Assassinos do Sócrates Atacam a Eito (ASAE)

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Ler o que o povo escreve nos jornais é redentor. Salva-nos de eventuais ilusões relativas ao poder da racionalidade. No Público de hoje, alguém escolheu para as Cartas ao Director uma que ataca a acção da ASAE repetindo clichés paranóicos, e que termina assim:

Na Serra de Monchique uma brigada da ASAE sentou-se à mesa de um pequeno comerciante local, bebeu do seu medronho caseiro e depois multou-o. Dias depois o homem suicidou-se.

Que gente é esta?

As reacções à actividade da ASAE são a anedótica ilustração do nível de civismo e literacia da País. Os que temem ficar privados desta ou daquela iguaria tradicional são os mesmos que passaram décadas a lamentarem-se por não haver qualquer espécie de regulação do comércio alimentar. Todavia, perante a imbecilidade dos protestos, conclui-se que estavam era satisfeitos com as frequentes intoxicações alimentares, tranquilos com a ingestão das mais desvairadas substâncias cancerígenas, serenos face à possibilidade de serem cúmplices de ilegalidades lesivas do Estado, da saúde pública e dos direitos dos consumidores. Enfim, estavam de pança cheia com o regabofe.

Ver publicistas de nomeada a alinharem nisto é a chouriça no cimo do cozido. Ou melhor, é o caldo onde se coze a irresponsabilidade política. Porque não se deveria ter de justificar, fosse a quem fosse, a actividade da ASAE. Eles chegam com 30 anos de atraso. O que importa discutir são os critérios da regulação, pois sim, mas só após a primeira fase de controlo, no fim de um biénio de exigente fiscalização. Então, deixando a própria entidade reflectir sobre os seus erros e excessos, haveria condições para se respeitar os interesses da comunidade, desde os produtores aos consumidores, passando pelos comerciantes. Se os cidadãos quiserem, não faltam institutos jurídicos e organizações capazes de regular e aperfeiçoar a conduta do Estado.

Quem tem medo da política?

10 thoughts on “Assassinos do Sócrates Atacam a Eito (ASAE)”

  1. Totalmente de acordo.
    Acho que se criaram mais uns tantos mitos urbanos à conta da asae e esquecemo-nos do tempo, bem aqui próximo, onde a questão já nem era se a casa de banho do restaurante se podia utilizar, mas qual era a única mesa da sala onde não cheirava a esgoto.

  2. Uma carta ao director destinada a surtir efeito emocional garantido por paralisação da capacidade pensante do leitor.

    Num país em que ninguém cumpre o código da estrada e ninguém paga as multas, não me admiro nada da campanha contra a ASAE. Não me surpreende, tb, que o director do Púbico escolha publicar uma carta ao director com as insinuações reproduzidas. Acusações vagas quanto baste para o dito director não ter que responder por elas – e que certamente não verificou antes de as publicar. Não conheço nenhum caso de suicídio por efeito de multa, e esta idiotice só pode ser engolida por gente muito distraída. Muito antes de haver ASAE já havia proibição de venda de aguardente caseira, a respectiva fiscalização e a respectiva multa. Para se saber se um taberneiro vende aguardente ilegal, é preciso pedi-la ao balcão. Aqui pretendeu-se a mais repugnante insinuação: os fiscais primeiro cravaram-lhe um medronho, primeiro alambusaram-se, depois desferiram o golpe mortal com a multa no coração do pobre homem. O objectivo pretendido do leitor, não sei qual seria: talvez seja só um nicotinómano inconsolável em vésperas de ano novo, quando a ASAE vai começar a fiscalizar a aplicação da lei anti-tabaco. O objectivo do cretino do director é outro. É mais uma pequenina vingança por o eng. Belmiro não ter podido comprar a PT.

  3. O problema está nos extremos. Nem oito nem oitenta. Não à mixórdia. Não ao fundamentalismo. Tenho medo dos mixordeiros mas também tenho meod da ASAE. Parte do meu mundo lisboeta (Ginjinha do Rossio, Eduardino nas Portas de Santo Antão, Pirata nos Restauradores e British Bar no Cais do Sodré) corre o risco de desaparecer e eu um pouco com eles. É preciso ver esse lado da questão. Claro que em Bruxelas não há leitão nem colheres de pau. Isso sei eu muito bem. Mas não estou a ver o cozido à portuguesa com couves de Bruxelas…

