OS SEGREDOS DA CAROCHINHA
Nos meus tempos de rapaz, grande parte da minha curiosidade era dominada pelo desejo de explorar os currículos extra-escolares e os segredos dos homens de calo, de migas e azeitonas, suor mal pago, muita ganga e pouca missa. Alguns desses homens roçavam os quarenta anos de esperança no futuro e outros a velhice desanimada e descrente, mas todos devidamente educados nos Institutos de Tropeção-de-Baixo e Trambolhão-de-Cima. Essa gente boa e inocente nunca, nunca enjeitava uma oportunidade para me “abrir” os olhos e revelar-me os seus segredos. O serviço era gratuito, sem maldades estudadas — algo que me beneficiava, mas nem sempre, como vim a saber mais tarde. Nunca havia falta de pregadores auto-nomeados, graves e peremptórios nas declarações das suas crenças, politizados, mentalizados, devidamente endoutrinados e generosamente distribuídos pelo mapa da Aldeia Grande de Sordovelhas, a minha terra natal.
Todos os artigos de Aspirina B
Jornalistas by Nik
Eu acho que os jornalistas que andam a molhar a sopa no “caso Freeport” e a armar manigâncias contra determinados políticos deveriam também ser submetidos ao mesmo “inevitável escrutínio” (expressão de Vasco Pulido Valente, há dias, no Púbico) a que o PM tem vindo a ser sujeito. Ou há moralidade ou comem todos, diz o povo.
O “quarto poder”, justamente porque é um poder, e cada vez mais reconhecido como tal, não se pode furtar à devassa a que se julga no direito de submeter os governantes. Os leitores e telespectadores esperam e julgam ter no jornalista um intermediário, uma espécie de representante ou procurador, através do qual as perguntas dos cidadãos ao poder político são respondidas. O jornalista não pode nem deve, pelo seu comportamento como profissional, quebrar essa relação de confiança que há entre ele e o público anónimo. Ninguém em seu perfeito juízo confia a função de seu intermediário, procurador ou representante ao primeiro imbecil que aparecer. Ninguém, devidamente informado, quer comprar um carro em segunda mão a um burlão.
Assim, deveríamos ter direito a conhecer mais sobre a classe jornalística — sobretudo sobre os directores de informação e outros tenores da imprensa, rádio e televisão — do que aquilo que geralmente conhecemos, que é zero, ou perto disso.
Com os índios
Meu amigo
Do antes guardo a memória do menino assustado, num banco da já extinta Esquadra do Campo Grande , esperando que o fossem buscar por ter cometido o hediondo crime de jogar à bola na via pública (logo eu que sempre fui um pé de chumbo). O constante desfilar dos namorados, a caminho do mesmo banco, acompanhados de um diligente cívico, por se beijarem em público. O ingresso tão precoce no mundo do trabalho. O British Bar onde não entrava uma senhora. O exílio num país claustrofóbico que era o meu.
Do dia lembro-me de, antes de ter subido a rampa da RTP, me ter sido perguntado se estava com os índios ou com os cowboys. Respondi:-Naturalmente com os índios!
Do pós, assaltam-me as memórias. Um mau poema, que felizmente já não sei onde pára, exaltando a liberdade, introduzido à socapa no berço da minha primeira filha, recentemente nascida. O vórtice da discussão política tendo D. Pedro IV como patrono. As pulhices, as traições, as esperanças, o ano de 1981, os que ficaram pelo caminho. O palmilhar dos caminhos da Universidade coisa até aí impensável para uma pessoa oriunda do meu estrato social.
Pouso o olhar nas minhas filhas e orgulho-me do que vejo. Desvio-o para as minhas netas e acredito que é possível. Da mesa cá do fundo, sob o olhar tutelar do José Cardoso Pires e de um relógio que subverte o tempo, caro Val, recordo a minha geração, a tua, a que virá. Mas uma coisa te asseguro se me fizeres a mesma pergunta que me fizeram, faz hoje trinta e cinco anos, respondo-te: – Naturalmente com os índios!
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Oferta do nosso amigo jafonso, celebrando o 25 de Abril.
