Garoto sem disciplina

O nosso amigo Rui Vasco Neto brindou-nos com um garboso texto a embrulhar uma justíssima reflexão. Oportunidade para um itálico que nos honra. A sua escrita tem aqui um lugar de abundância, humor e atenção ao que mais importa.

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

Há dias tive oportunidade de ver a ASAE em acção. Nunca tinha visto, confesso, embora já tivesse ouvido relatos que sempre julguei inquinados de parcialidade. Desta vez pude ver, ao vivo e a cores, o retrato da Chicago do meu imaginário, Al Capone estático, com a garfada a meio ao ser surpreendido pela entrada fulgurante de Elliot Ness e os seus homens, com muitas fardas atrás para estabelecer o perímetro e flagrar as infracções. É mais ou menos assim a chegada da ASAE para uma operação de fiscalização.

Amante convicto de um bom queijo de cabra, painho ou cacholeira caseira, a cartilha moderna da fiscalização das actividades económicas faz-me naturalmente torcer o nariz. Acho um exagero despropositado, por exemplo, que um simples galheteiro seja agora peça proibida nos restaurantes por razões de ‘qualidade’, e a mesa da minha pescada cozida tenha de ser enfeitada com duas garrafas, azeite e vinagre. Nada do produtor, tudo do supermercado. As multas são pesadas e os fiscais têm mão leve no redigir dos autos. E fecham as casas. E os refeitórios dos hospitais. E as peixarias, cafés, restaurantes, discotecas, tudo e mais alguma coisa que não cumpra todos os preceitos legais. A acção da ASAE está na ordem do dia.

Eu cá lembro-me de Portugal a preto e branco, ainda. Era novo mas não era parvo, via e ouvia as corriqueirices do dia a dia aos outros, na escola, no café e nas conversas de rua. O envelope do fiscal, fosse que fiscal fosse, era uma instituição parecida à Rotunda do Marquês, que não se atravessa em frente, contorna-se e com cuidado. Salvaguardando algumas excepções, para todas as infracções havia um jeitinho possível. Se não fosse pela esquerda era pela direita, não era pela prima era pelo tio da vizinha de cima. A ordem natural das coisas era pai, mãe e padrinho, depois vinha o resto da família e amigos. E se nos juntávamos todos num restaurante, caro ou barato, havia um sub-entendimento geral que as casas de banho eram para evitar. O lógico ao tempo era que não estivessem limpas. A bela bifana trincada à porta da tasca, pingava no passeio todo um universo de gastroconjecturas em cada gota de gordura. E um copo mais ou menos lavado agradecia-se, que os outros estariam piores, em princípio.

Caricaturar a acção presente da ASAE é um dever cívico, na minha opinião, em prol da sobrevivência de pitéus e costumes que estão agora mais ameaçados que o lince da Malcata. O fervor paladino do Estado em certas questões é reconhecidamente patético, aqui e ali. E o ser humano, quando investido de poder (sobretudo se pequenos, um e outro) pode de facto tornar-se perigoso. Mas a verdade é que se nos sentarmos hoje a discutir este ou qualquer assunto num qualquer estabelecimento português e tivermos que ir à casa de banho, a esmagadora maioria das probabilidades diz-nos que iremos encontar um local asseado e em condições. E este é apenas um exemplo fácil. Difícil é estar internado um mês num hospital e descobrir ao 30º dia que a cozinha foi fechada porque havia lá uns bichos estranhos.

Entre-se nas cozinhas e armazéns, lojas, fábricas, talhos ou escolas e o que podemos encontrar nos dias de hoje é o retrato de Portugal a cores. Não mais a preto e branco, miserabilista e atrasado, venerando e obrigado, como quando lhe serviam merda e o país comia e agradecia. De cada vez que quero ir a um sítio onde não se fuma, exconjuro a ASAE, o governo e cada um dos deputados de S.Bento. E George Bush, também, não só por hábito como por uma questão de higiene. Mas vejo-me obrigado a reconhecer que não se pode gritar ‘aqui d’el rei’ porque ninguém faz nada e ‘d’el rei aqui!’ porque alguém faz alguma coisa. Rendo-me à evidência: a ASAE funciona. Mas tem que ser assim?

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

rvn

5 thoughts on “Garoto sem disciplina”

  1. surpresa: prazer inesperado; sucesso imprevisto;
    honraria: manifestação honrosa, graça ou mercê que honorifica.
    embatucar: calar-se; embuchar;

    pergunta: Valupi, ainda é Natal?

  2. Teria sido engraçado se a ASAE fosse inspeccionar e ver se os carneiros mortos na tenda do líder da Líbia tinham veterinário a asssitir com papel e carimbo…

  3. Rui, a lenda do milagre das rosas é uma acutilante parábola sobre este nosso Portugal. Ponham-nos flores na mesa, que o pão não faz falta. Ou limpem-nos a manjedoura, ainda que não haja palha. (Dava outro soneto satírico. Se o fizer, dedico-to.)

  4. Daniel,

    A lenda do milagre das rosas é não só uma parábola sobre Portugal como o retrato fiel do Portugal de sempre. O Portugal que chama ao D. Dinis Lavrador, Agricultor, Trovador, Poeta, fazendo dele um dos nossos reis mais simpáticos e acarinhados e, ao mesmo tempo e sem lhe mudar os cognomes, o veste de negro e o pôe atrás das portas do castelo e nas sombras dos caminhos espiando a caridosa Isabel e proibindo-lhe a esmola, obrigando-a à mentira das rosas para esconder o pão. Passar de bestial a besta no milagre do costume.

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