gravitas/gravidu

A isenção da taxa moderadora para a prática do aborto vem confirmar o estatuto de doença grave conferido ao estado outrora interessante. Não só grave, gravíssima, de gravidade maior que as demais doenças graves que exigem intervenção mediante o pagamento da taxa.
A cura pelo parto é muito cara, comparada com o aborto, mas tem a vantagem de investir na Segurança Social, a longo prazo. Se bem que comporta um longo período de convalescença, ainda mais debilitante do que a própria doença. Não esqueçamos que a mulher passa a viver com um parasita desgastante. E que os parasitas são coleccionáveis.
Justifica-se, assim, a atribuição duma baixa remunerada (sugiro a duração de três anos, nove meses incluídos) a todas as vítimas deste flagelo sexualmente transmissível. Estava-se mesmo a ver: com um nome desses só podia ser grave, a gravidez.

43 thoughts on “gravitas/gravidu”

  1. Susana, o meu comentário ao teu texto está em Derrelictos — Telmo Correia. Não me perguntes como fui postar tão mal o meu comentário… Um dia destes, até me engano de blog.

    A gravidez embaraça-me (una para nuestros vecinos) porque ficamos gordas que nem baleias (et une pour les français qui utilisent le mot “grosesse”).

    (cláudia, copio aqui este. o resto deixei como estava.)

  2. cláudia, ficamos com grandes barrigas, gordas não é obrigatório.

    amarperdidamente, já vi que precisavas de ser desparasitada, tal como eu. :))

    sarabanda, concordo inteiramente contigo. o mérito não é meu, é daquilo que me inspirou.

  3. sílvia, concordo contigo, como já concordei com a tua prima sarabanda.
    a questão, aqui, é o ridículo de a ivg ser destituída de taxa moderadora. mas estou disponível para mudar de ideias, se alguém me persuadir da validade desta medida.

  4. Ridículo é implementar taxas moderadoras no SNS (gratuito!)para o tornar sustentável!… Por isso, qualquer isenção de taxa é sempre devida e sempre bem vinda.
    Mas fique tranquila, porque serão poucas e pobres as mulheres a benefeciarem desta isenção.

  5. O texto é belo e usa a ironia com uma mestria que pensava estar reservada, neste blogue, ao meu primito Valupi.

    Gostei imenso, mas é impossível alguém estar em maior desacordo com a sua substância do que eu.

    Voltarei aqui com mais tempo.

  6. sílvia, completamente de acordo nisso de dever ser o SNS gratuito. ou até com taxas que variem consoante os rendimentos.
    com o que não concordo é com a criação de uma excepção para a ivg, como se de uma prioridade excepcionalmente dramática se tratasse. havendo intervenções urgentes e inevitáveis para toda a população, crianças incluídas.
    o que isto é, é uma medida política e displicente, na onda no nacional porreirismo. não tem qualquer critério social.
    talvez saiba que agora as crianças a partir dos 12 anos passaram a pagar taxa moderadora, da qual estavam isentas. ora as crianças não trabalham, pelo que dependem dos seus pais. para mim não faz qualquer sentido despenalizar economicamente a ivg no mesmo tempo em que se penaliza a existência dos filhos.
    nestas coisas reforça-se a noção de ser um luxo ter filhos. grande incentivo à natalidade… e é a promoção da natalidade que pode permitir o futuro da segurança social, e de um SNS gratuito, paradoxalmente.

  7. clara, aí temos um problema de saúde pública que é discriminatório. a questão sempre me dividiu por ser um problema social e cultural.
    mas precisamente por ser tão sensível deve ser tratado com todo o cuidado, não com medidas displicentes. não é a ocorrência, é o modo como é tratada.

  8. claro, eu até votei sim. O que não admito é que, pelo SNS, os meus filhos não tenham pediatra (e há miúdos que ficam cegos e com problemas toda a vida à conta disto), que, pelo SNS, existam pessoas que passam anos e anos com baixíssima qualidade de vida em listas de espera “porque o SNS não tem dinheiro” e gastem dinheiro (inclusive dinheiro de contribuintes que são completamente contra a ivg) nisto. Uma questão de prioridades, só.

  9. Sim, deve-se pagar uma taxa, claro (pelo menos). E votei sim. Mas que tem uma gravidez que resulta em aborto a ver com uma outra, levada a seu termo e de que resulta uma criança?! Então uma mulher que alguma vez abortou acaso trata os filhos como parasitas?!!! É que parece ser essa a conclusão, ilógica mas profundamente discriminatória, e desumana, que se pode extrair do post original, por muito bem escrito que esteja. Um abraço.
    Adelaide Chichorro Ferreira

  10. O problema não é a ivg estar isenta. O problema é as outras doenças não estarem. Uma cidadã é tão livre de escolher ter um filho como de escolher não o ter. Em muitos casos, o Estado, todos nós, agradece que não tenha.