Do fundo da toca
Sócrates foi convincente e reforçou a ideia, mesmo em cidadãos que não são PS, de que é um grande político e o político de que Portugal precisa ― e ele é, seguramente, a última oportunidade para que isto venha a ter saída, enquanto país.
A não percepção disto, em nome da luta partidária, pura e dura, é um erro terrível, até porque quem o pratica não entende que se abriram as portas para o bota-abaixo total. A luta de interesses é enorme, o que está em jogo não é, por parte dos maiores críticos e urdidores de intrigas, o bem-estar do país mas sim a defesa, desesperada, dos muitos e muitos milhões que vão (estão indo) à vida.
Não se compreende a “surdez” perante coisas tão absurdas como um Joaquim Coimbra a dizer que achava que BI (de Banco Insular) queria dizer bilhete de identidade ― em plena Comissão da Assembleia da República, meus senhores! e sabendo que estava a ser filmado… ― que outro interveniente no processo diga da fuga de documentos em contentor na véspera da busca da PJ, and so on and on… E que não se veja nenhum órgão de CS a “investigar”, que não surjam fugas de informação, quebras de segredo de justiça, que Marcelo não largue uma palavra que seja sobre a matéria, que a Guedes não entre na matéria no seu “reputado” jornal de 6ª feira…mas que se continue, obtusivamente, a caça ao homem na figura do 1º Ministro…
Estamos num momento decisivo da nossa história ― em que, ou damos um passo em frente, ou nos deixamos ficar enredados na treta, num país da União Europeia onde presidentes de Câmara escolhem o 25 de Abril para inaugurar praças em homenagem a Salazar… E, em nome da razão, não vejo outra figura que seja capaz de levar isto avante que não seja José Sócrates. Por muito que não me agradem alguns tiques do senhor.
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Oferta do nosso amigo j.coelho
Esquerda de masoquistas by Nik
Há uma esquerda, que não se limita aos partidos de Louçã e Jerónimo, tendo também os seus representantes no PS, noutras agremiações e entre muita gente sem simpatia partidária, que sofre, sempre sofreu, de uma idealite aguda, agravada de uma profunda incompreensão do que é a política hoje, do que ela foi ontem e será amanhã.
É uma gente que, mesmo nascida depois da ditadura salazarista, só gosta de estar na oposição, indefinidamente, para sempre. Para eles a acção política é só o protesto, a denúncia, a defesa, a resistência a um estado de coisas inaceitável. Preferem deitar ao lixo os seus votos, ou não votar de todo, a interrogar-se seriamente sobre a validade dos seus próprios ideais, supostamente belos e nobres. Ideais que se confrontam permanentemente com uma realidade que não compreendem e recusam. Têm a sensação que está tudo sempre a piorar, desde o começo dos tempos.
O Dia Nacional dos Centros Históricos no Porto
Ou como a burocracia mata um dia de lazer
Desde a semana passada que eu aguardava este dia: o dia de ter, para mim, todo o centro histórico de borla. Então não era o que estava escrito nos cartazes? Entradas gratuitas na Sé, na Igreja de S. Francisco, no Palácio da Bolsa; bebidas e petiscos a 1 euro nas mais diversas tascas da Ribeira. Querem melhor? Haveria um balão quente largado nos Aliados e um cruzeiro grátis no Douro. Eu não pedia tanto! Contentar-me-ia com o Palácio da Bolsa, que nunca tive a ocasião de visitar, e as bebidas e petiscos a 1 euro.
Convidei uma amiga de fora: Anda daí, vamo-nos divertir. Lá veio ela, com a tralha toda, quero ver a Sé! Antes de entrarmos na Sé, comemos umas pataniscas espinhosas com sabor a Porto Antigo. Tentei um desconto por causa das espinhas. Mandaram-me bugiar.
