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Não pretendo imitar o talento do João Pedro para títulos mas cada um faz o que pode

A desarrumação é a primeira das minhas qualidades. Recordo-me de a conhecer ainda antes da desorganização e dos lapsos de memória (quase uma afasia) relativos às obrigações mais chatas. Sem dúvida terá sido uma das principais motivações de diálogo entre a minha mãe e eu. Conversas que desenvolveram uma capacidade argumentativa redutora, nos outros, da paciência para me aturarem.
Mas, dizia eu, sou desarrumada, dizem. Por isso, quando carrego a bateria do meu telemóvel, prefiro deixar o carregador no seu lugar apropriado: ligado à ficha. Vendo bem, até sou arrumada, pois faço questão de o deixar sempre no sítio. O certo.
Aí ficou, em casa dos meus pais, na última ocasião em que o carreguei. Por um mistério ainda por resolver, o carregador desapareceu. Para mim o enigma há-de esconder alguma nefasta arrumação: com essa mania de arrumar depois nunca sabem onde puseram as coisas.
Reduzida à dependência do isqueiro do meu bólide, desloco-me amiúde à rua. Pareço um marido adúltero, a fazer telefonemas do carro, por vezes depois da meia-noite. Já imaginei a imaginação de algum indiscreto observador de janela. Bem sei que a conexão é arrevesada, mas vinha a pensar nisto, ontem, quando fui do carro à pastelaria comer um folhado misto. Foi lá que encontrei o vídeo que mostro abaixo. Não porque me preocupe a vigilância policial (alguém investiria na seca de me espiolhar?), mas porque a animação é gira.

«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes, quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável, compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos, aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.» Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares: «Há quem deteste o ‘Snob’. Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas: ‘Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas’. Não anuncio grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim. Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»

Editora: Casa das Letras

Um Stradivarius no Pico da Vara

Paris, aeroporto de Orly, 27 de Outubro de 1949. Completa a lotação do voo da Air France com destino a Nova York. Na grande cidade americana, a solidão de Edith Piaf, que sofre uma das suas depressões tão frequentes. E espera que, na manhã seguinte, Marcel Cerdan se vá juntar-lhe. Mas não há lugar no Lockheed Constellation para o amante, fisicamente o seu oposto, que perdera em Junho o título de campeão do Mundo de pesos médios para Jake La Motta. A sorte, porém, parece estar do lado de Marcel e de Edith. Um casal em lua-de-mel desiste da viagem em favor do grande ídolo francês nascido na Argélia. O avião levanta voo às 20h 05m.

Esta parte da história contém talvez uma lenda romântica, pois só embarcaram trinta e sete passageiros, e o Constellation tinha capacidade para mais de sessenta.

Provavelmente Ginette e Marcel nunca se terão encontrado. Ela não frequenta ringues de boxe nem ele assiste a espectáculos musicais em que Edith Piaf não cante. Mas certamente que não passa despercebida a Cerdan aquela jovem de uma beleza serena, esguia e segura como uma deusa grega. Nem talvez o violino, um Stradivarius, que leva consigo. Viaja com ela um homem também muito novo, que vagamente se lhe assemelha. É seu irmão, Jean-Paul, que costuma acompanhá-la quando as obras a interpretar exigem piano.

