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O regicídio visto por Pascoaes

Descobri hoje no Alfarrabista Bocage na Calçada do Combro a cópia de uma carta de Pascoaes a Unamuno de 2-10-1908. Depois de saudar o «querido amigo», Pascoaes afirma:

«A tragédia de Lisboa foi o desenlace duma luta travada entre o gato e o rato. E, coisa curiosa, o rato matou o gato! João Franco subiu ao poder para eliminar abusos, roubos, sinecuras. O advento do Franquismo representou um tardio arrependimento do Rei Carlos. Calcule a guerra feroz que lhe moveram os partidos (progressista e regenerador) que se viram despojados do Tesouro Público! Guerra de difamação contra o Rei e de ódio contra o Franco. Este viu-se obrigado a recorrer a meios violentos e pouco simpáticos nos tempos de hoje para resistir à onda que o tentava derrubar. Estas medidas violentas exasperaram dois pobres e ingénuos sonhadores (Costa e Buíça) que, num ímpeto que eles julgaram libertador, deitaram a terra D. Carlos e o Príncipe Luís, um adorável rapaz de 20 anos! Resultado: o Franco foi para o estrangeiro por onde anda errante como um fantasma; o Buíça foi para a sepultura, fulminado como um Titã que quis roubar o fogo do céu! No dia 1 de Fevereiro de 1908 havia dois homens em Portugal, João Franco e Buíça; inimigos irredutíveis que se destruíram um ao outro, em vez de salvarem a sua Pátria! Neste momento Portugal é um mistério. É impossível a gente calcular o que virá a ser dele! É uma Pátria que a noite envolve, entregue aos morcegos e às aves agoireiras. Aqui, não se vê um palmo adiante do nariz; é tudo confusão e sombra. Um abraço do seu grande admirador e amigo certo – Teixeira de Pascoaes.»

Um documento curioso, descoberto e lido cem anos depois, num alfarrabista da Calçada do Combro.

Sem emoções para os espanhóis, inovações turísticas e loucuras relativas: ó, penso tanto em ti, Vanessa Amaro

Os Elbow são daquelas bandas que, como os Doves, vivem numa terra de nenhures: são demasiado comerciais para merecerem o reconhecimento do universo indie e excessivamente adultos para singrarem no mainstream. Apesar de os sucessivos fracassos comerciais somados com a indiferença da crítica já terem dado cabo de muitas bandas, os Elbow têm prosseguido uma carreira brilhante que terá em Março um novo capítulo intitulado The Seldom Seen Kid. Até lá, há o belo vídeo que Dan Sully realizou para o tema «Grounds For Divorce». Simples, belo, eficaz. Numa palavra: Elbow.

Igualmente digno de nota, se bem que ligeiramente mais sofisticado, é o último vídeo dos The National realizado por Scott Cudmore para um dos grandes temas de 2007: «Fake Empire». Já passei horas a ver e a ouvir esta maravilha em loop e vêm-me sempre à memória (vejam lá o estado de loucura a que um gajo pode atingir) filmes de Wenders, John Cassavetes e PT Anderson. Podem vê-lo aqui (Quick Time).