Entrámos na Sé. Momento solene, silêncio mórbido, respirações retidas, tosses rebeldes. Virei-me para a minha amiga: Já está tudo visto. Vamos embora. Persistente, não, vamos ao claustro, quero ver. Íamos a entrar e a recepcionista: Ei! Os bilhetes? Detive-me, estarrecida, e a minha amiga replicou: Então hoje não é o Dia Nacional dos Centros Históricos? É preciso pagar? A matrona antipática, numa falsa e fingida compaixão, expôs o trâmite misterioso, subjacente a toda esta organização mafio-turística: Têm que ir ao posto de turismo dos Aliados levantar os vouchers. Voucher, no meu imaginário verbal, remete incontornavelmente para vache e comecei a apreciar a recepcionista pelo seu lado bovino.
Armada em chica-esperta, discursei: O Porto tem três postos de turismo, portanto, se temos de ir para a Ribeira, vamos ao posto da Ribeira.
Descemos as ruas pedregulhosas, tortuosas; umas cheiravam a esgoto; outras, a urina. Avistámos o Palácio da Bolsa e entrámos no posto de turismo da Ribeira: Vouchers? Aqui não. Só nos Aliados. Têm que ir aos Aliados. Neste ponto dramático da situação, sobressaltou-me o lado caprino das recepcionistas. E a minha imaginação verbal corrompe o adjectivo caprino remetendo-o para a lamúria romântica Capri, c’est fini!
O meu dia nacional dos centros históricos acabou em tremoços e finos na Ribeira, tripas à moda do Porto no Ora Viva, uns chás marroquinos do caraças, umas inalações fantasmagóricas com sabor a cereja e umas músicas rock and roll, com Undercover Dj’s no Mercedes. Discuti com a minha amiga por ela me sair a literatura anglo-saxónica toda e berrei-lhe um J’emmerde les anglais et les américains!
Acordei hoje de manhã, perguntando-me o que teria feito de histórico ontem à noite.
Afonsinas
O nosso amigo jafonso teve a amabilidade de nos enviar um bilhete onde dá conta das suas mais recentes peripécias.
Amigo Valupi duas palavras, embora atrasadas, sobre o teu post. Regressei ontem de Fátima onde fui em excursão organizada pelo centro dos reformados rezar por alguns frequentadores aí da farmácia. A D.Rosa confidenciou-me em voz baixa, já que estava acompanhada pela neta Cátia Vanessa, que para além do Magalhães ser o assassino da leitura entre os jovens, segundo o companheiro Barreto, ele seria também o principal responsável pela proliferação da diabetes, da incontinência urinária e das doenças da próstata. Vou tentar conferir nos sítios do costume do P.P.P. (1) e do I.D.O. (2), porque se é verdade eles já o sabem com toda a certeza.
Passando a um registo menos sério devo dizer que o facto a que te referes não é dos mais felizes. Todavia também devo considerar que a reacção dos mesmos está na linha do habitual. O que é que esperavas? O episódio do Provedor de Justiça, as reacções de prima dona do “beto” Alegre, as elocubrações tácticas dos irmãos do costume, na tentativa de posicionar um candidato que, segundo eles se oponha ao Sr. Silva, vão conseguir a reeleição do pior Presidente da República após o 25 de Abril e logo o que em condições de normal sanidade mental da esquerda seria possível derrotar. Penso que para além das inevitáveis dificuldades pelas quais a crise nos vai obrigar a passar, ela demonstra também a incapacidade congénita de nos agregarmos em torno de um objectivo comum.
Quanto ao resto, depois de almoço, vou tomar café ao sítio do costume e deixar ao Silva do B.B. umas pagelas com a inscrição “Em Fátima rezei por ti” dedicadas a alguns frequentadores aqui da farmácia, desde que devidamente identificados. Sabes que a caminho de Lisboa, talvez já iluminado pela oração, tive a sensação que o cavaquismo nunca existiu.
1) Patético Pacheco Pereira
2) Inenarrável Daniel Oliveira
Don Duarte nos Infernos
Cheguei à hora pontual, as batidas vasculares superando os toques dos sinos da Igreja de São Francisco. O encontro fora um desastre.
Ela. Na imobilidade do fóssil, no grito silencioso, no alto da sua maturidade, filmava-me em câmara lenta, perscrutinando detalhes ofensivos, pormenores insultuosos. Ele. Imóvel, protegido por óculos sombrios, aguardava. As portas do Inferno abriram de par em par.
