Conversa de autocarro

«Casou-se, amparou-se»

Sabe aquele meu primo do Porto, filho do meu tio que era dos cafés? Separou-se. Eu nunca gostei da pinta dela. Só a vi uma vez, há muitos anos, ela estava à espera de bebé e só falava no médico, até parecia que o médico é que era o pai da criança. Bem, a miúda deles já tem vinte anos e aquilo não era vida para ninguém. Ela, a parva, ia todos os dias quatro vezes a casa dos pais, só fazia o que os pais lhe diziam e não deixava a minha tia ferver o leite uma vez que ela lá foi. Coitada da velhota, não deixava ferver o leite porque ela também não fervia. Ora a parvalhona. E bem parvalhona, agora descobriu-se que nem tem o nono ano mas quem a ouvisse falar até parecia um bacharel. Olhe isto é só más notícias. O meu primo, o filho da minha prima da Outra Banda, casou com um sirigaita pequenina mas que faz dele o que quer. Agora no Dia da Mãe ele passou mais tempo com ela e com a mãe dela do que com a mãe dele e era o dia da mãe. O problema já tinha começado no dia de anos do pai dele em que por acaso o irmão dela, da sirigaita, fazia anos. Então o miúdo, para mim é sempre miúdo, passou mais tempo com o cunhado do que com o pai. Já viu isto? Cunhado ao pé de pai não é nada. Pai é pai. E então um pai como ele tem, sempre pronto a ajudar, uma jóia de pessoa, o meu primo. Mas o pior é que a sirigaita já vai no segundo casamento. Uma miúda. Pois se calhar o outro, o primeiro, foi mais esperto que o meu primo e foi-se embora porque não esteve para aturar essas parvoíces. Casou com ele ou com a família dela? A sorte tanto se quer para o rapaz como para a rapariga, não acha? Já viu o azar dos meus primos? Dantes dizia-se «Casou-se, amparou-se» mas o mal é quando ficam desamparados.

José do Carmo Francisco

27 thoughts on “Conversa de autocarro”

  1. presumo que era a voz de uma mulher. muito gostam de “tomar conta” dos outros das outras. e eles nem se terão quaixado do desamparo…

  2. Susana,

    Também, desde o primeiro segundo, ouvi uma mulher…

    Mas, já agora: aquele teu «quaixado» é para entender como «queixado»? Se for, vem encaixar (enqueixar?) na minha hipótese de, em Lisboa, já praticamente serem indistinguíveis «as minhas queixas» e «as minhas caixas».

    E acredita: ouço (!) muita tv portuguesa.

  3. Mexericos não! São coisas sérias, a vida das pessoas não é uma brincadeira. E deu muito trabalho a escrever. Mesmo num Blog deve haver um certo cuidado, não estamos numa tese de mestrado mas haja respeito!

  4. Carta aberta:

    Que dizer das palavras de douto senhor. Haja respeito. Sim. Respeito. Seu génio não se desperdiça assim. Tu, pequeno homem da plateia, respeitinho. Nem ironia. Qual gozo.

    Nojo, digo eu.

    Mao

  5. Ou é impressão minha ou o jcfrancisco é parente da Soledade… A mesma susceptibilidade, o mesmo grau de mordacidade corrosiva, a mesma… frustração.

  6. Gostei do fim: “Já viu o azar dos meus primos?”. Com certeza faz-se referência ao primo e à sirigaita (ao miúdo e à miúda) que, por ter casado com o primo, também é prima… sim, deve ser isso, os dois andam desamparados!

  7. É isso, Mao, Cláudia e Valupi. O escritor JFC sabe produzir humor. Viu-se (eu vi) acima. Mas a pessoa JFC é enervantemente sisudo.

    JFC, e se tu te levasses um bocadinho menos a sério? Que é que interessa a alguém se a coisa te deu «muito trabalho»? Safa!

  8. O dia de hoje trouxe a JCFrancisco um mais e um menos.
    O mais foi este belíssimo texto, que é uma alegria ler.
    O menos foi ter-se esquecido dum princípio já velho: não dar vozes a gaiteiros.

  9. Quanto ao texto,

    Desinteressante, “falso”, sem voz, sem espessura, fátuo, nem tão pouco alegre.
    Escrita vulgar, a sugerir popular, pouco estruturada, frágil e sem carácter.

    Mao

  10. Fernando Caríssimo, É obvio que eu não sou o Ramalho Eanes que dizia Portugueses! e ficava em sentido mas custou-me um bocado ler aquela boca. E a Sininho também não fica atrás porque maldosamente insinua que a sirigaita é vítima quando ela é o algoz. E por isso é que sendo uma miúda já vai no segundo casamento. Safa! PS- Cheguei agora da rua e caiu mesmo ao meu lado uma árvore (metade) no jardim do Principe Real. Um senhor que estava sentado ficou em pânico: foi por centímetros. Safa!

