Compreensibilidade

F1-P021.jpg

Ontem na rubrica Pisa-Papéis do «Expresso»

Nos planos de José Sócrates, as relações da Europa com o Brasil devem primar pela «compreensibilidade» e pela «coerência». Assim o disse, há dias, na RTP. A coerência entende-se. Mas terão essas relações de ser, também, compreensíveis, transparentes? É o óbvio, para além de ser redundante. Ora, o contexto indicava que, ao pedir «compreensibilidade», o actual presidente europeu desejava que as relações fossem amplas, multiformes, abrangentes. Aquele «compreensível» português está, ali, sugando tranquilamente semântica ao «comprehensive» inglês. Em Bruxelas, isto facilita a vida aos intérpretes. Mas, numa televisão portuguesa, semeia a perplexidade.

Esta deriva semântica vem atingindo, de há tempos, outras palavras portuguesas, sobretudo adjectivos e advérbios, sempre sob a pressão do inglês. É o caso de «específico», usado em vez de «concreto». «Houve várias ameaças específicas», lia-se há pouco no «Público». E é corrente lermos e ouvirmos «neste caso específico» por «neste caso concreto». Observe-se, também, o uso de «dramático» por «drástico», «radical». «O mundo mudou dramaticamente», dizia um locutor da TVI, no sábado passado, apresentando as 7 Maravilhas. Ele queria dizer «radicalmente», «drasticamente».

Assentemos nisto: o mal não é importarmos do alheio. No passado, chegaram-nos milhares de vocábulos, primeiro por via do castelhano, depois do francês, recentemente do inglês. O que transtorna o idioma é a pacóvia importação da semântica.

Assim, quando lemos que alguém chegou ao fim da vida «virtualmente cego», ou que certo político soube «virtualmente pela imprensa» da sua demissão (tudo de novo no «Público», o nosso diário de qualidade), que entendemos? Nada. Até vermos que há um decalque de «virtually», que significa «praticamente», «quase». A balbúrdia agrava-se com «eventualmente», usado no sentido inglês de «finalmente», «por fim». Diz-se-nos que um doente «eventualmente morreu», quando o pobre senhor «acabou por morrer». Já o novo sentido de «aparentemente» estabeleceu, esse, a confusão total. Detenhamo-nos aqui.

O inglês «apparently» (tal como o francês «apparemment») não corresponde ao nosso «aparentemente», que quer dizer «só na aparência, não na realidade». O termo inglês (e o francês) é bem mais positivo e significa «como tudo indica», «pelos vistos», «ao que se sabe», «segundo consta» e mais formosíssimos giros pátrios. A cópia apatetada da semântica alheia conduziu, hoje, à perfeita indefinição. Quando ouvimos que «o incêndio aparentemente está dominado», ficamos hesitantes entre o alívio e o desassossego. E quando se pergunta a alguém «O Zé é rico?» e nos respondem «Aparentemente», o Zé continua o mistério que era.

Que fazer, pois? Isto, que é decisivo: percebermos que este nosso idioma, sendo primoroso, é também frágil e requer vigilância. Que, deixado a si, não se safa.

Fernando Venâncio

17 thoughts on “Compreensibilidade”

  1. A fotografia publicada expressa a reacção de cada português às medidas de José Sócrates. Até ele entende os que faz sofrer…ou estaria a gozar com o povo? Já nada me admira…

  2. Pelos vistos, aparentemente como se diz na estranja, a vontade de “progresso” dalguns gajos e gajas só se manifesta nas partes que respeitam a comer no rabiosque e fazer aborto com toda a liberdade. Bem trabalhados, é verdade, darão um jeitinho quando os empurram para a torrente da ideia europeia. Mas é tudo e só porque são levados.. As sentinelas de guarda à nossa lingua, como este senhor escandalizado, prestariam um serviço muito mais útil e realmente progressista-prático se insistissem com as polícias lexicais da nossa terra para incluirem, quanto mais depressa melhor, esses novos significados nos dicionários. É o que os ingleses fazem quando re-editam os seus. Deitam para o lixo do esquecimento aquilo que costumava andar na boca deste e daquele e incluem novas ideias e vícios de discurso.

    Caguemos, pois, nos costumes de expressões presas aos regulamentos das avozinhas eruditas bem-falantes. Fossem os generais-juizes da nossa língua assim, bons cagadores, já ninguem poderia, com razão, desculpar-se de que não entende..É que “concreto” tambem é “específico” para os ingleses, por exemplo. Essa a sua (deles) grande vantagem. No entretanto, puristas como este escriba, fieis ao velhos testamentos semânticos, sempre receosos de perder um bom motivo para arrebitarem narizes sapientes e mostrarem de vez em quando cus de respeito enorme à lexicologia e asco aos chamados babrbarismos, não se envergonham por não serem capazes de traduzir com razoável aproximação montes de vocábulos estrangeiros. Daqui a cem anos ainda cá os teremos a enceherem-nos a merda do saco, a falarem-nos de clássicos, a recitarem-nos os Lusíadas sem sequer serem capazes de nos dizer onde é que Camões nasceu e andou à escola. Eu prefiro a punheta. Não há nada como a independência.

