Um Stradivarius no Pico da Vara

Paris, aeroporto de Orly, 27 de Outubro de 1949. Completa a lotação do voo da Air France com destino a Nova York. Na grande cidade americana, a solidão de Edith Piaf, que sofre uma das suas depressões tão frequentes. E espera que, na manhã seguinte, Marcel Cerdan se vá juntar-lhe. Mas não há lugar no Lockheed Constellation para o amante, fisicamente o seu oposto, que perdera em Junho o título de campeão do Mundo de pesos médios para Jake La Motta. A sorte, porém, parece estar do lado de Marcel e de Edith. Um casal em lua-de-mel desiste da viagem em favor do grande ídolo francês nascido na Argélia. O avião levanta voo às 20h 05m.

Esta parte da história contém talvez uma lenda romântica, pois só embarcaram trinta e sete passageiros, e o Constellation tinha capacidade para mais de sessenta.

Provavelmente Ginette e Marcel nunca se terão encontrado. Ela não frequenta ringues de boxe nem ele assiste a espectáculos musicais em que Edith Piaf não cante. Mas certamente que não passa despercebida a Cerdan aquela jovem de uma beleza serena, esguia e segura como uma deusa grega. Nem talvez o violino, um Stradivarius, que leva consigo. Viaja com ela um homem também muito novo, que vagamente se lhe assemelha. É seu irmão, Jean-Paul, que costuma acompanhá-la quando as obras a interpretar exigem piano.

Ginette tem apenas trinta anos, mas já aos dezoito triunfara em Nova York, que passou a venerá-la. Quatro anos antes, mal terminada a guerra, fizera a sua primeira gravação, em Londres, para a EMI. Num dia que deveria ser de descanso entre outros de uma extenuante digressão, passou muitas horas a gravar com a Philarmonia Orchestra, que também se estreava em registos discográficos com aquela dimensão. O Concerto para Violino, de Sibelius, justamente aquele que estou a ouvir enquanto vou escrevendo. Uma das obras que mais desafiam qualquer violinista. Mas Ginette não desiste nunca. No intervalo concedido a todos os executantes, enquanto os outros músicos descansam ela teima em exercitar os trechos que ainda faltam. Pelas oito horas da noite, o pescoço já parece uma chaga viva. Ginette não se importa. Não só levará a gravação até ao fim, como convencerá a orquestra a meia hora de trabalho extra, para que seja possível concluí-la nesse dia. E, já depois das dez, ainda fará o ensaio completo do Concerto de Walton, a estrear dentro de pouco tempo.

À 1h 04m, hora de Paris, o Constellation entra em contacto com a torre de controlo do aeroporto de Santa Maria, onde deverá fazer escala para reabastecimento. Encontra-se a 150 milhas náuticas desse destino intermédio. A aterragem está prevista para as 2h 45m, informação depois rectificada para 2h 55m.

São 2h 51m quando o comandante, estranhamente, informa a torre de que tem o aeroporto à vista. O voo processa-se a três mil pés de altitude, cerca de novecentos metros. Recebe as instruções de aterragem. Depois, faz-se silêncio. No mesmo instante, um ruído aterrador desperta a maior parte das aldeias do Nordeste, em S. Miguel. Ginette Neveu acabara de morrer numa encosta do maciço do Pico da Vara. E com ela o irmão, Marcel Cerdan e mais os outros trinta e quatro passageiros e os onze tripulantes.

O corpo de Marcel Cerdan será levado para a sua terra natal, Sidi Bel Abdés, e aí ficará em câmara ardente, no ginásio. Durante os dias que demoram as homenagens fúnebres, suspende-se a guerra entre os resistentes argelinos e as forças de ocupação francesas. Um pouco à semelhança do que acontecia nos Jogos Olímpicos clássicos.

Edith Piaf, destroçada, acabará por dedicar-se ao espiritismo, na tentativa desesperada de voltar a ouvir a voz do seu amado. De Ginette Neveu, diz-se que estava abraçada ao violino que António Stradivari construíra mais de dois séculos antes. E que acabei de ouvir em concertos de Brahms e de Sibelius.

24 thoughts on “Um Stradivarius no Pico da Vara”

  1. bela história, daniel, ainda por cima verdadeira. cri, quase até ao fim, que os dois personagens se iriam encontrar e apaixonar durante a escala, desistindo de tudo e passando o resto dos seus dias nos açores. que talvez tivessem sido teus vizinhos. de certo modo até acertei…

  2. Eu já estive no Pico da Vara e é uma emoção terrível estar vivo naquele lugar de morte. O texto é um achado. Parabéns.

  3. Pois eu, que sempre te elogio, desta vez vou por outra estrada. Intrigante este teu estilo. Bom, muito bom, mas um registo que não te é habitual aos meus olhos. Jornalístico. Crónica de rigor, embalo de reportagem, embrulho de poesia. No final das contas, esta estrada entronca na outra, mas lá que é diferente, lá isso é. E o desvendar do cenário açoreano para o final deste thriller de amor e morte, com banda sonora de Sibelus no ressoar daquela madeira tratada, é feito com mão de mestre. Como se uma nuvem de atenção escondesse o essencial da história, até que o fim chega para todos, os que lá ficaram e os que aqui te lêem.

