Dia dilemático, este, mesmo para quem não reside em Lisboa.
Parou de chover; biquini de riscas ou biquini às flores?
susana
Daqui a umas horas abrem as mesas de voto em Lisboa. A abstenção será a vencedora destas eleições, e creio que a culpa é da candidatura de Helena Roseta. Trata-se do maior fiasco dos últimos anos, pois muito se esperava da mulher. O que se viu é igual a zero. E o zero começou a fIcar redondo na recusa de coligação com o José Sá Fernandes. Curiosamente, o meu desejo de 11 de Maio não era assim tão alucinado, pois a Nogueira Pinto admitiu apoiar Roseta. Perdeu-se uma rara oportunidade para se renovar a democracia e promover a cidadania.
Acreditando que vemos no exterior o que somos no interior, que os trafulhas vêem trafulhas em todo lado e os anjinhos se imaginam no céu, envaideço-me a pensar que Sócrates foi inteligente e responsável na escolha de António Costa. Não é comida para a minha dieta, mas foi socrático. Foi bom para a Polis.
Um misto, ou mistela, de sentimentos patéticos com raciocínios abstrusos preenche o fenómeno da popularidade de Carmona Rodrigues. Os seus apoiantes dividem-se por dois influentes e retro-urbanos grupos: as donas-de-casa e os fogareiros. A uni-los, um único argumento a favor do bisonho anti-PSD e anti-partidos: ele é boa pessoa. E quanto menos falar de política, ou quanto mais falar contra os políticos, mais melhor-boa a sua pessoa ficará. Claro, também com patarecos se faz uma eleição.
Sobra o Sá Fernandes. Um lírico. Um bravo. Vai ter o meu voto.
Divulgamos uma carta do jornalista Hernâni de Carvalho dirigida a Soledade Martinho Costa a propósito do post de 12 de Maio desta última no Aspirina. Segue-se a resposta da autora.
Sra Dona SoledadeAconselharam-me a ler as letras que me dedicou. E aqui estou. Se de facto viu o programa da Júlia Pinheiro, devo dizer-lhe que terá, no mínimo, percebido várias coisas mal. Certamente por falta de capacidade de comunicação da minha parte. Afasto-me das incorrecções que aqui pôs na minha boca para lhe garantir que não acredito que a mova contra mim algum rancor. Nunca tinha ouvido falar na sua existência. Coisa de que lhe peço desculpa.
Em verdade, o tempo ajuda. Hoje, ao contrário do que se fazia crer há 2 meses, percebe-se que:
1 – os pais não foram inspeccionar os 3 meninos que abandonaram na casa;
2 – os pais estavam bem-dispostos num bar a mais de 50 metros da casa onde deixaram os meninos;
3 – do bar não se vislumbra a casa onde os Macann deixaram os 3 meninos;
4 – os pais rejeitaram os serviços que o hotel põe à disposição para acompanhamento de crianças;
5 – este comportamento dos Macann é crime em Inglaterra;
6 – poderia avançar com mais esclarecimentos, mas reconheço (tal como diz no seu simpático texto) que sou desastrado. Tão desastrado que, por muito que aqui viesse explicar, estou convicto, a senhora iria encontrar de novo coisas que eu não disse. E a culpa seria de novo minha.
Peço-lhe desculpa por não entender os exemplos que me deixou no texto (a culpa é de novo minha) e aproveito para lhe dizer que nunca tive dinheiro para ter casa, com piscina e muito menos no Algarve. De facto, eu sou mesmo doutros lugares a vários níveis. Peço-lhe desculpa pelo incómodo e agradeço-lhe a atenção.
PS. Não é meu hábito intrometer-me nestas conversas e comentários. Mas como a Júlia Pinheiro é aqui acusada de ter feito uma má escolha (ao convidar-me para o seu programa), entendo ser da mais elementar justiça vir aqui pedir desculpas à Júlia Pinheiro e agradecer à Dona Soledade ter-me apelidado de prata da casa. É bom sinal e fico orgulhoso disso.
Hernâni Carvalho

Ontem na rubrica Pisa-Papéis do «Expresso»
Nos planos de José Sócrates, as relações da Europa com o Brasil devem primar pela «compreensibilidade» e pela «coerência». Assim o disse, há dias, na RTP. A coerência entende-se. Mas terão essas relações de ser, também, compreensíveis, transparentes? É o óbvio, para além de ser redundante. Ora, o contexto indicava que, ao pedir «compreensibilidade», o actual presidente europeu desejava que as relações fossem amplas, multiformes, abrangentes. Aquele «compreensível» português está, ali, sugando tranquilamente semântica ao «comprehensive» inglês. Em Bruxelas, isto facilita a vida aos intérpretes. Mas, numa televisão portuguesa, semeia a perplexidade.