História de um beijo

Naquele tempo não era nada disso que se vâ agora, que isso é tudo um putchedo, o que elas querem é gandaiar, elas é qu’andam atrás dos rapazes, qu’um home inté fica menente com tanta franquidão das raparigas, e as mães c’ma cegas, não vêem ou fingem que não vêem, não falta agora quem viva ameigado, que intigamente um caso desses era ralíssimo, e era uma escandaleira medonha, mas são coisas dos tempos, dizim, mas os tempos não mandam na gente, e isso que cada ovelha paga p’lo seu pé, e não tenho nada que me meter na vida dos outros.
A gente não podia nim sequer tocar na nouva, o senhor padre dezia que antes de receber as ordes não podia dezer missa, assim que nim sequer na véspra do casamento um home podia fazer cousas co’a nouva, era assim mesmo. E só dei um beijo de verdades na minha depois de me casar, mas eu vou-le contar o que aconteceu.
Minha sogra e meu sogro, mais ela qu’a ele, que era uma subica, tinha o rei na barriga, e inté a avó dela, uma pinarreta toda espevitada, tava sempre d’olhos arregalados não le fosse eu comer um bocado da neta. A gente começou a namorar de longe, quando calhava, por ameces, se ela aparcia à jinela, eu fazia uns ferrumecos, a gente ia-se entendendo, mas tanto ateimei que lá quando Deus quis e foi servido deram autorizo do namoro, mas sempre com muntch’ó vigiar, a gente não se podia chegar um ao outro, e mesmo à jinela, se calhava um instintinho sem ninguém tar a ver, ela não me deixava tocar nim c’um dedo, que mamã tá aí, que vavó pode ver, um fogue que las abrase, qu’ambas e duas não faziam outra cousa senão vigiar a rapariga.
Inté um dia, namorando na cozinha, a gente se qu’ria dezer alguma cousa más cá prà gente era por intomas, pra elas não entenderem – a raia da velha não tava, havera de tar falazando c’o as vizinhas –, minha sogra sempre d’olho bem aberto enquanto ia fazendo a ceia, vai botar uma acha no lar, e sempre c’os olhos inviezados, não viu o que tava fazendo tocou co’a mão num tição, deu um berro c‘ma uma alma quando pela o cu no inferrne a primeira vez, foi muncth’ó rebim fecthe.
Segue-se qu’um dia, despous do trabalho, ciei, lavei os pés, calcei as galochas e fui passar por casa dela. Não era dia de namoro, mas era só aquela inlusão de ver se la via, que é qu’o senhor quer, era assim mesmo, cousas da novura. Era já à boquinha da noute, e veje-la na jinela. A casa dela era mesmo incostada à travesa, assim que fou mal desemboquei dei com aquela querida à mão de samiar. Vou devagarinho, ela tava olhando pra baxo, chegue-le ao pé, e presanto-lhe um bejo na cara, de fugidela, que nim sequer deu pra tomar gosto ninum, tá-se mesmo a ver. Mas nisto a corina deu um grito medonho. Ó meu rico senhor, era a raia da minha cunhada, que tava à espera de ver passar o nouvo, a mardita. Eu dei uma corremaça por aquela rua abaxo qu’inté me caiu uma galocha do pé.
Pous intances fou assim mesmo, é verdade, qu’o único bejo qu’eu dei na minha mulher antes de casar não fou nela, fou na irmã!

Antes de mais nada, um desabafo:

Sou agora o mais Perfeito e Acabado Corno. Traída não uma, não duas, não dez, não vinte, mas uma carrada de vezes. Sinto raiva, confesso.

Não delas…
Quero lá saber de que cor tinham a pele, de que comprimento os cabelos ou de que massas feitas as tetas. Quero lá saber o que gritavam e onde punham a boca. Quero lá saber o que pensavam, os problemas que têm e as doenças que vão ter.
Mas dele… desse pedaço de bronco… Tenho raiva, tenho. Dedico-lhe um insulto a cada parágrafo de pensamento, e desejo-lhe mortes, dores e que sinta por si mesmo o nojo que eu sinto por ele.

Suponho que o homem que agora sei que ele é, me roubou o homem que eu pensava que tinha. E o homem que agora sei que ele é, é a minha Outra.

Isabel no Aspirina B

Eles queriam gajas, mais gajas, para acabar com a ribaldaria que aqui reinava. Desde que soube que esta palavra, ribaldaria, se escreve com «i», estava mortinha por usá-la. Sorte a minha, tive logo a oportunidade de o fazer duas vezes. Convenhamos que ribaldaria, com fonema agudo, fica uma ribaldaria muito mais feminina e composta.
É tempo de remodelações e este blog não anda em desgoverno. Sendo eu uma enviada do Engenheiro José para a promoção da equidade e boicote à misoginia, venho anunciar uma das novas contratações que tornarão este espaço ainda maior.
Foi difícil convencê-la, pois trata-se da Isabel (R., na Soca), que é muito, muito boa e tem mais que fazer do que gastar-se em blogs. Mas ela, finalmente, concedeu-nos essa graça. Isabel, desculpa este texto manhoso de apresentação, mas a verdadeira, e boa, deixo-a para ti. Aliás, és tão boa, que és também pontual e até te antecipaste ao meu texto de apresentação. Haja por aqui alguém a representar condignamente as virtudes femininas.