  4. Caro Valupi, deduzo pelo que costumo ler dos seus posts, e posso estar, naturalmente, enganada, que é daquelas pessoas que adora pensar diferente. Às vezes lembra-me a Agustina que quando caiu o muro de Berlim, e toda a gente sublinhava a importância do facto, comentava que ele (o facto) não tinha importância nenhuma.
    Nos dois casos – pensar “assim” ou “asado”-, a coisa pode sempre dar asneira. Agustina disse uma parvoíce, mas como era a Agustina valeu como mais um inteligente aforismo. E acrescento: pensar diferente arrisca tornar-se tão previsível como pensar igual. Porque é fácil: é só pensar o contrário.
    Feito o desabafo (que vale o que vale e que tem o fundamento que tem – e já estou a imaginá-lo a lançar-se a ele como gato a bofe), esclareço não conhecer esse caso concreto de Monchique. Mas sei que no Algarve a ASAE tem andado muito activa. A última que me chegou foi proibirem que se abanasse o capacete num bar em Faro. Afinal, aquilo não era uma boîte, e se o bailarico continuasse a casa arriscava encerramento.
    Conheço, isso sim, o resultado da política higienista que se instalou nessa parte do país. Ainda há pouco percorri a costa de Lagos a Sagres à procura de um local à beira-mar onde nos servissem uns petiscos. A única coisa que encontrámos foi salmão fumado, bacalhau com natas, esparguete al dente e ameijoas cozinhadas em mateiga. Tudo imaculado!
    Quanto à ASAE chegar com 30 anos de atraso e vir salvar-nos de décadas de intoxicações alimentares, não sei que restaurantes frequenta o Valupi ou onde se abastece de víveres, mas no meu caso não sirvo para a estatística. Nunca apanhei nenhuma e todas as que conheço envolveram locais que não me consta que a ASAE tenha andado a dar grande atenção: as cantinas escolares. E olhe que muitas bolas de berlim comi na praia…
    Quanto ao atraso, também queria acrescentar que numa cidade gourmet como Paris, ainda há 2 verões comi ostras sentada no chão de Montmartre (eu e as minhas filhas – pelo que devia ser chamada aos serviços de defesa dos menores), além de umas couves misturadas com queijo e bacon (salvo erro) que marinavam ao lume de uma frigideira gigante sobre a qual se debruçava uma velha francesa de colher de pau em punho, que tinha, aliás, a colher de pau, aspecto de ter andado na guerra (talvez na primeira). Ninguém ficou doente, e a feira de produtos regionais lá continua todos os anos – fui lá parar por acaso mas aconselho. Têm uns Bordeaux fantásticos a copo… e nem eram de plástico.
    Tudo isto para lhe dizer que a modernidade pode ser uma coisa muito saloia. E como já se sabe, pelo menos desde São Paulo, os convertidos são normalmente os piores.
    Talvez o Valupi devesse ter explicado a esse velhote de Monchique (do povo, naturalmente) – e se é que esse caso é real – que, como cidadão, não lhe faltavam “institutos jurídicos e organizações capazes de regular e aperfeiçoar a conduta do Estado.”
    Já agora, antes de acabar. Não percebi como é que os que contestam a ASAE podiam estar «de pança cheia com o regabofe» sem nunca terem sido acometidos de, pelo menos, uma grave diarreia resultado das porcarias que se andavam a comer em Portugal antes da chegada das brigadas da ASAE.
    Ler o que o povo escreve pode ser redendor. Ler o que o Valupi escreve, idem, aspas. Mas tenha cuidado: como diziam os Monty Python, «Nobody expects the Spanish Inquisition!» Além de que, como se sabe, a serra de Monchique está cheia de tascas onde se vendem «das mais desvairadas substâncias cancerígenas». Haja juízo.

  5. Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

    Há dias tive oportunidade de ver a ASAE em acção. Nunca tinha visto, confesso, embora já tivesse ouvido relatos que sempre julguei inquinados de parcialidade. Desta vez pude ver, ao vivo e a cores, o retrato da Chicago do meu imaginário, Al Capone estático, com a garfada a meio ao ser surpreendido pela entrada fulgurante de Elliot Ness e os seus homens, com muitas fardas atrás para estabelecer o perímetro e flagrar as infracções. É mais ou menos assim a chegada da ASAE para uma operação de fiscalização.
    Amante convicto de um bom queijo de cabra, painho ou cacholeira caseira, a cartilha moderna da fiscalização das actividades económicas faz-me naturalmente torcer o nariz. Acho um exagero despropositado, por exemplo, que um simples galheteiro seja agora peça proibida nos restaurantes por razões de ‘qualidade’, e a mesa da minha pescada cozida tenha de ser enfeitada com duas garrafas, azeite e vinagre. Nada do produtor, tudo do supermercado. As multas são pesadas e os fiscais têm mão leve no redigir dos autos. E fecham as casas. E os refeitórios dos hospitais. E as peixarias, cafés, restaurantes, discotecas, tudo e mais alguma coisa que não cumpra todos os preceitos legais. A acção da ASAE está na ordem do dia.