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Morreu um menino grande

O Júlio era um menino grande que andava aqui pelo Camões, pelo Calhariz e pela Calçada do Combro. À maneira dos galegos do século passado mas sem as cordas nos ombros, o Júlio, menino grande da nossa rua, fazia uns fretes e ajudava as pessoas com a sua força braçal. Caixotes, volumes e recados eram levados pelo Júlio ao destino com perfeição e rapidez. Uma vez por ano o Júlio aparecia na procissão da Semana Santa aqui na igreja de Santa Catarina. A capa que lhe vestiam e o lugar que lhe permitiam tomar na procissão, ora na espia de um estandarte ora duma bandeira, era uma espécie de ressalva de uma vida passada no lado inferior dos alcatruzes. O Júlio tinha 62 anos mas era um menino grande. O seu sorriso na procissão era bem o sorriso bom do menino que uma vez por ano se sentia igual aos outros. Mas os alcatruzes da vida que nunca o puxaram para cima pareciam estar combinados com os alcatruzes do elevador da Bica. O Júlio acabou por cair no buraco da casa das máquinas do elevador. Costelas partidas, contusões diversas, lá foi para o Hospital. Mas por pouco tempo, que os Hospitais de hoje não podem ter as pessoas muito tempo por causa da redução de custos. Por isso, numa casa fria, sem medicamentos, sem comida, sem um olhar amigo, o Júlio, esse menino de 62 anos, morreu. Morreu de solidão porque a assistente social que lá foi com a Polícia voltou para trás ao ver que ninguém abria a porta. Na próxima procissão da Semana Santa o Júlio já não vai segurar a espia do estandarte ou da bandeira de Santa Catarina. Não morreu cortado por uma roda de navalhas como a sua padroeira mas cortado por lâminas de solidão, de vazio e de desespero. E todos nós somos um pouco responsáveis por isso.

Gostaria de agradecer ao Governo o seguinte reflexo condicionado: à mínima sensação de frio, fico logo com uma traça descomunal.

Era para escrever sobre os Deerhunter, mas terá que ficar prá próxima, pois agora estou aflito com 3 vídeos que urge partilhar. Não é que não achasse piada à fase electro-clash, mas confesso que fiquei entusiasmado quando li há alguns meses que o novo álbum de Goldfrapp marcava um regresso às sonoridades cinematográficas do disco de estreia. Na verdade, não há regresso nenhum, mas uma síntese perfeita de todos os ingredientes dos três discos anteriores com um mais-valia absoluta: a electrónica deixa de ser ornato para passar a textura. Para prová-lo, há este delicadíssimo «A&E», cujo vídeo foi realizado por Dougal Wilson, o bacano que já tinha sido responsável por esta pequena maravilha (não é por acaso que os mais atentos conseguirão vislumbrar a fugaz aparição de uma bicicleta). Outra surpresa é o novo single de Moby, o tal rapaz que prometia imenso há uns dez anos e que depois se espetou com grande aparato no mainstream. «Alice», para além de ser um excelente tema hip-hop, vem acompanhado por um fenomenal e muito lynchiano exercício de VJing saído da mente do grande Andreas Nilsson (vejam, por exemplo, este brinquinho). Para terminar, deixo-vos ainda com o pedagógico «Back Out On The…» de Kevin Drew (Broken Social Scene). É favor de mostrar à chavalada para ver se eles aprendem, de uma vez por todas, o que é o rock’n’roll.

A Fome de um Duque

Se as casas vazias não se queixam, nem os gatos parecem estranhar muito ausências a que não estão acostumados, os cães ficam aparvalhados, andam como órfãos, vagueando à procura dos donos e de comida.

O pastor estava no seu almoço de pão e presunto quando viu o Duque. O animal andava vagarosamente. Parou a uns dez passos à sua frente, ficando a seguir com o olhar os movimentos da mão entre a mesa de pedra e a boca. Chamou-o: “Anda cá, Duque.” Ele chegou-se-lhe sem pressas, que talvez nem pudesse, e ficou com a cabeça quase encostada à sua perna direita, à espera. O pastor partiu metade do pão e do presunto, para lhe dar bocadinho a bocadinho. O cão mastigou cada pequeno naco de presunto de um lado, depois do outro, saboreando a fome. Engolia batendo várias vezes os maxilares, fazendo uns estalidos secos com os dentes, de beiços muito molhados e ligeiramente despegados, como que tomando gosto à saliva.