Ambos bebericavam um café sumido, desviando olhares, empedernidos na ignorância duma presença absurda. Agressiva e determinada, pedi um sumo de laranja, um pão com manteiga e um pingo.
Observei-lhe a cara de emplastro, caiada como um claustro na Primavera, as mãos ressequidas, o olho baço, os lábios insuficientes para o bâton, o corpo magro, apagado, sem atractivos, a lividez de um Outono latente, prenunciando o desgaste final.
A verdade, inimiga da máscara libertina, dançava sobre o tampo da mesa, rindo-se do desconforto de Don Duarte. A verdade queimava o ar de enxofre, prendendo Don Duarte em estalidos de mentira, na clareza e evidência dos crimes disseminados, na procura da mulher inconcebível.
Descortinei-lhe os olhos infernais, na combustão pesada do ódio contido, e a frieza dos gestos mortais nas mãos enlameadas de um húmus perdido. Os significantes convergiram no alcance da verdade e Don Duarte prostrou por terra, fugindo do espelho oferecido.
Alta cena, alta bronca
No Dia dos Namorados, o Duarte meteu-me os cornos. É que nem na Sexta-feira, dia 13, o dia me correra tão mal. No telemóvel dele, descobri uma “Coelhinha” (eu era a “Menina Linda”). A Coelhinha dizia assim: “Amor, vens hoje a casa almoçar?”. Sem ele ver, tirei o número da coelha, esperando o meu momento de glória: o da vingança.
No primeiro bar da Ribeira, fui à casa de banho. A minha vontade de mijar era muita, mas nem me lembrei de o fazer. Peguei no meu telemóvel (já passava da 1h da manhã) e telefonei. Tocou. Ninguém atendeu. Então escrevi: “Sou a namorada do Duarte. Agradecia que atendesse.” A coelha respondeu-me: “E eu sou a Senhoria do Duarte. Não tenho nenhum assunto a tratar com a Senhora.”
A Coelhinha, a senhoria dele?
O gajo, após ter levado com a minha crise de ciúmes e berros e palavrões à mistura, levou com mais:
-Então a senhoria? Convém graxar a senhoria, não convém? Umas facilidades e tal.
O Duarte, que entrara numa de mutismo tenso pouco habitual, lançou-me o olhar de Lúcifer, a besta das chamas.
Desde ontem não sei nada dele, mas ganhei uma amiga: a Coelhinha que se chama Diana.
Agradecimento
Eu costumo agradecer quando me oferecem algo. Todos os dias, ouvimos Bom dia, Obrigado, Desculpe, Com licença. E mesmo aqueles que não agradecem, por orgulho, por complexo, lá no fundo, agradecem, nem que isso se note após em actos. Há também os ingratos. A ingratidão. Contudo, como um dia, ouvira a determinada pessoa: Nunca te arrependas do bem que fazes.
Esta introdução, para quê? Para agradecer a influência positiva, fulcral, que o João Pedro da Costa teve sobre mim, ao indicar-me o caminho das traduções.
Esquecera-me das palavras e até da verdade que as próprias pedras teriam uma vida para além das leis imutáveis que nos querem impor. Esquecera-me de mim.
Portanto, fica aqui a minha gratidão para com o meu ex-colega da Faculdade e ex-blogueiro do Aspirina B.
Cláudia Rodrigues
NAMOREI UM TERRORISTA
Entendido em leis, perito em informática, poliglota, avesso à carne de porco e às bebidas alcoólicas, Mohammed nunca perdia uma oração às Sextas-feiras. No dia em que me conheceu, amaldiçoou Jesus Cristo e toda a cristandade. Eu não fazia parte dos planos.
Sou uma ocidental, mas não uso decotes pronunciados, desavergonhados. Não sou de falar alto, de mascar uma chiclete sem pudor. Enfim, cativei o “crânio” das traduções mais hieroglificamente orientais e da informática sem segredos.