    Eu cá lembro-me de Portugal a preto e branco, ainda. Era novo mas não era parvo, via e ouvia as corriqueirices do dia a dia aos outros, na escola, no café e nas conversas de rua. O envelope do fiscal, fosse que fiscal fosse, era uma instituição parecida à Rotunda do Marquês, que não se atravessa em frente, contorna-se e com cuidado. Salvaguardando algumas excepções, para todas as infracções havia um jeitinho possível. Se não fosse pela esquerda era pela direita, não era pela prima era pelo tio da vizinha de cima. A ordem natural das coisas era pai, mãe e padrinho, depois vinha o resto da família e amigos. E se nos juntávamos todos num restaurante, caro ou barato, havia um sub-entendimento geral que as casas de banho eram para evitar. O lógico ao tempo era que não estivessem limpas. A bela bifana trincada à porta da tasca, pingava no passeio todo um universo de gastroconjecturas em cada gota de gordura. E um copo mais ou menos lavado agradecia-se, que os outros estariam piores, em princípio.

    Caricaturar a acção presente da ASAE é um dever cívico, na minha opinião, em prol da sobrevivência de pitéus e costumes que estão agora mais ameaçados que o lince da Malcata. O fervor paladino do Estado em certas questões é reconhecidamente patético, aqui e ali. E o ser humano, quando investido de poder (sobretudo se pequenos, um e outro) pode de facto tornar-se perigoso. Mas a verdade é que se nos sentarmos hoje a discutir este ou qualquer assunto num qualquer estabelecimento português e tivermos que ir à casa de banho, a esmagadora maioria das probabilidades diz-nos que iremos encontar um local asseado e em condições. E este é apenas um exemplo fácil. Difícil é estar internado um mês num hospital e descobrir ao 30º dia que a cozinha foi fechada porque havia lá uns bichos estranhos.
    Entre-se nas cozinhas e armazéns, lojas, fábricas, talhos ou escolas e o que podemos encontrar nos dias de hoje é o retrato de Portugal a cores. Não mais a preto e branco, miserabilista e atrasado, venerando e obrigado, como quando lhe serviam merda e o país comia e agradecia. De cada vez que quero ir a um sítio onde não se fuma, exconjuro a ASAE, o governo e cada um dos deputados de S.Bento. E George Bush, também, não só por hábito como por uma questão de higiene. Mas vejo-me obrigado a reconhecer que não se pode gritar ‘aqui d’el rei’ porque ninguém faz nada e ‘d’el rei aqui!’ porque alguém faz alguma coisa. Rendo-me à evidência: a ASAE funciona. Mas tem que ser assim?

    Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

  6. oh diabos!, fiquei a lamber-me com a cacholeira, e a lembrar-me de maranhos, vá lá que tenho ali paio e presunto e uns ovos moles de Aveiro, e um monte de mon chéri’s, cheira-me que vou ter uma noite Castrol GTX

  7. ernesta e Nik, não posso concordar mais.
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    jcfrancisco, o problema está na lei. É a lei que cria as ilegalidades, como se sabe desde Lao-Tsé. Mude-se a lei, se ela não presta ou está incompleta. É esse o único lado da questão que há para ver pelas autoridades a quem pagamos para que vejam a lei e a apliquem.
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    Ana, muito obrigado. Ofereceste-me um comentário tridimensional, pleno de ângulos, perspectivas. Tentarei estar à altura, ou não demasiado afastado.

    Quanto ao desabafo, divido-me entre a vaidade de aparecer num mesmo parágrafo com a Agustina e o dever de denunciar a estratégia “ad hominem”. Começas mal, no plano argumentativo, mas bem, no plano da deformação positiva e da caridade. Só uma nota: esse “pensar diferente”, que te acaba por ser previsível, é, no teu raciocínio, uma pensar simétrico, refém do dualismo. Ora, serias mais rigorosa se lhe chamasses “pensar oposto”, como até acabas por reconhecer: “Porque é fácil: é só pensar o contrário.” Ok. Mas… a diferença está-se a marimbar para os dualismos…

    Quanto ao que dizes da ASAE, há que reconhecer o seguinte: tens razão. Espero, de seguida, convencer-te de que não tens a razão toda, nem sequer a maior parte, muito menos a melhor parte. Porque estás a confundir a tua experiência individual, onde és uma consumidora tão sofisticada e poderosa que até se delicia com ostras no chão de Montmartre, com a regulação da actividade económica relativa à segurança alimentar de um país inteiro. Que te sintas tão ou mais importante do que Portugal e respectivos habitantes, incluindo turistas, agrada-me. Mas convirás que não releva para a problemática. O legislador tem a obrigação de reduzir a probabilidade de erro, de dano, de perigo. Não compete ao legislador providenciar petiscos variados a burgueses em passeio nos algarves.

