Os corvos de Blackheath Park

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Pelas cinco da tarde, quando a longa fila de carrinhos de bebé se dirige do portão do Greenwich Park para o interior do Bairro de Blackheath, uma nuvem de corvos vem colocar o negro nas margens do pequeno lago. É o mesmo negro das burcas de Hyde Park sempre em grupo e sempre seguidas por um homem discreto e silencioso mas presente. Ao mesmo tempo, no Museu da Cidade, ali paredes-meias com a Catedral de São Paulo, dois brasileiros começam a fechar o café e a arrumar as cadeiras. Mesmo ao lado, numa sala do Museu, repousa numa bancada o livro gigante com as biografias inacabadas de todos os mortos do dia 11 de Julho de 2005.

Duas semanas antes o meu filho passou durante cinco dias por aquela mesma escada da estação de King´s Cross àquela mesma hora. Foi quando frequentou a British Library à procura de elementos sobre o Marquês de Alorna (vice-rei da Índia) para a sua tese de mestrado. Embora não pareça, o sorriso do primeiro-ministro que decidiu a invasão do Iraque em função de uma mentira fabricada (armas de destruição massiva) é tão negro como os corvos de Blackheath Park. E tão negro como as burcas de Hyde Park. E como o livro do Museu da Cidade, cheio de biografias inacabadas de jovens que não queriam morrer.

Quando os dois brasileiros fecham o café e arrumam as cadeiras, quando os visitantes começam a sair, o livro dos mortos fica imóvel sobre a sua bancada na sala cheia de silêncio. Tão imóvel como os mortos que eram jovens e não queriam morrer naquela escada da estação de King´s Cross, naquela amanhã de Julho.

José do Carmo Francisco

4 thoughts on “Os corvos de Blackheath Park”

  1. During one winter night the temperature dived to –30º Fahrenheit. I went outside to check on the raven. It was not on its usual roost near the front of the house. Somewhat concerned, I went to the back of the house to check on the dog. Pulling back the flap on our small doghouse , I peeked in and found them both, dog and raven, huddled together for warmth. When the cold spell passed, the two resumed their respectful distance.

    Grant Mason, Scientific American, August 2007, pag 6

    (é Agosto sim, não tenho culpa de receber antes da data)

  2. A enorme burkaria de posts continua neste blogue a uma cadência que rivaliza com a dos editoriais de qualquer jornal português à nossa escolha da Era pre-Ibérica condenada pelo Mago da Sara.

    Só um reparo infantil. Afinal o que é que teria acontecido em Greenwich para os carrinhos de bébézes virem todos atrás uns dos outros a sairem do portão para se encontrarem com os corvos do Poe à beira do lago? Manifestação crecheira contra os produtos da Nestlé? Extras na nova produção do Kin Tem Pó D’Odessa, se não tem, vou já aviar-me a outro lado? Vá lá saber-se! Andam tantas ideias verdes e lindas na cabeça do Zé a passarem ao crivo semi-relaxado do Fernando Cicerone.

    A imagem das burkas não celestinas a moverem-se no Hyde Park como telescópios de submarinos, sempre seguidas por um gajo a marcar presença com silêncios, coisas negras a taparem a luz do sol em descarada cumplicidade com as nuvens negras de maus agouros, continua a nova série encetada recentemente com alegria pela Oh, Xujana, tá-tá, ta-rá, tá-tá. E não vai acabar tão depressa. Ainda há por aí muita burkaria desta à espera de ver o sol dos serões noticiosos deste jornaleco.
    Espero que as coisas ternham corrido bem ao filhito com a tese sobre o Marquês de Alorna. Mais estória de barril meio-aldrabada, mas sempre será melhor que a recente safra de pêssegos de roer.

    Só não sei a que mortes é que o Zé se refere nas escadas de K Cross. Ou então serei eu que estarei a fazer confusão com outro atentado terrorista dos amigos das burkas. Mas, vá lá, não se perdeu tudo: agora já todos sabemos que o António Blair tem os dentes pretos. Com tempo e paciência até o daltonismo é curável.

  3. Zé:

    No poste do João Pedro Costa «Quem é aquela mulé» (publicado no dia 24 de Julho de 2007, 12: 04), pode ler-se: “…a última Assembleia Geral do Aspirina B teve lugar na piscina da Soledade (marcaram presença o Valupi, o Fernando, a Susana, a Soledade e mais uma centena de heterónimos muito giros que falaram todos da mesma maneira e que diziam todos muito bem uns dos outros”.
    Em comentário ao referido poste, Valupi coloca esta pergunta: “Primito, quando é que voltamos à piscina da Soledade?”
    Como sempre, a falta de educação e a provocação, são o lema do “Aspirina B”!
    Todavia, resolvi responder (embora, em consciência, não devesse fazê-lo…). Para informar que não vão ter “nova” reunião – porque nunca houve nenhuma. Na minha piscina só recebo os amigos (caso do Zé e família). De resto, tenho o prazer de não conhecer nenhum colaborador ou comentarista do “Aspirina”.
    Mas guardo uma surpresa para si. Trata-se de um convite. Irrecusável! (Embora a “casa” precise de mais uns “toques”, mas serve – principalmente para os restantes “aspirínicos”).
    A morada é a seguinte: sarrabal.blogs.sapo.pt – fico à espera da sua visita. Espero que não falte…

    PS. Não repare na data do poste. Motivos particulares obrigaram-me a colocá-lo dois dias antes do previsto: dia 1 de Agosto (como havia prometido, recordam-se?)

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