Não sei se era vontade de Alá, mas ele não me tocava em parte alguma: só depois do casamento. O que eu sofria, Meu Deus. Travou-se então uma luta entre a cristã pouco católica que eu era com o mais íntegro dos muçulmanos.
Ofendendo os preceitos de Maomé, cedeu-me. Se era o que eu queria… Impus a regra mais básica numa situação dessas: o preservativo. Ao abrir a caixa, tremia pelo pecado que cometia: preservativos. Nunca na vida dele tinha usado semelhante coisa. Eu estava a pô-lo maluco.
Mohammed partiu para o acto como quem vai entrar num campo de batalha. Rompeu atabalhoadamente, esguichou duas ou três vezes e ficou hirto pela ignomínia cometida. Eu fiquei aquém da expectativa e concluí que mais me valia ficar pelos ocidentais.
Neste momento, encontra-se na Itália, perseguindo objectivos mais nobres do que a satisfação sexual de uma mulher na cama.
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Oferta da nossa amiga Cláudia, um ficção cheia de realidade.
Salazarofilia
Só consigo estar no Governo porque nunca saio da rotina. Como poderia aguentar estes anos a ganhar eleições, ir ao Parlamento responder a perguntas, correr a inaugurar?
Senhor Doutor Salazar
(citado em As Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta)
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Oferta da nossa amiga Cláudia para a inauguração oficial de 2009.
TI’ SILVINA
Da nossa amiga Cláudia, recebemos esta bela oferta:
Ti’ Silvina. Era assim que a nomeavam. Na voz da minha madrinha, havia censura, um cariz tabu numa qualquer tentativa de abordagem da minha parte. Era-me defendido indagar. Havia sol, luz e flores. Porque ofuscar o horizonte com perguntas tão inapropriadas para a minha idade?
O que havia de mal na Ti’ Silvina? Que teria ela feito para que a minha madrinha, tão racional, a quisesse afastar da esfera do real?
Ti’ Silvina trazia sempre um chapéu de palha espampanante de abas largas e laços coloridos. Ria, bebia, dançava, e confidenciava-me que os moços se apaixonavam por ela. Ti’ Silvina tinha 64 anos.Todos os dias, via-a caminhar para a caixa do correio. Ti’ Silvina era analfabeta. Todos os dias, esperava uma carta do Primeiro Ministro.
Um dia em que decidiu não falar sobre o Governo, pois este continuava cerrado num silêncio de sepulcro, revelara-me que tinha uma colecção de bonecas de todos os tamanhos, expostas em cima da cama. Esperei que ela me dissesse que me ofereceria uma ou que teria uma em particular guardada só para mim, mas seguiu caminho, orgulhosa, altiva, a cantarolar uma ária popular.
Na festa da padroeira, apareceu feliz. Dançava com frenesi. Quantas saias traria ela naquela noite? O bâton carmesim invadia para além da linha natural dos lábios ressequidos e cerzidos, patenteando a figura triste do palhaço ou da boneca maltratada. John encontrava-se a meu lado. Soou no ar:
– It’s so sad.
Onde via ele tristeza numa pessoa daquela idade, com mais vida e alegria do que um qualquer seu conterrâneo? Com 64 anos, acreditava no amor e procurava em bailes e festas a pessoa que a faria feliz. Nunca tinha visto a Ti’ Silvina chorar. Era forte como a Serra de Montemuro, forte como a geada das manhãs de Inverno, forte como os madrugadores das labutas do bronze.Um dia em que tudo parecia perfeito e o sol brilhava, a luz se expandia e as flores sorriam, atrevi-me:
– Maman, porque é que a Ti’ Silvina é assim?
Notei o primeiro impulso, movimento de repulsa. A rejeição. Porém, conformou-se, acalmou. Inalou o ar apaziguador daquela tarde amena e recebi as palavras de minha mãe:
– Ela não teve sorte. Perdeu o marido e o filho em África. Foi a partir daí que ela ficou assim.
