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Carta a Marina por causa do galego – 4

Cara Marina,

Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa castelhanização do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero de causa (e as teorias da conspiração são sempre propostas desesperadas), os conspirativos decretam que tudo quanto distingue o galego do português é… espanhol.

O mais espantoso é que os conspirativos, não tendo a razão inteira, têm alguma  – no que eles não reparam, já que as teorias da conspiração não permitem gerir meias verdades. E a meia verdade está em que o Estado Espanhol, que considera o castelhano, o catalão, o basco e o galego como lenguas españolas (assim lhes chama a Constituição), ao ver-se obrigado a constatar que «galego» e «português» são dois simples nomes para a mesma língua (embora correspondendo a normas diferentes e parcialmente irredutíveis), o Estado Espanhol, dizia eu, acaba metido numa grande alhada. Como explicar ao Mundo que algo «español» afinal não o é?

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De um momento para o outro

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei. A tua palavra pode ser a última. O nosso encontro pode não se repetir. Basta um gesto teu e vou-me embora. Estou sempre pronto para pegar no cajado do peregrino. De um momento para o outro pode acontecer. Sei que não posso fingir. Há na tua voz, em certos momentos do dia, um cansaço profundo que vem superar os projectos de tua alegria convocada e reunida.

A melancolia das tardes de Lisboa chega ao teu olhar trazida por um eléctrico que vem do Martim Moniz e segue para os Prazeres. Chega e é como se fosse uma seara de afectos na qual o vento desenha um pequeno mar verde de ondas repetidas entre luz e sombra.

Luz é quando o teu sorriso constrói uma renda de ternura e, sendo esta renda uma projecção da rede, eu sinto-me o pescador cansado a atravessar a praia, pronto a repetir a faina no dia seguinte. Sombra é quando o teu olhar se dilui no vento e na escuridão destes dias levando para os arquivos do silêncio esta amargura acumulada de pequenas traições, faltas de respeito, deslizes nos sentimentos e erros crassos nas relações humanas.

Entretanto o eléctrico que te trouxe a melancolia segue o seu trajecto pelas colinas de Lisboa. Perdido entre convenções, conveniências e mal-entendidos, eu sigo o meu caminho no sentido oposto. Estou cheio de dúvidas sobre o amanhã mas tenho, pelo menos, uma certeza. O futuro está num tempo desconhecido. Só o presente se vive. Eu sei. Não posso ignorar a melancolia que chegou aos teus olhos trazida por um eléctrico amarelo e lento que partiu do Martim Moniz e vai na direcção dos Prazeres.

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei.

O meu Avô Mello

Estas são algumas das memórias escritas pelo Dr. Jim Mello, pai do Nobel da Medicina Craig Mello. A minha tradução foi autorizada por ele, que também me autorizou a publicá-la onde quisesse. Nota curiosa: o avô do Dr. Jim Mello morou na rua onde eu nasci e resido, tendo sido nesta que nasceu o seu pai.
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Este é o relato do que recordo de meu Avô Mello. Lamentavelmente incompleto, decerto não faz justiça ao homem mas é quanto posso, e quero deixá-lo registado para gerações futuras. O seu nome era Eugene Mello (N.– Eugenio Mello, no registo de baptismo). Nasceu na ilha de São Miguel, Açores, Portugal, cerca de 1880. (N.– Nasceu em 12/10/1873) Foi o terceiro filho (N.– segundo) de seu pai, que era agricultor, mas a terra que este possuía era demasiado pequena para suportar uma família, caso fosse dividida. Por isso meu Avô precisou de procurar outros meios de subsistir por si mesmo. Não sei nada acerca da sua infância e juventude, mas desejo visitar um dia a sua terra natal para fazer uma ideia de como seria o ambiente. Quando veio para Rhode Island estava casado e tinha três filhos: Ana, a mais velha, um rapaz que morreu já aqui, e José. (N.– Tinha seis filhos, segundo o rol paroquial) Muitos jovens portugueses vieram para Rhode Island e para o litoral de Massachusetts em finais do século XIX e princípio do XX, à semelhança da invasão hispânica a que assistimos agora. Meu Avô trouxe apenas a sua força e determinação. Não falava Inglês, não tinha dinheiro e não sabia ler nem escrever. Assim, teve de confiar nos portugueses que já aqui viviam para o ajudarem a encontrar trabalho. Não sei o que fez para se manter nos primeiros tempos, mas trabalhou durante a maior parte da vida nos Caminhos-de-Ferro de Nova Iorque, New Haven e Hartford, que serviam Bristol e Warren. Dei a Jake o seu velho relógio de algibeira, que era a única recordação sua que eu possuía. Ele precisava de um relógio no trabalho a fim de saber quando a linha tinha de estar desimpedida para a chegada dos comboios, e penso mesmo que esse relógio terá sido para ele um motivo de orgulho. Tento imaginar muitas vezes as primeiras andanças de meu Avô por aqui e como teria sido a sua vida.
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Carta a Marina por causa do galego – 3

