O Estado a que isto chegou

Jorge Luís Borges escreveu um dia que os argentinos não têm a noção de Estado. Não só porque nunca leram Hegel, mas também porque a própria ideia de Estado é, para eles, uma completa abstracção. Para os argentinos roubar dinheiro ao Estado não é um crime.

Neste fim de ano, conjugam-se duas situações (uma pública, outra privada) para eu ter cada vez mais repugnância pelo Estado português, o Estado a que isto chegou. Pública é a ofensiva da ASAE contra um ponto de referência nas minhas deambulações lisboetas, em que desde 1966 pratico o ‘desporto líquido’ – como diz o Baptista-Bastos. Fecharam a Ginjinha do Rossio e fico à espera do próximo. Será o Eduardino na Rua das Portas de Santa Antão? Será o Pirata nos Restauradores? Será o British Bar no Cais do Sodré? Ninguém sabe.

Mas eu sei que a minha repugnância perante esta ofensiva de macaquear o politicamente correcto de Bruxelas me dá cada vez mais angústias no meu quotidiano lisboeta. A história privada é uma multa de 50 € que fui obrigado a pagar porque em 2004 não paguei 324 € por conta das minhas receitas desse ano. Não paguei porque sabia que ia receber, como recebi de facto 373 € no final. A máquina é tão monstruosa que não há nada a fazer. É pagar e calar. Se não pagar essa multa, podem penhorar-me a casa que eu demorei 25 anos a pagar em prestações.

Sinto-me cada vez mais argentino no sentido em que do Estado não espero nada de bom. A ASAE e as Finanças são os pontos negativos de uma realidade que me repugna também porque nada posso fazer contra ela. Agora Luís Filipe Menezes vem dizer que quer acabar com o Estado até 2009. Vamos a ver, vamos a ver. Há sempre uma esperança. Nem tudo é negro no Estado a que isto chegou.

20 thoughts on “O Estado a que isto chegou”

  1. Meu Caro JCF
    A história da ginjinha chega a ser repugnante. Não a da que se bebia, num ritual de “com ou sem” que fazia parte do encanto, mas a da que já não se bebe. Se a ASAE exitisse na Inglaterra o na Irlanda, também fecharia cada Pub que não substituísse a madeira das paredes pelos azulejos “bruxeleantes”? E em Nova Iork? Que faria a um bar que não é lavado há décadas, porque é tradição e a malta gosta dele assim?
    Temos a vida ASAEdada.

  2. Faço votos para que os seus desejos se cumpram, pois parece-me que o que anda a provocar grandes dores de barriga e de cabeça aos portugueses são coisas muito diferentes da pretensa falta de higiene ao cubo da restauração e similares. Coisas muito mais graves.A precisar urgentemente de fiscalização à séria. Coisas do Estado e políticos portugueses.

  3. caríssimo,
    Ñão te sei responder quais dos sítios que mencionaste vão fechar, mas espero que estejam todos na metade certa da restauração nacional. Li agorinha mesmo, no Sol: zero zero nunes, ordem para fechar.
    «O drama social é da responsabilidade do Governo, não da ASAE», avisa, frio, duro. E vai mais longe, diz que Portugal tem «três vezes mais restaurantes por habitante do que a média europeia». Sabias? «A UE tem uma média de 374 habitantes por restaurante. Em Portugal são 131. Isto não tem viabilidade económica», decidiu António Nunes, presidente da ASAE.
    Ler para crer.

  4. Maquiavélicamente falando , este governo é do melhor. O senhor de Monchique não sei , mas o senhor do Cartaxo que matou a familia inteira é um facto. Dívidas , tinha ele. Violência doméstica em crescendo. Crimes em crescendo. Depressão em crescendo. Mortes em crescendo , reformas a diminuir. Gás e Luz a preços obscenos , velhotes a adoecer com pneumonias. Centros de saúde, SAPS e urgências a fechar , malta sem carro…os velhos.. os pobres..a morrer.
    Os encargos do Estado suponho que irão gozar de uma notável diminuição com a coesão social de rastos. E agora até assassinos confessos ficam em prisão domicilária.
    Higiene e segurança? “Bué” de investimentos a fazer , “bué” de empresas parasitárias a contratar , “bué” de empregos artificiais criados , aumento de preços considerável , “bué ” de IVA a entrar. E multas.
    E tudo isto para quê? Para melhorar as condições de vida dos portugueses? Nã .Apenas para manter o nível de rendimentos dos políticos da cauda da Europa ao nivel dos da Alemanha , ou França , ou até Espanha. Aprenderam e aplicam tudo aquilo da Europa que vá de encontro aos seus interesses (estão lembrados da dupla tributação no imposto automóvel , ou do reactor em Santarém?) Ainda que estes empregos de fiscalização sejam os únicos que a famosa Europa está a criar.
    E com papas e bolos enganam os tolos. O Estado é mesmo um monstro , o tal de Leviatã.
    E asseguram a reprodução do mostro com a política vergonhosa na Educação , em que não se formam cidadãos , mas sim analfabetos adoradores e respeitadores de “doutores”. Doutores da treta , diga-se.
    E ,peço desculpa, mas mais nenhum povo aguentava tudo o que vocês aguentam sem haver sangue. Alguma fobia histórica da qual eu não tenho conhecimento?
    Uma revolução com cravos? Apenas a tomada de poder por parte de quem o ambicionava , e não era o povo.