Imaginar que ela teria sido uma mulher como as outras, comungando das mesmas preocupações, azedumes e contentamentos, afigurou-se-me monstruoso, terrível, o golpe que a transformara. Minha mãe prosseguia e através da névoa criada pelo meu cérebro eu distinguia:
– Passa a vida a escrever aos ministros a pedir os corpos que ficaram em África. O mais certo é terem desaparecido. Ela não sabe escrever, mas pede a quem sabe. Nunca obteve resposta. Já lá vão 20 anos.
Cantar as velhas
O cantar as “velhas” é uma preciosidade da cultura popular terceirense. Trata-se de um género de cantigas ao desafio, tradição herdada talvez das trovadorescas cantigas de escárnio e mal-dizer. A brejeirice está sempre presente em cada “velha”, composta por dois tercetos e uma quadra. O seu nome deve-se ao facto de ser normalmente referida uma velha, tendo como contraponto um velho, que com frequência são “avó” e “avô” dos contendores. Actualmente o par mais famoso de cantadores de “velhas” é formado pelo genial João Ângelo, um fenómeno de talento e popularidade, e pelo engenheiro José Eliseu, que se dedicou à prática para ajudar a manter viva esta tradição. Uma “velha” é tanto mais bem conseguida quanto mais disfarçado estiver o significado da brejeirice.
Por desfastio, às vezes escrevo alguma, para me divertir ou divertir os amigos. Aqui deixo três exemplos.
Lição de gramática
Tua avó foi à lição:
“Fá-lo é verbo, falo, não
– É substantivo comum.
Mas, se levar o pronome,
Falo fica, em vez de nome,
Verbo como qualquer um.”
Tua avó bem aprendeu
E a teu avô ensinou:
“No quinhão que Deus te deu
Só o verbo te calhou.”
O orçamento
Teu avô muito suava
De tanto que trabalhava
Para ganhar o sustento.
Tua avó fazia a conta
E não encontrava a ponta
Do novelo do orçamento.
Ela quase enlouquecia
C’o resultado que dava,
Pois quanto mais lhe mexia
Mais o orçamento minguava.
O voto
Uma velhinha sem jeito
Fala mal de tudo a eito,
E não queria votar.
Para fugir ao dever
A velha foi-se esconder
Numa furna à beira-mar.
Tanto o velho procurou
Que deu com ela na furna,
Mas a velha até gostou
De pôr o voto na urna.
Mar alto e bocas do mundo
Alfredo andou nas bocas do mundo pela primeira vez há-de haver um ano, aqui no Aspirina. Deixara para trás o mar alto de Quipert, ao pé de Nantes, apanhara o Sud-Expresso e vinha ver a mulher, à espera dele em Mira.
Embrulhado em considerandos sobre o salário que tinha, aguentou a travessia de Castela nocturna a poder de cervejas. Chegou à Pampilhosa já toldado, a muito custo encontrou a mulher, e quando lhe passou a bebedeira já estava de regresso a Quipert, outra vez a atravessar Castela.
Hoje volta Alfredo às bocas do mundo pela última vez, através do Aspirina. Há dias a tempestade apanhou-o no mar de Nantes, afundou-lhe a traineira, e em menos de meia hora já o tinha congelado.
Poesia de todo o Mundo na Rua da Rosa
Soube por acaso que abriu uma livraria só de poesia na Rua da Rosa nº 145 em Lisboa. Além de livraria, o espaço também inclui um bar. Lá fui hoje beber uma taça de vinho branco à saúde de livraria e do bar, incluindo nos votos o Miguel Martins, poeta e contista, recém-chegado de Cabo Verde, autor dum livro com o curioso título de «Cirrose».
Para vos dar uma ideia da variedade dos livros desta jovem livraria, aí vão alguns nomes: José Blanc de Portugal, António José Forte, Carlos Queirós, Emanuel Félix, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Francisco Bugalho, Bocage, Al Berto e Carlos de Oliveira. Dos estrangeiros, Drummond de Andrade, Adélia Prado, Agostinho Neto e Ho Chi Minh com os seus célebres poemas de prisão. E muitas antologias: poesia argentina, poesia soviética, poesia brasileira, um nunca mais acabar. O horário é das 15 às 23 horas de segunda a sábado.