Cara Marina,

Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse isto poderia ficar chocado.

Sim, acredite: os portugueses sentem-se tremendamente sozinhos no mundo, o que equivale a crerem-se imensamente originais. Se um dia descobrissem que um terço do seu idioma lhes chegou da Meseta, e que muito dos outros dois terços veio inteirinho da velha Galécia, dava-lhes um xilique. E eu não quero carregar isso na consciência.

Mas deixe-me, primeiramente, explicar-lhe uma coisa. Ou duas. Primeiro, para lembrar-lhe que os castelhanismos de outrora são hoje nossos, tão nossos que já não deixaríamos que no-los tirassem. Eles tornaram-se, desculpe o palavrão, «patrimoniais». Sim, subiríamos às barricadas para conservarmos o fiambre, e a botija, e a mochila, e a colcha, e o salpicão. E também moreno, e castiço, e zonzo, e até gandulo, até chulo, até velhaco. E assim muitos centos de outros.

Segundo, para assegurar-lhe que não há motivos para sentir-nos, hoje, culpados do que os nossos antepassados andaram fizendo ao idioma. Claro, era mais bonito se tivessem sido mais criativos. Poderiam ter primeiro pensado se não tínhamos já um termo aproveitável. Indo, se necessário, procurar saber como diziam os galegos. Mas os tempos eram outros, as viagens longas, e um estado independente, está a ver, não ia rebaixar-se a… você já entendeu. Não, os nossos avós só tinham ouvidos para as sereias castelhanas.

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Até esse momento

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Pele e lombada

Para o Z, nosso fiel e querido compagnon de route (conhecemos a sua identidade, mas não a daríamos nem a um pelotão de arma em riste), e isso por ser São Valentim, e por ele ter levado para longes ilhas (conta ele) o Spinosa de Deleuze, mais o Fédon de Platão, mais uns belos livros de matemática, e acabar distraído pelas belezas físicas locais – para ele, pois, este poema que sabemos apreciará:

É sempre o mesmo o que persigo:
Um belo moço, um belo livro.
Acaricie pele ou lombada,
Tocarei sempre e só fachada.

Gerrit Komrij, Contrabando, Assírio & Alvim, 2005, tradução do neerlandês de fmv.

[O autor, que vive em Portugal, e é um dos mais conceituados poetas holandeses, além de conhecido ensaísta, colunista e tradutor]

Carta a Marina por causa do galego – 2

Cara Marina,

Falando-lhe do galego, tenho de falar-lhe também, e muito, do castelhano. Não é por acaso. O castelhano, não obstante ser idioma mais jovem que o nosso (e, para ser sincero, um tanto mais abrutalhado também, se comparado com o refinamento do galego e do português), o castelhano, dizia eu, cedo ganhou grande prestígio por cá. De tal modo que encantou, e deslumbrou, a quantos em Portugal escreviam e liam.

Estamos aí por 1450. Inicia-se então – já lho contei – uma vasta castelhanização do português. Nos dois séculos e meio seguintes, os nossos escritores apoderaram-se de milhares, sim, fartos milhares, de palavras que a Meseta tinha formado de raiz, ou aproveitado do grande tesouro que era o latim. Eles liam muito em castelhano, os nossos escritores. Narrativas, poesia, tratados. Usavam dicionários latim-castelhano, que eram, para a época, os melhores no mercado. Mais importante ainda: eles mesmos escreviam em castelhano. Centenas o faziam. Muito das suas narrativas, da sua poesia, dos seus tratados, saía-lhes na língua vizinha. Porque sim. Porque o castelhano era prestigioso, e era rico em novas noções, e era lido na Europa e mais Mundo. Até as grandezas de Portugal eles cantavam em castelhano, como hoje a gente, para divulgá-las, faz, se somos espertos, em inglês.

