Uma Península, cinco selecções nacionais

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Não sou iberista. Sou mesmo ferrenhamente, figadalmente anti-iberista. A Península Ibérica é uma racionalização para pacóvios. OK, vou ser simpático: é uma ilusão óptica.

Mas uma Espanha com  quatro selecções nacionais parece-me um vizinho muito interessante. No Reino Unido, isso já é rotina.

No primeiro desafio de futebol Portugal-Galiza, ou Galiza-Portugal, lá estarei.

Leia-se mais aqui.

60 thoughts on “Uma Península, cinco selecções nacionais”

  1. De certo modo, sim. Não no que nos toca. Mas uma Espanha com quatro selecções nacionais é uma revolução política. A Direita vai impedi-lo até onde lhe chegarem forças.

  2. Eu sou iberista convicto e também me parece interessante, as 4 selecções. Acho mesmo bom. Como adepto de ver jogar futebol, como cidadão, e até como gajo preocupado com o futuro do futebol português.

  3. À tal rotina britânica de diferentes selções nacionais correspondem também várias ligas de futebol. Seria curioso propor em referendo aos catalães, principalmente aos catalães, ter uma seleção nacional e uma liga independente da espanhola, ou manter-se na actual situação em que participam da liga espanhola normal com os seus clubes, e uma seleção catalã que já existe, que é o que o Barcelona é para grande parte dos catalães. Adivinhem qual seria o resultado do dito referendo?

    Curiosamente uma desportista catalã do barça (acho que a rapariga até era futebolista) em um programa de perguntas e respostas ao líder de Esquerra Republicana, Carod Rovira, grande defensor das selecções nacionais catalã, basca, etc, fez-lhe uma pergunta ao senhor em tom de ironia nesse sentido. O homem se pôs bastante atrapalhado, e começou a falar, imaginem só, de iberismo, de uma liga de futebol ibérica, e continuou, que não era necessariamente a independência absoluta política que ele buscava, que uma federação ibérica lhe agradava… A rapariga pelo seu lado reafirmou-se que ela não estava no barça para jogar contra o español (de barcelona) e contra o lérida, mas para jogar contra o real madrid, sevilha, valencia, etc. Estou seguro que não só os atletas mas também os adeptos são da mesma opinião.

    O caso basco talvez seja diferente, como seus clubes não ganham nada jogando na liga espanhola e andam pelas ruas da amargura, até serão capazes de dizer que com um campeonato independente sempre começavam a ganhar alguma coisa. O que talvez signifique que o governo espanhol deveria promover mais os clubes bascos, se calhar pressionando os arbitros para os ajudar a ganhar alguma coisinha aos atleticos de bilbao, aos real sociedad, etc. Quem sabe assim o voto nacionalista não descesse considerávelmente.

    Afinal pode mesmo ser que o futebol seja também ele política. Outro dia li em uma entrevista ao Mijatovic, montenegrino e director técnico do Real Madrid, dizer que na ex-Yugoslavia as brigas entre as suas nações começaram entre as claques e clubes de futebol…. Mas digo eu que jogar no campeonato yugoslavo não é tão atraente como jogar no campeonato espanhol, o que talvez permita a este último continuar tendo galegos, catalães, e até bascos, pacificamente, jogando nele com seus correspondentes clubes ainda por muitos e muitos anos.

  4. Um detalhe para os incautos, não sei se fmv se inclui ou não, mas a esmagadora maioria do voto nacionalista no país basco e na catalunha é de direita. Ou seja que a briga nacionalismo catalão ou basco contra nacionalismo espanhol é em boa parte uma briga de direitas de um lado e de outro. Afinal a maior parte da esquerda ainda guarda mesmo que de forma residual os antigos valores internacionalistas e olham com maus olhos estes instintos de minga fonte, meu monte e meu rio contra tua fonte, teu monte e teu rio. Assim que dizer que a direita vai lutar com todas as suas forças contra um futebol espanhol multi-nacionalista é não dizer toda a verdade. Pois também a direita, do PNV e de CiU, vai lutar com todas as suas forças desde o outro lado a favor das tais múltiplas selecções. A esquerda, na sua maior parte, vai continuar a ver o torneio e continuar a perguntar-se quê fazer com essa gente e seus profundos dramas existenciais.

  5. É verdade que o caso galego é distinto, ali como se trata de uma comunidade relativamente e historicamente mais pobre, o nacionalismo é de esquerda, mas também por isso é infinitas vezes menos importante.

  6. Por fim dizer que eu tal como o fmv não sou iberista, pelo menos no sentido de que não acho inteligível a dia de hoje uma estructura política a nível da península ibérica. Mas ao contrário do fmv eu não acho tanta piada aos nacionalismos-independentistas bascos, catalães e galegos, mesmo porque acho que estes nacionalismos são muito mais iberistas do que alguns pensam.

  7. Cris,
    Sou também «fidalgamente» anti-iberista. O iberismo é a ideologia dos portugueses fracos de pernas.

    Susana,
    Grande mestra.

    Rui Fernandes,
    Tem alguma razão. Quando eu disse «Direita», quis dizer o PP de Rajoy/Aznar.

    E, sim, os nacionalismos catalão e basco são direita (e até o BNG galego, com Anxo Quintana, tem apetites de centro), mas são bem mais tratáveis do que o PP.

    E, se é certo que tanto a CiU como o PNV são concorrentes eleitorais (aliás vitoriosos) do PP, você exagera quando os põe em paralelo ideológico com os Rajoy/Aznarentos.

    Paulo,
    Essa do «futuro do futebol português» em contexto de selecções nacionais espanholas, desculpa, escapa-me. Podias ser mais (como dizem os pataratas…) específico?

