Poesia de todo o Mundo na Rua da Rosa

Soube por acaso que abriu uma livraria só de poesia na Rua da Rosa nº 145 em Lisboa. Além de livraria, o espaço também inclui um bar. Lá fui hoje beber uma taça de vinho branco à saúde de livraria e do bar, incluindo nos votos o Miguel Martins, poeta e contista, recém-chegado de Cabo Verde, autor dum livro com o curioso título de «Cirrose».

Para vos dar uma ideia da variedade dos livros desta jovem livraria, aí vão alguns nomes: José Blanc de Portugal, António José Forte, Carlos Queirós, Emanuel Félix, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Francisco Bugalho, Bocage, Al Berto e Carlos de Oliveira. Dos estrangeiros, Drummond de Andrade, Adélia Prado, Agostinho Neto e Ho Chi Minh com os seus célebres poemas de prisão. E muitas antologias: poesia argentina, poesia soviética, poesia brasileira, um nunca mais acabar. O horário é das 15 às 23 horas de segunda a sábado.

Um aspecto curioso é que eles procuram ter não só as novidades mas também clássicos, como (por exemplo) a colecção «Poetas de Hoje» da Portugália e o «Círculo de Poesia» da Moraes. Pessoalmente foi emocionante descobrir um livro meu de 1982 ainda à procura de leitor ao lado de um livro da minha filha, que desapareceu horas depois.

Não queria deixar de vos dar conta desta descoberta. Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor. Comprar muitos livros não quer dizer ler muito. Mas é bonito ver esta teimosia. Agora que os dias do frio estão a chegar, nada como um livro de poemas para se conjugar com uma bebida destilada ou fermentada capaz de aquecer o coração. A poesia também é uma educação sentimental.

13 thoughts on “Poesia de todo o Mundo na Rua da Rosa”

  1. Eis uma boa noticia. Não deixarei de visitar (e de comprar livros… e de os ler) a proxima vez que me deslocar a Lisboa.

  2. bela dica para quem gosta de ser educado sentimentalmente.
    inevitáveis perguntas para quem gosta de ser curiosa sistematicamente:
    como se chama o teu livro que procura leitor há 25 anos – tempo suficiente para um ser nascer e se formar em literatura moderna? e qual foi o livro da tua filha que desapareceu horas depois?

  3. Bela notícia, caro Amigo.

    Só para me meter consigo: na frase “Pessoalmente foi emocionante descobrir um livro meu de 1982 ainda à procura de leitor ao lado de um livro da minha filha, que desapareceu horas depois”, o q é q desapareceu? o seu livro? o leitor? o livro da sua filha? a sua filha? hehehe…

    Respondendo à Salomé (porque a modéstia do Autor impedirá uma resposta como deve ser…):
    a) o livro de 1982 (mas com data de edição de 1981), deve ser o livro de estreia de JCF, “Iniciais”, q foi distinguido com o Prémio Revelação da SEC e da APE e q é o 107º volume da mais emblemática e representativa colecção de poesia q já por cá houve: “Círculo de Poesia” da “Moraes editores” (dirigida por Pedro Tamen);
    b) o livro da filha do JCF (Ana Francisco), calculo q seja “Personagens para Um Lugar Memorável” (Black Sun, 2003), um belíssimo livro!

    Acho q o q JCF quis dizer q estava à espera de leitor era aquele exemplar em concreto e não a obra…

  4. É realmente uma excelente notícia.

    Que também se revele um excelente negócio, apesar dos tempos não serem de “grandes poesias” neste país.

    O que está a dar é “filosofia barata”, capaz de envergonhar o verdadeiro Sócrates…

  5. Para a Salomé uma explicação: de facto quis dar ao texto um certo «clima» e falei do livro da minha filha que desapareceu mas não expliquei bem. É assim a história: a pessoa que me estava a fazer a visita guiada disse-me «O livro da tua filhota está aqui!» mas afinal já alguém tinha comprado o dito livro. Falei nisto para dar um ar menos formal; não estou obviamente a fazer publicidade. Não fiz nem nunca farei. Moro aqui perto da Rua da Rosa e quis falar duma coisa nova daqui. É tudo.

  6. Uma livraria só de poesia? Fantástico. Mas, agora com os pés em terra, quanto tempo vai sobreviver aquilo?
    Eu tenho muitas saudades da livraria Ler Devagar, no mesmo Bairro Alto, mas um pouco mais acima. Não era a melhor livraria lisboeta, mas era certamente um dos mais interessantes locais de cultura em que pus os pés na minha já não curta existência, Portugal e estrangeiro incluídos. Havia lá de tudo: livros, música, filmes, exposições, conferências, tertúlias. Tinha um bar com mesas e cadeiras, onde se podia beber um copo a folhear das estantes sem ninguém chatear. Para gente de esquerda, não se pode dizer que lhes faltasse sentido de mercado, embora não ganhassem dinheiro. Em noites de solidão (aquilo fechava às duas), quantas vezes lá revi amigos e conversei com desconhecidos. A Ler Devagar fechou há vários anos para no local construírem um condomíno fechado de luxo. Claro que ainda não puseram um tijolo sobre outro.

  7. sapkaj, também me lembrei da ler devagar, pela proximidade geográfica e porque depois de fechar se falou em abrir uma nova loja, precisamente na rua da rosa, que seria dedicada à poesia.
    mas a ler devagar já não está na ZDB?

  8. A Ler Devagar explodiu dando origem a quatro, uma na ZDB, outra na Rua da Rosa, outra na Calçada do Combro, outra, enfim, com o mesmo nome, no Braço de Prata, bem lá longe do centro. Não sei se ainda existem todas.

  9. Um texto ao acaso do impressionante, ou impressionsita, ou as duas coisas, livro da Ana “Personagens para um lugar memorável”:
    “As Máscaras africanas e as outras peças às vezes mexem-se. Há um bastão em cobre tão forte, tão forte, que não convém segurá-lo por muito tempo. É evidente que pertenceu a um homem importante.”

  10. lembrar de boa coisa é ensencial para todos nós porque a vida é cheu de revirivolta mais nós ja podemos fazer o tempo mediante as nossas capassidades racionas

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