susana
Arquivo mensal: Julho 2007
Oráculo
Exame de Geometria Descritiva
Às portas de Beirute
Sob um céu sem cor onde o anil
se perde a procurar-se entre o assombro
e a terra chora o pão que aborta em sangue
na boca onde resistem orações
as crianças adormecem de mãos dadas.
Sem o sono sereno dos infantes
mas sim o dos horrores que as acalentam
pelas noites de gritos e destroços
das cidades fantasmas e dementes.
As crianças que juntas desconhecem
os brinquedos e as princesas dos castelos
mas que trocam entre si a descoberta
do fel que veste os corpos combatentes.
As crianças proibidas de sonhar
o longínquo retiro das estrelas
não o das balas que os corpos arrefecem
e colocam nos seus olhos as respostas
às perguntas que não sabem soletrar.
As crianças que respiram os segundos
no choro sufocado do seu medo
como se a dor infligida resgatasse
das horas o pavor do fumo espesso.
As crianças que juntas aguardam
não a dança do vento nos trigais
nem o perfume que se oferece nos lilases
mas apenas a certeza de acordarem
a madrugada que não sabem se amanhece.
As crianças que nascem e decoram
as partículas do lume e a silhueta
das aves de aço que silvam nos espaços
sobre os seus ninhos de mortos e de escombros.
As crianças condenadas que contestam
braços pendentes e lágrimas no rosto
que se fale de paz e que no Mundo
sob o peso deposto nos seus ombros
o Homem se recuse a ser poeta
quando todas as crianças são poemas.
Soledade Martinho Costa
Ainda mexe

O nosso post Portugal: queremos ‘isto’?, de 19 de Abril de 2006, continua, passado mais de um ano, a ser comentado. Vai em 91 intervenções, algumas recentíssimas.
Pela mesma altura, lançámos aqui posts, vastamente comentados, como Líricos, pobres e ibéricos, de onde se tirou a ilustração acima, e ainda Ibéricos e levianos, a pretexto do ministro Lino, o tal.
Para lembrar que somos velhos nisto.
Aviso (repetido) à navegação
The tears you see on my face? You do have something to do with
É o que dá andar na corda bamba. Se a anterior colaboração de Mike Mills com os Blonde Redhead tinha dado origem a um magnífico vídeo, este novo, relativo ao belíssimo «The Dress», é um monumental fiasco. Apesar do conceito já ser, de si, razoavelmente horrível, nada nos prepara para o resultado final. Meninos e meninas, fasten your seatbelts para um dos piores telediscos de 2007.
Curiosamente, num registo despudorado, patético e pateta muito semelhante ao anterior, temos igualmente outra aberração a destruir «Encosta-te a mim», um tema muito razoável do novo disco do Jorge Palma. Que figurinhas tristes, caramba. A canção não merecia isto.
sesta estival
CARTA ABERTA A JOSÉ SARAMAGO
Do DIÁRIO DE NOTÍCIAS de hoje
Muy señor mío, Me perdonará Usted mi pobre castellano, pero desde anteayer me entero de la urgencia de praticarlo. Al “Diário de Notícias” de Lisboa predijo Usted esto: “Acabaremos por integrar-nos” en España. Preguntado por el periodista João Céu e Silva si nuestro país seria entonces “uma província de Espanha” (le sigo citando en nuestro antiguo idioma), Usted contestó: “Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal”.
Claro, nos asegura, podremos conservar nuestra lengua, nuestras costumbres, y así mismo creo yo nuestro fado, pero (no lo dijo, uno entiende) nos gobernaría el jefe de estado madrileño del momento. Y aunque diga Usted que no es profeta, no hay que olvidar su proverbial modestia. En fin, para gente sencilla como yo, sus palabras son un caritativo aviso del destino.
Pues, señor, no y no. Usted, el más famoso de mis compatriotas, se permite en público unos juegos muy guapos de futurología. Pero se los guarde para sus libros, los cuales están perdiendo el suspense de antaño. Créame, el real futuro de un Portugal integrado en España lo conocemos ya muy de cerca. Está visible en la Galicia de hoy, donde la lengua dominante, y los derechos dominantes, y los partidos dominantes, son los de Madrid. Esto no es futurología, sino lo qué uno ve. Si quiere verlo.
No creo que sea su caso, Don José. Me contaran que, hace poco, visitó Usted Galicia invitado por el Pen Club. Le rogaran que hiciera su discurso en Portugués. Todos podrían entenderle, sin problema, si hablara en nuestra hermosa variedad de gallego. Usted – como otras veces ya en Galicia – recusó y habló en Español.
Muchas gracias en realidad. Ahora sabemos cómo hablarán, en la Provincia española de Portugal, los futuros traidores.
Fernando Venâncio
Amsterdam, 17 de Julio de 2007
Escrito na pedra
Falar de pátria tornou-se politicamente incorrecto, sendo provável levar com
um carimbo bolorento. Cumpre dizer que tal reacção só aumenta a urgência
de levantar Portugal do marasmo que já faz muitos preferirem o consumismo
espanhol à liberdade lusitana.
Valupi
18-VII-2007
Isto não pode ficar numa caixa de comentários.
Preparados para a loucura

