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Tremor de terra ou talvez não

Durante alguns dias, a terra tremera com frequência. Uns pequenos soluços, uns ligeiros solavancos, mas nisto o que se imagina assusta mais do que a realidade. Bastava um gato passear-se no telhado, uma porta mover-se com um sopro de vento, e logo se gritava “ai Jesus!”, como se já fosse tremor ou terramoto, fim do Mundo ou juízo final. António quase nunca dera por nada, ocupado no trabalho ou dormindo profundamente.
O Manuel Pimentel amarrara o cão, com uma espadana, ao pé do galinheiro, para vigiar os pintos de uma ninhada nova. Estava o dia já mais tornado em noite do que crepúsculo, e as galinhas deitadas, quando apareceu um gato mesmo na cara do zeloso vigilante, que não o fez por menos: com um grito de guerra atirou-se na direcção do inimigo rebentando a frágil amarra, saltou o curral do porco em sua perseguição, subiu para o forno, do forno para as telhas, e, como a rua era ligeiramente a descer e as casas desciam em altura numa proporção semelhante, a fuga e a perseguição aconteceram até à última, num remover e quebrar de telhas que, dentro, ecoavam como um desastre em acto. Estando os sentidos atentos a todo o aviso de tremor, as portas foram-se abrindo uma a uma, com famílias inteiras a virem para a rua aos gritos de “Louvado seja Deus!”, “Credo em cruz, Santo Nome de Jesus!” e outras jaculatórias de imprecação e temor. A Branca, mulher do Manuel Pimentel, percebendo o que se passava nos telhados de cada um, e já temendo que, sabida a verdade e denunciados os culpados humanos pelo seu silêncio comprometedor, lhes viessem cobrar a conta do prejuízo, mandou com sentido de obediência imediata: “Vai lá, Manuel, vai louvar também a Nosso Senhor, se não queres trabalhar toda a semana para pagar as telhas.”

«Branco de Quintal» de Fernando Teixeira (Baião)

Um antepassado nasceu-lhe no século XVII em Angola, no quintal dum militar holandês, Van Cappel. É o pretexto para uma digressão pela História de Angola desde os tempos da Companhia das Índias Holandesas e de Salvador Correia de Sá até à actualidade do século XXI.

Um excerto sobre o tempo de hoje: «O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado e gripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupas de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece.»

Pangeia Editores / Chá de Caxinde Edições
Prefácio de Francisco Soares
Apresentação de Rodrigues Vaz

Colocar um aquecedor debaixo da minha secretária é, para já, a melhor ideia que tive em 2008 (mas ainda estamos em Janeiro, né)

Para variar, mais três propostas videomusicais. A primeira, «Be Good or Be Gone» de Fionn Regan (algures entre Nick Drake e Donovan) prova, apesar da beleza dos cenários, que as possibilidades de um videoclipe vão muito para além da imagem. A segunda, «Sun Lips» dos Black Moth Super Rainbow (para fãs dos Mercury Rev, Flaming Lips e Air) é um valosíssimo e hilariante exemplar de uma espécie em vias de extinção: o vídeo narrativo. Finalmente, a última proposta é tudo isto e muito mais: «Jesus Saves, I Spend» de St. Vincent (a minha grande descoberta musical de 2007) é das coisas mais originais e subtilmente sarcásticas que tive o prazer de conhecer nos últimos tempos: não se deixem enganar, aquilo é puro veneno.

Atracções

– Já reparaste as vezes que te telefonam quando estás a pagar numa caixa do supermercado?

– A sério?

– A sério.

– Porque será? Se calhar as caixas atraem os telefonemas.

– Se calhar.

– Ele há cada enigma neste mundo! Ainda outro dia…

– Espera, desculpa, estão-me a telefonar.

– E não estás numa caixa de supermercado!

– Sim, que faria se estivesse… Quem fala?