Esta deriva semântica vem atingindo, de há tempos, outras palavras portuguesas, sobretudo adjectivos e advérbios, sempre sob a pressão do inglês. É o caso de «específico», usado em vez de «concreto». «Houve várias ameaças específicas», lia-se há pouco no «Público». E é corrente lermos e ouvirmos «neste caso específico» por «neste caso concreto». Observe-se, também, o uso de «dramático» por «drástico», «radical». «O mundo mudou dramaticamente», dizia um locutor da TVI, no sábado passado, apresentando as 7 Maravilhas. Ele queria dizer «radicalmente», «drasticamente».
Assentemos nisto: o mal não é importarmos do alheio. No passado, chegaram-nos milhares de vocábulos, primeiro por via do castelhano, depois do francês, recentemente do inglês. O que transtorna o idioma é a pacóvia importação da semântica.
Assim, quando lemos que alguém chegou ao fim da vida «virtualmente cego», ou que certo político soube «virtualmente pela imprensa» da sua demissão (tudo de novo no «Público», o nosso diário de qualidade), que entendemos? Nada. Até vermos que há um decalque de «virtually», que significa «praticamente», «quase». A balbúrdia agrava-se com «eventualmente», usado no sentido inglês de «finalmente», «por fim». Diz-se-nos que um doente «eventualmente morreu», quando o pobre senhor «acabou por morrer». Já o novo sentido de «aparentemente» estabeleceu, esse, a confusão total. Detenhamo-nos aqui.
O inglês «apparently» (tal como o francês «apparemment») não corresponde ao nosso «aparentemente», que quer dizer «só na aparência, não na realidade». O termo inglês (e o francês) é bem mais positivo e significa «como tudo indica», «pelos vistos», «ao que se sabe», «segundo consta» e mais formosíssimos giros pátrios. A cópia apatetada da semântica alheia conduziu, hoje, à perfeita indefinição. Quando ouvimos que «o incêndio aparentemente está dominado», ficamos hesitantes entre o alívio e o desassossego. E quando se pergunta a alguém «O Zé é rico?» e nos respondem «Aparentemente», o Zé continua o mistério que era.
Que fazer, pois? Isto, que é decisivo: percebermos que este nosso idioma, sendo primoroso, é também frágil e requer vigilância. Que, deixado a si, não se safa.
Fernando Venâncio

O mais patusco dos pretendentes ao trono autárquico é também o único a poder reclamá-lo por direito de baptismo. A familiaridade com a Câmara está no anil que lhe corre nas veias, é vocação dos que nascem em berço. Os plebeus da concorrência não conseguem lutar com fidalguia contra a hereditariedade. Então, recorrem aos mais baixos e funestos instintos populares, os quais vão encher a cidade de urnas. É isto a república, o Reino enfiado num quadrado. Para tourear a turbamulta, no partido do candidato alguém ataca com um fado. Ao eleitor pede-se, pois, que faça silêncio.

Conhece o Joaquim? Claro. É o fulano que o ensina a cruzar Portugal, a Península, a Europa. Diz-lhe que daqui a cem metros deve virar à direita, que daqui a duzentos tem uma estrada com prioridade, que daqui a uns quilómetros a direito… está lá.
Pois é, o Joaquim. Simplesmente, ele, o dono da voz, nunca foi «Joaquim». Arranjaram-lhe esse nome, que alguns acharão eufónico, outros não.
Mas é sempre um gosto ouvir dizer: «Ontem levaste-me à Cruz da Picada em Évora». Ou então: «Há dias tive que ir ao Bairro Céu Mendes, em Viseu. Você fez-me cá um jeito!».
Por um prazer destes, podem chamar-nos Joaquim.
Entramos todos no 15, ele atrás dela, ali no Cais do Sodré. E muito antes de se chegar a Santos, há-de ela conceder que vem de Itália. Ele é estranhamente quarentão, a grenha hirsuta, as muletas a amparar-lhe o pé de gesso.
– Falas português?
– Um pocô!
– Hoje no Centro Cultural de Belém arte moderna Berardo, último dia, entrada livre!
Eu registo-lhe a fausta novidade. Ela é que não dá sinais de comoção.
