Chove en Santiago, meu doce amor

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Lorca enamorou-se por Santiago de Compostela, ou por alguém de lá, e compôs, num galego a pingar de casticismos (de «enxebrismos», termo local, mas corriam os anos 30), uma série de seis belos poemas. O mais conhecido é «Madrigal á cibdá de Santiago», que inicia com o celebérrimo verso «Chove en Santiago». Meteorologicamente exacto, porque é o que mais faz na capital galega.

Hoje, leio no Expresso um comentário de António Guerreiro a Doze Naus, um livro premiado de Manuel Alegre. Sempre senti alguma coisa por sonorosos vates. Mas não resta súvida: Guerreiro tem, aqui, todas as razões e mais algumas para deixar de rastos o livro, o autor e o júri (nada menos que Graça Moura, Júdice e Pinto do Amaral). Leiam, confiram.

Só destaco um pormenor. Alegre tem, no volume, um poema, «Adeus», onde se diz: «Quando vieram dizer-me que morreste/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.»

E eu pergunto-me quanta gente (os jurados, o crítico do Expresso, os comuns leitores) terá reparado naquela geográfica liberdade poética de pôr a chover, sem mais aviso, em Santiago de Chile. O «arquivo dos significados ‘poéticos’ cristalizados», que António Guerreiro diz enxergar em Manuel Alegre, é efectivamente bem provido.

33 thoughts on “Chove en Santiago, meu doce amor”

  1. “Chove em Santiago” será um poema do Lorca, mas tb é um filme de Helvio Soto, de 1975, sobre os últimos dias do governo de Allende.

  2. Tá bem, Nik. Isso chama-se, no melhor caso, intertextualidade e, no pior, abuso.

    No poema de Alegre, pedia-se pelo menos un clin d’oeil para o leitor exigente. Pelo menos, insisto. É que – repara bem – não posso imaginar que Alegre desconheça o poema de Lorca.

  3. Estou com o Nik. A referência a Allende diz tudo, o truque do clin d’oeil é desculpa esfarrapada do leitor distraído e postador precipitado.

  4. Zeca e Nik,

    Entre 1935, data dos poemas galegos de Lorca (imediatamente celebrizados, hélas…, já que ele é assassinado no ano seguinte), e 1975, o filme de Soto, distam quarenta longos anos.

    Para mais: em contexto poético, a memória da intervenção de Lorca é infinitamente mais óbvia.

    E donde vem o (belíssimo) título do filme, não me dirão?

  5. “Chove em Santiago” foi a palavra-chave transmitida por uma radio comercial que deu início às movimentações das tropas sublevadas que derrubaram Allende.

  6. Velhinho, quase acertas.

    O código transmitido pela rádio chilena foi «Llueve sobre Santiago». Isso faz parte duma memória política.

    A memória poética guardou «Chove en Santiago» (pronuncie-se tchóbe, como ainda no Alto-Minho), frase galega dum poeta andaluz.

    Alegre opera uma fusão das duas memórias. Mas, no poema, só a política é explicitada.

  7. Nik,

    Sem abandonar a minha perspectiva, antes circunscrevendo-a melhor, tomai a sério a tua, ou vossa.

    Eu chamaria a isto humildade intelectual. Outros, menos diplomáticos, chamá-lo-ão inteligência. Deixo-te escolher.

  8. Safa, o home tá brabo! E eu aqui a defender o alegre vate, que detesto!

    O ponto é só este: o verso faz sentido, não é por aí que o livro é mau. O gajo não podia lá pôr o Lorca só para te agradar. E achas que os generais chilenos leram o Lorca?

  9. E que opinam do que está a “chover” no reino bourbónico, que dizem “espaÑa”? Ficará algum basco não ilegalizado pelos juízes e governo e partido único (pEpEsoE) assentes em Madrid? Têm sorte as repúblicas e algumas monarquias…

  10. Nik,
    Tantas questões. Sejamos telegramáticos: 1. Sim, o verso, mesmo assim, faz sentido. O sentido que ele mesmo cria. 2. Não, o gajo não podia pôr lá o Lorca só para me agradar. 3. Não, os generais chilenos morreram sem saber quem era o Lorca.

