ainda os apeadeiros

O encerramento de serviços de urgência em centros de saúde continua a dar que falar, agora com a morte de dois bebés no seu primeiro trimestre de vida. Ainda há pouco tempo me pareceu conclusivo que seria bem mais eficaz um sistema que tratasse do transporte dos doentes para o hospital mais próximo, em tempo útil. Porque os serviços de urgência dos centros de saúde raramente ofereciam mais do que uma triagem. E esta, por vezes, era caracterizada pela incompetência, tanto na demissão de casos graves e efectivamente urgentes, como no empolamento de situações triviais por médicos que não dominavam uma qualquer especialidade.

Recordo as ocasiões em que me dirigi com os meus filhos a estes serviços de urgência. Por duas vezes, quando o mais velho partiu o queixo. Na segunda ocasião calhou-lhe uma médica histérica, que chamou três enfermeiros para agarrarem as pernas e braços do menino de dois anos, a quem cobriu o rosto «para que não ficasse impressionado com a agulha» e que em consequência disto esperneou. Ele que, como eu, sempre teve uma curiosidade científica pelos actos médicos. Esteve horas à espera de ser cosido, enquanto eu ouvia umas senhoras, ciganas e experientes na modalidade, alvitrar que assim iria doer muito. Uma contou-me que na sua última facada tinha esperado algumas horas e que agora, para facadas, se dirigia sempre a um centro de enfermagem, para ser cosida «a quente» e sem dor. Foi o que fiz na terceira ocasião em que ele partiu o queixo.
Noutra ocasião dirigi-me a um hospital local sem área de pediatria. Segui logo depois numa ambulância dos bombeiros, cuja única tripulação era o motorista. Não tinha cintos de segurança e eu andava aos bordos a cair do assento, com o meu filho ao colo. Diagnóstico: meningite; realidade descoberta no hospital pediátrico: papeira. Houve ainda a ruptura de ligamentos diagnosticada no centro de saúde de Tavira. Afinal, crianças com aquela idade não sofrem deste acidente – disseram no hospital de Faro.
O caso verdadeiramente grave ocorreu há quase dois anos. O meu pequeno estava com uma tosse não produtiva e com falta de ar. Enquanto fui à farmácia comprar um frasco de Ventilan ele entrou em apneia. Era a sua primeira crise de asma. Corri com ele para o centro de saúde, onde lhe deram oxigénio e injecções de cortisona. Não podiam tratá-lo, todavia, e chamaram o INEM. A ambulância demorou 45 minutos. Tivemos a sorte de termos deparado com uma chefe de equipa dedicada, que decidiu seguir connosco para o hospital, trazendo também um enfermeiro. No caminho mediu-lhe o pulso e vi-a acenar para a enfermeira, em negação compungida: ele já não tinha hipótese. O tratamento de choque, prolongado por um tempo absurdo com a demora da ambulância, estava a vencer o coração. Chegou já inerte, mas sobreviveu.
Quase todas as histórias que conheço de verdadeiras urgências não encontraram solução nos centros de saúde. Para a maioria dos casos que levam os utentes às urgências basta um telefonema para uma das muitas linhas de apoio especializadas. Ou a criação de centros onde os nossos velhos convivam, a combater a solidão.
Sonho com frotas de ambulâncias bem equipadas. Com uma população instruída e observadora, que não espere a morte iminente para procurar ajuda. E que aprenda a afastar-se no trânsito, ao som de uma sirene.

17 thoughts on “ainda os apeadeiros”

  1. val,
    Acabo de ouvir o doutor José Manuel Silva, o palpiteiro de serviço da Ordem dos Médicos nos dias que correm, pese não Bastonário. Na RFM. E não gostei do que ouvi. O tema era supostamente a morte do bébé de dois meses que foi assistido no parque de estacionamento do hospital de Anadia, à porta das antigas Urgências. Cada palavra do doutor Silva falava do caso mas dizia política de saúde e contestação ministerial. O Zé Manel não resistiu à tentação e bateu o doutor Silva na postura de microfone. Fugiu-lhe para o chinelo a prestação. De repente foi já quase o tolo correia a falhar na reanimação da criança, foi já quase o tonto campos e não a morte quem reclamou mais uma vida humana. Por arrasto, um país inteiro linkou a morte do outro bébé no Carregal do Sal, poucas horas antes, quando já era pouco evitável a associação. Foi já o campos ministro e não o médico de serviço quem errou, he’s to blame. E ninguém mais faz vingar uma visão sensata sobre a insensatez programática deste homem que continua a ser o senhor saúde em Portugal, contextualizando com a necessária isenção emotiva. Distinguindo o preto do branco.

