Derrelictos — Pedro Quartin Graça

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O sonho de uma Lisboa verde parece glauco. Se realizado, teríamos flores em cada esquina, fontes de cristalina água de cem em 100m, um carvalho na sala de jantar de todo o lisboeta com cartão de eleitor. A Lisboa verdadeiramente natural, ecológica, prístina, seria um Monsanto a multiplicar por 10, uma Sintra de beira-rio, a Amazónia dos pequeninos. Viveríamos de pinhões e esquilos assados. Este candidato sabe o que quer para Lisboa. É de deixar o eleitorado verde de inveja.

As calças de ganga de Rui Veloso

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Passei o serão a assistir ao espectáculo das “Novas 7 Maravilhas de Portugal e do Mundo”. Consegui chegar até ao início do fogo-de artifício – coisa sempre muito apreciada e que não pode faltar no encerramento das nossas ancestrais festividades. Depois, fui dormir, que muito aguentei eu.

É claro que assisti a ambas as votações. Mas não votei. Nem nas maravilhas de cá nem das de lá. Se todas elas são maravilhas, de que merecia a pena escolher 7 de lá e 7 de cá!? Foi essa a conclusão a que cheguei e não estou nada arrependida. Arrependida, estou, sim, das expectativas que, ingenuamente, criei.

Soledade Martinho Costa

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Os inesperados versos de Vasco Santana

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Na Livraria 1870, ali à Travessa de São José nº 1, entre o Príncipe Real e a Assembleia da República, acabo de encontrar um livro curioso. Foi publicado dias depois da morte de Vasco Santana em 13-6-1958 e o autor é Ápio Garcia. Nas suas 55 páginas pode ler-se a forma insólita como o célebre actor começou a carreira.

Estudante da Escola de Belas Artes em 1917, gostava de espreitar as peças que o seu tio Luís Galhardo escrevia e que o seu pai Henrique ensaiava. Um domingo de 1917, quando ia a caminho do Campo Pequeno para ver uma tourada com o famoso matador Belmonte, foi interceptado e levado ao Teatro Avenida no qual estava em cena a revista «O Beijo».

Vasco tinha 19 anos e o tio convenceu-o a substituir o «compére» Artur Rodrigues (doente no Hospital) com o argumento de que ele sabia o papel de cor pois tinha visto a revista muitas vezes. Apesar de transido de medo, Vasco Santana agradou e nunca mais parou. Anos depois reflectia sobre o facto de muitos milhares de pessoas afirmaram ter visto a sua estreia quando a lotação do Avenida não chegava aos mil lugares.

Aqui vão os versos que em 1947, sobre a crise do Teatro em Portugal, Vasco publicou n’O Século.

O Teatro lá por dentro
É uma coisa de monta
Mundo, inferno, centro
De actividades sem conta!

Para ter saúde o organismo
Por que anseia? Vê-se logo
Por subsídios! Altruísmo?
Qual! Exige é desafogo!

O subsídio é deprimente
Torna as almas pequeninas:
É sustentar um doente
A injecções de vitaminas!

Dêem-lhe ar e claridade!
É soltar-lhe os movimentos
Que tem logo outra expansão
Que nascem logo talentos
Da mais fresca inspiração!

No mais, o público acorre
Há espírito audaz, moderno
E o Teatro não morre
Porque o Teatro é eterno!

Há-de vencer a anemia
E com as bênçãos do céu
Ainda espero qualquer dia
Vê-lo tão gordo como eu!

recolhido por José do Carmo Francisco

virtudes do zapping


Apanhei ontem Zainab Salbi em entrevista à Al Jazeera. Detalhes da vida privada e do trabalho desenvolvido, salteados com a sua mensagem e reflexão. Afegãs, congolesas, iraquianas e bosnias oferecem à activista e autora biografias inconfessáveis, pedindo-lhe que as revele ao mundo, mas não aos vizinhos.

Relatou a experiência do medo, um medo tão familiar que se torna nosso e descobrimo-nos a cuidar dele, a encontrar-lhe conforto. A consequente necessidade de saber controlar as emoções até ao domínio da expressão fisionómica.

Saddam Hussein capturado trouxe-lhe um dia feliz, apesar da posição firme contra a guerra, porque a paz tem um preço muito mais baixo (e preço é polissémico…). Assumiu candidamente a incoerente ambivalência.

Treinada para dar, o maior desafio que encontrou na intimidade foi o de aprender a receber. Habituou-se a causas grandiosas e só há pouco tempo descobriu o encanto das pequenas coisas, aceitando agora o direito à maternidade.

De tudo falou, mesmo do choro – o seu -, sem despir o sorriso. Que bonita.

susana

cinco receitas para comer maltesers

Introduzir a esfera inteira na boca e mascá-la até ao fim. É o modo vulgar.