  11. pois, clara, tal como eu.

    adelaide, óbvio que não. era parte da ironia. uma caricatura, digamos. nem o post faz qualquer referência a isso que diz, é preconceito seu na leitura. algumas das mães mais extremosas que conheço abortaram alguma vez na vida.

  12. isabela, de acordo, o problema é o resto não estar isento. mas se vamos seleccionar isenções, então haverá intervenções que qualificam como prioridades face à ivg.
    é como no ensino: de acordo com o ensino superior gratuito. mas antes disso há o pré-escolar, que nem sequer é uma escolha de alguns, mas uma necessidade, com escassas alternativas, de todos.
    nessa parte da escolha de não ter um filho, acrescento apenas o papel da responsabilidade: quem escolhe não ter um filho deve tomar todas as precaucações para não o conceber. e aqui é que há um grande trabalho a fazer. (epá, desculpa os chavões… :D)

  13. Isto promete…
    Tanto saber e tanta irracionalidade.
    Até já consigo ter saudades do Afixe…Esperemos o comentário do João. Pode ser que haja alguma salvação.

  14. A argumentação da Susana consiste no facto de não compreender como é que se isenta a IVG de taxas moderadoras e o não o tratamento de patologias. E, ao colocar a sua argumentação nestes modos, a Susana foca muito bem a questão, tornando-a higiénica: não está aqui em discussão se se está de acordo ou não com a IVG ou com a cobrança de taxas moderadoras no SNS. São assuntos interessantes, sem dúvida, mas penso que fora do âmbito do texto da Susana (que, volto a dizer, gostei muito de ler).

    A questão é: por que razão a IVG é diferente das outras intervenções clínicas? E isto porque apenas uma diferença qualitativa poderia, em princípio, justificar um gesto político como o de isentar a sua prática do pagamento de taxas moderadoras.

    Eu acredito que essa diferença existe – e que ela é enorme. Contrariamente às restantes intervenções clínicas, uma mulher que vai proceder a uma IVG sai sempre a perder. Eu tenho uma constipação ou uma pedra no rim. Se o tratamento clínico funcionar a 100% serei um utente totalmente satisfeito pelo serviço que me foi prestado. Uma mulher que se sujeite a uma IVG, mesmo que essa intervenção decorra na mais perfeita das regularidades e sem qualquer tipo de complicações, jamais será uma utente totalmente satisfeita, pois a sua decisão levou a uma perda que, como é óbvio, terá sempre repercussões psicológicas no seu bem-estar.

    É essa a diferença. A IVG não é nenhum tratamento. É apenas a possibilidade terrível de uma mulher poder concretizar de forma consciente uma opção que será sempre extremamente difícil de tomar. A expressão «um mal menor», nem sequer se aplica aqui. É sempre um mal maior, mas um mal que foi decidido pela própria mulher. E eu respeito imenso isso.

    Assim, a isenção do pagamento de taxas moderadoras à IVG é um gesto político que cauciona, e muito bem, essa diferença. Poderia haver outras formas de o fazer, porventura ainda melhores. Tudo bem. Mas essa diferença legitima, só por si, a pertinência do gesto.

  15. Pericaso saiste-te mesmo bem, João e até sei que acreditas mesmo nisso que dizes. E para ti o gesto é esse.
    Só que, na vida real onde não existe o Pai Natal, o gesto é político para adoçar a boca à “esquerdalha”; pelos vistos resulta. ;)

  16. Ah e um aborto não é uma constipação nem uma pedra no rim. Eu sei que dignificaste a perda, mas ali na comparação a coisa foi menos feliz.

    (e eu só embirro com que gosto :DD)

  17. Não era uma comparação, Catarina, mas um contraste. Que necessita de uma comparação apenas para fins argumentativos. E o âmbito dessa comparação argumentativa era o das intervenções clínicas. Só isso.

    (Quando tiver percebido o que acabei de escrever, serei um homenzinho.)

  18. Concordo plenamente com isto:
    – Assim, a isenção do pagamento de taxas moderadoras à IVG é um gesto político que cauciona, e muito bem, essa diferença.

    Discordo um tanto com isto:
    – jamais será uma utente totalmente satisfeita, pois a sua decisão levou a uma perda que, como é óbvio, terá sempre repercussões psicológicas no seu bem-estar.