Ora, quando depois escreviam em português, esses escritores aproveitavam – e faziam eles muito bem – todos esses novos materiais castelhanos, toda essa frescura neolatina, toda essa vigorosa expressividade. O mesmo faziam, entretanto, os dramaturgos. O povo queria teatro, e teatro em castelhano. Conhecemos centenas de peças de autores portugueses, para o público português, escritas em… adivinhe que língua. Compreende-se. As melhores companhias de teatro de Castela faziam constantemente tournées em Portugal. E os nossos não queriam ficar atrás.

Depois, havia a corte. Dos reis. Sobretudo das rainhas. Durante séculos, foi comum termos rainhas espanholas. Uma delas, Catarina de Áustria, aguentou por cá 53 anos. E nunca disse uma palavra, nunca escreveu uma linha, que não fosse em castelhano. Já está a ver.

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Carta a Marina por causa do galego – 1

Cara Marina,

Informa-me você de que é galega, e que até passou uns anos numa faculdade em Santiago. Pede-me, depois, que reproduza um texto de Daniel Castelao («Un ollo de vidro», um dos seus mais conhecidos), e isto «para que toda a gente perceba», diz você, «que galego não é castelhano, e muito menos, português». Eu vou fazer-lhe essa vontade. Mas a sua última afirmação incita-me a alguns esclarecimentos.

Galego não é castelhano? Claro que não. O galego é, até, mais antigo do que o castelhano, porque mais evoluído, e portanto com uma história mais longa. Galego não é português? Claro que não, também. Mas houve um tempo em que galego e português eram, sem espaço para dúvidas, uma só língua. Simplesmente, o português sofreu, entre 1450 e 1700, uma drástica remodelação, feita sobre o figurino castelhano. O galego conservou por mais tempo a feição medieval comum, e só mais recentemente acabou minado pela língua do Estado. Já vê: estas duas profundas castelhanizações, primeiro a do português, depois a do galego, ainda por cima bem diferentes uma da outra, criaram entre galego e português um fosso que muitos consideram já intransponível. Eu não. Mas não nos apressemos.

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Um poema de Vítor Matos e Sá

E porque o nome do poeta veio à baila no Aspirina B, nada melhor que recordar um dos seus poemas, «Para os meus alunos», que integra O Trabalho – antologia poética, e que devia estar em todas as salas de aula deste País (atrevo-me eu, «jcfrancisco», a pensar).

Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Carta que escrevi ao Baptista Bastos tentando imitar o estilo de Vieira

Senhor,
Dá Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque também os tontos falam, pelo que não é à míngua de inteligência que há quem não fale; e falam os néscios, pelo que ao falar não faz falta o entendimento; e falam os brutos, pelo que ainda que aos homens falte a sensibilidade, sendo mudos não o serão por causa disso.
Mas ao dom da palavra se requer inteligência, entendimento e sensibilidade. Inteligência, para saber o que convém ser dito; entendimento, para discernir como se deve dizê-lo; e sensibilidade, para escolher o momento oportuno em que o ouvinte seja disposto a ouvir.
O dom da palavra pode abrir os ouvidos que teimam em estar fechados ou fechar os ouvidos que sempre estão abertos. Porque há aquilo que deve ser ouvido, e há quem não queira ouvir; e há o que não convém que seja ouvido, e abunda quem queira ouvir.
A vós, senhor, deu Deus o dom da palavra. E muito me regozijo porque haveis sido lembrado para lembrar o dia em que minha mãe me pôs no mundo, para nele ficar até quando o Senhor das nossas vidas for servido. Porque desde o dia em que nasci muitas vezes morreram mil vezes mil homens, e eu continuo vivo, não por mérito meu senão pela graça de Deus e pela bondade de corações como o vosso.
Desculpai-me, senhor, se tão mal ditei esta carta que quem ma escreve não a entendeu bem, ou se, ditando-a eu como devia, não fui entendido como convinha.
A rogo do P. António Vieira, S. I., por não poder escrever,

Daniel de Sá

Balada para Victor Jara

(E para o meu amigo Manuel Estrada e todos os que queiram fazê-la sua)

“Que horas seriam do dia?”
– Não era dia, eram trevas.
“Ainda há pouco o ouvia…”
– São as saudades que levas.

