Justiça corrente

Velho, cansado, a um passo da reforma. Desterrado para uma comarca irrelevante, o delegado dispunha agora de tempo para pensar em tudo o que não tinha vivido e na verdade que importava. O rumor aquoso do vento nas copas das árvores entrava pela janela aberta. Olhava o conflito das correntes no riacho ao fundo do talude, sabendo que as águas corriam num sentido sempre certo.
Quando o processo chegou, teve pena da mulher, mais uma vítima dos homens, da ignorância, do inelutável apego das leis ao rigor da palavra escrita. Mas não foi por isso. Folheou-o. Enganos e deslocações dos envolvidos eram responsáveis por um nomadismo do caso, atestado pelos sucessivos registos e anotações ao longo de vários anos. Sopesou-o: uns bons dois quilos, ou seria escassez de massa muscular.
Enfadado, dirigiu-se à janela. Num movimento brusco e que lhe pareceu poderoso lançou o calhamaço, vendo-o submergir e reaparecer. Rodopiou e vogou, embateu por instantes em ressaltos de pedra, atrasou-se nos ramos caídos. Olhou-o através da trama das silvas, até se perder na curva.
Algum tempo depois chegou a carta. Aparentemente o processo tinha desaparecido. Segundo o último registo disponível, teria sido enviado para ali. A resposta do delegado foi pronta e sucinta:
O referido processo esteve nas minhas mãos. Segue, agora, o seu curso natural.

12 thoughts on “Justiça corrente”

  1. obrigada a todos.
    acrescento, leão, que a história é ficcionada. mas pressupunha um acto defensivo (sem defesa legal) relativamente ao problema que enuncia, não o inverso…

  2. se tivesse sido dada capacidade de intervenção aos leitores no desfecho do drama, por mim, o calhamaço teria caído em cima da cabeça de alguém. Porém, como assim não se passou na irrealidade, aproveito o ensejo para encomendar à Susana a correspondente sequela

  3. Susana, tinha passado por aqui numa corrida, no outro dia e vi que tinhas entrado nesta casa. Só os posso felicitar pela contratação, e felicito-me a mim por te ter mais à mão.
    Devia agora começar a partir debaixo, do primeiro post daqui, mas continuo com tão pouco tempo que começo agora e logo se vê.
    Este, está excelente! Para além da brincadeira dos trocadilhos, sente-se bem o que é o peso de certos dossiers. A maioria apetece mesmo é atirá-los janela fóra!
    Se isso se tornasse norma talvez se aprendesse a simplificar.

  4. Texto bem escrito, embora com algumas imprecisões: já não há delegados do MP, mas procuradores-adjuntos.
    Perto da idade da reforma já não serão procuradores-adjuntos, mas procuradores ou procuradores-gerais adjuntos.
    E, nessa idade, não são desterrados para terras no fim do mundo, isso fica para os mais novos.

  5. xatoo, o desfecho é o que mais importa. e é fecho.

    leãozinho, bem que estranhei.

    emiéle, que bom ver-te. já viste que se não fosse por te comentar provavelmente não me teria iniciado neste vício? :)

    cadeiradopoder, obrigada por isto e por aquilo. deixa lá: coloca-se a acção no século passado, parece-te bem?

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