Futebol de quarta-feira

Tenho na mão um livro brasileiro dum português. Não acontece muitas vezes. Este chama-se Mansões abandonadas e é uma antologia da poesia do José do Carmo Francisco. Tem organização de Floriano Martins, ilustrações de Sérgio Lucena e introdução de Nicolau Saião. Edita-o a Escrituras, de São Paulo.

A recolha inclui algumas das melhores produções do poeta. Mas não esta, de Jogos Olímpicos, livrinho de 1988. Que aqui transcrevo. Por gosto estritamente pessoal.

*

Futebol de quarta-feira

Para quem janta a correr e sai de casa mais cedo
para perder tempo na bicha do «36» no Rossio
não custa suportar nem o vento nem o frio
nem a dúvida do resultado que se transforma em medo.

O autocarro saiu completo e já vai na Avenida.
Daqui de cima vejo melhor a cara de quem espera.
E vejo melhor o condutor quando ele acelera
como se também fosse sua esta nossa corrida.

O resultado que vai sair em todos os jornais
nunca pode testemunhar o jogo, a sua história.
Daqui por alguns anos ficarão apenas na memória
os números, sem golos a menos nem golos a mais.

Agora sonho com os comentários de amanhã.
E sei que me vai custar mais a levantar.
Dói-me a garganta depois de tanto gritar
e para a próxima compro um cachecol de lã.

site involuntário

Há dias o Valupi assinalou a afluência assídua a alguns posts do Aspirina que vão ficando lá para baixo. Num deles, abrir o livro, vão gotejando comentários, a uma cadência regular, de pessoas ligadas ao meio do hoquei em patins. A natureza especializada e a extensão dos mesmos indiciam uma presença cada vez mais estável de adeptos da modalidade nesta caixa. Uma ocupação espontânea e bem-vinda, num espaço obscuro, relativamente anónimo, mas onde parecem sentir-se em casa. Que todas as moradas desportivas fossem como esta, fácil, barata e ao agrado de todos.

ilusos lusos

Um dos melhores blogues portugueses (por mais bem feitos, mais úteis) é este, de nome atormentado: Letratura, de Helder Guegués. (O patronímico é inabitual, mas o possuidor é portuguesíssimo). Nesse blogue se examina e comenta o nosso idioma com erudição, com gosto, com leveza.

Um dos últimos temas é a súbita florescência em jornais do vocábulo lusos a designar os portugueses.

Devo dizer que já o tinha advertido num programa de televisão. E suponho – com um faro que cada vez menos se engana – ser o uso provindo de média espanhóis, onde, para variar com «los portugueses», frequentemente se nos chama «los lusos».

Se isto tiver vindo «desde España», temo que venha para ficar. Mas, para a nossa já deprimida auto-imagem, é arrepiante que passemos a designar-nos – mesmo só para variar – com um nome que o grande vizinho nos arranjou. Teremos de aceitar que se nos trate por «los lusos». Mas é pataratice copiá-lo, e dizer também «os lusos» de nós próprios.

Terei de dizer, uma e outra vez, que admiro profundamente a Espanha? E terei de dizer, outra e outra vez, que isso casa bem com uma infinita desconfiança da sua percepção a nosso respeito? E com uma viva repulsa por este tipo de sugestões?

