na era das toalhitas

O mordomo d’ Os despojos do dia, texto comedido sobre a dignidade e a paisagem inglesa convertido em love story pelo cinema, colocava todo o apuro na limpeza dos metais.
Pequena de Verão, entrava na cozinha de pedra de casa da minha avó, numa penumbra muito zen, e ficava em contemplação. Havia a pequena jarra cerâmica no centro da mesa, ornada de dálias ou cravos túnicos, potes de barro sobre a bancada. Pendurados ao longo das paredes, panelas, tachos e púcaros dispostos em gradação de diâmetro, exibiam discretos o brilho, impecavelmente areados. Cobre e alumínio.
Nos dias de limpeza, mulheres e meninas juntavam-se à volta da mesa em divisão de tarefas. As pratas e os estanhos eram retirados dos armários e postos decorativos, para largarem o negrume imposto pela estação.
Agora, aço inox e teflon. Um açucareiro, duas cigarreiras, uma compoteira convertida em guarda-brincos, um tinteiro antigo e pouco mais, exigem cuidado anual com um produto sofisticado. Aplicado com meias velhas, é tão eficaz que, sem esforço, prateia moedas de cêntimo.
Tal é o esquecimento de preceitos antigos: precisei de limpar um candeeiro velho e fiquei embasbacada a olhar a prateleira, no supermercado. Já não sei o que se compra, quanto mais como se faz.

susana

13 thoughts on “na era das toalhitas

  1. Queres um conselho? Improvisa e usa a língua como fazes com os “maltesers”. Poupa-te o trabalho de te deslocares ao supermercado e seres apanhada a coçar no queixo armada em Sherlocka.

  2. luís, não atinas.

    joão, valha-nos deus. estava a pintar as letras do meu teclado e acreditas que houve quem me sugerisse comprar um novo?!

    agora ocorre-me que deve haver toalhitas limpa-metais…

  3. Eu não me canso muito. Limpo as pratas com a pasta dos dentes e às vezes com bicarbonato de sódio. Mas são as tais receitas caseiras. De resto, prefiro utilizar o limpa-metais do supermercado. Nem que seja só para snifar.

  4. Susana, admito que possa ter exagerado na dose, mas já agora gostava de saber se o undertone sexual te escapou antes de teres decidido publicar o texto a que me refiro. Independentemente as tua resposta peço-te desculpa pelo meu comment.

  5. cláudia, tens razão! havia um limpa metais que cheirava muito bem. nessa onde de bons cheiros.

    luís, dizia que não atinavas com o itálico. concluo que é de propósito.

    às vezes era. mas o destino dá mais trabalho que o antigamente. e o trabalho faz o homem.

  6. Bolas, e eu que julgava que era um sermão.

    Quanto aos itálicos, a tua frase é certeira mesmo eu não atino com eles. Acho que vou fazer uma birra. uuuhhhhhaaaa uhhhhhaaaaa

  7. Olha que ainda existe a Solarine, aquela com um coração vermelho. Sempre gostei muito de solarine, há por aí emn drogarias de bairro. E puxa-se o brilho com jornais velhos que ficam todos pretos e as nossas mãos também, mas é muito mais engraçado.
    Pintas as letras do teclado? Eu, que pensava ser poupadinha, não me tinha lembrado disso e já uma vez comprei um novo por não conseguir ler nadinha das teclas mais usadas!!! Da próxima vou experimentar.

  8. emiéle, só agora te vi! não tenho os ditos a cair no meu mail, e é no que dá. lembro-me desse, sim. ou antes: do coração vermelho…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.