“Quantos mortos viste, quantos?”
– Não os vi, não os contei.
“Mas ainda se ouvem cantos?
– São prantos, o que escutei.

“Choram as metralhadoras
Pelos homens que mataram?”
– E pelas mães sofredoras
Cujas lágrimas secaram.

“Enquanto o mundo desperta
Em Santiago anoitece.”
– Noite de medos coberta
Que nunca mais amanhece.

“Quem mata tão cegamente?
– A ordem… o ódio, digo.
“Pela ordem morre gente…
– Pelo ódio, o meu amigo.

“Eu tenho a alma encharcada
Da chuva de Santiago.”
– Essa chuva foi sangrada
Da f’rida que aberta trago.

“Chuva que nunca mais pára!
Victor Jara, vão calá-lo?
– Ninguém mata Victor Jara,
Por mais que queira matá-lo.

doente saudável

Sempre achei que havia um lado delicioso nos estados gripais, não fosse a falta de saúde propriamente dita. A preguiça terapêutica. Ficar na cama indefinidamente, leituras avulsas, falar com quem e quando apetece. Sopas, torradas e líquidos quentes intercalados com nada fazer e sonos curtíssimos. Abluções lentas pelo meio da tarde para a seguir nos enfiarmos num pijama lavado. Pensar no que dá na gana e não no que tem de ser, porque, convenhamos, não se está em condições de apelar à responsabilidade. O tabuleiro com comidinhas ideais trazido à cama é mordomia que só em casa parental, mas sempre compensa não ter perdido o apetite. Falta-me a febre soporífera, restam-me os delírios febris. Tem sido um dia magnífico.

P.S. No futebol cada vez mais os epílogos têm maior interesse do que a acção. Os jogadores são filósofos. Acabei de ouvir um jogador do Marítimo comentar a derrota por dois a um. Com a tranquilidade reflexiva com que Paulo Bento relata factos prosaicos acrescentou, o jogador, que o resultado poderia ter sido diferente. É profundo.
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Chove en Santiago, meu doce amor

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*

Lorca enamorou-se por Santiago de Compostela, ou por alguém de lá, e compôs, num galego a pingar de casticismos (de «enxebrismos», termo local, mas corriam os anos 30), uma série de seis belos poemas. O mais conhecido é «Madrigal á cibdá de Santiago», que inicia com o celebérrimo verso «Chove en Santiago». Meteorologicamente exacto, porque é o que mais faz na capital galega.

Hoje, leio no Expresso um comentário de António Guerreiro a Doze Naus, um livro premiado de Manuel Alegre. Sempre senti alguma coisa por sonorosos vates. Mas não resta súvida: Guerreiro tem, aqui, todas as razões e mais algumas para deixar de rastos o livro, o autor e o júri (nada menos que Graça Moura, Júdice e Pinto do Amaral). Leiam, confiram.

Só destaco um pormenor. Alegre tem, no volume, um poema, «Adeus», onde se diz: «Quando vieram dizer-me que morreste/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.»

E eu pergunto-me quanta gente (os jurados, o crítico do Expresso, os comuns leitores) terá reparado naquela geográfica liberdade poética de pôr a chover, sem mais aviso, em Santiago de Chile. O «arquivo dos significados ‘poéticos’ cristalizados», que António Guerreiro diz enxergar em Manuel Alegre, é efectivamente bem provido.

A falta que fazem os mordomos ingleses

Da crónica, hoje, no Público, de José Pacheco Pereira:

«Peguem numa lupa e vão ver as fotografias dos “palácios reais”, as fotografias dos grandes e médios eventos desses anos finais da monarquia e podem continuar pela República e pelo Estado Novo dentro e vejam o Portugal que lá está ao lado da Família Real nos vasos partidos segurados com arame, nas louças com “gatos”, nos jardins pouco cuidados, nos espelhos com a prata gasta, nas roupas puídas e usadas, nas decorações erguidas de madeira e papelão, no tom de abandono, descuido e pouca limpeza, que nem a hierarquia do upstairs e do downstairs servia para funcionar bem, não porque não houvesse muita criadagem, mas porque faltavam os mordomos ingleses. Esse mundo que tomam por brilhante e cosmopolita era o mesmo Portugal que hoje pretendem esconjurar porque “feio, porco e mau”, o mesmo Portugal – oh sinistro adjectivo! -, “piroso”, de que pensam fugir conhecendo os vinhos de casta, comprando relógios Patek Philipe para entesourar, caçando vestidos de duendes verdes, fazendo subir o preço do Almanaque de Gotha nos leilões, e passeando-se por resorts e spas. Não, não estamos nos nossos melhores dias…»

Este homem está cada vez mais interessante.