  8. Não me venhas com pesadelos, Fernando. Portugal é Portugal e o resto não me importa. Se até comecei a ser do Sporting no primeiro ano em que eles ficaram em quarto lugar, por que razão deverei esperar pela divisão de Espanha para a gente ganhar mais vezes aos outros ibéricos? Na final da Minicopa do Brasil, há trinta e tal anos, ouvi a meias um relato vindo do Brasil com uns amigos espanhóis de València, porque dava um Real-Valencia para a Taça do Rei. E dizia um deles que aquilo era também uma questão política, que a gente se safara neste cantinho e a estéril Castela comia de todos os outros. Mas não falava em independência e sim em nacionalismo.
    Ah, os resultados? Portugal ganhou 1-0 ao Uruguai e o jogo da taça ficou 0-0. (Ganhou o Valência… porque ficara 1-0 na primeira mão.)

  9. O caso valenciano é curioso para demonstrar a irracionalidade dos tais nacionalismos. Em Valencia o voto no PP espanhol, o tal aznarento, é maioria faz já vários anos. O oposto do que acontece em Catalunha onde o PP é quase residual. Na verdade o discurso nacionalista é muito minoritário em Valencia e o pouco que há é na sua maior parte mais anti-catalão que anti-espanhol. Chegaram a forçar, com o apoio mais ou menos discreto do PP espanhol, o envio a Bruxelas de uma versão da tal falida constituição europeia em “valenciano”, como mais uma língua nacional espanhola, ao que a comunidade europeia reclamou, já que lhe pareceu estranho que esta outra tradução era basicamente idêntica à versão catalã….

    A história dos nacionalismos regionais em Espanha serem fruto da castilla estéril chupadora carrapata cheira a mofo e não explica a história exacta destes nacionalismos. Não é curioso que as regiões mais nacionalistas, catalunha e país basco, sejam precisamente as mais ricas? Enquanto a galicia, que historicamente guarda uma identidade própria tal como as outras duas, sendo mais pobre nunca teve um nacionalismo anti-espanhol expressivo. Há uma contabilidade do que se dá e do que se receb muito pouco solidária escondida por detrás dos nacionalismos. É a outra face da conversa da castilla chupadora. Curiosamente é provavel que com a grande melhora relativa da economia galega o nacionalismo galego comece pouco a pouco a aumentar… E tal como diagnostica fmv a deslocar-se mais e mais para a direita tal como no caso catalao e basco. Ha muito mais egoismo nestes nacionalismos regionais do que a maior parte da esquerda espanhola (e nao so) aceita admitir. Mas suponho que isso é inevitavel, o egoismo deles é o egoismo de todos. People just ain’t no good. No caso deles talvez apenas exista a sorte ou o azar de haver uma história e uma língua como coartada.

  10. It ain’t that in their hearts they’re bad
    They can comfort you, some even try
    They nurse you when you’re ill of health
    They bury you when you go and die
    It ain’t that in their hearts they’re bad
    They’d stick by you if they could
    But that’s just bullshit
    People just ain’t no good

    (Nick Cave)

    para justificar a frase em inglês e para aqueles que não identificassem de onde vinha

  11. Rui Fernandes
    Gostei do poema. E, na generalidade, estou de acordo com a análise feita à questão valenciana. Aceito que chame irracional ao nacionalismo valenciano no que ele tem de anedótico, porque o é em alguns aspectos. Esse da língua é o mais patente. O “valencià” é praticamente a mesma coisa que o “català”, e na história comum daquela zona de Espanha (Aragão, Catalunha e Valência), esta foi a que menos poder de liderança teve. Quem tem conhecimentos superficiais de catalão e valenciano nem percebe que haja diferenças. Dou um exemplo. Em catalão, “a paz esteja connosco” dz-se “siga la pau amb nosaltres”, enquanto que, em valenciano, é “sigui la pau amb nosaltres”. Esta afirmação de nacionalismo que chega a ser irracional é provavelmente uma reacção ainda ao despotismo de Franco, que proibia as línguas regionais, por ele consideradas dialectos. Mas Valência, tal como a Catalunha, manteve a sua cultura e a sua língua, apesar das perseguições, que, pelo menos na Galiza, levaram até a assssinatos da parte da Guarda Civil. A sociedade cultural mais notável em Valência, para a preservação da língua, era a do Rat Penat (morcego, símbolo de Valência). Mas, na Catalunha, até as aulas da universidade chegavam a ser dadas em catalão.
    Em Portugal, temos um caso “oficial” de mania das grandezas linguísticas. Aquela de o mirandês ser a segunda língua oficial do País é de loucos…

  12. Eu pela minha parte acho que todas as línguas em espanha para alem do castelhano, basicamente diviziveis em catalao, galego e euskera merecem respeito. É uma obviedade dizer que nenhuma delas comparadas ao espanhol tem uma importancia real no mundo actual já que só servem como linguas de estudo e para serem faladas na suas zonas de origem onde essencialmente todos seus falantes tambem falam espanhol, mas isso não importa no que a respeito se refere. (O galego pode dizer que como é bastante semelhante ao portugues tem mais importancia que as demais linguas nao castelhanas de espanha e em parte terao alguma razao.) O actual governo espanhol tem realizado uma politica que vai nesse sentido, em alguns casos aquem do que seria desejavel e noutros alem… Os intitutos cervantes começam a leccionar em alguns casos as demais linguas. Me parece natural que em algumas partes do globo havera gente interessada nas outras linguas e é absurdo que o governo espanhol nao disponibilize sempre que possivel o ensino das mesmas. Seguramente que em Estados Unidos, em Nova Yorque, se encontrara quem esteja interessado em aprender qualquer uma delas, em Buenos Aires a descendentes de galegos interessados em conhecer melhor a lingua de seus antepassados, etc. Se existe o respeito pelas demais culturas que durante tanto tempo faltou em espanha eu acredito que boa parte do actual nacionalismo, que é muitas vezes, senão quase todas, um nacionalismo vingativo, se reduzira bastante.

    (O caso do mirandes em portugal ´realmente anedotico e pertencera talvez ao conjunto de absurdos extremos do politicamente correcto neste caso no campo das linguas…)

  13. Rui,

    Não há nunca um «absurdo extremo do politicamente correcto» quando se trata da tua língua materna. Aqui estamos no absolutamente irredutível campo do direito. «O teu direito de falar o português em todo o Portugal é o meu de falar mirandês em Miranda».