    É pública, notória e assumida a minha contestação ao Senhor Ministro da Saúde, mas fico do lado do António que lhe veste a pele, sem hesitar, quando escuto um Silva destes a falar pelos médicos do meu país.

  2. susana,
    Reparei agora, e peço desculpa por isso, que o post era teu e não do valupi. Fui atrás do ‘ainda há pouco tempo me pareceu conclusivo’ e nem pensei mais quem seria o ‘me’. O comentário mantém-se, pois claro, mas é o mínimo exigível que ele siga com destinatário correcto.
    Agora já está.

  3. rvn, é sempre o mesmo problema: a culpa é a maior inimiga da responsabilidade. ninguém quer culpa, porque a culpa castiga. assim, se alguma coisa corre mal, sacode-se a água do capote, e remete-se o ónus para outrém.
    é uma pena, porque a responsabilidade dá para pensar – e para resolver e ajudar.

    o que fez o zé manel é o mesmo que faz aquele conhecido pai que anda há anos a reclamar contra as condições de segurança de um Itinerário Principal, que provocaram a morte da sua filha, esquecendo-se de informar com a mesma veemência que ela ia sem cinto, usando assim a sua mediatização para uma prevenção mais alargada no âmbito da segurança rodoviária. lembro-me deste para citar apenas um exemplo, e não para lhe atribuir particular relevância. é o que todos fazemos quando encostados contra a parede (pelas razões erradas).
    ninguém quer a culpa, especialmente quando se trata da morte de crianças, em si tão assustadora. não fosse a cultura da culpa e todos assumiriam melhor as suas responsabilidades.

    ernesta, bem lembrado, dado que li o teu texto e recordo-me que corroborava o que na sequência do post do valupi tinha lido num link por ele deixado, assim como na conversa aqui e numa em outro blog, o bada bing (e enfatizava, pois as ditas outras eram mais alargadas nas questões abordadas). vou colocar ambos em link no texto.

  4. Susana,

    Lembro-me bem da notícia da morte da filha desse zé manel. Tinha quatro anos, como uma das minhas filhas na altura. Penso que o acidente foi no IP5 e, tal como tu, marquei o pormenor do cinto. Ainda hoje, e sempre que o vejo muito mais velho e muito mais cansado, a bater sem dó nem piedade, muitas vezes com alguma razão, nos automobilistas de serviço, penso que anda de alguma forma a cumprir a sua via-sacra.

    Quanto ao resto, vou seguir os links que deixaste que a conversa é séria.

  5. tinha cinco anos, ernesta. não referi o nome dele, pois nestes casos é impiedoso bater mais nos cegos. como dizes, cumpre a sua via-sacra. amargou completamente, o que é muito solitário.

  6. Mais uma achega para as nossas urgências que correm o risco de fechar e muitas vezes já deviam ter fechado.
    Há uns anos atrás a minha filha mais nova bebeu metade do frasco de um anti-histamínico. Teria uns três anos e, certa da asneira, escondeu as provas do crime debaixo da cama. Quando percebi o que tinha acontecido achei que o mais sensato era não entrar em histeria e tratar de saber, urgentemente, o que fazer e a que serviço de urgências recorrer. Directa para o Pediátrico ou passando pelo hospital da cidadezinha onde vivia? Imaginava paragens cardiacas e choques anafiláticos (com um anti-histamínico? mãe é mãe…) e não sabia se tinha tempo para perder. Liguei para o hospital lá do sítio e pedi para falar, com urgência, com um médico de serviço. Tinha o frasco ao meu lado, e, na ponta da lingua, a quantidade ingerida e a idade e peso da gajinha. Só queria que me dissessem o que fazer nos minutos a seguir. Não, não podia falar com médicos, tinha de me dirigir às urgências. Eu que sim, que tinha de falar com um médico, exactamente para saber se teria de ir às urgências e a quais urgências, mas a pouco simpática senhora insistia que os senhores doutores não atendiam telefones. Devo ter sido bastante insistente e talvez, quem sabe agora, ligeiramente ofensiva, mas lá consegui ter a orelha de um doutor do outro lado do fio. A mesma conversa, não podia dar indicações por telefone, teria de me dirigir rapidamente para as urgências e lá veriam se era grave ou não, que um leigo não percebe nada de trotinetas nem consegue ler rótulos de frascos. Nem vencida nem convencida fiz o que devia ter feito de início e liguei para a linha de venenos e intoxicações (se é assim que se chama). Ouviram-me calmamente e profissionalmente e tudo se resolveu minutos depois com um copo de água morna, uns dedos na garganta e vigilância durante 24 horas.
    Acho que não nos faltam meios, falta-nos é, a todos, meios para lá chegarmos. E não falo de ambulâncias nem helicópteros, mas sim de formação, educação e civismo.