  3. A ignorância é prodigiosa! Os ignorantes hasteiam a bandeira da independência portuguesa para defenderem precisamente aquelas ideias que mais depressa permitem que sejamos colonizados. E como nem sequer são capazes de assinar os seus textos, mostram que a sua noção de independência não é mais do que um eufemismo para cobardia.

  4. Ricardo Fonseca,

    A fotografia exprimirá o que você diz. O texto lembra antes algum atrevimento.

    Soledade,

    Aqui em casa não há photoshop. Está-se a amealhar para uma.

    Valupi,

    Conserva essa fé. Eu confesso-me duvidoso.

    Cláudia,

    Tout à fait raison, ma chérie.

    Linguareiro,

    «Aparentemente como se diz na estranja», escreves tu. Para teu próprio espanto, acabas por passar para este lado. Exacto: não há nada como a independência.

    Adelaide,

    Yes!

  5. Não conhece a marca “Dramatically Different Moisturizing Lotion” da Clinique? É anti-rugas e talvez disfarce o conservadorismo linguístico da terceira idade.

  6. Nikita,

    Se aceitas tudo quanto desestabiliza o idioma, ficas com uma porcaria na mão. Ou antes, na boca.

    E, se ainda não percebeste como é que se desestabiliza o idioma, volta a ler o apontamento.

    «Conservadorismo linguístico da terceira idade»? Ou és tu que és um trafulha?

  7. hummm…a foto foi tirada logo que Socrates ouviu-me num canal de televisão a chamar-lhe de “pequeno Hugo Chavez”!!! eh eh eh
    é verdade, eu afirmei isso.Então? As pessoas com opiniões distintas do “oficialismo” não são demitidas?

  8. Eu sou novo aqui e sou logo recebido à pedrada, senhor Fernando. Porcaria na mão e na boca, trafulha, tudo isso só pela sugestão ironizante de rugas mentais? Não está muito acelerado, senhor Fernando.

  9. Senhor Nikita,

    É perfeitamente legível que o Sr. prefere deixar correr uma situação linguística. Isto, em contraste com esta «terceira idade» interventiva. Quem é aqui «conservador»? Quem é que aqui se mexe?

    Começo a dar mais valor ao «A luta continua» do Valupi. Pessoas como o Sr. são o sector acomodado. Em maioria, de resto.

  10. Não tenho vocação para defensor da pureza da língua. A nossa língua estava há muito cheia de francesismos. Agora é a enxurrada de anglicismos e americanismos. E depois? Haverá sempre quem escreva (e pense) com os pés. E haverá sempre quem maneje a língua com mestria e respeito por ela. Não sou “acomodado” em face da desestabilização destruidora da língua. Não alinho nela e mantenho o meu sentido crítico. Sei que algumas “desestabilizações” vão triunfar sobre o status quo. Não gosto de muita coisa, mas deixar correr, deixo. Sorry.

  11. A pureza absoluta da língua é o silêncio, claro. Para lá caminhamos, yes, em muitas coisas. E reconheço que é muito difícil mudar as linguagens técnicas, que estão a ficar cada vez mais infiltradas pelo inglês. De qualquer forma, muito do que têm sido os problemas dos nossos alunos de Ciências tem a ver com a compreensão do português. Portanto, este não é assunto de somenos, mas uma questão que se prende directamente com o progresso do nosso país. Ou será que queremos que o inglês passe a ser ensinado como uma segunda língua materna, em Portugal? Ou, já agora, o espanhol? Para lá caminhamos, se não vigiarmos a nossa língua, e se não formos capazes de ajudar os alunos das escolas a acompanharem o progresso sem terem de abdicar da sua língua materna, e portanto do seu país, e sem se lhes destruir por completo a auto-estima, chamando-lhes inaptos, periféricos e subdesenvolvidos, a torto e a direito. Se gostamos do nosso país, acarinhamo-lo, cuidamos dele, criticamo-lo também, mas sem o ofendermos. E tratamos bem a língua portuguesa, pois que a falaram os nossos antepassados. Acarinhar não é, portanto, aceitar tudo! Se nem tudo no nosso passado nos encanta, o mesmo se diga de alguns dos amanhãs que o dito progresso agora nos canta…
    Adelaide Chichorro Ferreira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.