Há milhares, talvez milhões, de espanhóis que acham que enlouqucemos. Que estamos, crianças inconscientes, a brincar com o fogo. Percebe-se. A habituação à ideia de nos integrar-nos na Espanha torna a coisa plausível, quase óbvia.
O paradoxal, o perverso, é que a estúpida Lisboa centralista torna aceitável o sermos, já agora, um pouco mais centralizados. Centro por centro, mais vale um rico e poderoso, não é?
Mas quem pode, um segundo sequer, desejar-se numa Espanha em que metade vota num PP, onde, ao lado de gente inteligente e sadia, se acoita tudo quanto é fascista (o termo não é exagerado), ao ponto de determinar o rumo do partido? A malta não lê jornais? Ou os jornais não informam?
Talvez que, um dia, quem nos salve da loucura seja a própria Espanha, que não quererá ver-se a braços com mais uma região desestabilizadora dum conjunto, já de si, preso por arames (veja-se o que restou do Estatut catalão depois do banho madrileno). Portugal? No, gracias. Ah, grandes espanhóis!
Curso rápido de leitura das entrevistas do Saramago
Há quem não se importe nada com o que Saramago disse, com o que Saramago pensa e com o que Saramago quer. Estes, aparentemente, também não se importam muito com o fim de Portugal como país, passando a província da Espanha. Dizem que Saramago não é iberista, apenas lúcido. Que Saramago fala da integração como quem diz que vai chover, mas sem ser uma inevitabilidade (??). E ainda acrescentam que leram a entrevista ao DN do passado domingo.
E nisso, no ter lido a entrevista, é que está o problema. Porque para quem não a leu, acreditar que Saramago é um vendido aos castelhanos é legítimo e recomenda-se. Estar-se-á centrado no essencial, sem se ter perdido tempo a ler o supérfluo. Porém, quem leu passa a ter um problema. E que não é pequeno. É um problema com 800 quilómetros de costa.
Saramago, na quase totalidade do que diz, argumenta a favor do fim de Portugal como Estado independente. A troco do quê? Do abstracto desenvolvimento. Mais não avança ou detalha, revela ou esclarece. O desenvolvimento é para ele um conceito auto-evidente, universal, e, se bem explicado, todos os portugueses o iriam desejar. Isto é, todos os portugueses iriam querer viver com o nível de vida dos catalães, promete Saramago. Ora, com isto fica patente que o nosso Nobel está a mentir, a delirar e a enterrar-se no valado do ridículo. Porque o designado desenvolvimento espanhol corresponde a uma situação que não é reproduzível no contexto português, com ou sem integração.
A montante e jusante da ciência económica, o nosso leitor de entrevistas de Saramago já desistiu há muito de Portugal, o qual constata estar pejado de portugueses. Este leitor não acredita na renovação do escol luso, preferindo substituí-lo por atacado pela elite madrilena. Contudo, a entrevista afirma que seriam ainda os portugueses a gerir Portugal, embora subservientes ao poder central ibérico. Esta contradição deixa o nosso leitor numa periclitante posição, arriscando o erro hermenêutico ou a ignomínia patriótica. O que me leva a oferecer este ensinamento: quando se lê uma entrevista de Saramago, lembremos-nos de que estamos perante um ex-português. Um ex-português que sonha com uma Espanha das Baleares aos Açores.
SIC Comédia

As actuais direcções do PSD e do CDS são paupérrimas. Não espanta que tenham aproveitado o banho de inteligência dado pelo eleitorado minoritário que votou em Lisboa. E aproveitaram para mostrar que nada entendem do que se passa à sua volta. O fascinante está na possibilidade de tudo ainda ser capaz de piorar nestes desesperados e desesperantes partidos. Por exemplo, se a loucura colectiva levar à escolha de Luís Filipe Menezes para chefe, sendo ele um dos políticos com mais sucesso no stand-up comedy nacional, será o completo delírio no PSD. Adivinho um ciclo melodramático que alcançará o milagre de fazer Santana Lopes parecer minimamente competente.
Na entrevista dada ontem na SIC Notícias, Menezes apresentou-se com a excitação contida de quem se prepara para roubar caramelos em Badajoz. À sua frente estava Ana Lourenço, uma jornalista que parecia sob o efeito de alguma medicação debilitante, ou estar paralisada pela aurea mediocritas da figura, ou agindo as duas causas em reforço mútuo. Esta Ana foi protagonista, há dois anos, de um delicioso lapsus linguae (et pour cause…) que deverá ter feito disparar a sua popularidade junto de colegas e populares mais bem informados. E, para mim, essa memória foi a parte mais relevante da presença televisiva do comediante Filipe Menezes.
O mundo começa (mesmo!) nas Escadinhas do Duque