Minha nega Fulô

Minha Nega Fulô

Não bata não, sinhá,
Não bata não.
Nunca ninguém pegou minha mão
Por gostar,
Nunca ninguém, sinhá.
Papai morreu no negreiro.
Eu viajei segura dentro de mamãe,
Que morreu dez vezes na viagem
E a última na senzala quando nasci.
Nunca ninguém catou meu cafuné.
O sinhô abriu caminhos no meu corpo,
E nem pediu com licença nem por favor.
E eu não mando no sinhô,
Nem mando em mim, sinhá.
Bichinho da terra não tem dono,
Nem ave do céu, sinhá.
Mas se o sinhô gostou meu coração mirim,
Ficou seu dono, sinhá.
Me deixa, dona, me deixa chorar.
Não precisa bater, a dor que eu tenho dá.

passagens

O que o temperamento arisco da adolescência faz em nós. Chega a casa, abre os braços e fecha-os à volta dos meus ombros, sem apertar. Fica assim alguns segundos, aconchegado. Filho, aconteceu alguma coisa? Nada, mãe, vinha só com vontade de te abraçar. Dá-me um beijo, escolhe um livro e deita-se no quarto, a ler. Precisamente, e pelo contrário, está muito bem.

Dissertação breve sobre o olhar de Marisa

Há no olhar de Marisa a memória dum tempo entre pedra e água. Nesse tempo tudo o que era essencial à vida (água, pão, azeite, vinho) era arrancado às pedras. Os homens tiravam as pedras da terra para a amanharem e com essas pedras construíam os muros, os redis para o gado, os abrigos dos pastores, as eiras, as cisternas, as pias e os poços rotos. Sem esquecer as presas, muros de contenção de terras onde se plantavam as oliveiras. Depois da pedra, a água. No olhar actual de Marisa passam de novo carros de bois com tonéis cheios de água. Um molho de vides, colocado em cima, evita o desperdício da água nos solavancos do caminho. A água era o bem mais precioso no tempo que o olhar de Marisa recorda. A porta da casa deixava-se sempre no trinco mas a portinhola da cisterna estava sempre fechada a cadeado. Uma enguia no fundo ajudava a matar todos os vermes. E a água sabia sempre bem. Ao lado do escritório de Marisa na cidade existe um restaurante. Nada nesse pão de forno eléctrico recorda à menina-mulher o sabor das «brindeiras» de sábado à tarde no forno da avó. O trigo e o milho eram tratados pelos homens a malhal em lenga-lengas ritmadas na «eira de poço», numa dupla inscrição de tarefas. Depois da ceifa e das descamisadas, completada a ocupação principal, surgem as primeiras chuvas de Setembro e a água, essa primeira água, não vai ainda para a cisterna. Só a segunda água entrará no reservatório. No centro comercial um pianista repete músicas de hotel, mas Marisa ouve na verdade uma canção antiga: «Fui lavar ao Rio Lima/Cheguei lá sem o sabão/Lavei a roupa com rosas/Ficou-me o cheiro na mão». O olhar de Marisa resiste ao desgaste da cidade porque tem dentro de si a memória e a força da pedra e da água.

óPtimo, não é?

Se vamos passar a escrever só (mas também sempre) os «c» e os «p» que pronunciarmos, há uma forma muito simples de conservá-los:

é passarmos a pronunciá-los sempre.

Até hoje, nunca pronunciei «espeCtadores», ou «caraCterística», como ouço tanta gente fazer. Pareceu-me parvoíce. Ah, como eu estava enganado!

O livro que queimava nas mãos

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Clique na imagem.

Andei com ele cinco, seis horas. Não na mão, não no bolso, mas entalado entre as calças e peça mais íntima. Sabia que ele era valioso, muito valioso. Para falar mais claro: era caríssimo.

Eu já o lera. E até sabia dele coisas de cor, como «O mostrengo que está no fim do mar», e «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», e «Ó mar salgado, quanto do teu sal…», e «Cadáver adiado que procria», e «Tudo vale a pena / Se a alma não é…», e nem me atrevo a rimar. É a colecção dos nossos lugares-comuns, quando as palavras nos faltam ou nos vemos mais preguiçosos.

Mas o livro era caríssimo, caríssimo. Quanto? Tratei de sabê-lo. Não porque quisesse aliená-lo (ele nem era meu), mas porque queria dizer, a quem o entregasse, quanto a oferta de outro valia. Eu era só o transporte. Entre um amigo falecido e um amigo vivo.