  5. Ui Asco Eto,

    Se há porcaria, não é preciso limpá-la? Eu sei que há em toda a parte. Também aqui, onde vivo (até vergonha tenho de dizer onde), há restaurantes com ratos a passearem-se. Eu tenho uma pena imensa dos ratos. Mas prefiro que não tenham cheirado o queijo que eu como.

    Besta, aquele senhor? Mas tu comes da estrumeira, é?

  6. âncio, escuta com calma:

    O argumento do estrume é já complementar no raciocínio deste antónio. O homem fez-se destemido ao cálculo das necessidades de cada um de nós no tocante a alternativas de paradeiros possíveis para o pequeno almoço da gente, almoço dos teus, janta dos meus. Diz este antónio que tens três vezes mais escolha do que aquilo que precisas e que tanta iniciativa privada «não tem viabilidade económica». Falas-me de ratos? De estrume? Mas afinal o assunto são lérias ou bactérias? Cabe agora à ASAE fechar a leitaria da esquina porque ela tem ratos, ou porque faz parte da diferença entre a média europeia dos 374 habitantes por restaurante e a média nacional de 131 que este antónio acha demais?

    E o amarelo, não achas demasiado garrido para o inverno? Porque não todos castanhos, todos iguais?

  7. 1 – O José Carmo Francisco, com a mania de querer ser diferente, não quis pagar atempadamente, como toda a gente de bem, o que devia ter pago; agora chora a multa que pagou por não ter pago atempadamente o que devia ter pago. Se o preço a pagar pela mania de querer ser diferente é apenas 50 euros então não admira que haja tantos francisquinhos com a mania de quererem ser diferentes. É barato.

    2 – Ao citadino desporto líquido diz-se na aldeia andar na borracheira. Se o José Carmo Francisco agora se queixa do Estado a que isto chegou, espere mais uns aninhos para ver o estado a que há-de chegar. Entretanto vá fazendo umas visitinhas ao dr. Barroso a vigiar o fígado. É que elas não matam mas moem.

    3 – Visitei a Ginginha do Rossio uma única vez, há vinte anos. A porcaria já então era típica. Very typical.

  8. Além de se esconder num pseudónimo não soube ler. Na verdade eu não paguei porque sabia que tinha a receber. E recebi de facto. A monstruosidade está no facto de ainda hoje ninguém ter olhado para o computador onde tudo está registado e percebido que era um absurdo tentar obrigar a pagar quem tinha a receber. É só isso; é isso tudo. Essa de pseudónimo de telenovela é que nem lembra ao Diabo. Vade retró, bicho mau!

  9. 1 – Essa “de me esconder” num pseudónimo deve ser piada. É mais viva em si a imagem de um Zeca Diabo, mesmo falsa, que em mim a mais que vaga recordação de um tal Carmo Francisco lido algures numa estante do Tempo.

    2 – Quanto ao não saber ler, veja lá que percebi-o muitíssimo bem: você é exactamente igual aos milhões de portugueses que têm a mania de ser diferentes. Não pagou porque se armou em esperto, tão só, e agora refila por ter sido multado. Quer que lhe diga como poderia ter evitado a multa?

    3 – Um indivídio com pretensões a literato deveria saber que “retro” não leva acento.

  10. Ó Zé Que Diabo, e quem corrige erros alheios não deve escrever “que percebi-o muitissmo bem” mas “que o percebi muitíssimo bem”.
    (Não se ofenda. Isto é só para provar que todos nós nos enganamos. Menos quem a gente sabe…)

  11. SEi muito bem que «retro» não leva acento mas utilizei a expressão popular da minha terra natal, na Estremadura deste jardim à beira-mar plantado. Repeti uma invocação da minha avó Maria do Carmo, por alcunha «Flauta» pois o seu pai tocava flautim na Filarmónica local. «Bicho mau» é um dos eufemismos usuais mas se fosse para o caso ficava melhor «burro». Ficava mais a carácter. Só que eu quis repetir a fala da minha avó. Só isso. Ficava melhor burro. Essa das «pretensões a literato» só mesmo para os palermas de Coimbra…

  12. José do Carmo Francisco, neto da Flauta, perde as estribeiras e o verniz e saca do insulto à míngua de argumento. Fica-lhe exposto o carácter.

  13. Quem diz Coimbra diz Sesimbra. Vai dar ao mesmo. Já noutro «blog» apareceu um assim. Paz à sua alma. Que descanse em paz.

  14. A alusão a Coimbra é de pulha.
    O jcf procurou pelo IP do Zeca Diabo e pimba: de Coimbra! Nem pensou, o mal-aventurado inquisidor, que tal de devia ao facto de o fornecedor de acesso à internet (www.interacesso.pt) cá do rapaz ser de…Coimbra! Oooooh! Aaaah! LOL :)
    Estrelinha que te guie…

  15. A expressão «palermas de Coimbra» é do Almada Negreiros, ora essa. Não tem nada a ver. Dá sempre jeito e usa-se com frequência nas conversas transviadas dos blogues.

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