Um aspecto curioso é que eles procuram ter não só as novidades mas também clássicos, como (por exemplo) a colecção «Poetas de Hoje» da Portugália e o «Círculo de Poesia» da Moraes. Pessoalmente foi emocionante descobrir um livro meu de 1982 ainda à procura de leitor ao lado de um livro da minha filha, que desapareceu horas depois.
Não queria deixar de vos dar conta desta descoberta. Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor. Comprar muitos livros não quer dizer ler muito. Mas é bonito ver esta teimosia. Agora que os dias do frio estão a chegar, nada como um livro de poemas para se conjugar com uma bebida destilada ou fermentada capaz de aquecer o coração. A poesia também é uma educação sentimental.
Assistir a um jogo de futebol é perder a alma
Escrevo sobre livros desde 1978 (iniciei-me no Diário Popular) e continuo a considerar que ler um livro por semana faz bem à saúde. Se for para manter uma coluna num jornal, então ainda melhor. Ganha-se pouco, mas é muito divertido.
Esta semana calhou-me A misteriosa chama da Rainha Loana de Umberto Eco. Na página 362, o autor conta que um dia o pai o levou a ver um jogo de futebol e tudo aquilo lhe pareceu sem sentido. Logo, se o mundo não tem sentido, é porque Deus não existe. Foi falar com o Padre que lhe respondeu: «Meu filho, acreditaram em Deus grandes escritores como Dante, Manzoni e Salvaneschi e tu queres ficar atrás deles?»
Lembrei-me desta história quando li, no Record do dia 10, a atribuição de uma medalha de lata a Laurentino Dias porque o secretário de estado do Desporto insinuou que são os árbitros quem decide os campeonatos de futebol em Portugal. Por sua vez, o presidente de Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol terá desvalorizado a frase do membro do Governo, mas não deixou de dizer que este seu dito não ajudou em nada a imagem da arbitragem.
Ora, nas primeiras nove jornadas, a equipa do Porto beneficiou de cinco golos irregulares. Na segunda jornada (Sporting), na terceira (Leiria) na quinta (Paços de Ferreira), na oitava (Leixões) e na nona (Belenenses) os azuis e brancos tiveram cinco golos ilegais. Não é de estranhar que o secretário de estado tenha dito o que disse.
Eu deixei de comprar jornais e vou lê-los ao barbeiro. A vida está difícil e há cada vez mais gente a fazer o mesmo. A alma do futebol já se foi; o que fica é o clubismo. O emblema na lapela, o cartão no bolso e o cachecol na mão são as últimas memórias da alma do futebol. Memórias apenas. Porque a alma já não existe.
Sentença exemplar
Lá pelo ano de 1858, na ilha do Faial, havia um homem, viúvo, que tinha o usufruto dos bens da mulher defunta. E tinha também uma criada, que não sei se fazia parte do usufruto, mas que parece que ele usufruía. E por isso lhe dava a vestir as roupas da amantíssima esposa que Deus levara a contas jovem ainda. Pois contas lhe pediu um herdeiro da senhora (o embargante), exigindo que ele lhe entregasse os atavios da dama extinta, ou deles prestasse caução. A questão foi levada a tribunal, e mereceu uma curiosíssima sentença do juiz da Horta, homem que, pelo seu sentido de humor, deve merecer a nossa admiração perpétua. Quem tal não admirou foi o Tribunal da Relação, que nesse tempo havia em Ponta Delgada, que mandou dar-lhe uma grande descompostura, de cuja leitura foi encarregado o juiz da comarca mais próxima, que era no Pico. O juiz da Horta teve de descer da sua cadeira, e, à vista e aos ouvidos de todos o seus inferiores, foi assim que ouviu a severa admoestação. Que não merecia, penso eu. Opinião que se perceberá melhor passando a uma das partes mais interessantes da sentença, na qual o juiz justificava a decisão em favor do embargante, que se insurgia contra o facto de o embargado dar a vestir à criada as roupas da mulher finada. Sentenciou a seu favor, é certo, mas aproveitou para ridicularizar o homem, como se verá.