Comê-la em pequenas dentadas, mantendo constante o ratio de chocolate e malte.

Partir a camada de chocolate com ligeiras mordidelas, de modo a soltá-la como à casca de um ovo cozido. Deixar o núcleo desfazer devagar sobre a língua.

Derreter o chocolate dentro da boca como um rebuçado. A seguir, partir o núcleo com os dentes da frente. Fazer uma pasta com estes pedaços, equilibrando mastigação e saliva.

Chupá-la e desfazê-la em simultâneo, pressionando-a contra o céu da boca. Quando quebrada, enrolá-la na língua, para sentir a mistura de sabores e o contraste de texturas. Escorrega para baixo, sem repararmos sequer que engolimos.

susana

Derrelictos — José Pinto-Coelho

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Muito antes dos Fedorentos criarem cartazes em estilo PNR, já o PNR criava cartazes fedorentos. Fedorentos e PNR, pois, um caso de atracção mútua. Em resultado, agora o candidato considera-se colega de profissão, privilégio da deferência felina. Gozar com os políticos é legítimo e a malta aplaude, revelou o Marquês de Pombal. A lição pombalina aplica-se nas eleições em Lisboa, a tal que é cidade portuguesa. Neste exemplo, está-se a gozar com o Zé.

baby blog

No balcão do banco, na vitrina da mercearia, em cima dos escaparates com jornais e revistas. Ontem dei com a desaparecida Madeleine McCaan a espreitar com ou sem sorriso, por todo o lado, além do écran do meu computador.
Volto hoje a ver o Rui Pedro no blog da Emiéle, onde tem estado. O rosto a que nos habituámos sempre adolescente ao lado de uma “previsão robot” desactualizada. Mil novecentos e noventa e oito. O mais mediático dos portugueses raptados terá já mais de vinte anos – se os tiver.
Os filhos vêm com espadas de Dâmocles. Todos os dias agradeço aos deuses que as minhas continuem pendentes.

Derrelictos — José Sá Fernandes

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A política é feita por pessoas. As pessoas têm nomes. Os nomes podem ter diminutivos. Os diminutivos fazem falta? Admitindo que sim, qual a falta que um diminutivo pode fazer? Quais as ocasiões em que o diminutivo cumpre uma função fora do alcance do nome original e grandalhão? Será ao falar, se calhar estar com pressa? Será ao escrever um telex? Será para pedir um cortador de relva emprestado? E quem serão os que lhe sentem a falta? Alguns poucos, alguns muitos ou todos? Mais as mulheres do que os homens? Mais as namoradas do que as sogras? Duvido que alguém duvide da falta que o Zé faz. Mas, e que mais é que o candidato sabe fazer?

Justiça corrente

Velho, cansado, a um passo da reforma. Desterrado para uma comarca irrelevante, o delegado dispunha agora de tempo para pensar em tudo o que não tinha vivido e na verdade que importava. O rumor aquoso do vento nas copas das árvores entrava pela janela aberta. Olhava o conflito das correntes no riacho ao fundo do talude, sabendo que as águas corriam num sentido sempre certo.
Quando o processo chegou, teve pena da mulher, mais uma vítima dos homens, da ignorância, do inelutável apego das leis ao rigor da palavra escrita. Mas não foi por isso. Folheou-o. Enganos e deslocações dos envolvidos eram responsáveis por um nomadismo do caso, atestado pelos sucessivos registos e anotações ao longo de vários anos. Sopesou-o: uns bons dois quilos, ou seria escassez de massa muscular.
Enfadado, dirigiu-se à janela. Num movimento brusco e que lhe pareceu poderoso lançou o calhamaço, vendo-o submergir e reaparecer. Rodopiou e vogou, embateu por instantes em ressaltos de pedra, atrasou-se nos ramos caídos. Olhou-o através da trama das silvas, até se perder na curva.
Algum tempo depois chegou a carta. Aparentemente o processo tinha desaparecido. Segundo o último registo disponível, teria sido enviado para ali. A resposta do delegado foi pronta e sucinta:
O referido processo esteve nas minhas mãos. Segue, agora, o seu curso natural.

«Poemas simples» de Fernando Botto Semedo

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Depois de O livro da primeira classe de 2005 e de Transparências de 2006, surgem estes Poemas simples de 2007, 30º título de Fernando Botto Semedo.