A Mensagem de Fernando Pessoa, numa primeira edição, exemplar impecável e, para mais, com dedicatória, data e assinatura do autor, vale hoje cerca de € 5.000. É o mínimo que se paga por ele a um antiquário. Mas, levado a leilão, pode facilmente render € 10.000, ou dois mil contos. Se não mais. Há sempre uma universidade americana que não olha a dinheiro.

Eu mantinha-me quieto quanto podia, naquele comboio, para não estragar o material. Ninguém sonhava o que eu ali tinha. Mas um percalço ferroviário, um assalto a carteiras e telemóveis, uma súbita loucura colectiva em meu redor, qualquer coisa igualmente horrível e imaginável, teria de encontrar-me preparado.

Cheguei vivo ao destino. Entreguei o livro. Ele queimava-me nas mãos e já no corpo todo. Mas tudo vale a pena, se… Não, por favor. Tudo menos isso.

Quem duvida das virtudes estéticas dessa mui nobre arte que é a taxonomia que deixe de lado o Lineu e atente à seguinte passagem da versão de 1980 (para mim, a melhor de todas) da Classificação Nacional das Profissões da saudosa Secretaria de Estado do Emprego do Ministério do Trabalho (pp. 239-240): «A profissão de Tripeiro divide-se em: a) Tripeiro em geral; b) Auxiliar de tripeiro; c) Calibrador de tripas; d) Medidor de tripas; e) Salgador de tripas; f) Salgador de peles que não sejam tripas; g) Outros magarefes, tripeiros e preparador de carnes.»

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Apesar de os vídeos musicais terem descoberto há já alguns anos que a Internet tinha tudo para ser o seu habitat natural, é surpreendente que apenas recentemente tenham surgido os primeiros sinais de adaptação do formato à plataforma. Não estou a falar da suposta estética pixelizada do YouTube, mas do facto dos videoclipes terem finalmente começado a tirar proveito das potencialidades interactivas do HTML. Também aí, os Arcade Fire são pioneiros. Depois de, há cerca de meio-ano, o realizador Vincent Morrisset ter dado o tiro de partida com o surpreendente Neon Bible, chega agora um objecto ainda mais belo e fascinante realizado por Olivier Groulx & Tracy Maurice e que tem por mote o hipnótico Black Mirror. Posso estar enganado, mas algo me diz que estes dois clipes marcam o início de uma nova era na história dos vídeos musicais.

O José do Telhado não se chama João

Vivo em Lisboa desde 1966 e tenho tido sempre o meu trabalho e a minha casa por aqui: Rua do Ouro, Chiado, Camões, Bairro Alto, Santa Catarina. O mesmo é dizer livrarias, antiquários, editoras, leiloeiros, alfarrabistas. A Moraes, editora dos meus primeiros livros, era no Largo do Picadeiro e passou para a Rua do Século. O jornal onde comecei em 1978 (Diário Popular) era na Rua Luz Soriano. Mas ia nos alfarrabistas. Tem chegado gente nova ao ramo com os seus telemóveis, faxes, E-mails, blogs, sites, boletins. E alguma prosápia muito juvenil. Há dias tive nas mãos um boletim bibliográfico que, embora datado de Dezembro de 2008, é de Dezembro de 2007 até porque estamos em Janeiro de 2008 e ainda não chegámos lá. Um dos livros referidos é sobre a revolta militar da Ilha da Madeira em 1931 mas, por óbvio lapso, o autor refere que a dita revolta procurava «instaurar» a I República. «Instaurar» não; quando muito «restaurar» porque ela já tinha sido instaurada em 1910. Mas onde me pareceu que o absurdo se tinha instalado de armas e bagagens foi nas referências ao Zé do Telhado aqui referido como João do Telhado. Não, não pode ser. José Teixeira da Silva não se chamava João. Nascido em Penafiel no ano de 1816, José Teixeira da Silva veio a morrer em Angola (Sanza) para onde foi degredado pelos muitos assaltos da sua quadrilha formada em 1849. Antes tinha recebido a Torre e Espada por ter salvo a vida do Visconde de Sá da Bandeira. Pelo meio aparece ao lado de Camilo Castelo Branco nas cadeias do Porto e no livro «Memórias do Cárcere». Mas sempre como José Teixeira da Silva, nunca foi João. Por mais voltas que dê um qualquer boletim bibliográfico editado em Dezembro de 2007.

