roupas na praça / e surgir nu diante das vestes do bispo. / Veio da luz para uma luz mais profunda / e a alegria habitava a sua cela. / E quando ele morreu, leve e sem nome / foi repartido.» Uma nova editora, uma nova colecção de poesia, um livro a descobrir em português mais de cem anos depois da sua primeira edição.

Editora – Bonecos Rebeldes
Tradução – Ana Diogo e Rui Caeiro
Prefácio – Rui Caeiro
Capa – José António Coelho

José do Carmo Francisco

rosa soft

Os primeiros olheiros a assinalar a minha contribuição cromática para o blog foram os seus comentadores mais assíduos, os marginalíssimos da vitamina B exponenciada. Porque são dotados de feminil intuição, como se nota pelas iniciais tão simbolicamente sexy. E feministas, também, ou não teriam uma barbuda assumida como guru.
Quando o Valupi me convidou para escrever aqui até chorei, tal foi a comoção que se gerou. Estava a tomar o pequeno almoço. O temporizador da torradeira está avariado e o pão tinha dois dias. Chamuscaram-se as torradas. Depois de raspadas as migalhas mais escuras para cima da louça por lavar, sobrou um rebordo acastanhado e duro. Curtia, na altura, o drama magoado do fim da Sociedade Anónima. No instante da proposta a surpresa lançou uma lasca de côdea a caminho do meu esófago. Engasguei-me e tossi. Tossi muito, até me virem as lágrimas aos olhos. Só pararam de rolar ao terceiro gole de café com leite morno. Pude então passar às manifestações de modesta incredulidade.
A indecisão durou umas semanas, ou estaria a fazer-me difícil. Iniciada pelo misto Afixe, de quotas rigorosamente equitativas, e treinada pelo hiper-ultra-mega feminino Sociedade Anónima, estranho-me agora num blogue de gajos. Como não são meus filhos, prometo não oferecer medicação acertada, menos ainda regular. Remédio, não tenho. Espero apenas efeitos secundários.

A falta que elas fazem

Falo delas, o gajedo. Falhada a contratação da Ana Cristina Leonardo (a qual teve juízo, e supino bom gosto, preferindo criar a mui recomendável Meditação na Pastelaria), fomos aos despojos da feminina e feérica SOCA convencer uma das estrelas da companhia — cecília r. — a juntar-se a este grupo de tontos. Não foi fácil, pois esta casa não tem acomodações para senhoras, mas a sua generosidade (de mulher?) venceu montanhas de dúvidas. Ficam as certezas de o Aspirina B ficar um local muito mais bem frequentado.

Susana, instala-te onde quiseres.

Luís Graça & Rui Unas

O Show do Unas é uma coisa que falhou, não se tendo chegado a saber o que pretendia ser. Como já o amaldiçoei, estou à vontade para louvar o exercício supra. Um poeta de plurais qualidades encontrou um interprete que lhe fez jus. É acontecimento raro. E, ó Unas, que tal largares a pseudo-radicalidade adolescente e ocupares o lugar deixado vago pelo Mário Viegas?

Derrelictos — Carmona Rodrigues

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Lisboa é um encanto, cantada por poetas, louvada por turistas e arruinada por presidentes da Câmara. Mas faltava-lhe o je ne sais quoi das grandes capitais do Mundo. Isto foi assim durante séculos. Uma apagada e vil tristeza no meio de tanta luz. Até que, em 2007, um candidato defenestrou os limites do bom-senso e fez de Lisboa o seu partido. Inovação internacional. Perguntarão: qual o projecto político de Lisboa? Que ideias defende Lisboa? Lisboa é de esquerda ou de direita? Perguntas asininas, escusado seria dizer. Como se ainda alguém perdesse tempo a ler o programa dos partidos.

Derrelictos — Fernando Negrão

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O Governo não manda em tudo. Muitos se queixam da arrogância do Governo, da prepotência do Governo, até da perseguição do Governo, mas ‘pera aí, alto! O Governo não manda ali. Ali, onde? Ali onde manda o Presidente. Esclarecidos? Avancemos. Então, e de que presidente estamos a falar? O da República? O da Junta? Algo pelo meio? Isso já não interessa ao candidato estar a detalhar. Interessa é saber que ali, algures, o Governo não bota faladura nem mete o nariz. Ali, é tudo nosso, é à brava. Ou seja, é do Presidente, desgovernado.

Ernestina

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Havia em José Rentes de Carvalho duas Ernestinas, a mãe e a filha, a mulher e a obra. Da primeira nasceu ele assim, andarilho de muitos mundos, “romeiro sem romaria”, a viver há cinquenta anos na Holanda. Aí foi professor na Universidade de Amsterdam, aí tem visto apreciada e lida a vasta obra. Não assim em Portugal, e não admira, se Rentes de Carvalho nunca foi de cenáculos da moda, nem de incensórios, nem de capelinhas. E sobre o mais com este ar de estrangeirado.