O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira

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*

Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá. Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias. Porém não tanto que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face. Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.

Assim inicia As Aves Levantam Contra o vento, o primeiro romance do Jorge Carvalheira, que a Quasi acaba de publicar. É um livro excepcional. O que não pode espantar-nos, sabendo, os que o lemos aqui no Aspirina, quanto desvelo e quanta graça ele põe no que escreve. Quem é exigente a esse ponto é-o sempre também. 

As Aves Levantam Contra o vento é o retrato dum Portugal que foi mas ainda persiste em ser. Porque nós somos como somos – e aí está o nosso grande problema. Fique aqui, para amuse-bouche dum livro magnífico, este retrato de alguém que conhecemos de sobra.

Incapaz de ver os erros do passado, só restava a Portugal passar a vida a repeti-los. Um dia tomou conta do governo um professor de Finanças, bisonho camponês que a igreja modelou num espirito de frade, austero, ardiloso, agudíssimo, implacável. Conhecia como ninguém a alma dos portugueses, era ele a sua mais perfeita imagem. Desdenhava da fatuidade dos salões e desprezava as multidões primárias, era um deserdado que só acreditava em elites. Não apreciava indústrias, por tanto se temer do ruido dos operários a sair do bojo das fábricas, proibiu a coca-cola para que não houvesse exemplos de sociedades eficazes, sonhava-se ministro dum rei absoluto deslocado no tempo, um Pombal despótico e tirano a quem sobrava a manha e faltava o esclarecimento. Governava o país do fundo duma cela, e, milagre supremo, pôs em ordem as finanças, pelo cálculo mais elementar. Domesticado o povo pela inanição e o silêncio, mourejavam três quartos dum pais infantilizado há séculos, para que o restante quarto vivesse à tripa forra. Era esta a lei universal do mundo.

A FANTÁSTICA HISTÓRIA DE RITA GORDA

(Do livro Stories Gandma Never Told, de Sue Fagalde Lick, escritora americana de ascendência açoriana)
– Tradução de Daniel de Sá –

 

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Rita da Silva não era a noiva que Frank Lewis desejara. Quando ele deixou o Faial a caminho dos Estados Unidos, prometeu a sua irmã Carolina que a chamaria logo que tivesse dinheiro suficiente. Os anos passaram sem uma palavra de Frank. Cansada de esperar, Carolina emigrou por sua conta e risco e casou-se com outro.
Inesperadamente, Frank mandou cinquenta dólares para pagar a viagem da noiva para os Estados Unidos. A resposta foi a de que ela estava casada. A única que restava era a irmã chamada “Rita Gorda”. Com 1,77m de altura e 90 kg de peso, essa última irmã solteira não era bonita, mas, como Frank tinha enviado já o dinheiro, concordou em que ela deveria ir.
A viagem foi um horror. No barco, Rita esteve sempre enjoada e custou-lhe muito arranjar um lugar reservado que servisse de quarto de banho. A família prevenira-a para não comer a comida de bordo porque o barco era muito sujo, e assim ela alimentou-se de pedacinhos de pão e queijo que levara de casa. Só falava Português, e não teve ninguém com quem conversar durante a longa jornada. A sua única companhia era um livrinho de orações.
Desembarcou em Boston, mas tinha ainda um longo caminho a percorrer. A etiqueta da mala pequenina que era toda a sua bagagem dizia Frisco, USA. Agora ia dirigir-se para Ventura, Califórnia, centenas de milhas a sul, mas era sempre o mesmo caminho para os viajantes de Leste. A única coisa que conduzia Rita pelo país fora era o bilhete pregado no casaco, que explicava quem ela era e para onde ia. Quando alguém lhe perguntava, apenas o mostrava. Teve medo também de comer no comboio. Apesar de os revisores terem sido simpáticos quando lhe ofereciam das suas sanduíches, ela pensou que estavam a tentar envenená-la. “Não comas nada, se não souberes o que é”, havia sido prevenida muitas vezes. Sacudia a cabeça e dizia: “No, no, no.” Os desconcertados revisores insistiam: “É bom. Come.” Mas Rita continuava a negar.
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A minha historinha de merda.