Partindo de uma epígrafe de Sebastião da Gama (1924-1952) e de uma dedicatória ao seu tio Manuel Lopes Correia Semedo (1922-1953) o poeta regista em poema a morte, a «dor disforme»:

«A minha alma é pura seiva de / toda a Primavera, e tudo canta / mesmo a dor disforme. Vejo / os pássaros agasalhando as suas / crias, para que o universo e Deus / sejam semeados por uma paz intacta / e sagrada para sempre. / O meu nome é seiva de Deus / – Escrevo, inesperadamente». Para o Poeta, se o Inverno é a morte a Primavera é a vida, impetuosa reposta às ciladas do Inverno: «Nos Invernos estão adormecidas todas / as Primaveras de todos os séculos / nos grãos de uma brancura infinita / que povoam a terra e as árvores adormecidas. / Um anjo vegetal é um anjo da guarda / de toda a vida, hoje e sempre, e / para sempre.»

Invocando dois jovens mortos do seu panteão privado, um na área da poesia, outro na área do afecto familiar, o poeta vê nas crianças ainda sem passado a chave para a principal resposta à morte:

«As crianças são irmãs do silêncio / e do amor divinos que se escondem / na seiva do tronco destas árvores infinitas / que principiaram a nascer / quando o sonho do poema / se materializou na minha alma / eterna, tão cheia de lágrimas de / um secreto sol que se propaga / pelos interstícios de todos os significados / os da verdade e da comoção do poema / das palavras que aqui se inscrevem / puras.»

Capa – Fernando Botto Semedo
Execução Gráfica – Gráfica 2000

José do Carmo Francisco

Crónica da manhã

Primeiro, o Alberto mandou um mail, que fui ler ainda de noite.

Tenho estado afastado por andar em baixo há já uns meses largos. Não arranjo trabalho desde há seis meses, a minha licenciatura em Ciências da Comunicação não serve para nada, e a mulher da minha vida já não anda por perto.
De maneira que, há umas semanas, atingi um ponto baixo de melancolia e depressão. Acabados os exames de Filosofia, entreguei-me às delícias das vaporações etílicas, que, devo confessar-te, me aliviavam o sofrimento. Ficava tudo mais calmo, mais tranquilo, mais poético até!
(…) Sobre os maestros, é verdade, isto está a tornar-se preocupante. Bem colocados na vida, ocupam os postos certos para a batalha ideológica. São os intelectuais orgânicos de serviço. Por isso falam como falam, olham como olham, sentem como sentem.
(…) O meu futuro não me parece nada risonho, sabes? Provavelmente, quando acabar Filosofia, não poderei dar aulas, tantos são os cursos abertos e as escolas fechadas. (…)

Depois fui buscar o Courrier Internacional, que saiu hoje.

… Os japoneses dos 25 aos 35 anos vivem numa precaridade extrema. Aos freeters (free arbeiters) já chamam a geração perdida.
… Desde 2002, a primeira causa de morte entre os 20 e os 39 anos é o suicídio.
… Para Kinoshita, professor de Sociologia do Trabalho da Uni de Showa, a época actual tem traços comuns com a Revolução Industrial. No dealbar do capitalismo, havia uma multidão de trabalhadores privados de direitos e tão pobres que morriam de fome.
… Agora que a ameaça do comunismo desapareceu, o capitalismo pode regressar à sua forma original, a lei do mais forte.
… Com a globalização, as empresas podem sempre procurar no estrangeiro mão-de-obra mais barata.
… Após o rebentamento da bolha financeira, as empresas impuseram formas de emprego precário que atingem hoje um em cada três cidadãos activos.
… A paz não é uma coisa benéfica. A guerra, ao quebrar a ordem social, dá nova dinâmica à sociedade. Em vez de sofrer a discriminação e a humilhação, mais vale a guerra e um sofrimento partilhado por todos.

Ainda quis sair, à procura dum diário. Mas abri o Aspirina e dei com o post do Fernando. Foi uma óptima coisa, este achado dos americanos. Em vez de ler, vou passar a ficar-me pelos bonecos. Sei que à partida, o único direito que têm garantido os nossos filhos e netos é serem sobre-explorados, como os chineses, indianos e quejandos o são já. Mas o problema é de quem os tiver, não é o meu caso. Eu só não sei o que dizer ao Alberto.

Jorge Carvalheira

Eu daria tudo

Pois é. «O que eu não daria para tê-lo (ou tê-la) aqui, cinco minutos que fosse!», dizemos. Pura leviandade. Sim, a sério, quanto estaríamos dispostos a dar pelos cinco minutos, por dois, por um? Mil euros? Quinhentos? Cento e cinquenta? Nunca fazemos as contas. Ao desejo e ao porta-moedas.

E quando o desejo é grande, e dizemos «Eu daria tudo…», isso é mesmo a valer? Tudo? O emprego, a casa, a segunda casa, o carro, as férias às cálidas caribenhas areias – tudo, mesmo?

Às vezes, a língua humana embaratece muito.