I got the power

Um privilégio de se comentar em blog próprio é poder editar os nossos comentários. Ando tão contente com a sensação de omnipotência que até comento menos em blog alheio, onde não posso fazê-lo. Não sendo prática de vida possível, nas caixas de comentários do Aspirina saboreio o poder de alterar o passado.

Sobre uma fotografia de Nuno Ferrari

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.
Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha em frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias nem do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.

Terra nostra

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Olivença é território nacional? É, diz o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Pode ser mas não me interessa, faz perceber o Primeiro-Ministro, chamando ao tema «parte do folclore democrático».

Ora, nós sabemos – porque Sócrates dixit – que «não há uma política dos ministros, há uma política do Governo». O que, aqui, é lamentável.

Todos os 27 países da UE têm entre si Acordos de Fronteiras. Todos, menos um. O nosso, com a Espanha. Está bem feito. Mas, entretanto, um bocado, uma lasquinha, um bracito de Portugal continua em mãos estranhas.

‘Gatunos’ é um castelhanismo em português. Do adjectivo espanhol gatuno (relativo a gato) fizemos o que se sabe. É, talvez, o momento de devolver o vocábulo à procedência. Em voz alta e bem sonora.

*

Comunicado do Grupo dos Amigos de Olivença

www.olivenca.org

Reagindo à iniciativa do Grupo dos Amigos de Olivença que, no decurso da XXIII Cimeira Luso-Espanhola, levantou publicamente a questão de Olivença, o Senhor Primeiro-ministro, em entrevista à RTP, em 19-01-2008, veio dizer que o assunto «não foi discutido» na Cimeira (1).

Tal afirmação, que em si mesma nada traz de novo e só surpreende pela franqueza com que se admite e confessa publicamente uma prática política nada louvável, embora adoptada por sucessivos governos, deve ser sublinhada pela exuberância com que o Senhor Primeiro-ministro assume publicamente a existência do litígio, a sua relevância e a profunda perturbação que provoca no relacionamento político dos dois Estados.

No mais, a referência – aparentemente desdenhosa – à intervenção de tantos portugueses que em elevada manifestação de cidadania têm lembrando as responsabilidades que cabem ao Governo na sustentação dos direitos de soberania sobre uma parcela do território nacional, como fazendo «parte do folclore democrático», só pode ser entendido como um momento de infelicidade, decerto resultante da tensão a que o Senhor Primeiro-ministro estivera sujeito, traduzindo também alguma desatenção ou inabilidade políticas.

Aliás, não poderia ser de outra forma pois que, conforme afiançou recentemente o Senhor Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em carta dirigida a esta associação em 12 de Novembro, p. p.:

«O Estado português é rigoroso na prática de actos externos, quanto à delimitação constitucional do seu território, em observação do que estipula o artigo 5.º da Constituição: “1. Portugal abrange o território historicamente definido no Continente europeu […] 3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre eles exerce […]”. A política que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem seguido, e as orientações que tem dado […] tem sido de que nenhum acto, acordo ou solução em torno desta questão deve implicar o reconhecimento por Portugal da soberania espanhola sobre Olivença» (2).

O Grupo dos Amigos de Olivença faz notar que a sua actuação reproduz a posição político-constitucional portuguesa e, lamentando as palavras menos felizes e inapropriadas do Senhor Primeiro-ministro, reafirma a sua determinação em prosseguir os esforços que vem desenvolvendo pelo reencontro de Olivença com Portugal.

OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA!
VIVA OLIVENÇA PORTUGUESA!

O Presidente da Direcção
Lisboa, 20 de Janeiro de 2008.

(1) Pode consultar-se em : mms://195.245.128.30/rtpfiles/videos/auto/telejornal/telej_2_19012008.wmv (aos 27 min e 48 seg do vídeo)

(2) Pode consultar-se a Carta do MNE em: <http://www.olivenca.org/imagens/MNE_7905.pdf>

Rua Portas S. Antão, 58 (Casa do Alentejo) -1150-268 Lisboa
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