    Depois: a noção de «nacionalismo vingativo» falando dos nacionalismos espanhóis é bem bizarra. O nacionalismo espanhol é, ele mesmo, frequentemente, cobardemente, «vingativo».

    Mas aí está: «nacionalistas» são só os outros…

  14. Eu não defendo o nacionalismo espanhol. Eu não defendo nenhum nacionalismo. Me oponho figadalmente, mais que isso, intestinalmente, a qualquer forma de nacionalismo. Provavelmente somos diferentes neste aspecto. Eu acho estupenda defesa do mirandês, e o direito de se falar em mirandês em Miranda ainda mais. O absurdo fmv é fazer do mirandês língua oficial. Não lei o que eu não escrevi ainda que talvez gostasses que tivesse escrito.

  15. Rui,
    Ok. Não defendes o nacionalismo espanhol. Perfeito. A tua oposição a «qualquer forma de nacionalismo» é que me deixa muito de pé atrás. Essa é, desculpa, a linguagem também dos nacionalistas mais ferozes.

    Depois, falaste no «anedótico» do mirandês. Daí que te tenha recordado o «direito» de falá-lo onde é língua materna. E não vejo onde esteja o absurdo da língua «oficial». A oficialidade é, sobretudo, o poderes usá-la quando te diriges às autoridades. De Miranda e em Miranda, claro.

    De resto, o mirandês é uma língua belíssima e extraordinariamente expressiva. Mas isto já só fala aos sentidos.

  16. O mirandês não é língua franca nem sequer em Miranda, apenas talvez em alguma aldeia muito remota. A maioria da dezena de milhar de pessoas contabilizadas, nas contabilidades mais favoráveis, como “mal falantes” de mirandês na zona se expressam em geral melhor em português. Daí o absurdo de se fazer do mirandês língua oficial até mesmo em Miranda. Mas absurdo ou não é do direito deles o tornar oficial como o fizeram. Dentro dos direitos se inclui em muitos casos fazer coisas “politicamente correctas extremamente absurdas”. Por isso é apenas anedótico e não é ilegal, imoral ou o que quer seja mais. É anedótica a situação e não a língua. Como é óbvio.

    E não percebo porque te deixa de pé atrás a minha aversão a qualquer forma de nacionalismo. Não percebo mas não me surpreendo. Agora que digas que essa é a linguagem dos “nacionalistas mais ferozes” é absurdo e fui simpático no adjectivo.

  17. Rui,

    Ok. O mirandês está moribundo. Mas há quem não acredite que ele tenha de morrer.

    Depois, eu escrevi: «Essa é, desculpa, a linguagem também dos nacionalistas mais ferozes.» Não reparaste naquele delicado «também»?

  18. Ou seja, para ti o meu não nacionalismo será colaboracionista, inconsciente talvez, por coincidência discursiva do “nacionalismo feroz” daqueles que dizem que são contra todo nacionalismo quando apenas o são contra o nacionalismo alheio? A minha verdade, pareces por delicadeza admitir-la como eventualmente possível, é colaboracionista da mentira de outros? A mentira é só da culpa dos mentirosos e não dos sinceros. Preferirias que fosse mais um adepto de um nacionalismo qualquer, com seus correspondentes e adequados nacionalismos amigos e outros inimigos? Eu vou vendo nacionalismo feroz em toda parte, o que torna dificíl, ainda que tentasse, estabelecer de consciência limpa amizades preferenciais, e a verdade é que realmente a dia de hoje o primeiro lugar da corrida pela ferocidade nacionalista na península ibérica, tu bem o sabes, nem é do nacionalismo espanhol por mais feroz pontualmente te possa parecer. Há quem o vença. Mas eu continuo na minha, a pecadora mentira original, aquela que é para mim a primeira causa de aversão, está em todos nacionalismos, antes dos discursos específicos e antes das demonstrações particulares de grau de ferocidade.

  19. Não resisto a citar um pedaço de Nietzsche, muito pessoalmente filtrado admito-o. Não se trata de escolástico roubo de argumentação alheia mas apenas de compartir. Afinal não é disso que o jogo se tratava? De compartir?

    <>

  20. << Nós, os sem pátria. (…) Não, nós não amamos a humanidade; mas, por outro lado também estamos longe de ser bastante alemães como a palavra “alemão” é hoje constantemente usada, para advogar o nacionalismo e o racismo, para nos podermos regozijar com a sarna no coração e o veneno no sangue dos nacionalistas, devido aos quais os povos se trancam dentro de fronteiras demarcadas, como se estivessem de quarentena. Somos para isso demasiado desprevenidos, maliciosos, amimados, também demasiado informados, demasiado “viajados”, preferimos de longe viver nas montanhas, afastados, “fora do tempo”, em séculos passados ou futuros, só para nos poupar a raiva surda, a que certamente seríamos condenados enquanto testemunhas oculares de uma política que desertifica o espírito alemão, na medida em que o envaidece e é para além disso, uma política mesquinha: não precisa ela, para que a sua própria criação não torne a desmoronar-se imediatamente, de a plantar entre dois ódios mortais? não é ela obrigada a querer a eternização das naçõezinhas europeias?… Nós, os sem pátrias, somos por raça e ascendência demasiado variados e misturados enquanto “homens modernos” e, por conseguinte, pouco tentados a tomar parte nessa enganosa e desonesta auto-admiração da raça (…) Nós somos, numa palavra – e que seja a nossa palavra de honra! – bons europeus (…) e os nossos antepassados eram cristãos de incorfomada rectidão que sacrificaram voluntariamente à sua fé bens e vida, posição e pátria. Nós fazemos o mesmo. Porquê então? Pela nossa falta de fé? Por toda a esta espécie de falta de fé? Não, sabei-lo muito bem, meus amigos! O sim escondido em vós é mais forte do que o não, ou o talvez, devido aos quais estais doentes, vós e o vosso tempo; e se tendes de vos fazer ao mar, vós, expatriados, a isso vos obriga, a vós também – uma fé!…

    (NIETZSCHE)

  21. Rui,

    Vejo o nacionalismo como «defensivo», tão defensivo que nem nacionalismo a si se chama. Às vezes, quando tem que ser, chama-se patriotismo.

