Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Varanda das meninas

No beijo que me deste nessa despedida
Ficou o teu tempo todo concentrado
Parte da tua alma, toda a tua vida
Em luz sem presente fez-se só passado

Havia a varanda das belas meninas
Vendo os mascarados, mimos no passeio
Depois de atirarem muitas serpentinas
Que à casa ligavam árvores do meio

O meio que agora já só tem asfalto
E os fumos dos carros, feio e doentio
Onde uma sirene me traz sobressalto
E onde chega a névoa que sobe do rio

Foi encontro breve, como de rotina
Chamavam tarefas do teu dia-a-dia
No beijo voltaste como a ser menina
E a Morais Soares foi a da Alegria

ponto de encontro

Pequeno anúncio, porque um blog também pode servir para isto:

Amiga, perdi o registo do teu número, porque quando me ligaste estava com o cartão num telefone emprestado. Já deixei mensagem no teu número de lá, mas tenho receio de que o tenhas desligado durante as férias. Se me leres, diz qualquer coisa. Fica já confirmado o almoço para o dia previsto, mas terá que ser entre o meio-dia e as duas, única disponibilidade da outra conviva.

Beijos

Silly me, não percebo nada do lifestyle

À gaja que se preze já não basta vestir bem: tem que ser fashion. Sem guarda-roupa anglófono não vai lá. Para um look adequado há obrigatoriedades que são um must.
Nesta saison, perdão!, season, que o espaço das tradicionais franco fonias se cinge à couture, as calças são skinny, os camisolões chunky, as saias pencil. Nas malhas, impera o cardigan (de sotaque inglês, presumo). E ainda não passei das primeiras páginas. Compreendo que a compra de revistas fenininas seja actualmente pautada pelo jeito que der o saco, o cinto, ou as sabrinas do brinde.

Jackpot – II

Para Confúcio Costa 

Mariana sonhou com o jackpot. Nitidamente. Letra por letra. Algarismo por algarismo. E o sonho repetiu-se na mesma noite. A confirmar.

Ela, claro, não era parva. A chance de tudo aquilo acertar era, digamos, uma em um bilião. Se não mais. Mas, então, porque havia o sonho, não lhe diriam, de ser tão insistente?

Mal abriram tabacarias e quiosques, varreu a cidade. Levava o número num papelinho. Lia-o, mostrava-o. Não dizia porquê. Mas era de caras.

O jackpot saiu a um desempregado que se interessava pelo movimento de várias tabacarias. Quando apareceu na televisão, Mariana filou-o. Se era fraca em números, era óptima em caras.

Quando, num beco a que no lusco-fusco o atraiu, lhe retirou a faca e a limpou, achou que, não tendo ficado rica por isso, alguma justiça tinha sido feita.

Uma Península, cinco selecções nacionais

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Não sou iberista. Sou mesmo ferrenhamente, figadalmente anti-iberista. A Península Ibérica é uma racionalização para pacóvios. OK, vou ser simpático: é uma ilusão óptica.

Mas uma Espanha com  quatro selecções nacionais parece-me um vizinho muito interessante. No Reino Unido, isso já é rotina.

No primeiro desafio de futebol Portugal-Galiza, ou Galiza-Portugal, lá estarei.

Leia-se mais aqui.

Coitadinhos dos pretinhos

Segundo um relatório do Banco Mundial (referido pelo director do Público no editorial de hoje), crê-se que a roubalheira dos líderes africanos para enriquecimento próprio dá ela por ela com os ‘contributos para o desenvolvimento’ saídos dos nossos bolsos.

E para esses bandidos (e alguns honestos sucessores) houve, há tempos, em Lisboa, intermináveis palmadinhas no ombro.

O teu cabelo

Mesmo quando adormeces tão cansada
O teu cabelo não repousa mas continua
Instala durante as horas da madrugada
Uma montanha no alcatrão da tua rua

Há nele toda a força dum compêndio
Transporta várias lições de geografia
Umas vezes tem o fogo dum incêndio
Noutras há nele a chuva e a neve fria

Tudo depende do estado da humidade
Os ventos, as altas e as baixas pressões
Entre madeixas que existem na verdade
E o relevo criado nas minhas emoções

Aos poucos o mundo passa ao cinzento
Tempo pleno de sombras e de segredos
O teu cabelo está sempre em movimento
Na carícia tenho o clima entre os dedos

O Requiem da Ginjinha

Perdemos a ginjinha do Rossio
E as bolas-de-berlim ao sol de Agosto.
Os pés hão-de deixar de fazer mosto
E o medronho de dar combate ao frio.

A varina, coitada, está sem pio.
A fruta unificada não tem gosto.
O jornal das castanhas foi deposto,
Mas Portugal ganhou o desafio.

Não temos quem nos ponha em risco a vida.
E se nos pesa muito qualquer carga,
Basta alijá-la logo na subida.