    O facto de sairem todas “traumatizadas” da IVG é um lugar comum.

  19. joão, na tua argumentação podias bem substituir «uma opção política» por «uma opção poética». pois esta é a tua. é a que escolhes na tua argumentação, que é só tua. mas não ouviste essa argumentação a quem decidiu, o que leva a teres fornecido, se acaso te lerem, uma excelentíssima desculpa para o que foi apenas umas palmadinhas nas costas do eleitorado e da oposição.

  20. agora, continuando, garanto-te que a isenção de taxa em nada minimiza, consola ou aquece o sofrimento de quem aborta. portanto, por muito que pareça muito lindo para um homem «vamos lá não a obrigar a pagar, coitadita, já sofreu que chegue», é apenas uma medida de consolo para esse mesmo homem, que assim se sente melhor por ter virado as costas ao problema. paternalista, então…
    de qualquer modo ainda bem que concordas que a mulher sai sempre a perder. esse é um óptimo ponto de partida para a mudança de mentalidades. quando todos pensarem que os Homens saem todos a perder, talvez haja real mudança.

  21. Interesso-me mais pelos efeitos práticos das decisões dos políticos do que pelas argumentações que lhe estão subjacentes. Enfim, cada um tem as suas prioridades.

    Tudo o que dizes a seguir (a tua suposta detecção de paternalismos masculinos e o teu espantoso olhar positivista sobre a mudança das mentalidades) acaba por ser mais revelador das tuas idiossincrasias do que um contributo válido para o que estamos a discutir aqui: a pertinência da isenção da taxa moderadora na IVG.

    Fica também registada em acta a tua muito significativa equivalência entre poético e subjectivo. Chapeau.

  22. sem olhar positivista não vamos lá. qualquer pessoa pode fazer alguma coisa. uma mãe ou pai que educa os seus filhos, uma representante dos encarregados de educação num liceu (moi), uma mulher ou um homem que se recuse a ter relações sexuais sem usar preservativo e o faça munido de boa e convincente argumentação, etc. até um adolescente informado pode exercer a sua influência. porque eu continuo a crer que a redução (e não resolução, pois nessa não acredito) do problema recai na prevenção e nesta pouco se investe. mais benéfico seria dizer-se que as taxas moderadoras pagas pelos abortos seriam canalizadas para o investimento na educação sexual – por exemplo.
    qual é, objectivamente o efeito prático da decisão? dizes que é o ressarcimento; eu não acredito nele.
    sim, poética: mantenho. :-)

  23. LOL
    opinião poética…
    acrescento: persuadiste-me da legitimidade da tua posição, ou concordãncia com a medida. mas continuo a não aderir a ela, é isso.

  24. Há coisas *bem mais importantes* para discutir. Esta questão do aborto, em Portugal, serve acima de tudo para desviar as atenções. E para discriminar. Alguém se deu conta, em Portugal, que há uns dias se deu um acidente numa central nuclear, na Alemanha? Algum jornalista português acompanha este assunto? Na novela que deu origem ao filme «A Nuvem», que passou recentemente nos cinemas portugueses, uma das personagens foi aconselhada pelos médicos a abortar, na sequência do tal acidente na central noclear. Essa personagem, como aliás outras, não aparecem na versão cinematográfica, que é muito mais soft, apesar de, mesmo assim, dar que pensar.
    Adelaide Chichorro Ferreira

  25. …nuclear, claro. Como é que na outra mens. fui escrever esta palavra com o?! É o facto de hoje ter o mais novo em casa a revirar-me os armários! Ainda agora virou uma série de coisas (levezinhas, vá lá…) para cima dele. Enfim, outros temas nos desviam continuamente as atenções. Pena que as muitas mulheres nas minhas condições não possam, por isso mesmo, escrever mais! Seguramente que tinham muito a dizer a muitos desses moralistas de meia tijela que não têm mais nada em que pensar.
    Adelaide Chichorro Ferreira

  26. adelaide, três dúvidas:
    1. o acidente nuclear que ocorreu há dias é mesmo «o tal» que surge na novela e no filme? mas como…?
    2. o que são «mulheres nas suas condições»?
    3. quem são os moralistas de meia tigela de quem fala?

  27. 1.Não. Esse é ficcional.O de que falo deu-se no dia 28 de Junho deste ano, tenho-se despoletado pouco tempo depois um outro, obrigando a que duas centrais nucleares alemãs fossem desligadas.
    2. Nas 1ª 3 linhas está a resposta.
    3. Muitos homens que opinam sobre este assunto, pretensamente em defesa da vida.

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