    Não quero que ninguém tenha medo do meu nacionalismo. O meu nacionalismo acabaria no momento em que alguém com ele sofresse.

    Chamamos-lhe, pois, patriotismo. É uma doença mansa, que só mata a quem a tem.

    Obrigado pelo Nietzsche.
    Fica bem. Um abraço.

  22. «Chamamos-lhe, pois, patriotismo. É uma doença mansa, que só mata a quem a tem.», ora Fernando, nem mais. É aproveitar enquanto respiramos e não se nos dá um assopro mitral…

    Mas ‘compartir’ quer dizer ‘compartilhar’? Eu gosto de compartilhar. Mas também gosto que me deixem sossegado. Mas se se trata de dar uma mão aos nossos irmãos galegos não vejo porque não, eles andam tristes, derrelictos, ou lá que é. primeiro acabamos de rematar aqui o cabrão do deficit e depois fazemos festa com os lucros do BCP

  23. Na fase antipática, o Autor diz-nos que “A Península Ibérica é uma racionalização para pacóvios”.

    Eu digo que Portugal actual é o pesadelo em que a Restauração transformou o sonho pueril de um puto rebelde, que nunca se chegou verdadeiramente a transformar em realidade senão em Aljubarrota, no Ultramar e, claro, em Camões.

    Agora, ultrapassadas que estão as fases guerreira e imperial, resta saber como se poderá melhor defender e preservar para o Futuro as únicas coisas de valor que restam desse sonho, ou sejam, a Língua e a Cultura portuguesas: ao contrário do Autor, penso que a única forma de consumar o Portugal europeu será, enfim, quando intregarmos uma República Federal Ibérica.

    Que passará a ter, naturalmente, cinco Estados, cinco línguas e cinco selecções de futebol (e etc….)!

  24. Caro A. Castanho,

    A minha absoluta repugnância pela «República Federal Ibérica» (mas os espanhóis façam do seu Estado o que bem entenderem…) casa-se lindamente com a defesa mais convicta da regionalização de Portugal, que o seu blogue tão sabiamente mantém viva como tema.

    Mas duma coisa pode estar inteiramente certo: a solução ibérica é um suicídio linguístico. Veja a nossa língua irmã, o galego. Está com a corda ao pescoço. Não queira sequer pensar em brincar com o fogo.

    Um abraço do «autor do post», linguista de profissão.

  25. 1. Só podem existir duas razões para um país com os séculos de história de Portugal estar disposto a integrar uma eventual e imaginária federação ibérica no quadro actual de uma Europa democrática e sem fronteiras econômicas ou de circulação de pessoas: a admissão de uma absoluta e mais ou menos irremediável incompetência na sua auto-gestão e eventuais desejos de mendigo perante uma Espanha relativamente mais rica. Não consigo vislumbrar outras a não ser talvez o desejo simples e puro de tornar-se espanhol o que me parece inconcebível quando ninguém em Portugal sabe nada de Espanha, não se lê autores espanhóis, não se conhece a sua música, como muito se conhece Almodóvar e uns boleros que lhe servem de trilha sonora, e já está. Ou seja, que por trás da maior parte do iberismo português actual, por menor ou maior que ele seja, está a conformidade com a humilhação. Mas mesmo a humilhação é um equívoco. Nas duas ou três últimas décadas Portugal evoluiu tanto que históricamente é esquizofrenica a mania de derrota. Que esta surja por comparação com os vizinhos, e em particular com o vizinho espanhol, é apenas sinal de superficial e nada saudável inveja, mesmo sabendo que esse tipo de situações se repetem constantemente ao longo da história em diferentes partes do mundo.

  26. 2. Espanha óbviamente ignora todas as eventuais e pontuais demonstrações de iberismo lusas. Ignora por realismo, e realismo na observação de uma sociedade portuguesa que na sua maior parte ainda não embirutou de vez, e realismo no conhecimento da sua própria realidade que já apresenta suficientes problemas territoriais para andar a brincar com mais peças no puzzle.

  27. 3. O próprio conceito de uma Espanha federal defendida muitas vezes por vários nacionalistas, muitos deles reconhecendo-se como independentistas, é um pouco absurda. Por exemplo, o país basco tem mais autonomia a dia de hoje que muitos estados de países federados, e as revisões de estatutos das várias autonomias, com destaque mediático para a catalã, para lá caminha. O estado federal que alguns querem construir em Espanha, e que em parte já está construído ou em vias disso, tem a sua verdadeira inspiração no egoísmo econômico, a cultura e língua são em boa verdade as roupas com que se veste a coisa. No estado espanhol que se vê aparecer, Portugal não teria nada para receber de um governo central sem capacidade de redistribuição de riqueza regional e com o poder reduzido a intervenções pontuais além das partes militares e de política internacional, que não são exactamente os problemas de Portugal actualmente.

  28. 4. Tudo isso são contos da carochinha. Enquanto houver uma europa econômica a idéia de uma federação ibérica é não só impraticável como um pouco tonta (estou a esforçar-me por não ofender a ninguém desnecessariamente). Não tem peso nenhum para além do absolutamente popular-anedótico generado pela conjuntura nacional actual. O que me impressiona não são as reais possibilidades de tal discussão mas a facilidade com que se chegou ao ponto de tantos falarem nela. A facilidade com que perante uma crise Portugal a transformou em condição intemporal e chegou a gerar em um par de anos tantos discursos com a desistência de ser como mote. Para isso não há remédio fácil nem rápido e tanto faz estar em Europa, em Espanha ou na west coast of europe.

  29. 5. Por fim dizer que ligar o futuro da cultura portuguesa ao futuro de Portugal é de uma enorme mania de grandeza. O futuro da cultura portuguesa faz tempo que para efeitos reais se joga muito pouco na west coast of europe mas lá do outro lado, depois do charco e mais a sul, e não parece haver razões para preocupar-se. Falo para aqueles para quem a sobrevivência deste crioulo de latim e seus subprodutos seja razão de preocupação, é claro.