    Admitamos que a modernidade pode ser saloia. Mas a mim o que importa é que ela seja limpinha, pois não tenho nada contra os saloios; tenho é pena de já não existirem. Comidinha boa, feita com honestidade, fruto de um cuidado que começa na produção dos víveres e continua na sua confecção, que se coroa na alegria com que é servida, eis o que se quer, até pelos pós-modernos mais refinados. Sinceramente, que vês de errado em querer fiscalizar as falcatruas que se fazem contra a saúde da população ou os direitos dos consumidores? Acaso defendes que as leis não devem ser cumpridas?…

    Creio que na origem dos protestos contra a ASAE está a reunião daquilo que é o pior de Portugal. Da parte do povo, trata-se de retinta ignorância a ser combustível para a endémica demissão do compromisso com a comunidade. O povo ignora o que seja a cidadania. Se puder escolher, escolhe a anomia, na crença de que obtém ganhos privados e de curto prazo. Da parte dos publicistas, trata-se de vergonhosa traição à Pátria (ah pois, que isto das bolas de Berlim e colheres de pau é assunto de Estado). Porque é dever da intelectualidade, no trato com a Cidade, ser sol e farol. No caso, pasmo com o absurdo que consiste em se admitir a existência de leis de alcance universal, de se admitir a existência de um corpo organizado que tem como função aplicar os códigos vigentes, e levar a mal que o Estado seja eficaz! É um hino à decadência dos povos peninsulares.

    Questão diferente é a fiscalização dos fiscalizadores. Que a ASAE tenha cometido, e venha a cometer, erros e excessos, é o que há de mais inevitável. Erros e excessos cometem-se todos os dias nos jornais, nos tribunais, nos consultórios, nas esquadras, nas oficinas, nas casas, nas conversas, nos pensamentos. Um organismo tão complexo como esta autoridade, para mais num País sem cultura de autoridade pública (nem privada!), tem de errar. Mas o principal erro é o de não nos relacionarmos com a ASAE no plano dos deveres e direitos. Um grupo notável de portugueses, notável em extensão e status social, não tem pachorra para a democracia. Dá muito trabalho educar o presente e criar o futuro.

    Se queremos todos comer bolo-rei com brinde de metal, o qual poderá, não se sabe quando nem onde, vir a asfixiar uma criança até à morte, pois que votemos no partido que nos garanta essa possibilidade. E se alguém nos disser que sempre comeu bolo-rei com brindes de metal e que não foi por isso que deixou de ser muito feliz nesta vidinha, ou se alguém fizer notar que não conhece caso algum de asfixia com tal objecto em tal situação, talvez essas pessoas, dadas a essa brilhante e inteligentíssima tipologia argumentativa, devam ser aquelas em quem confiemos a nossa segurança. O mesmo para aqueles que nos digam ter crescido a respirar gasolina com chumbo, não sendo por isso que ficaram mais estúpidos. E que, portanto, nessa mesmíssima lógica, talvez não devêssemos dar importância aos brinquedos que chegam da China com chumbo, pois, afinal, o chumbo nem sequer causa comichão, quanto mais. Afinal, na sua infância, lá na terra, até havia chumbo na loiça. Ora, ora…

    Haja juízo. Mas para alguns, já virá tarde.

  8. sobre a asae, o que ja’ foi dito. e’ necessaria, precisa de ser ajustada. la’ esta’: tambem andei anos e anos de automovel sem cinto de seguranca – nao os havia, no banco de tras. ter sobrevivido nao implica que os cintos nao sejam necessarios e ate’ conheci quem tivesse morrido por nao os usar.

    agora o comentario do rvn e’ uma perola. diz tudo e com muita grac,a.

  9. Já tive inúmeras “discuções” por causa da ASAE, pois conheço algumas pessoas que trabalham em Hotelaria e criticam. No entanto eu sou 100% a favor do que eles fazem, tal como já aqui foi referido. Mas uma critica que lhes é feita, por uma colega minha que já lidou com eles, é a da excessiva arrogância.

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