Para quem tenha a memória de um texto meu, no Aspirina, a anunciar um livro de Alexei Bueno que estava no prelo, texto acompanhado por uma foto magnífica que o Fernando Venâncio desencantou em boa hora para o blog, aqui fica a confirmação: o livro já saiu. O título é A árvore seca, a editora chama-se Bonecos Rebeldes e o posfácio é de Gil de Carvalho.
Sem mais conversa, fica o poema «Speculum patriae» para que todos descubram uma voz poética que no Brasil, hoje ele como ontem outros, faz parte do grupo de poetas que não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes:
Um povo feio, essencialmente feio,
Fora os meio imigrantes. Cada dia
Uma outra humilhação que se anuncia
Um saque, um roubo, sem controle ou freio.
Uma horda de imbecis, de olho no alheio,
Cuja rapina é a única mestria
Pretensamente os donos da alegria
Da esperteza, da graça e Deus no meio.
Um pátio dos milagres de devotos
De tudo, irracionais, analfabetos,
A orar, a praguejar, a cumprir votos,
À espera do que os salve, em meio a insectos
A matar-se, a banhar-se nos esgotos
Das praias sem iguais, entre os dejectos.
recolhido por José do Carmo Francisco
Iberia según Don José
Era inevitável. Até o sisudo El País se péla por uma destas.
E há um inquérito: ¿Qué le parece unir España y Portugal, como dice Saramago?

AZUL Estupendo, ganaríamos 10 millones de habitantes e igual tendríamos alguna opción en el Mundial de fútbol.
CINZA Fatal, a los portugueses les costó ser independientes y les va muy bien como están.
BEIGE Me da igual, pero pasar a llamarse “íberos” da grima.
Siga o desarollo da encuesta aqui. E divirta-se. Enquanto o Cristiano for nosso.
Divertimenti
BEM FIXE
Primeiro julguei que era spam. Mas tive a sorte de ver melhor. Vale um passeiozinho.
Até porque há esta preciosidade. Para rever. Para ver.
choupal
Coño

A pessoa que escreveu um dos livros que mais me faz amar Portugal, os portugueses e a Língua — LEVANTADO DO CHÃO — é a mesma que despreza a nossa História, a nossa Alma, a nossa Liberdade. É desconcertante. E vexante.
Semanas atrás, um espanhol de 30 anos veio a Lisboa. Namora com uma portuguesa em Barcelona. Trabalha em comunicação, representando o que será um típico jovem adulto catalão, versão sofisticada e moderna. Pois bem (e sem surpresa), é ódio o que ele mostra ter por Madrid. Ouvindo-o, fica-se convencido que Espanha se vai desagregar dentro de minutos, talvez segundos. Mas mais, e bem mais importante: é possível adivinhar uma funda, embora calada, inveja da nossa independência. O mesmo sentem os galegos e os bascos, pelo menos, fazendo de Portugal a excepção ibérica que espanta as províncias subjugadas. É esse carácter excepcional da nossa identidade que Saramago quer anular. O que não admira, vindo de um cultor do internacional-socialismo, essoutra jangada que afogou tantos na tentativa de os reduzir a uma pasta informe e desvitalizada.
Um fliscorne para Laurent Filipe
A Fundação Oriente tem na Rua do Salitre os seus escritórios e os seus jardins. Uma mensagem no telemóvel alerta-me para um concerto com Laurent Filipe, acompanhado ao piano por Pedro Sarmiento. Num jardim da Fundação.
Laurent Filipe toca trompete e fliscorne, mas no programa aparece trompete e flugelhorn. Até parece que não há em Portugal palavra para este instrumento. Tivesse eu notas de cinco euros como de vezes vi o meu avô José Almeida Penas trocar a sua trompete (não o bocal, só a trompete) com o fliscorne do Vítor Freire na Filarmónica de Santa Catarina! Quando para se fazer um coreto nas festas se juntavam dois carros de bois e se colocava um estrado por cima… Um erro destes só pode ser ignorância. Ou então um certo novo-riquismo cultural de que valoriza tudo o que vem de fora.
Isso foi no passado dia 4. Agora, a 11, estava escrito que o barítono Emilien Hamel é diplomado pela Université de la Sorbonne. Como se não houvesse equivalente. Mas, para não ficar por aqui, as meninas da Fundação trouxeram a tradução das «Histórias simples» de Brahms. Como a maior parte das pessoas não sabe alemão, compreende-se. Mas já não se compreende que, depois de traduzirem «Der Schmied» por «O Ferreiro» e «Der Jager» por «O caçador», ´traduziram´ «Sommerabend» por «Summer evening» e «Sonntag» por «Sunday», finalizando alegremente com «Ständchen» transformado no portuguesíssimo termo «Serenade».
Ora bolas. A Fundação Oriente, como instituição de utilidade pública, devia preocupar-se também com a língua portuguesa. Os concertos foram óptimos, matei saudades do fliscorne. Mas…