  30. Pós-data: Onde está “generado” se deve ler “gerado”. Consequências da velocidade induzida pelo quadrado de entrada dos comentários e pelo facto de passar a maior parte dos dias, dias trás dias, a falar em espanhol, em última análise por razões nada políticas mas somente pessoais. No meu caso não poderia ser de outra forma.

  31. Caro fmv, linguista de profissão,

    em primeiríssimo lugar os meus parabéns, a si e aos outros Autores, por este interessante “blogue”, que apenas ontem descobri (por intermédio do CÂMARA CORPORATIVA).

    Concordo consigo que não se deve brincar com o fogo – e as minhas opiniões sobre o futuro de Portugal integrado numa República Federal Ibérica de facto não são para expor a qualquer um, por enquanto, dado que relevam de um pensamento estratégico, bastante comum na minha profissão, mas que, em Portugal, simplesmente é desconhecido não só da classe “político-jornalística”, como da própria intelectualidade, para já não falar da paupérrima opinião pública…

    Por isso encerremos por ora a discussão sobre o que poderá ser um dia (um século?…) o Portugal verdadeiramente moderno e europeu, uma vez liberto enfim dos complexos e das marcas do absolutismo, do imperialismo, do salazarismo, do analfabrutismo e do pauperismo, e concentremo-nos na sua opinião sobre o Português num contexto ibérico, quando comparado com o Galego.

    Comparado, logo à partida, é um termo absolutamente a evitar, pois como deve saber são línguas totalmente incomparáveis: o Português está vivo e (talvez) de boa saúde, o Galego esteve praticamente morto e foi artificialmente ressuscitado apenas graças ao fim do franquismo e à instauração das Autonomias.

    Como vê, se a Autonomia galega conseguiu até fazer reviver uma língua mais que moribunda (são os próprios galegos que o afirmam, não eu) e preservar e defender outras em grave perigo como a catalã ou a basca (também praticamente extinta, pelo menos na oralidade urbana), não vejo como poderia prejudicar uma língua que se fala não só neste rectângulo, como nas quatro partidas do Mundo.

    Pois é óbvio que, nessa eventual República Federal Ibérica por mim antevista, o Português (que poderia até vir a ser adoptado na Galiza, dando origem a mais uma variante local da nossa Língua a partir do Galego actual) seria uma das duas (ou três) línguas oficiais, a par da espanhola (e, eventualmente, da catalã)…

    A propósito, deixe que lhe diga que me parecem muitíssimo mais bem defendidas todas as línguas ibéricas, sem excepção, do “ataque” feroz do “inglês internacional” do que a Língua Portuguesa. Que para além de sofrer esta insidiosa e crescente miscigenação, provocada mais pela nossa vergonha de a assumirmos do que propriamente pelas consequências reais dos fenómenos mediáticos da moda – globalização, informatização, novas tecnologias e “sociedade da informação”… -, está à beira de sofrer mais um rude golpe com a ratificação do Acordo Ortográfico.

    Digo-lhe eu, que sou Engenheiro Civil de profissão (mas que, não obstante, também cursei Linguística, até ao 2º Ano, na Fac. de Letras de Lisboa, e logo no segundo ano da criação desta nova Licenciatura – se calhar ainda fomos Colegas!)…

  32. Ao Rui Fernandes:

    «1. Só podem existir duas razões para um país com os séculos de história de Portugal estar disposto a integrar uma eventual e imaginária federação ibérica no quadro actual de uma Europa democrática e sem fronteiras econômicas ou de circulação de pessoas: a admissão de uma absoluta e mais ou menos irremediável incompetência na sua auto-gestão e eventuais desejos de mendigo perante uma Espanha relativamente mais rica»

    Certo na primeira hipótese – já os Romanos o sabiam! -, quase certo na segunda: o reconhecimento de que uma das principais consequências CRÓNICAS da primeira afirmação é a deficiente capacidade para gerar riqueza sustentável e para acompanhar, em tempo útil, cada estádio de desenvolvimento dos restantes Países europeus é causa para muitos portugueses virarem crescentemente os olhos para Espanha, alguns decerto na perspectiva de mendigos, mas outros na compreensível ânsia de perceberem como é que as diferenças organizacionais e de mentalidade que nos separam “deles” podem justificar tamanha disparidade económica em Países natural e historicamente tão semelhantes.

  33. Ao Rui Fernandes:

    1. (cont.) «Nas duas ou três últimas décadas Portugal evoluiu tanto que históricamente é esquizofrenica a mania de derrota»

    Nas últimas três décadas e meia Portugal e Espanha evoluíram ambos muito. A Espanha evoluíu por “fora”, mas também por “dentro”. Penso que me compreende. Portugal, infelizmente, evoluíu apenas nos “sinais exteriores”, por isso esta sua conclusão é inválida, por falta de sustentação factual.

  34. Ao Rui Fernandes:

    «3. O próprio conceito de uma Espanha federal defendida muitas vezes por vários nacionalistas, muitos deles reconhecendo-se como independentistas, é um pouco absurda. Por exemplo, o país basco tem mais autonomia a dia de hoje que muitos estados de países federados, e as revisões de estatutos das várias autonomias, com destaque mediático para a catalã, para lá caminha. O estado federal que alguns querem construir em Espanha, e que em parte já está construído ou em vias disso, (…)»

    Pois é, se o Estado Federal “já está construído, ou em vias disso”, dizer que este conceito é “um pouco” absurdo é, obviamente, um claro absurdo.

    «(…) tem a sua verdadeira inspiração no egoísmo econômico, a cultura e língua são em boa verdade as roupas com que se veste a coisa. No estado espanhol que se vê aparecer, Portugal não teria nada para receber de um governo central sem capacidade de redistribuição de riqueza regional e com o poder reduzido a intervenções pontuais além das partes militares e de política internacional (…)»

    Nada disso. O maior bem que um Governo Federal Ibérico poderia fazer a Portugal nunca seria a “redistribuição de riqueza” gerada nos restantes Estados da Ibéria, mas sim dotá-lo, a Portugal, de igual capacidade para gerar riqueza própria, como conseguiu dotar, desde há trinta anos, as actuais Autonomias espanholas. Compreende?