Mar alto e bocas do mundo

Alfredo andou nas bocas do mundo pela primeira vez há-de haver um ano, aqui no Aspirina. Deixara para trás o mar alto de Quipert, ao pé de Nantes, apanhara o Sud-Expresso e vinha ver a mulher, à espera dele em Mira.

Embrulhado em considerandos sobre o salário que tinha, aguentou a travessia de Castela nocturna a poder de cervejas. Chegou à Pampilhosa já toldado, a muito custo encontrou a mulher, e quando lhe passou a bebedeira já estava de regresso a Quipert, outra vez a atravessar Castela.

Hoje volta Alfredo às bocas do mundo pela última vez, através do Aspirina. Há dias a tempestade apanhou-o no mar de Nantes, afundou-lhe a traineira, e em menos de meia hora já o tinha congelado.

a minha rua está salpicada de cocós de várias cores

Para não destoar e, de caminho, cumprir as quotas femininas do Aspirina, deixo aqui um um post feito à conta dos outros. Desta vez vou aproveitar-me de talento alheio que é prata da casa – da minha. A Catarina, numa série de eufemismos fumarentos, saúda a nova lei do tabaco e as melhorias genéricas que esta nova resolução trará por arrasto. Aplaudo uma delas, antevendo o fim da minhas gincanas diárias:
Suponho também que, se ainda não aumentaram, deverá estar para sair um aumento das coimas aplicadas aos donos dos cães que enchem as ruas todas de, literalmente, a merda deles. E que qualquer vizinho imediatamente chamará a polícia para multar o bicho (porque o cão não tem culpa).
Agradeço-te, mana. Ajudaste-me a despachar serviço. E logo com um tema de tão premente actualidade. A merda do costume. Perdão, dos costumes.

Procura-se post

O sempre atento João Pedro da Costa faz, no nosso Aspirina B, uma observação devastadora. Esta.

Há uns valentes meses atrás (adenda: no dia 26 de Junho de 2005, segundo um não menos atento comentador), o Eduardo Pitta escreveu um post muito engraçado sobre o poeta (e meu amigo) Daniel Jonas. Tudo a propósito da edição, pela Cotovia, do livro de poemas Os Fantasmas Inquilinos. No dito post, o Eduardo Pitta lamentava, de forma muito engraçada, a ausência, no livro, de qualquer informação biográfica desse poeta «desconhecido» que teve a suposta honra de ver uma obra sua publicada na prestigiada colecção de poesia da Cotovia (isto é, de facto, mesmo super engraçado, porque toda a gente sabe que a poesia, e sobretudo a contemporânea, é simplesmente ilegível sem qualquer informação biográfica do respectivo autor). O post, que, repito, era mesmo muito mas muito engraçado, terminava com o resultado pictórico de uma pesquisa Daniel+Jonas no Google: uma fotografia janota de um simpático e homónimo cozinheiro.

Ora, entretanto, o post desapareceu. O que é uma pena, porque, de facto, o post era, como já o disse aqui algumas vezes, mas não custa nada repeti-lo, muito mas mesmo muito engraçado. Mas talvez mais engraçado ainda seja o facto de, nesse mesmo entretanto, o Daniel Jonas ter traduzido e anotado para a Cotovia o Paradise Lost de Milton, recebido inúmeros elogios (como este) pelo livro que serviu de mote ao post muito mas mesmo muito engraçado do Eduardo Pitta e publicado mais um belo e arrojado livro de poesia pela Cotovia (Sonótono), o que me leva a supor que, talvez, ele tenha deixado de ser «desconhecido», segundo os padrões do Eduardo Pitta. HTML volant, scripta manent, dirão alguns. É. E acrescento que, por vezes, esse voo é cirurgicamente assistido. Mas pode ser suspeita minha.

Era?

Rui Ramos (historiador), hoje no Público, a propósito de Luiz Pacheco e dos nossos anos 60:

«O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado “meio” levava a sério os “grandes autores” do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões.»