Duque não tinha genealogia. Era um rafeiro cuja nobreza não ia além do nome, uma ironia. Mas tinha carácter. Seria incapaz de deixar os donos como quem abandona um cão.

¡HOLA!

Primeira página num jornal de distribuição gratuita, uma menina espanhola desaparecida. Exemplar da crença popular, partilhada por todos, que vê em vulgares coincidências influência vinda do cosmos, Mari Luz emociona Espanha. A parcela do nome da criança coincidente com parte do nome da localidade onde Madeleine McCaan desapareceu, conta o texto, permite de imediato as associações habituais, marcadas pela superstição (conto eu). Concorrem também para a onda dramática a contiguidade geográfica e a idade aproximada na altura de cada ocorrência. Uma réplica do caso Maddie à escala ibérica (vários graus abaixo na escala de Richter), porque a escala é também medida pela nacionalidade e pela língua dos personagens.
O que suscita particular interesse são as discrepâncias nos comportamentos dos pais das vítimas, porventura merecedoras de uma atenção analítica, com incursões pela antropologia, por parte de quem a queira fazer. Os pais da criança inglesa ligaram para um canal televiso britânico e mantiveram-se calmos. A mãe de Mari Luz desfaleceu em público. O pai, emocionado, agradeceu antecipadamente aos raptores a libertação próxima da filha. Apoiado na sua retaguarda religiosa, exibe a esperança de haver do outro lado uma mistura de bem e mal. Enfim, que haja uma pessoa. Como alguém que esteja mais perto da miséria humana pode presumir que ainda haja redenção.
Milagre dos milagres abençoados seria se calhasse estarem mesmo os dois casos relaccionados. E um dia destes aparecerem as duas meninas de mãos dadas num lugar público. Num jardim, na primavera.

ainda os apeadeiros

O encerramento de serviços de urgência em centros de saúde continua a dar que falar, agora com a morte de dois bebés no seu primeiro trimestre de vida. Ainda há pouco tempo me pareceu conclusivo que seria bem mais eficaz um sistema que tratasse do transporte dos doentes para o hospital mais próximo, em tempo útil. Porque os serviços de urgência dos centros de saúde raramente ofereciam mais do que uma triagem. E esta, por vezes, era caracterizada pela incompetência, tanto na demissão de casos graves e efectivamente urgentes, como no empolamento de situações triviais por médicos que não dominavam uma qualquer especialidade.
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Comboio da noite para Lisboa

Comecei a ler Comboio da noite para Lisboa. Escreveu-o Pascal Mercier, romancista austríaco. Comecei-o ontem, num comboio já nocturno, a caminho da Suíça.

É a história (longa, 400 páginas em letra pequena) dum exemplar professor de línguas clássicas, de Berna, que um belo dia lê um livro (fictício) dum pensador português e larga tudo para ir a Lisboa. Dizem, e acredito, porque já o estou vendo, que é um livro colossal. Só o pus de lado porque a vida não é só literatura.

Leio-o em tradução neerlandesa. Não acho rasto de edição em português.

Citados

A revista Os Meus Livros de Janeiro de 2008 traz uma citação do Aspirina. Trata-se de uma frase de José do Carmo Francisco, de 21-11-2007 : «Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor». Humaníssimos – por pouco que possa parecer -, gostamos de ver-nos citados.

Cantar as velhas

O cantar as “velhas” é uma preciosidade da cultura popular terceirense. Trata-se de um género de cantigas ao desafio, tradição herdada talvez das trovadorescas cantigas de escárnio e mal-dizer. A brejeirice está sempre presente em cada “velha”, composta por dois tercetos e uma quadra. O seu nome deve-se ao facto de ser normalmente referida uma velha, tendo como contraponto um velho, que com frequência são “avó” e “avô” dos contendores. Actualmente o par mais famoso de cantadores de “velhas” é formado pelo genial João Ângelo, um fenómeno de talento e popularidade, e pelo engenheiro José Eliseu, que se dedicou à prática para ajudar a manter viva esta tradição. Uma “velha” é tanto mais bem conseguida quanto mais disfarçado estiver o significado da brejeirice.
Por desfastio, às vezes escrevo alguma, para me divertir ou divertir os amigos. Aqui deixo três exemplos.