    Daí que eu não subscreva a tal (condenável) atitude do “mendigo”…

  35. Ao Rui Fernandes:

    «4. Tudo isso são contos da carochinha. Enquanto houver uma europa econômica a idéia de uma federação ibérica é não só impraticável como um pouco tonta (…)»

    Bem, parece-me que Europa económica sempre houve, o que não havia era Europa política…

    Por isto esta frase, pese embora a sua diplomacia, me parece totalmente inóqua e estéril: a ideia de uma Federação Ibérica torna-se, finalmente, muito mais viável e desdramatizada precisamente sob o manto protector de uma Europa pacificada, unida e solidificada por compromissos que garantem o respeito dos Direitos Humanos e dos Povos, tornando possível o traçar de novas fronteiras, como já aconteceu na Alemanha (e pode voltar a acontecer um dia, nomeadamente com a questão da Silésia), na ex-Checoslováquia, na ex-Jugoslávia, até na própria ex-União Soviética (da qual hoje já há parcelas integradas na União Europeia!), e desvanecendo os velhos fantasmas de um passado nacionalista e imperial, que desde a Baixa Idade Média inquinaram a História da Ibéria. Mas apenas até ao Séc. XX: agora estamos livres para falar de Futuro!

  36. Ao Rui Fernandes (lamento, mas discordamos em toda a linha…):

    «5. Por fim dizer que ligar o futuro da cultura portuguesa ao futuro de Portugal é de uma enorme mania de grandeza. O futuro da cultura portuguesa faz tempo que para efeitos reais se joga muito pouco na west coast of europe mas lá do outro lado, depois do charco e mais a sul, e não parece haver razões para preocupar-se (…)»

    Já estava à espera desta, depois de tantas vezes ler, entre outras construções semânticas, “idéia” e “econômico”…

    Mania de grandeza, e não é pouca, é pretender que a Cultura do Brasil, de Angola ou até de Timor sejam Cultura portuguesa.

    Cultura portuguesa é a que se faz em Portugal, ou por portugueses. Sim, ponto final, viu bem. E digo-lhe eu, que sou descendente de alentejanos, tem muito, mas infinitamente muito mais a ver com a Cultura espanhola, do que com a do Brasil, a da Guiné, a de S. Tomé e Príncipe, ou a de Macau…

  37. Para A. Castanho:

    1. A disparidade entre portugal e espanha só é destacável a partir da última década do século passado, quer isso dizer, que tem poucos anos e vem de uma história de medidas políticas do governo português que em seu momento não foram criticadas, muitas vezes foram até elogiadas, e que anquilosaram as capacidades de crescimento do país em um momento quiçá fulcral de chegada de fundos europeus. Falo do aumento salarial e liberalização da economia que sim se realizou em espanha pela mão do governo de Felipe Gonzalez (e foram continuadas por Aznar) e que não se fez em portugal, que levou a falência das empresas espanholas “inviáveis” no final do seu mandato e ao disparo do desemprego, enquanto cavaco silva se auto-elogiava de que havia construído um oásis no panorama europeu. Pois o oásis sobrevivia de empresas baseadas em uma economia de terceiro-mundo que não estava preparada para o que ia chegar. Guterres veio depois e não se preocupou em resolver nada. O que se passa em portugal hoje é em boa parte o que aconteceu em espanha em um momento mais equivocado. A diferença actual vem deste último período em que espanha crescia contra-corrente de europa enquanto portugal acompanha o pelotão da frente do estagnamento do qual mostra ter compreensíveis maiores dificuldades de sair.

  38. 2. Realmente não sei o que quer dizer com ecoluir para dentro ou para fora, apenas suponho que possa a estar a se referir a questões estructurais da economia. Sobre isso o que disse antes é em boa parte a explicação mais importante, se bem que não se deve exagerar no avanço espanhol neste aspecto pois ainda está muito longe dos primeiros países europeus em aspectos muito importantes. O que importa realçar é que o remédio se sabe provavelmente qual é, dói, está doendo, e a portugal vai doer mais que em seu momento a espanha porque lhe chega estando já mais doente que esta estava e em período de maior escassez de paliativos, mas se sabe qual é.

  39. 3. A questão do “absurdo” tem toda razão, se bem que seja pouca glória pois se aproveita de um lapso na construção do discurso de pouca importância e derivada da impossibilidade e falta de pachorra de revisar o texto antes de apertar no botão. coisas dos comentários. De qualquer forma o que queria dizer é que situar a integração portuguesa na possibilidade de uma espanha futura federal é absurdo na medida em que a espanha federal já está aí e seus defeitos visíveis.

  40. 3.2. A dotação de capacidade faz 30 anos realizada pelo governo central espanhol às autonomias do ponto de vista de portugal se trata de retirar capacidade já que este tem maior capacidade que qualquer autonomia espanhola. ou seja que nos situamos na tal possibilidade inviabiliadde da auto-gestão só solucionável por meio de retirar capcidade de decisão. essa não é minha opinião. Outra hipótese é que esteja a ver a coisa do ponto de vista de outras zonas do país, que fossem elas mesmas autonomias independentes. ou seja que no processo de integração não só nos integrássemos como nos desintegrássemos dentro de espanha. acredito na possibilidade, se bem tenha enormes dúvidas de que o problema actual mais importante seja esse, que uma regionalização em portugal fosse saudável mas acho que ela pode acontecer sem integração em uma federação ibérica, esperar desta integração tal coisa é que seria absurdo, pois ela apenas reduziria os poderes disponíveis para regionalizar e quase obrigaria portugal a não se regionalizar de facto, no sentido em que nem a galiza, nem catalunha, etc, estão realmente internamente regionalizadas. entende?