«SOS! Será que estou a ficar racista?» de Manuel Geraldo

Metro de Lisboa. Um negro corpulento insulta («Querias era o banco todo para ti! Racista!») um jornalista que lhe chamara a atenção para o espaço indevido que estava a ocupar.

Manuel Geraldo, o jornalista, faz em «SOS! Será que estou a ficar racista?» (Editora CEPAS) uma compilação de reflexões e recortes de imprensa sobre uma realidade dolorosa: o decepcionado percurso do homem africano depois das independências. Um livro desiludido de um jornalista que dedicou a vida a lutar contra opressões rácicas, éticas e culturais.

Aí lemos, por exemplo, o que Mia Couto escrevia no jornal «A Capital» em 2004: «É um facto que os europeus criaram um sistema colonial e de escravatura que levou África para uma situação desastrosa, mas isso foi sempre feito a duas mãos dado que houve sempre africanos que colaboraram e participaram na construção dessa situação como um sistema. Não devendo haver por isso a visão de nós somos os puros e eles os que estragaram.»

Também em «A Capital», o cantor e compositor Fausto afirma numa entrevista conduzida por Viriato Teles: «No tempo colonial a mandioca dividia-se, agora já nem a mandioca se pode partilhar. É um povo que está completamente abandonado e o melhor é não opinar sobre os governantes. A guerra civil teve mais tempo do que a guerra colonial e, portanto, quando um povo se vê assim, a gente tem de apontar o dedo a quem está no Governo. A independência de um país concorre sempre para a felicidade, quem se vê livre do jugo de alguém tem de ser mais feliz a seguir. Com a infelicidade do povo angolano chegamos à conclusão de que não houve independência.»

Se calhar também eu ando distraído

O sempre atento Eduardo Pitta faz, no seu Da Literatura, uma observação devastadora. Esta.

“Ouvidos pela Lusa, Vítor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, e Manuel Gusmão, da Universidade de Lisboa, disseram: «Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. […] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país.» [V.A.S]; «Obra escassa, mas bastante interessante, com destaque para Comunidade e O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor […] praticou uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista.» [M.G.] Não me lembro, em vida de Luiz Pacheco, de ler uma linha a seu respeito assinada por qualquer destes professores. Mas pode ser distracção minha.

Poema de Destroços

Nota:  Este poema não é meu! E, embora seja do Eduíno de Jesus, também não é dele! Tratou-se de uma brincadeira em que sou reincidente. Do seu livro “Os Silos do Silêncio” catei um verso aqui, outro acolá, e, juntando-os, dei-lhes a aparência de um poema novo. Portanto, todos os versos são do Eduíno, a colagem é que é minha. Não mudei nada, a não ser um plural que transformei num singular.

Poema de destroços 

Lembro-me de tudo:
Um gesto a abrir,
rosas brancas na haste,
o milagre do pão, a ternura que deixaste
como um rio desliza,
num silêncio de gumes.
Os adeuses digo,
único passageiro no navio.
Levo o saibro das lágrimas,
e vou sozinho. A guitarra da chuva persiste.
Se eu tinha coração? De ouro…
Quase ia dizendo puro,
uma árvore à beira da vida.
Consumiu-o depressa a labareda
neste desolado cais.
No cais da Saudade, morre um sonho mais.
A esfumada paisagem, o porto solitário.
Depois o imenso, profundo oceano,
enquanto o céu ainda é azul.
Comerei o pão que deixaste
para a minha fome,
uma esmola para o pobre marinheiro.
Haverá um sinal?
Apenas um sinal no céu:
Os deuses que tivemos devorámos.
Coração apagado,
uma açucena na estrumeira.
Pior é morrer
culpado de alguma culpa inocente.
E a noite. A noite, por fim, indiferente.