“Seria o embargante qual outra primavera de touca, caso se apresentasse enfeitado com um dos vestidos daquela relação a fl. 3; sobrepondo o apertado espartilho, tornando-se assim uma jovem fantástica; e demais se ainda em volta do seu níveo colo voltas desse de fios de finos corais, e se cobertos os dedos de brilhantes anéis, e em desdém sustendo fresco de que, seria, não uma encantadora bela, mas uma decrépita personagem hábil a afugentar assustadas crianças. Era justo pois no requerente arredar para longe esse espectáculo sem privar contudo o mesmo embargante do usufruto de tais objectos.”
Na sentença se faziam outras judiciosas considerações, como aquela em que se justifica, pela leis de Deus e da natureza, que o embargante, também viúvo (e assim se percebe para quem quereria as roupas e atavios) sentisse como é frio o frio que sente quem vive só. Eis, a esse respeito, outro mimo. (Mas faço este parêntese para dizer que, no texto, está “ultémas”, que suponho tratar-se de “ulemas”, como o são os talibans, capazes de inventar sempre a melhor maneira de ler o Alcorão a seu favor.) “Verdade é que o ano não vai bem para enlaces matrimoniais. Uns saem mancos, aleijados, outros farfantes e de estulta impostura, mas não é decerto a tanto que se pretende expor o embargante, que antes quer seguir o conceito do velho abade do Bispado de Viseu, que tendo-lhe recomendado observar a constituição do mesmo Bispado que só consente aos revd.ºs párocos ter criadas em casa de cinquenta anos de idade, o bom e inteligente Abade, seguindo a opinião dos sumos sacerdotes ulemas, e para cumprir aquela disposição, tinha duas criadas, cada uma de vinte e cinco anos.”
Velhos
Comeram o pão que as mães amassaram. Às vezes não havia nem uma côdea no armário. Esperaram as festas maiores para dar à boca o sabor da carne. Eles aprenderam a cavar quando o sacho era ainda do seu tamanho. Elas começaram a varrer a casa quando a vassoura era ainda mais alta do que elas mesmas. Não foram à escola, porque o alfabeto não matava a fome. Não tiveram creches nem infantários onde despejar os filhos. Quando algum caía, não havia mais tempo do que para o animar dizendo “não se chora, não foi nada”, e continuar a cuidar do lume. Curvaram a cerviz perante os poderosos, porque os pobres não se podem dar ao luxo de ter orgulho. A sua mesa preservou velhos sabores, aprovados por dezenas de gerações. A sua voz entoou canções da idade do tempo na ilha. As suas mãos não permitiram que rebentassem para sempre as cordas da viola-da-terra. Adoraram Deus e veneraram os Seus santos. Respeitaram e foram respeitados. Sonharam com uma velhice cheia de bênçãos bíblicas. Agora, sentem uma acusação em cada hora de abandono. Dizem-lhes que são um peso que custa a suportar. Como se Portugal não estivesse vivo porque eles viveram. As rugas das suas faces são um resumo biográfico escrito pelo tempo que a vista, embaciada, não pode ler em pormenor. Mas as pernas acumulam o cansaço de todos os degraus da vida. Não mentem. Têm os braços cansados de acenar vezes sem conta a umas mãos em adeus num carro visto por trás. E choram, às escondidas. O coração não lhes dá para mais. Qualquer dia, qualquer noite, um sopro leve, um derradeiro sopro. Outros os pés que farão por eles a última caminhada. E umas gotas de água e sal… Com um pouco de sorte, haverá também umas lágrimas do hissope e uma cruz mal feita, entre a testa e o peito, de meia dúzia de anojados. Terão amado a sua terra até ao fim. Até ao fim da vida. “Ah! se eu fosse novo e soubesse o que sei hoje…” dizem. E sonham outros mundos. Mas teriam feito e dito as mesmas coisas. Seriam felizes. E, depois de velhos, pensariam que não tinham sido.
Daniel de Sá
Retrato breve de Filipa em Vila Franca
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Continuar a lerRetrato breve de Filipa em Vila Franca