– Speak english?
– Um pocô!
– Today Centro Cuturral Belaim, modern art Berardo, no money!
Passa a travessa das Galeotas, e ela impassível às formas.
– Sprich dóitsch?
– Um pocô!
– Centro Cuturral Balaim, art modern Berardo, geld nix!
Passa a travessa dos Escaleres, e ela alheada das cores.
– Hablas espagniol?
– Um pocô!
– Hoy Centro Cuturral Belén, arte moderna Barardo, no dinero!
Passa o beco do Chão Salgado e ela insensível a tragédias, indiferente a criatividades. E sou eu quem aproveita a borla, que eles lá seguem no torpedo cego.
O Centro Cuturral tem fotos de Jorge Molder, e corredores muito frescos, e multidões no seu footing a digerir o almoço e as emoções estéticas. Há mães aflitas a perguntas das crianças, e perplexos pagadores de impostos, com ar de quem jurou calar a boca.
Eu acabo a mergulhar na luz divina do Tejo, ao fim da tarde. Pura arte há-de ser a dos dois poliglotas, numa rua qualquer da Cruz Quebrada, nalgum descampado do Jamor. Mesmo de borla, a colecção congela excitações.
Jorge Carvalheira

Prosaica: colocar o quadrado dentro da boca e deixá-lo derreter, mastigando de quando em vez.
Geométrica: dar pequenas dentadas, a corrigir sucessivamente o desenho da sobra, procurando a razão de ouro de Fibonacci.
Certeira: segurá-lo levemente com os dentes e, com uma pressão da língua no centro, parti-lo em duas metades perfeitas. Nunca o ficam, vale a pena repetir.
Infantil: de olhos vendados, procurá-lo com a boca algures num corpo alheio.
Altruísta: mergulhar um canto do quadrado entre os lábios (os pequenos) até amolecer. Oferecer a alguém e deixá-lo lamber o resto.
O mordomo d’ Os despojos do dia, texto comedido sobre a dignidade e a paisagem inglesa convertido em love story pelo cinema, colocava todo o apuro na limpeza dos metais.
Pequena de Verão, entrava na cozinha de pedra de casa da minha avó, numa penumbra muito zen, e ficava em contemplação. Havia a pequena jarra cerâmica no centro da mesa, ornada de dálias ou cravos túnicos, potes de barro sobre a bancada. Pendurados ao longo das paredes, panelas, tachos e púcaros dispostos em gradação de diâmetro, exibiam discretos o brilho, impecavelmente areados. Cobre e alumínio.
Nos dias de limpeza, mulheres e meninas juntavam-se à volta da mesa em divisão de tarefas. As pratas e os estanhos eram retirados dos armários e postos decorativos, para largarem o negrume imposto pela estação.
Agora, aço inox e teflon. Um açucareiro, duas cigarreiras, uma compoteira convertida em guarda-brincos, um tinteiro antigo e pouco mais, exigem cuidado anual com um produto sofisticado. Aplicado com meias velhas, é tão eficaz que, sem esforço, prateia moedas de cêntimo.
Tal é o esquecimento de preceitos antigos: precisei de limpar um candeeiro velho e fiquei embasbacada a olhar a prateleira, no supermercado. Já não sei o que se compra, quanto mais como se faz.
susana
Não há nada que me deixa mais feliz do que quando uma grande canção mergulha de chapa no centro do mainstream. Não acontece muitas vezes, é verdade, mas quando acontece prefiro mil vezes poder curtir uma música ao lado de milhões de melómanos anónimos do que ter como companhia críticos musicais com problemas edipianos. Se tomarmos como referência do mainstream os temas que chegaram ao topo do Hot 100 da Billboard, confesso que, nos últimos anos, dancei que nem um doido ao som de absolutas maravilhas como Hey Ya («Shake it like a polaroid picture») dos Outkast, Hollaback Girl («Let me hear you say this shit is bananas») da Gwen Stefani e a versão integral (com aquele genial afro-beat introdutório) de My Love («And I know no woman that could take your spot, my love») de Justin Timberlake. O caso mais recente de um alinhamento do meu gosto musical com o da maioria é da responsabilidade de uma rapariga com 20 anos chamada Rihanna e que possui o dom de ter reduzido a 30 insignificantes segundos um senhor com o gabarito do Jay Z. Desconfio que canção é particularmente biodegradável, por isso, façam o favor de curtir esta maravilha antes de azedar.