Já ninguém usa lança nem adarga,
Os burros são espécie protegida,
E a escola de Medrões tem banda larga.

O Estado a que isto chegou

Jorge Luís Borges escreveu um dia que os argentinos não têm a noção de Estado. Não só porque nunca leram Hegel, mas também porque a própria ideia de Estado é, para eles, uma completa abstracção. Para os argentinos roubar dinheiro ao Estado não é um crime.

Neste fim de ano, conjugam-se duas situações (uma pública, outra privada) para eu ter cada vez mais repugnância pelo Estado português, o Estado a que isto chegou. Pública é a ofensiva da ASAE contra um ponto de referência nas minhas deambulações lisboetas, em que desde 1966 pratico o ‘desporto líquido’ – como diz o Baptista-Bastos. Fecharam a Ginjinha do Rossio e fico à espera do próximo. Será o Eduardino na Rua das Portas de Santa Antão? Será o Pirata nos Restauradores? Será o British Bar no Cais do Sodré? Ninguém sabe.

Mas eu sei que a minha repugnância perante esta ofensiva de macaquear o politicamente correcto de Bruxelas me dá cada vez mais angústias no meu quotidiano lisboeta. A história privada é uma multa de 50 € que fui obrigado a pagar porque em 2004 não paguei 324 € por conta das minhas receitas desse ano. Não paguei porque sabia que ia receber, como recebi de facto 373 € no final. A máquina é tão monstruosa que não há nada a fazer. É pagar e calar. Se não pagar essa multa, podem penhorar-me a casa que eu demorei 25 anos a pagar em prestações.

Sinto-me cada vez mais argentino no sentido em que do Estado não espero nada de bom. A ASAE e as Finanças são os pontos negativos de uma realidade que me repugna também porque nada posso fazer contra ela. Agora Luís Filipe Menezes vem dizer que quer acabar com o Estado até 2009. Vamos a ver, vamos a ver. Há sempre uma esperança. Nem tudo é negro no Estado a que isto chegou.

Herdeiros das Capelas Imperfeitas

Somos de pura raça lusitana,
Herdeiros de um incerto Viriato,
De um bastardo que foi prior do Crato,
Dos que foram além da Taprobana.

Vendemos lã para comprarmos “lana”,
(“Caprina”, que é negócio mais barato.)
E já produz mais fumo o nosso mato
Do que oxigénio a nossa mata emana.

Povo de heróis, de artistas e de santos,
(Líamos assim… sábios, outros tantos…),
Em seus brandos costumes ledo e manso.

Mas ter como morada este país,
E mesmo assim viver sempre feliz,
– Oh! meus amigos, só de santo ou tanso.

Justiça cega

O rapazinho chorava. O agente da PSP que estava de serviço àquela escola de Rabo de Peixe perguntou-lhe a razão do choro, e ele respondeu: “Minha mãe não teve dinheiro para comprar velas.”

            Uns anos antes, o pai fora acusado de maus tratos à mulher e aos filhos. Entretanto, deixara de beber e arranjara emprego. Mas foi então que, numa certa noite, alguns polícias foram buscá-lo a casa para cumprir a pena de prisão finalmente decidida pelo tribunal. Quando ele já não representava nenhum perigo para a sociedade nem para a família, e se tornara indispensável para garantir o sustento desta.

            A mãe não tivera dinheiro para pagar a conta da electricidade, que lhe foi cortada. Nem o teve para comprar velas à luz das quais o filho pudesse fazer os trabalhos de casa. E ele estava com medo de que a professora se zangasse.

            A justiça é cega. Mas, às vezes, seria melhor que abrisse os olhos.

Terceiro retrato de Paula F.

Teu corpo é uma paisagem protegida
Que não se lê num livro ou na Escola
A origem do prazer e a fonte da vida
Situa-se entre as calças e a camisola

Olho e vejo as dunas, vento e areia
Condições de humidade e pressão
No teu corpo é sempre maré-cheia
As ondas trazem espuma e paixão

Mostravas os quadros de uma sala
Mas a obra passou-me despercebida
E noutra proporção e noutra escala
Mais valiosa do que a Arte é a Vida

O poema procura mas não alcança
Desenhar sentimentos em confusão
Sais pelo jardim em passo de dança
E eu fico nos corredores da solidão

Outro poema de Emanuel Félix

FIVE O’CLOCK TEAR

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos parados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher

Coisa mais triste o seu vaivém macio
p’ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio do silêncio
colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

Emanuel Félix

Sincelo

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Arranje uma temperatura francamente negativa, cinco graus é o ideal. Junte-lhe nevoeiro, preferentemente denso. Convide uma leve aragem, o suficiente para a humidade se mover. Misture bem e atire pela janela. Vá dormir. Quando acordar, ele estará pronto. O sincelo. Pronuncie «sincêlo», não vá ele estragar-se. Pegue na máquina fotográfica e ponha no seu blogue. Isto esteve hoje à vista em Amsterdão.