Era uma vez eu, e uma relação de 10 anos. Um dia acordei e tinha uma DST. Eu pensava que as DSTs eram fáceis de se saber que se tinha, pensava que se ficava roxo, ou com borbulhas, ou que caiam bocados. Pensava eu, que tendo uma relação monogâmica, e não tendo nunca tido, nem visto, nada roxo, com borbulhas ou a cair, estaria segura, e nunca teria DSTs. Fiquei pois, bastante surpreendida quando a médica me disse que tinha uma DST. Ao que parece há DSTs silenciosas. Então, pensei eu, e dado que era eu na tal relação de 10 anos que era assim mais a atirar ao promíscuo, devia ter apanhado a dita DST com o exnamoradeco anterior. Claro que antes falei com a outra metade desta minha relação de 10 anos. Contei-lhe que tinha uma DST e disse que se me queria contar alguma coisinha agora seria uma boa altura. Ele disse que não, e eu acreditei.
E toca de telefonar ao exnamoradeco, que até me dou bem com ele, nem tanto para averiguações, mais para o avisar para se tratar, coitadinho, que a tal da doença diz que pode causar entupimentos das partes que fazem filhos. E o exnamoradeco, graças a deus que me dou bem com ele, lá disse que eu devia estar enganada, que ele por acaso até tinha as análises em dia e estava limpinho.
Então voltei a falar com a outra metade da presente relação, e ele lá confessou, com uma historinha feita de encomenda para eu não me importar. E eu, que até sou uma pessoa coerente, não me importei. E continuei a relação de 10 anos por mais uns meses. Outro dias estava ele a mostrar-me umas coisas no computador, e apareceu na busca automática do Google o nome da corrente gaja que andava a comer (mesmo depois de saber que quando um gajo come gajas pode estar a transmitir DSTs). E eu pu-lo na rua, recuperei todas as chaves, alterei todas as passwords, e deitei fora toda a merda que durante 10 anos achei que durante todo o meu futuro seriam boas recordações do nosso passado.

Do analfabetismo à fúria das viúvas

José Mário Silva assinou no passado dia 2-2-2008 no Diário de Notícias um trabalho jornalístico no qual divulga o «caso» do poeta Amadeu Baptista. Autor de vasta obra poética cuja publicação se iniciou em 1982 (com As passagens secretas), este poeta tem mais de vinte livros publicados e uma antologia intitulada Antecedentes criminais.

Desempregado desde Setembro de 2007, o poeta saiu do Bairro Alto e vive em Viseu onde não paga renda de casa. Ganhou vários prémios literários nos últimos meses num total de 12.500 euros. Este dinheiro evitou-lhe entrar no centro da miséria, está apenas na sua periferia, no seu limiar. Mas também no limiar do vazio e da depressão: «Escrever poupa-me à depressão e à angústia de não ter trabalho» – diz o poeta a José Mário Silva.

Outro dia, soube na Casa Fernando Pessoa que a viúva do poeta Ulisses Duarte convidou os amigos da Tertúlia Rio da Prata para irem lá a casa, munidos de sacos de plástico. Queria ver-se livre de todos os livros, queria a casa limpa. A viúva do poeta Vítor Marques e Sá (falecido em 1975) nem me respondeu quando lhe escrevi em 1982 para pedir uma fotografia para ilustrar um artigo sobre a sua obra. A minha carta, como muitas outras, terá ido para o lixo. Anos depois, a viúva de Nuno Guimarães não atava nem desatava sobre a gaveta de inéditos do poeta morto em 1973. Com a simpática colaboração do actual (ao tempo, 1993) marido da senhora, lá foi possível a Câmara de Gaia levar para a frente uma edição comemorativa de poeta que morreu jovem.

Como se não bastasse o nosso analfabetismo ainda temos que levar com a fúria das viúvas. É muita areia para a camioneta dos poetas.