Lição de gramática

Tua avó foi à lição:
“Fá-lo é verbo, falo, não
– É substantivo comum.

Mas, se levar o pronome,
Falo fica, em vez de nome,
Verbo como qualquer um.”

Tua avó bem aprendeu
E a teu avô ensinou:
“No quinhão que Deus te deu
Só o verbo te calhou.”

O orçamento

Teu avô muito suava
De tanto que trabalhava
Para ganhar o sustento.

Tua avó fazia a conta
E não encontrava a ponta
Do novelo do orçamento.

Ela quase enlouquecia
C’o resultado que dava,
Pois quanto mais lhe mexia
Mais o orçamento minguava.

O voto

Uma velhinha sem jeito
Fala mal de tudo a eito,
E não queria votar.

Para fugir ao dever
A velha foi-se esconder
Numa furna à beira-mar.

Tanto o velho procurou
Que deu com ela na furna,
Mas a velha até gostou
De pôr o voto na urna.

Grandes planos

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Quarta: descer o mapa, subindo o Reno. De comboio, «por causa do chique».

Quinta: mostrar como a História da Língua Portuguesa teve sempre, e só, uma leitura: a nacionalista.

Sexta:  ouvir surpresas de outros e descansar das minhas.

Sábado: olhar em volta e reparar que estou em Basileia.

Domingo: descer, subindo. De comboio. Arre, que é chique a mais.

Auf Wiedersehen.

A fonologia é uma disciplina muito útil que, por exemplo, nos ensina que «goraz» é, contra todas as evidências, o nome de um peixe e não um adjectivo

Mais umas cenas à maneira. Desta vez, gostaria de partilhar as minhas três grandes apostas musicais para 2008 (facção indie). Os nova-iorquinos Vampire Weekend são a coisa mais refrescante, inovadora e bem-disposta que ouvi nos tempos mais recentes e o belo vídeo de «A Punk» é da autoria de um dos meus realizadores favoritos: o grande Garth Jennings da Hammer & Tongs. Os The Mae Shi são de Los Angeles e, sinceramente, não vejo como poderão deixar de ser das bandas mais relevantes de 2008. Não é por acaso que o vídeo de «Run To Your Grave» é semelhante ao dos Vampire Weekend: só mesmo o fast forward para captar toda a energia e a criatividade destas duas bandas. Finalmente, as Those Dancing Days vêm da Suécia e, para além de terem a vocalista mais gira do planeta, também são capazes de fazer coisas tão viciantes como este «Hitten». Eu gosto muito do vídeo: são as brincadeiras infantis, os grandes planos que me paralisam a espinha e, claro está, aquela comovente e absolutamente inesperada recriação da capa de um dos discos da minha vida. Não dá mesmo para acreditar é na pinta daquela vocalista.


Poetas

– Não te passa pela cabeça – disse ele – o que é andares fugido. Porque não tens papéis, porque arranjaste dívidas que nunca, mas nunca, conseguirás sanar, porque andam à tua procura para matar-te. Não, não te passa pela cabeça.

Eu sabia que uma vida humana não era fácil. Que a invenção do Planeta tinha desembocado num cenário, este nosso, que jamais pôde estar no programa. Mas aquilo, dito assim por sobre o tampo de mármore duma mesa de café, olhos acerados fitos nos meus, aquilo meteu-me respeito.

– Andas fugido?

Não cheguei a perguntar-lho. Eu não poderia dar-lhe os papéis, nem dinheiro que chegasse, nem um esconderijo. A minha pergunta seria curiosidade pura, e por isso tanto mais ofensiva. O que ele percebeu bem.