  4. É triste, mas foi a realidade. Um dos acontecimentos mais famosos na ilha.
    Rui, tu és um brincalhão. Sabes bem quanto embirro com esse “e”, que identifica a FLA e as empresas industriais, e depois ficas à espera de um par de coices em letras. (Para quem leia isto e não tenha repardo, o “e” é o que ele pôs em vez do “i” de “açoriano”.)

  5. Estranho o protagonismo do narrador. E estranho o expressionismo. Mas, acima de tudo, estranho a referência às deusas gregas. Como se vê, este texto entranha-se.

  6. Rui, hoje deu-te para isso…
    Valupi
    Suponho que conhecerás a Ginette Neveu. Caso não conheças, pede ao Google que ta mostre. E depois compara com a visão que terás das deusas gregas. Ou das mulheres. A Thaïs serve…
    Quanto ao narrador se ter posto com algum protagonismo, deve-se ao facto de que sempre ouviu esta história desde pequeno, e nunca imaginava poder ouvir um dia o violino que morreu lá com a dona. Podes comprar o disco através da Rede, e maravilha-te.
    (Disseram-me que os pedaços daquele stradivarius foram parar a uma freguesia a três km da minha, S. Brás, a casa de uns tocadores de rabeca, excelentes marceneiros. E ainda ontem estive a falar com uma senhora amiga, que era telefonista na Lomba da Maia, aqui perto também, e que recebeu um telegrama nessa noite a informar de que o telefone deveria ser cedido gratuitamente a quem precisasse de usá-lo a respeito do acidente.)

  7. claudia,
    O daniel bem me avisou, ‘Rui, não tenho nada com isso, mas eu se fosse a ti punha reservado o direito de admissão, chamava o nunes, qualquer coisa, mas impedia a claudia de vir por aqui… ou então esconde o Vasco, que é nome de betinho!’ Não lhe liguei. Deu nisto.
    Quem me manda fazer orelhas moucas ao homem?

  8. LOL. O Daniel não só escreve bem como é visionário :-) Vá lá, rvn, não sou mazita. Chamou-me a atenção o nome. Um ex meu também se chamava Vasco. Coincidências.

  9. Daniel o que mais me faz gostar dos Açores é que vocês têm carinho pelas coisas, as casas bonitinhas, tudo muito verdinho, cheio de flores e sem lixo. E ligam muito a relíquias que tomam conta com muito cuidado. Gosto muito do Santo Cristo daí, que bela expressão de homem, eu queria dar um beijoca no cachaço para ele ficar mais contente mas tinha um batalhão dumas freiras-dragonas a olhar para mim desconfiadas,

    fazer carreiras no Populo é bem bom

    as águas-vivas é que eu só percebi o que era de experiência própria

  10. Daniel, não conhecia a Ginette. Pareceu-me um típico exemplar meridional, mas em versão masculinizada (meu gosto, não querendo ofender susceptibilidades). Como leitor de Homero, espero que as deusas gregas tenham outros encantos. Ou, pelo menos, que os tenha a telúrica e mortal Helena, que tanto reboliço causou. Mas eu fui por esse caminho, estranho, só para te dizer que o texto se entranha. E, tal como em muitos outros exemplos do Jorge Carvalheira, fica a saber bem e a pouco. Quantas viagens, quantos mundos atravessados nesses instantes em que a Vara se abateu sobre o pássaro de metal?

  11. Valupi e Susana
    Se vocês fizessem essa análise literal a todas as metáforas do Camões, lixavam-lhe a maior parte dos poemas. Já me estragaram a deusa greco-francesa do violino. Ao menos ouçam-na!

  12. eu é só para deixar rematado no Pico da Vara

    Daniel, só para saberes que é verdade: quando aconteceu o meu encontro imediato com uma água-viva por aí, não foi por falta de aviso, as pessoas, que eu não conhecia, homens e mulheres, avisaram-me, muito simpáticos, só que eu numa de burro do continente pensava que isso eram as nossa marés-vivas de cá, e achei que vocês eram muito mariquinhas que eu nem percebia. Depois percebi: maré-viva é uma coisa e água-viva é outra.

    Mas agora também já sei, quem gosta daquelas bonitinhas cor-de-rosa com pimentinha são as lulas e então entro no mar dos Açores com cara de lula e nunca mais tive problema.

  13. Olá!

    Aqui estou para dizer que a Lia passou…
    Alguns dos teus textos já os conhecia, mas voltei a lê-los.E é sempre um ganho de tempo e um chocolate para a boca da alma.
    Gostei muito do poema de Natal de Emanuel Félix.Vai lá espreitar, quando tiveres tempo.
    Estou desejosa da chegada do meu pastor para conhecer Belém.

    Beijo

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