Crónica da manhã

Primeiro, o Alberto mandou um mail, que fui ler ainda de noite.

Tenho estado afastado por andar em baixo há já uns meses largos. Não arranjo trabalho desde há seis meses, a minha licenciatura em Ciências da Comunicação não serve para nada, e a mulher da minha vida já não anda por perto.
De maneira que, há umas semanas, atingi um ponto baixo de melancolia e depressão. Acabados os exames de Filosofia, entreguei-me às delícias das vaporações etílicas, que, devo confessar-te, me aliviavam o sofrimento. Ficava tudo mais calmo, mais tranquilo, mais poético até!
(…) Sobre os maestros, é verdade, isto está a tornar-se preocupante. Bem colocados na vida, ocupam os postos certos para a batalha ideológica. São os intelectuais orgânicos de serviço. Por isso falam como falam, olham como olham, sentem como sentem.
(…) O meu futuro não me parece nada risonho, sabes? Provavelmente, quando acabar Filosofia, não poderei dar aulas, tantos são os cursos abertos e as escolas fechadas. (…)

Depois fui buscar o Courrier Internacional, que saiu hoje.

… Os japoneses dos 25 aos 35 anos vivem numa precaridade extrema. Aos freeters (free arbeiters) já chamam a geração perdida.
… Desde 2002, a primeira causa de morte entre os 20 e os 39 anos é o suicídio.
… Para Kinoshita, professor de Sociologia do Trabalho da Uni de Showa, a época actual tem traços comuns com a Revolução Industrial. No dealbar do capitalismo, havia uma multidão de trabalhadores privados de direitos e tão pobres que morriam de fome.
… Agora que a ameaça do comunismo desapareceu, o capitalismo pode regressar à sua forma original, a lei do mais forte.
… Com a globalização, as empresas podem sempre procurar no estrangeiro mão-de-obra mais barata.
… Após o rebentamento da bolha financeira, as empresas impuseram formas de emprego precário que atingem hoje um em cada três cidadãos activos.
… A paz não é uma coisa benéfica. A guerra, ao quebrar a ordem social, dá nova dinâmica à sociedade. Em vez de sofrer a discriminação e a humilhação, mais vale a guerra e um sofrimento partilhado por todos.

Ainda quis sair, à procura dum diário. Mas abri o Aspirina e dei com o post do Fernando. Foi uma óptima coisa, este achado dos americanos. Em vez de ler, vou passar a ficar-me pelos bonecos. Sei que à partida, o único direito que têm garantido os nossos filhos e netos é serem sobre-explorados, como os chineses, indianos e quejandos o são já. Mas o problema é de quem os tiver, não é o meu caso. Eu só não sei o que dizer ao Alberto.

Jorge Carvalheira

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