  41. 4. A. castanho não imaginava que não percebesse que europa económica se refere a economia europeia livre. O que não há ainda, e cada vez duvido mais que algum dia haja, é precisamente uma europa política. Aí te equivocastes todo e não somente em parte como noutras partes. O redefinir fronteiras é realmente sempre possível, na verdade se fez ao longo de toda a história em toda parte, e é verdade que a democracia pode possibilitar redesenhos de fronteiras mais indolores mas por outra parte os torna também mais dificilmente justificáveis.

  42. 5. O que é erro de palmatória é não saber distinguir acentos de semántica…. Mas pronto, é verdade que vivi uns quantos de anos no brasil e isso se nota sem grande incómodo da minha parte. peço desculpas pelo meu descaramento mas alguma coisa de bom devo ter ganhado dos brasileiros, ou isso espero. é verdade que a dia de hoje a cultura dos países colonizados se distanciou da portuguesa actual, sendo que em inumeros aspectos eles estão mais proximos de traços da nossa cultura passada que nós. por mais que lhe doa há até quem diga que camões falava com sotaque bastante brasileiro… mas não exagere nas semelhanças entre cultura espanhola e portuguesa. mesmo que em zonas fronteiriças um alentejano tenha muito em comum com um extremenho, digo-lhe eu que vivi em qualquer um dos dois lados que um alentejano se entenderá infinitas vezes melhor com um brasileiro. por causa da língua e não só. esta língua e este não só também são cultura e para nada erudita.

  43. 5.2 Eu não sou descendente de alentejanos (que eu saiba…) mas sou de gente do douro, da beira baixa, quase do ribatejo, nasci em angola, vivi no brasil e vivo em espanha. Digo isso no caso de que aquela “tua boca” dos descedentes alentejanos e dos acentos brasileiros tivesse sido enfiada como credencial de autoridade para a discussão, se não foi desculpas e apaque de sua cabeça o que acabei de dizer porque não vem ao caso, ou atñe vem mas só para aqueles interessados em descortinar psicologismos por detrás do meu anti-nacionalismo.

  44. Uma última coisinha. O cosmopolitismo português é um dos aspectos em que mais claramente portugal se destaca com relação a espanha. A abertura a falar outras línguas e interessar-se por outras cultura é para mim uma enorme qualidade estatística média dos portugueses principalmente nas gerações mais jovens. Espanha na sua maior parte não é tanto assim e isso também é um problema, identificado aliás pelo próprio governo que começa a financiar cursos de formação de línguas nas empresas, e também na sociedade com a moda inclusive em centros de ensino públicos de currículos bilingues. O outro lado da questão é que a cultura nacional espanhola é infinitas vezes mais forte ou mais resistente a influências externas que a portuguesa. Não há almoços grátis. Os países com culturas fortes altamente influenciadores e menos influenciáveis são tendencialmente menos cosmopolitas. Cada um fica com o lado da moeda qualidade-defeito/defeito-qualidade que mais gosta. Neste aspecto a minha opinião é que portugal leva vantagem, mas isso sou eu e meus botões.

  45. Caro Rui Fernandes, caramba pá, você é economista? Ou merceeiro? É que vê tudo sempre e só sob uma perspectiva contabilística (e, além do mais, escreve rápido “pa caraças”…)!

    Não sei se tenho fôlego e poder de síntese suficiente para lhe replicar, mas cá vai.

    Se vive em Espanha, então certamente saberá muitíssimo bem ao que me refiro quando falo em evoluír “por dentro” (metáfora algo rebuscada, concedo…). Significa precisamente aquela evolução mental, imaterial e não quantificável (não tem a haver com “défices”, “índices” ou “ciclos”, mas sim com a superação de atavismos e bloqueios ancestrais): olhe e veja com olhos menos “contabilísticos” a realidade espanhola actual – e olhe que “há muito mais vida em Espanha para além da sua Economia”… – e compare com a portuguesa. Veja as diferenças na Justiça, por exemplo. Veja as diferenças na Educação. Na Saúde. Mas sobretudo atente nas mentalidades. Na forma urbana e distendida como se vive em Espanha e na forma crispada e deprimente, ou arrogante e mal-criada como os portugueses se tratam. Veja as diferenças (mínimas) entre os espanhóis urbanos e rurais e tente perceber o que é uma verdadeira democratização da cultura e do nível de vida. Depois compare com Portugal.

    Conhece Portugal? Já vi que veio de Angola para o Brasil e que presentemente assentou arraiais em Espanha. Se não conhece, aconselho-lhe vivamente uma visita à Pátria. Não à “west coast of Europe”, nem ao “Allgarve” – isso pode sempre conhecer através da televisão, ou da “literatura” que mais se vende por cá -, mas mergulhe mesmo na nossa realidade, tome um banho na Caparica, almoce numa tasquinha em Corroios, frequente uma tertúlia em Santa Catarina, vá ao cinema ao “Corte Inglês” e às compras ao “Colombo”. Jante numa “pizzaria” de Agualva e assista a um concerto na Casa da Música. A seguir tome um copo num bar de Esposende.

    Depois tente alugar uma casa no sítio mais pretendido de Portugal: perto do seu local de trabalho! Se o conseguir, será um felizardo…

    Já se considera pronto para navegar no pretenso “cosmopolitismo” português, o tal que nos permite ter políticos e jornalistas que falam muito bem o “inglês internacional” nos mídia (linda palavra anglo-latina…)? Então decerto irá descobrir que ele pára abruptamente nos limites físicos e mentais do eixo Lisboa-Cascais e da Foz do Douro: chegados a Odivelas ou à Baixa da Banheira já estaremos mergulhados no provincianismo suburbano mais americanóide que se possa imaginar; e se conseguirmos atingir a Brandoa, S. Julião do Tojal, ou as cercanias da Porcalhota ou de Ramalde, na mais pura realidade terceiro-mundista que se pode visitar em toda a Europa!

    Ainda considera Portugal mais cosmopolita do que a Espanha? Então aproveite os seus fins-de-semana para conhecer Barcelona, os Museus de Madrid, o Metro de Superfície (e a Catedral) de Sevilha, a Jovem Orquestra Nacional de Espanha (JONDE), as infra-estruturas de esqui dos Pirinéus ou da Serra Nevada, ou seja o que for que se relacione com o Turismo e sinta-se justamente envergonhado de ser português.