    Estás feliz? Rastejei o suficiente?

    AGIL,
    Quanto daqui vemos, há um grande partido de direita que até manda em Euskádi. Não sabemos que tenha sido metido na prisão. Ainda sobram, portanto, bastantes bascos.

    Quanto daqui percebemos, há um partido de centro-esquerda no governo em Madrid, e um partido centro-fascista que o quer tirar de lá.

    Repúblicas? Monarquias? Meio Portugal anseia por uma política à espanhola. Eu – não os secundando – compreendo-os. O outro meio Portugal também.

    Leia, sobre os serviços de saúde num país e no outro, aqui. Sobretudo isto:

    «Em Trás-os-Montes e Alto Douro é como se sabe. Posso fazer um desenho um dia destes, mas por hoje passo. Vamos à Província de Ourense, à Galiza interior. Vamos?
    «Bom. A Província de Ourense tem 92 concelhos. Vão de Avion a A Peroxa, Monterrá a Maside, Verin a O Barco de Valdeoros, de Ourense a Castrelo de Miño. São 92 concelhos. O curioso é que tirando Ourense (110.000 habitantes), o resto são pequenos povos. Tirando Verín (13.500), Barco de Valdeorras (13.300), O Carballiño (12.800) e, vá lá, Xinzo de Limia (10.000), o resto tem entre 600 e 4000 almas viventes. A Teixeira tem, mesmo, só 569 pessoas, sendo de referir que os concelhos de O Bolo e de A Bola, juntos, perfazem 2900 seres humanos. É assim, não vale a pena inventar.
    «Ora bem. Então e nestes 92 concelhos quantos Centros de Saúde há? Há 110. Porquê? Porque sim. Porque há 14 concelhos que têm mais que um. Ourense tem 5. E Castrelo de Miño, por exemplo, tem 3. Palavra de honra: tem 3, e tem 2095 habitantes. Deve ser, talvez, terra de pouca gente e muito ancha, não?
    «Desses Centros de Saúde, 15 têm Serviços de Urgências permanentes. Falo de Ourense, de Verín, mas também de Viana de Bolo, Xinzo de Limia, O Carballiño, O Barco de Valdeorras, Bande, Ribadavia, são 15. Ribadavia tem 5500 habitantes, por exemplo.
    «Os Centros de Saúde que não têm urgência “drenam” (detesto esta palavra, mas, como disse, não me pagam para escrever – quanto mais para escrever bem), num critério que não é outro senão o da proximidade, para o Centro de Saúde – com urgência – mais próximo.
    «Os Centros de Saúde com Urgência permanente têm, em mais de 60% dos casos, além de clínicos gerais (habilitados a fazer suporte básico de vida, que é fundamental pelos motivos que se prendem com aquela parte de o coração bater e de a gente respirar), pediatras, e enfermeiras de Obstretrícia. Em 25% deles há dentistas – cá, nem nos hospitais. Há Fisioterapia, em cerca de 10% dos Centros.
    «Nesses 110 Centros de Saúde trabalham, ao todo, salvo óbitos recentes ou intervenções externas de Correia de Campos, 275 médicos generalistas, 45 pediatras, 15 dentistas, um porradão de enfermeiras e enfermeiros, variadíssimos técnicos, assistentes sociais. Muitos desses Centros têm possibilidade de fazer análises clínicas e radiografias.»

    Sou militantemente anti-iberista. Mas, perante estes factos, a forma de Estado é questão bizantina. E até um bourbonzinho nacional podia oferecer solução.

  11. Meu Caro Fernando
    Vou ver se consigo acertar a pôr aqui um poemeto que fiz há uns meses, por altura do aniversário da morte de Victor Jara. Espero que não me condenes os versos terem como referência o filme de Helvio Soto e não o poema do meu dilecto Federico…

  12. fmv,

    Era mais fácil dizer simplesmente: ok, não conhecia essas merdas de santiago do chile, do allende e dos comunistas e assim. Fiz uma triste figura, típica de alegre, vasco graça moura e tal. Peço desculpa. Da próxima vez que revelar a minha ignorância vou reconhecê-lo, sem mais.