  7. mas eu percebi, ernesta. :)
    estava a confirmar que se tratava do mesmo caso e a explicar porquê, tal como tu, não tinha referido o seu nome.

    e sim, essas linhas funcionam. também já recorri a uma de envenenamentos e outra de pediatria. conduzem a observação por telefone. têm ainda a qualidade pedagógica de obrigarem a mãe* a fazer a observação, o que é altamente instrutivo. quando seja algo a suscitar dúvidas, encaminham para o sítio certo. há males que encontram resposta em qualquer hospital, por exemplo, outros haverá que só num pediátrico, ou provido de outras valências específicas, nos maiores centros. nestes serviços costumam saber.

    *disse «mãe», mas se calhar deveria ter sido politicamente correcta.

  8. Somos boas entendedoras, portanto….

    pois funcionam, e até telefonam para casa para saberem da evolução da doença. A questão é que não dão o “papelinho” para justificar a falta ao trabalho, nem a emoção de uma sala de espera cheia onde se podem passar umas agradáveis horinhas a trocar maleitas com a vizinha do lado. E também não receitam o antibióticozinho da praxe, que sem esse não há doença.

    (quando as minhas filhas andavam no infantário fui considerada uma mãe desleixada porque as minhas filhas eram as únicas que passavam um inverno inteiro sem tomarem antibióticos…)

  9. susana, lendo o teu texto, não deixo de pensar obviamente no caso mediático dos 2 bebés e penso exactamente como o Sócrates: aproveitamento político, manipulação. O uso que faz a mídia para tratar desses casos é dos mais perniciosos e lamentáveis. Eu também não vejo a ligação entre o óbito e os fechos de urgências…

  10. Apoiadíssimo, Susana.
    Estou inteiramente de acordo com o que dizes e já tenho tido feias discussões com amigos porque digo exactamente o mesmo. O problema tem sido e continua a ser mal colocado.

  11. Sabem o que me lembra esta história das urgências? há muitos anos atrás, quando se começou a falar da queima dos resíduos perigosos nas cimenteiras, foram escolhidos alguns possiveis locais, sujeitos de seguida a estudos técnicos para que pudesse ser decidido qual o mais adequado técnicamente. Um deles, Souselas. Nessa mesma noite, no noticiário da Sic, viu-se uma jornalista pelas ruas de Souselas a fazer entrevistas à população:
    “- sabe que em souselas poderão vir a ser queimados resíduos tóxicos? – han? – sim, aqui mesmo ao lado, na cimenteira. – han? – pois, isso é perigoso. – ai é? – vão deixar que isso aconteça? – minha senhora, não percebo nada disso, não sei de nada. – mas se forem escolhidos vão protestar? – pois, se é como diz vamos ter de fazer alguma coisa. – e estão a pensar vir para a rua, juntar a população toda e não deixar que isso aconteça? – ai, se calhar é mesmo isso….”
    Não terá sido exactamente assim, com estas memas palavras, mas foi a primeira vez que me lembro de, em directo e a cores, ter visto o jornalista a criar as condições para a futura notícia.
    Não tenho dados que me permitam saber se é perigosa ou não a queima de tais resíduos, tal como também não sei quais as urgências que podem ser fechadas e quais devem continuar a funcionar. Mas sei que é muito fácil fazer agitar bandeiras e gritar palavras de ordem.
    Goebbels foi nisso um expert, mas todos nós somos seus pequenos discípulos.

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