– Acredita, já me habituei. Agora há-de ser sempre assim. Nunca sei se chego livre, ou vivo, à noite de cada dia. Ou ao dia de cada noite. Nem isto é andar livre. Nem andar vivo.

Veia poética, depreendi. E lamentei-o mais ainda. Os poetas, ao saberem dizer tão bem de que sofrem, ainda mais se atormentam.

Um rumor de água

Na voz de Fernanda há um rumor de água. Estamos na cidade, passa um eléctrico com turistas a descer uma das colinas de Lisboa, há um carro dos bombeiros sapadores com a sua pressa e as suas sirenes a subir a calçada, alguns jovens estudantes discutem em voz alta o seu pequeno mundo entre mochilas e telemóveis mas, ao mesmo tempo, na voz de Fernanda há um rumor de água. Será a água do Rio Távora, a que sobe no Inverno ao levantar uma neblina portátil quando as águas batem nas pedras gigantes das margens.

Se fosse Verão a voz de Fernanda teria a frescura das fontes onde ainda hoje se bebe por um púcaro de barro vidrado, uma água que mata as sedes mais antigas de quem secou nos lábios o pó dos caminhos para o trabalho e para a romaria.

Mas é Inverno. O sol não aquece os intervalos dos aguaceiros trazidos pelas nuvens mais escuras do lado do Oceano Atlântico. Duas turistas italianas, de mapa de Lisboa em riste, procuram uma livraria que venda partituras musicais. A vida acontece nestes encontros e desencontros. O Inverno teima em continuar como um calendário repreendido.

E a voz de Fernanda, com o seu rumor de água, liga de novo dois mundos separados pela solidão, pela distância e pelo tempo. Tal como numa prece ou num poema, Fernanda vai ligando de novo esses mundos separados. Há uma alegria convocada na Cidade pelo rumor da sua voz que veio das Serras. Assim, como se fosse a capa de um livro e não a realidade real da personagem desta crónica. «A Cidade e as Serras». Na pressa tantas vezes sem sentido da Cidade há uma voz que coloca de novo a funcionar a harmonia do Mundo das Serras. Na voz de Fernanda há um rumor de água.

bola ao alto, coração ao ar

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No meu coração há dois clubes, que hoje vi empatarem*. Empatar, podemos ver com clareza no futebol, pode ter muitos significados. A Académica mereceu o golo marcado rés vés do final do jogo: minutos antes tinha perdido, por um azar formidável (como diria a minha avó), um belo quase. O Sporting (ai…), disseram, deu a pele. Só não se exige o escalpe a Paulo Bento porque ele dá bons sketches aos gatos fedorentos.

*Passe a estranheza de se assistir, no Aspirina B, a uma ligação entre o Sporting e Coimbra, suprema heresia para o mais fanático adepto doméstico do primeiro.

O alho congelado seria uma invenção perfeita caso os respectivos saquinhos fossem, de facto, herméticos e não empestassem os restantes géneros alimentícios do meu sempre refrescante congelador

Ando há uma semana doido com esta música: «Singing On Our Graves» dos The Cave Singers (a banda é nova, mas os músicos são malta com larga experiência: Pretty Girls Make Graves, Hint Hint, Cobra High). A música é um folkzinho irresistível (Leadbelly, Woody Guthrie, Dylan) que gravita em torno de um hipnótico arpeggio e de uma batida tipo marcha militar (ou seja: rock’n’roll). É tudo muito simples e, por isso mesmo, absolutamente genial e adictivo. O vídeo, que acabo de descobrir agora, é igualmente uma maravilha: um freak show com serpentes, baptismos e curas milagrosas. É caso para dizer que o clipe dos Familjen já tem seguidores no outro lado do Atlântico. Ah: o tema é igualmente a cena mais estupidamente dançável que ouvi em 2008. Ei: aquela ali, logo no início, não é a irmã do Tony Soprano?