De pasmar…

… é o artigo «Engenho luso», hoje, no Público, de Carlos Fiolhais. Começa assim:

O New York Times de 29 de Junho último relatava aos americanos um facto pouco conhecido deles: “Uma versão da Internet foi inventada em Portugal há 500 anos por uma mão-cheia de marinheiros com nomes como Pedro, Vasco e Bartolomeu. A tecnologia era grosseira. As ligações eram instáveis. O tempo de resposta era muito lento (uma mensagem enviada nessa rede podia demorar um ano a chegar). Mas eles construíram-na. Estavam sedentos de ter acesso ao mundo.”

De pasmar, disse eu? De arregaçar as mangas, pá.

Derrelictos — Manuel Monteiro

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Uma nova democracia precisa de se conseguir distinguir completamente da velha democracia. Mas precisa ainda mais, muito mais, de se conseguir distinguir da recente democracia. Que fazer? O candidato tem mostrado possuir o segredo dessa alquimia. Sempre que pode, anuncia estar em ruptura com o sistema vigente. Este, intentava questionar, sugerir e debater. Os prejuízos para a democracia advindos de tais práticas velhas e recentes estão à vista. Com os neo-democratas acaba-se o forrobodó, vai-se directo à essência das coisas. Eleitor, Lisboa é Capital, ’tá?

A culpa do Mello

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Quando o major Vítor Pinto vê passar na rua uma criança descalça, fica com raiva ao senhor Jorge de Mello porque acha que é por culpa dele que há crianças descalças na rua. Esta característica, substância de uma maneira de ser da esquerda em Portugal, entremeia com uma segunda característica, substância de outra maneira de também o ser. Quando o major Vítor Pinto vê passar na rua o próprio senhor Jorge de Mello dentro de um BMW novo em folha, torna a ficar-lhe com raiva porque acha que é por culpa dele que os majores divorciados não podem aspirar a mais que Escorts em segunda mão.

A. B. Kotter (José Cutileiro), «Bilhetes de Colares», Semanário, 10 de Dezembro de 1983

Quanto se sabe, o «major» é figura ficcionada. De resto, a citação nada tem a ver com o livro acima, que está aí à míngua de fotografias do empresário.

Nagashima no Príncipe Real

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Nunca se cansa de pintar todos os dias
Descobre sempre um ângulo inesperado
Regista nas telas a luz das manhãs frias
Usa com as tintas algum sangue pisado

Quando chegou para ver uma Exposição
Era em noventa e oito, o século passado
Lisboa passou a ser o lugar duma paixão
Dum homem que viajou por todo o lado

Nunca se cansa de pintar todas as cores
A cada dia ele descobre novos olhares
Não lhe chegam ao ouvido os motores
Nem estas discussões mais particulares

Nos seus olhos que não param de olhar
Há um brilho tão fugidio e emocionado
No fundo de cada quadro está o lugar
Para um neto que ainda não foi beijado

José do Carmo Francisco

A great chance for survival

Os Arcade Fire são tão bons que até me fazem uma certa impressão. Infelizmente, não pude revê-los esta semana ao vivo, mas quero que o mundo saiba que eu, mero mortal que nem as rosas e Aristóteles, estive naquele inesquecível findar de tarde em Paredes de Coura, onde a banda deu, simplesmente, o melhor concerto que até hoje vi na minha vida. Os rapazes andavam a portar-se mal e ainda não tinham lançado qualquer vídeo musical relativo ao seu novo álbum. Também por isso, o que vos trago aqui é absolutamente maravilhoso: a banda a interpretar ao vivo aquela que é a mais bela, contida e melancólica canção do seu repertório: «Neon Bible». Num elevador.

No comments

O sistema em que o Aspirina habita está sujeito a caprichos. Desta vez, ficámos mais de 12 horas sem poder comentar. Com o tempo, descobrimos que as perturbações são como os tigres de Borges. Aparecem sem sabermos porquê, e acabam por se tornar parte do ritual.

gravitas/gravidu

A isenção da taxa moderadora para a prática do aborto vem confirmar o estatuto de doença grave conferido ao estado outrora interessante. Não só grave, gravíssima, de gravidade maior que as demais doenças graves que exigem intervenção mediante o pagamento da taxa.
A cura pelo parto é muito cara, comparada com o aborto, mas tem a vantagem de investir na Segurança Social, a longo prazo. Se bem que comporta um longo período de convalescença, ainda mais debilitante do que a própria doença. Não esqueçamos que a mulher passa a viver com um parasita desgastante. E que os parasitas são coleccionáveis.
Justifica-se, assim, a atribuição duma baixa remunerada (sugiro a duração de três anos, nove meses incluídos) a todas as vítimas deste flagelo sexualmente transmissível. Estava-se mesmo a ver: com um nome desses só podia ser grave, a gravidez.