Os inesperados versos de Vasco Santana

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Na Livraria 1870, ali à Travessa de São José nº 1, entre o Príncipe Real e a Assembleia da República, acabo de encontrar um livro curioso. Foi publicado dias depois da morte de Vasco Santana em 13-6-1958 e o autor é Ápio Garcia. Nas suas 55 páginas pode ler-se a forma insólita como o célebre actor começou a carreira.

Estudante da Escola de Belas Artes em 1917, gostava de espreitar as peças que o seu tio Luís Galhardo escrevia e que o seu pai Henrique ensaiava. Um domingo de 1917, quando ia a caminho do Campo Pequeno para ver uma tourada com o famoso matador Belmonte, foi interceptado e levado ao Teatro Avenida no qual estava em cena a revista «O Beijo».

Vasco tinha 19 anos e o tio convenceu-o a substituir o «compére» Artur Rodrigues (doente no Hospital) com o argumento de que ele sabia o papel de cor pois tinha visto a revista muitas vezes. Apesar de transido de medo, Vasco Santana agradou e nunca mais parou. Anos depois reflectia sobre o facto de muitos milhares de pessoas afirmaram ter visto a sua estreia quando a lotação do Avenida não chegava aos mil lugares.

Aqui vão os versos que em 1947, sobre a crise do Teatro em Portugal, Vasco publicou n’O Século.

O Teatro lá por dentro
É uma coisa de monta
Mundo, inferno, centro
De actividades sem conta!

Para ter saúde o organismo
Por que anseia? Vê-se logo
Por subsídios! Altruísmo?
Qual! Exige é desafogo!

O subsídio é deprimente
Torna as almas pequeninas:
É sustentar um doente
A injecções de vitaminas!

Dêem-lhe ar e claridade!
É soltar-lhe os movimentos
Que tem logo outra expansão
Que nascem logo talentos
Da mais fresca inspiração!

No mais, o público acorre
Há espírito audaz, moderno
E o Teatro não morre
Porque o Teatro é eterno!

Há-de vencer a anemia
E com as bênçãos do céu
Ainda espero qualquer dia
Vê-lo tão gordo como eu!

recolhido por José do Carmo Francisco

3 thoughts on “Os inesperados versos de Vasco Santana”

  1. gostei, politicamente incorrecto no enquadramento actual: não seria bandeira do meio teatral português, não…

  2. Concordo mas parece-me fascinante o esplendor do acaso. Se o actor não tivesse adoecido, se a sala não estivesse esgotada, se o estudante de Belas Artes não fosse espreitar o trabalho do tio e do pai, se o tio não soubesse que ele ia ao Campo Pequeno… E depois a fraqueza humana: milhares e milhares disseram ter «estado lá» quando a sala levava menos de mil…

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