  11. Zé do Carmo,

    Há uma bela frase francesa, suavemente discriminatória, que diz: «Sois belle et tais-toi». É o que, com alguma adaptação, me apetece dizer-te. «Escreve bem e bico calado».

    Parece-me claro – a mim, mas já percebi não estar muito sozinho – que bastante coisa do que escreves aqui como autor, e quase tudo o que escreves como comentador, é fonte de constrangimento para os que te apreciam e te põe a ridículo para os que não.

    Quer quando atacas, quer quando te defendes, faze-lo com uma rispidez e uma amargura tão nítidas que parece só tu não as veres.

    Vamos ser claros. No Aspirina, prezamos o distanciamento, não o apostolado. Prezamos a auto-ironia, não a leitura biográfica dos acontecimentos. Prezamos a responsabilidade do indivíduo, não a sua boa figura moral. E detestamos, dão-nos alergia e põem-nos em perigoso estado, termos do tipo de «insinuação», «maldosamente» e semelhantes.

    Nós – o Valupi, o João Pedro, os dois Jorges, a Susana, este que assina – somos insinuação de cima a baixo, e em maldade não queremos lições de ninguém. Simplesmente não se fala nunca disso. Somos insuportáveis como quem respira. Depois, apanhamos da grossa. Mas respondemos com um sorriso. Um sorriso mau. Mas sempre um sorriso.

    Não sei se isto é companhia para ti. Nós somos, já vês, muito pouco recomendáveis.

  12. É tipo sorriso de tubarão… Fernando Venâncio, gostava de ser esclarecida sobre um ponto. Qual é a diferença entre faze-lo e fá-lo? Ou serão só duas formas idênticas só que uma mais antiga do que outra? Se estou a dizer alguma parvoeira, dêem-me um tiro, por favor, mas a verdade é que tropeço montes de vezes em cima deste problema e, ao ler o comentário do Fernando, fiquei outra vez na dúvida.

  13. Cláudia,

    Tubarão? Olha tão querido!

    Mas vamos aos verbos.

    Eu faço-o
    Tu faze-lo
    Ele fá-lo

    Mas também hesitei, como tu. Tanto mais que os simples dizem fazes-o. Mas atirei-me de cabeça, confiante numa fresta de sorte.

    Fá-lo é, também, a forma de imperativo para ‘tu’. Há um dez anos, havia na Avenida da Liberdade uma coluna de alumínio onde alguém escreveu, em cuidadas letras: FÁ-LO. Limparam esta obra de arte.

    Quanto ao tiro, fica guardado.

  14. Mas já percebi! Eu fazia confusão entre o tal imperativo na 2da pessoa e o presente do indicativo na 3ª. Já entendi! És óptimo explicador e não cobras nada pela explicação, lol.

  15. Não me parece, meia-com-leite. Aliás, vou mesmo agora tomar uma meia-de-leite que estou com fome. E agradeço o Fernando Venâncio por me ter esclarecido uma dúvida de há anos, por mais incrível que pareça.

  16. FV:
    Pode o Aspirina ser um deserto onde nada germina.
    Mas um sítio onde acontece esta tua frontalidade sangrenta, e no entanto civil se não fraterna, é benesse dalgum deus bem generoso. Daqueles que só conhecem Portugal de longe.
    Pois que nunca as mãos te doam!

  17. Júpiter:
    (finalmente com tempo)

    Há ainda um terceiro Jorge Carvalheira, a lembrar-te, agora, o seguinte:

    O das 07:51 apreciou um texto de JCFrancisco. E lembrou ao mesmo JCF um dito assisado, que recomenda não dar vozes a gaiteiros. Quer dizer: Passa adiante e não ligues!

    O das 12:24 aplaudiu um comentário de FV. O qual FV, com uma ‘frontalidade sangrenta, mas civil se não fraterna’ (que desgraçadamente se vê pouco em Portugal, onde as intenções assassinas se disfarçam em modos brandinhos) põe diante dos olhos dum colega de blogue (o JCFrancisco) algumas fragilidades(?), inadequações(?), falsetes(?) das suas intervenções, quer como postador, quer sobretudo como comentador. Terminando, o FV, por deixar mesmo a sugestão do abandono.
    Ora aplaudindo esse gesto de frontalidade de FV para com o seu colega, o Jorge Carvalheira não se pronunciou sobre a sua justeza, não é conta do seu rosário. Isso é uma questão que respeita apenas a FV, que foi quem assumiu o gesto. O Jorge Carvalheira aplaudiu-lhe, apenas, a frontalidade leal.
    Entendes tu, Júpiter, do que estou a falar? É que, se entenderes, verás logo que o Jorge Carvalheira é o mesmo. Se não entenderes isso, não vale a pena gastar latim.

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