  13. Ah, JCR, eu não vou confessar uma ignorância que não tinha. Não sou masoquista a esse pronto.

    A coisa é outra: existe um poema (de Alegre) que dribla uma óbvia referência poética (de Lorca).

    Mas há um lado da questão nada despiciendo: o de saber se existe, ou não, uma dependência do uso chileno relativamente ao (desculpe o academismo) arquétipo lorquiano. E eu suspeito que realmente existe. Se assim for, mais sentido tem a minha perplexidade.

  14. Fernando esta tua última observação é de ter em conta. Eu não duvido de que “Llueve sobre Santiago”, de Soto, remete para o poema de Lorca. Parece óbvio. E lançaste-me dúvidas a respeito da hipótese de o Manuel Alegre ter feito confusão.

  15. Acho que em Portugal se idealiza bastante a situação espanhola, mormente, a da “Comunidad Autónoma de Galicia”, que é uma Galiza reduzida, no referente à saúde e à educação.
    Mas o tema não era esse que eu salientava no meu “chove no reino de espanha”.
    Sim, em Euskádi governa un tripartido: o PNV, direita, EA, cissão do PNV, e EB, “Izquierda Unida” do País Basco. Já quereria que o partido do asnar e o rajoy fosse como o PNV…
    Por outro lado, Atutxa, do PNV, acaba de ser condenado pelo tribunal supremos espanhol a 18 meses de inabilitação para cargos públicos e 3000 euros.
    Atutxa está a ponto de ser julgado e acaso seja condenado por “conversar” com gente que foi de Batasuna, partido que foi ilegalizado e portanto não existe, enquanto os que foram seus dirigentes são cidadãos no pleno uso dos seus direitos, enquanto não forem condenados depois de juízo.
    É certo que quase todos os dirigentes de Batasuna estão hoje no cárcere, mas em prisão preventiva, sem sentença nem definitiva nem, menos ainda, recorrível.
    Para cúmulo o Tribunal dos Direitos Humanos de Estrasburgo acaba de admitir a trâmite o recurso de Batasuna contra a sua ilegalização no reino de espanha. E, apesar de tudo, o reino acaba de ilegalizar de facto (não de iure: demorará a cousa como uns sete meses ou mais) dous partidos independentistas bascos. Ums deles apresentava-se às eleições do 9 de Março.
    É isto democracia? Não tenho razão em dizer que nos chove o que nos chove neste reino bourbónico ou simplesmente bubónico? Não, não nos chove, simplesmente nos “llueve”…

  16. Dsculpe: Queria dizer Ibarretxe, o chefe do governo basco de Esukádi, está processado, e será julgado depois do 9 de Março, por conversar com ex-dirigentes da ex-Batasuna.

  17. Il pleut sur Santiago, título original do filme de Helvio Soto, Chove sobre Santiago (e não Llueve sobre Santiago), foi uma co-produção franco-búlgara, sendo um filme francês rodado na Bulgária, falado em francês, com alguns diálogos em castelhano.

    Caro FMV, aqui vai a verídica história do Chove em Santiago (do Chile).
    “It’s raining on Santiago and Easter Island,” the early morning radio proclaimed on September 11, 1973, a perfectly clear day. Over and over this mysterious announcement repeated between peaceful, upbeat music. Although it never rained in Chile on that day, a political storm enveloped the nation as the fascist forces of Augusto Pinochet executed a coup d’etat against the democratically elected socialist government of Salvador Allende. This movie is an attempt to tell the story of that coup.

    Esquece o Llorca. Ou não ficarás ainda convencido?

  18. Entendes agora porque escreveu o vate que não chovia em Santiago?
    Nem em Santiago nem na Ilha de Páscoa, mas isso já nem o Lorca tinha previsto.

  19. Nik, acho que não vale a pena insistir. Há teimosos assim. Na minha terra chamam-lhes telhudos.

    O poema de Lorca, que não tem nada a ver com o de Alegre, é assim:

    MADRIGAL Â CIBDÁ DE SANTIAGO

    Chove en Santiago
    meu doce amor.
    Camelia branca do ar
    brila entebrecida ô sol.

    Chove en Santiago
    na noite escura.
    Herbas de prata e de sono
    cobren a valeira lúa.