A segunda é a espantosa e comovente saga duma família, e dum tempo, e dum certo país. “É um exemplo de como se pode passar literariamente por uma região sem se atolar nela”, e isto disse a propósito Rui Ângelo Araújo, que foi seu companheiro e alma da Periférica, e é outro animal transmontano que também se não ajeita a dar o lombo às amansias costumeiras.

Seria exagerado privilégio de Rentes de Carvalho ter vivas as duas Ernestinas. Perdeu agora uma. A mãe faleceu há dias.

Jorge Carvalheira

Notícia no blogue de José Rentes de Carvalho.

Sobre a obra do autor.

Livros publicados na Holanda.

Derrelictos — Ruben de Carvalho

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Quem é o senhor na fotografia? Será o senhor CDU? Ou o senhor PCP-PEV? Não é possível descobrir. Seja quem for, tem uma solução para Lisboa. Solução única? Ou a única solução? Não é possível saber. Seja como for, seja qual for, a solução existe, e é para Lisboa. Nesta informação, está outra: a de que Lisboa tem um problema. Lógico. Foi para garantir este grau de certeza na mensagem que se fez uma coligação. E não passará pela cabeça do eleitor pôr em causa o superior mérito desse esforço.

«Carícias quentes», ou também há derrotas nas canções

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Dulce Pontes abrirá com José Carreras, no próximo dia 7, o espectáculo das «7 Maravilhas do Mundo». É uma vitória. Mas, em 1996, quando Roberto Faenza veio a Lisboa rodar «Afirma Pereira», Dulce Pontes sofreu uma derrota amarga. Mastroianni visitou Amália Rodrigues e convidou-a a cantar o tema que Morricone tinha escrito para o genérico do filme. Amália estava doente e recusou. O convite foi parar a Dulce Pontes que aceitou, mas torceu o nariz ao poema de F. de Melis e E. Scoles. Percebe-se porquê:

Lua que brilha branca
Na manhã a descobrir
Sobre o mercado
Dos melões de ouro
Curiosa espreita
As casas cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro
O segredo a descobrir
Está fechado em nós
O tesouro brilha aqui
Encanta o coração
Mas está escondido
Nas palavras
E nas mãos ardentes
Na doçura de chorar
Nas carícias quentes

No brilho azul do ar uma gaivota
No mar branco
Da espuma sonoro
Curiosa espreita as velas
Cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro

O segredo a descobrir
Está fechado em nós (…)

A brisa brinca
Como uma gazela
Sobre a torre branca
E a Rua do Ouro
Curiosa espreita a fenda da janela
À procura do nosso tesouro

Dulce pediu a uma amiga que comparecesse na editora Moviplay onde, na presença do seu «manager» e de Dick Van Dick, lhe entregou a cassete com a música executada por Morricone ao piano. Horas depois o poema estava feito. Assim:

É sobre o oiro das areias
É sobre este sal
Que tece a renda às ondas
Que à noite o canto das sereias
Traz junto de mim
Esta tristeza, tanta
Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade
Flor da cor azul do mar
Mais recordo a luz
Que veste o teu olhar
Muito mais eu tenho
A certeza de ser
Por ti a prisioneira
Que se deixa à solta

E olho os pombos nos telhados
Invento no cais
Regressos de faluas
Desvendo feitos ancorados
De homens sem data
A darem nome às ruas

Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade (…)

E os búzios
Cobrem-se de prata
Entoam comigo
O canto das sereias
Quando anoitece no meu peito
E a lua embala o sono das areias

Canção gravada num domingo à noite, logo na segunda-feira de manhã se providencia o envio para Itália. Mas de lá veio a decepção. Havia compromissos e os autores italianos eram amigos de António Tabucchi e de Roberto Faenza. Nada a fazer. Dulce Pontes não conseguiu impor a sua vontade.

Nota final: a autora do poema «vencido» é Soledade Martinho Costa que tem aparecido no Aspirina B. O Mundo é pequeno…

Litania para um domingo de Lisboa

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Dizem que é domingo
a graça desce
em seus roucos paramentos
e as gentes passam rebocando o tédio
o coração afeito à fuligem
que se derrama pelos vãos das coronárias

cobre a ferrugem
promessas de vão futuro
gravemente a natureza
(que é sempre verdadeira)
faz-se espelho de ausências

talvez seja domingo
com seu branco morno tinto
e seus pretos e seus ritos
e algum brando desatino

e desarvora o deus
a infindável rebentação
que sacode praias e ilhas
souvenir que me levasse
pela mão da sorte
aos céus dos anos moços

talvez seja outra vez domingo
na solidão vigiada pelo olhar da filha
pela cinza que enluva silos e guindastes
pelo metal da mágoa
atravessando os poços da alma

quisera já as penas de segunda
o débito que vence de rasgão
pois há sempre quem traz a alma
enroscado ao aro da incerteza
confiado que a manhã estende
uma carta de rumos até onde
o domingo é um tropo esvanecendo-se
num débil rufar de cinzas

José Luiz Tavares