Na política ainda há surpresas. Mesmo que pareça impossível. No caso, até um calcinado cínico se baba de espanto com a pergunta desta peça de propaganda. E largará automaticamente o seu mais genuíno parece impossível! De todas as questões decisivas, de todas as questões relevantes, de todas as questões meramente sensatas que se poderiam colocar ao eleitorado alfacinha, a candidata escolheu o custo dos cartazes. Os seus, para cúmulo. E agora, que fazer? É que o problema não está em mandar uns números para o ar. O que deixa o eleitor desamparado é a certeza de a pergunta estar toda armadilhada. Vai na volta, neste domingo vamos descobrir que o cartaz custou muito, demasiado.
«Casou-se, amparou-se»
Sabe aquele meu primo do Porto, filho do meu tio que era dos cafés? Separou-se. Eu nunca gostei da pinta dela. Só a vi uma vez, há muitos anos, ela estava à espera de bebé e só falava no médico, até parecia que o médico é que era o pai da criança. Bem, a miúda deles já tem vinte anos e aquilo não era vida para ninguém. Ela, a parva, ia todos os dias quatro vezes a casa dos pais, só fazia o que os pais lhe diziam e não deixava a minha tia ferver o leite uma vez que ela lá foi. Coitada da velhota, não deixava ferver o leite porque ela também não fervia. Ora a parvalhona. E bem parvalhona, agora descobriu-se que nem tem o nono ano mas quem a ouvisse falar até parecia um bacharel. Olhe isto é só más notícias. O meu primo, o filho da minha prima da Outra Banda, casou com um sirigaita pequenina mas que faz dele o que quer. Agora no Dia da Mãe ele passou mais tempo com ela e com a mãe dela do que com a mãe dele e era o dia da mãe. O problema já tinha começado no dia de anos do pai dele em que por acaso o irmão dela, da sirigaita, fazia anos. Então o miúdo, para mim é sempre miúdo, passou mais tempo com o cunhado do que com o pai. Já viu isto? Cunhado ao pé de pai não é nada. Pai é pai. E então um pai como ele tem, sempre pronto a ajudar, uma jóia de pessoa, o meu primo. Mas o pior é que a sirigaita já vai no segundo casamento. Uma miúda. Pois se calhar o outro, o primeiro, foi mais esperto que o meu primo e foi-se embora porque não esteve para aturar essas parvoíces. Casou com ele ou com a família dela? A sorte tanto se quer para o rapaz como para a rapariga, não acha? Já viu o azar dos meus primos? Dantes dizia-se «Casou-se, amparou-se» mas o mal é quando ficam desamparados.
José do Carmo Francisco
Não é possível saber qual será o efeito desta notícia nos resultados eleitorais do próximo domingo. Mas lá que António Costa merece a pena máxima, isso não está sujeito a sufrágio.

Soteriologia e marxismo-leninismo são termos que não costumam aparecer juntos na boca do homem da rua. Refiro-me ao homem que lê jornais desportivos. O homem que guia táxis e tem barriga de grávida. O homem que sabe de ginjeira onde fica a SOREFAME. Este homem usa a palavra soteriologia no seu discurso político com o cuidado que outros põem na mistura do ácido sulfúrico com o ácido nítrico. E o caso é mesmo para mais: qualquer revolucionário sabe que a soteriologia é um terreno onde ninguém se salva, que a salvação vem é do comunismo. O candidato revela-se, assim, ao apelar à salvação, um verdadeiro doutor da Igreja Proletária.
O YouTube já é tão coisa passada…
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Com algum atraso, acrescentei coisas novas na Box. Desta vez, resolvi inserir dez temas de uma única banda que há 13 anos tem marcado uma presença assídua na minha discografia: os Low. Poderia agora falar de cada tema, mas não quero estragar a surpresa aos que não conhecem a banda. Para quem já conhece o talento do casalinho mormon, há uma raridade que se chama «Dont’ Carry It All» e que é um outake do grande Things We Lost In The Fire de 2001. Numa altura em que se celebra a re-edição de Colossal Youth dos Young Marble Giant, os Low são uma das bandas que melhor souberam utilizar o legado dos manos Moxham. O que, de resto, só lhes fica bem.
Adenda: os Low também são famosos pelos seus vídeos… singulares. Deixo-vos aqui o mais recente, relativo ao single «Breaker». Uma moca.
Mistura-se a lógica com a paranóia, polvilha-se com lirismo, e obtém-se o génio. Sempre assim foi.