Mochila

Levantou-se da cama, pôs a mochila e – não se diria – achou-se vestido. Não era Verão, nem nada parecido, e até sentiu um arrepio.

Na rua, as pessoas olhavam espantadas (modo de dizer, porque era bem pior) e ele perguntava-se que é que dera, agora, ao Mundo.

Chegou ao quiosque, mas já não à bica. Prenderam-no quando estava a fazer o pedido. Foi só então que reparou.

– Só por isto? – e apontou o entrepernas. – Ainda vocês não viram nada.

Apanhou dois meses por ofensas à autoridade.

Like A Rolling Stone

Este ano, não vou maçar ninguém com listas dos vídeos musicais que mais fizeram vibrar a minha corda sensível em 2007, porque cheguei à conclusão que já falei aqui de quase todos eles. No entanto, gostaria de chamar a vossa atenção para aquele que considero, de longe, o mais belo videoclipe que alguma vez vi na minha vida. Foi produzido e realizado o ano passado por Koichiro Tsujikawa para o muito etéreo «Like Rolling Stone», um tema desta obra-prima de noise-pop que é Sensuous (2006) de Cornelius. Para além do enorme trabalho que terá estado por detrás da sua produção (aquilo é tudo stop-animation com uns muito subtis efeitos de chroma-key) e do facto do som e das imagens se fundirem num todo uno e indivisível, o que verdadeiramente me emociona ao ver este vídeo (e vocês nem sonham o quanto me custa confessar isto) é conseguir identificar naquela multidão de bonecos todas as pessoas que amei na minha vida. O meu pai, por exemplo, está lá com o seu inevitável fato azul e a sua mala de viagem, a gabardine preta por cima do braço e o chapéu todo estiloso que apenas conheço de fotografias antigas. É sempre bom matar saudades. Oxalá vos aconteça o mesmo.

Esqueçam lá a péssima resolução do You Tube, e vejam lá o meu pai e as pessoas que vos são queridas aqui (Quick Time).

Arte poética para o novo ano

1.

Não me assiste divino mestre
na dura lida ao touro incerto
mas apenas este vozear terrestre
que tarde noite me mantém desperto

jamais pobre cautério de esteta
mas disciplina de pedra sua calada
condição sequer música que faz alada
a trama viscosa da prosa mais perneta

no sombrio intervalo entre erro e erro
meto suor desespero assobio de medo
por meu engenho demasiado perro
(às vezes há que afiar o esmeril a dedo)

mas no tempo da safra esquecer o berro
que isto de dores redentoras é engano ledo

2.

Tudo no poema é vero e sentido
estertor berro cãibra tudo é final
que contrabandeia a pauta qual
eco repetido ou fugitivo estampido

piéria voz decadente e glabra
que esta rupestre moldura guarda
tudo é esta rouca música em que te vens
pobre poesia que nem o pagode já entreténs

rilkes em muzot perscrutando o adriático?
rimbauds negreiros estações no inferno?
só o meu vizinho e o seu berro ciático
sempre que o calendário assinala inverno

digam lá se a poesia fez ou não progressos
enquanto com o mindinho sondo os recessos

José Luís Tavares

Até sempre, Luiz

lp-kapa.JPG

Era um homem que não conhecia o medo. Por isso metia respeito.

«O nosso primeiro e único contacto foi há bem vinte anos, e seria excessivo presumir que você hoje o recordasse. No Largo de São Roque, em tarde ensolarada, trocámos uma dedicatória e uma nota de banco. ‘Levas, mas dás vinte paus.’ Eu fiquei para sempre a ganhar.»

fvm, Maquinações e Bons Sentimentos 

(O meu livro é de 2002, o texto citado de 1995. O livrinho de LP era Comunidade, um relato sublime. Desde então, visitei LP por várias vezes. Em 1975, com vinte escudos fazia-se – calculo por alto – o que hoje se faz com dez euros. O procedimento, disseram-me, era habitual, e o preço bastante estipulado).