    Olla a choiva pol-a rúa,
    laio de pedra e cristal.
    Olla no vento esvaído
    soma e cinza do teu mar.

    Soma e cinza do teu mar
    Santiago, lonxe do sol.
    Ágoa da mañán anterga
    trema no meu corazón.

    Federico García Lorca, em “Seis poemas gallegos”

  20. Nik, dou uma ajudinha à compreensão:

    «valeira» (ou «baleira») = vazia
    «laio» = lamento
    «soma» = sombra
    «anterga» = antiga, de outrora

    Para tua informação: acompanhei hora a hora (com a inquietação que podes imaginar) a queda de Allende. O nome da ‘operação’ já então era conhecido. Nem a visita do meu pai, nem a desalmada vaga de calor que por esses dias reinava aqui no Norte da Europa, mo impediram.

  21. Nik, Zeca Diabo:

    Com algumas pessoas é melhor não empregar muitos esforços.

    Língua Rápida não reconhecerá que a sua interpretação é mais uma.

    Quem não sabe aprender dos outros, pouco pode ensinar.

  22. Bem, não fique zangado, mas eu, galega, que até passou uns anos numa faculdade em Santiago, onde, é verdade, chove como o caraças, percebi que o Manel falava do Chile e não da minha terra. Ponha em post “Un ollo de vidro” do Castelao, para que toda a gente perceba que galego não é castelhano, e muito menos, português.

    Fico lixada com essa cena do integracionismo. Penso que só pessoas que sabem escrever e falar castelhano e português correctamente estamos avalizadas para falar do assunto. Com essa coisa do integracionismo, já não precisava de dicionário sempre que leio o Rivas, ou o Suso de Toro. O galego de Castelao, do Rivas, da Rosalia, é lindo, esquisito [= refinado, fmv], rural, e não quero que seja portunhol.

  23. Marina,

    Você escreve um português catita. E o seu comentário pede nada menos que um post.

    Está na forja uma «Resposta a Marina por causa do galego».

  24. Dar o braço a torcer é que nem pensar.
    Acho que o compreendo: deve ser humilhante ter um ego do tamanho do Mosteiro dos Jerónimos e ter que assistir ao sucesso de vendas de um Miguel Sousa Tavares e a décadas de reconhecimento de um tal poeta Manuel Alegre.
    Ó Portugal! Acorda para o génio de fmv ou isto ainda acaba mal!
    O 5º pecado mortal é lixado!

  25. Marina, Fernando e quem mais esteja interessado
    Para ajudar à discussão acerca de o Galego ser ou não ser Português, ou o contrário, ou se estas duas línguas estão mais próximas ou mais longe do Castelhano como o estão uma para a outra, deixo aqui a primeira estrofe de um poema de Manuel María, com a tradução à letra que fiz para o Castelhano. Desculpai-me se falhei algum pormenor.

    Balada ós poetas galegos

    É fermoso utilizar esta lingoa nosa
    que se funde e confunde co noso
    propio sangue, usar esta ferramenta
    luída polos beizos dos devanceiros,
    palabras vivas que espresaron
    – i espresan – medos, ledicias,
    amores, dóres, loitas i arrepíos.
    Falar sin pensar é tirar sin apuntar.
    É fermoso traballar esta música,
    estes soídos que teñen un rumor
    de bosco e labradío, un zoar
    de trebós e rimos de onda irada
    e mariñeira; arca que pecha toda
    a sabiduría popular, vencello
    que nos xungue e defiñe como povo.
    Falar sin pensar é tirar sin apuntar.

    Balada a los poetas gallegos

    Es hermoso utilizar esta lengua nuestra
    que se funde y confunde con nuestra
    propia sangre, usar esta herramienta
    gastada por los labios de los antepasados,
    palabras vivas que expresaron
    – y expresan – miedos, alegrías,
    amores, dolores, luchas y calofríos.
    Hablar sin pensar es tirar sin apuntar.
    Es hermoso trabajar esta música,
    estos sonidos que tienen un rumor
    de bosque y labradío, un sonar fuerte
    de truenos y ritmos de ola airada
    y marinera; arca que encierra toda
    la sabiduría popular, vínculo
    que nos une y define como pueblo.
    Hablar sin pensar es tirar sin apuntar.

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