    Chegados ao parágrafo 3.2 (o do “entende?”), deixe-me esclarecê-lo que defendo, obviamente, a Regionalização para Portugal como medida imediata (e urgente), enquanto que a perspectiva de uma União Federal Ibérica apenas a coloco num nível de evolução a longo prazo, nunca para discutir no futuro próximo, por claramente inoportuna e prematura. Portugal, como Estado regionalizado (Regiões Administrativas, não Autónomas), não desapareceria nessa eventual União, apenas aceitaria voluntariamente integrar-se num Estado Federal de nível superior, no mesmo plano de igualdade dos outros Estados ibéricos que viessem a existir nessa altura (e para os quais aponta com indisfarçável nitidez, presentemente, a evolução das Autonomias basca e catalã).

    Quanto à “Europa económica livre” e aos “equívocos de todo e não sómente em parte como noutras partes” confesso que me falece o ânimo para abordar. É deixar passar e enfardar esse “frango”…

    Se são justificáveis ou não novas fronteiras em Democracia, então não se percebe como é que, com a implosão das Ditaduras comunistas, explodiram tantas rectificações de fronteiras na Europa Central e Oriental, ainda longe do seu fim (Kosovo, Moldova, quem sabe a Transilvânia húngara, um dia…). Até na Bélgica a questão é actual…

    Eis-nos agora no patamar dos erros de palmatória: desengane-se com a rapidez da escrita, sei bem que os acentos denunciadores são complementares das típicas construções gramaticais que usa, não fazem parte delas (mas admito que a minha redacção não foi clara). Em todo o caso, longe de mim invocar esse aspecto como credencial de autoridade para a minha argumentação (para evitar quaisquer dúvidas, então retiro mesmo tudo o que disse a respeito da sua forma de escrever).

    E não me dói absolutamente nada que o Camões fale com sotaque brasileiro (se bem que me pareça que devia ser bem mais próximo do castelhano, ou do leonês, do marroquino até…), ou com pronúncia da Cochinchina (influências da Dinamene?…). Agora não me venha é com essa de que alentejanos, beirões ou transmontanos estão culturalmente mais próximos dos brasileiros do que dos espanhóis: podem não se entender bem na língua, mas entender-se-ão infinitamente melhor no viver e no pensar. Ou pensa que eu não lido diariamente com brasileiros em Lisboa? que não me sinto, sinceramente, bem mais próximo de romenos e de ucranianos do que da sua “tropical” mentalidade?

    E não me interprete mal: quem me conhece na blogosfera já sabe que a minha mulher descende de luandenses (negros e mulatos) e que, portanto, o nosso Filho é um belo mestiço…

  46. Primeiro amigo, vivi muitos anos em Portugal, uns quinze anos, estudei em Lisboa, conheço Portugal bastante aceitavelmente, cheguei a viver un ano no norte, e não foi no Porto foi quase em tras-os-montes… Não sou mulato, talvez que a meu pesar. Ou até sou se tiver em conta uns prováveis ancestrais bereberes por linha paterna, mas se calhar isso é querer guardar demasiado mundo no sangue.
    É verdade Espanha tem mais museus mas não deixe confundir, que a maior parte dos madrilenhos nunca foi ao prado… Lá estas tu a querer ser erudito e depois diz que nao…. Os espanhóis mesmo em Madrid, barcelona, sevilha (cidades que conheço bastanete bem, chegando a viver um ano em madrid) não falam inglês, se fizeres uma amostragem de jovens das mesmas idades nas grandes cidades espanholas com Lisboa e Porto, os espanhóis ficam realmente mal parados.
    A assimetria litoral-interior portuguesa é algo que espanha não conhece, pois antes de mais tem muito mais interior que portugal, e não só em territorio mas também em habitantes e cidades importantes e desde muito tempo. Como exemplos maiores madrid e sevilha são cidades razoavelmente interiores. Ha zonas em Espanha mais deprimidas, basta ter em conta que muito proximo da fronteira com portugal no norte existe um lugar, fabuloso por outra parte, chamado ancares unico sitio da peninsula iberica onde ate pouco mais de uma decada haviam muitas pessoas que viviam em condiçoes pre-romanicas. E muito engraçado como uma vez um velhote, que doze anos atras dormia ali numa dessas casotas ao mesmo nivel e a escassos metros de porcos e mais animais, sem parede de por meio, me disse com o maior descaramento que nos os portugueses estavamos muito atrasados… engoli em seco e sorri amigavelmente que o respeito pelos maiores é muito bom e da saude. é incrivel o que uma decada de bonança economica pode fazer por um pais e por uma gente. aconteceu a espanha pode acontecer a portugal. e se acha possivel que em uma decada se mude mentalidades nacionais tanto assim, entao tambem pode acontecer com portugal. mas olhe que nao vai ser por ser autonomia de uma iberia imaginaria que isso vai acontecer. quanto ao camoers falar em sotaque brasileiro, nao sou eu que o digo (sei la eu que sotaque tinha o caolho) é academia portuguesa… como é que eles sabem nao me perguntes. o nacionalismo é sempre tragico, ver tanto empenho pessoal em convençoes historicas é para mim das maiores tragedias que nos é dado assistir. ali esta a semente de tudo que de realmente criminoso depois se pode fazer em seu nome. o nacionalismo de resistencia a tirania é o unico que pode ainda ter algum sentido moral para mim. por isso as democracias retiram do meu ponto de vista justificaçao etica aos nacionalismos, se bem que alguns casos que cita se tratam para mim de nacionalismo de resistencia mais que do outro… a tua inspiraçao para revisar fronteiras tao anti-nacionalista, mesmo que te custe admitir, me faz graça mas sei como tu sabes que é totalmente utopica. que se sinta mais proximo da mentalidade romena e ucraniana que da tropical mentalidade brasileira é demasiado triste e tragico para que eu seja capaz de acreditar ser verdade… por fim por mais que tentem eu evito sempre sentir-me envegonhado ou embevecido de “ser portugues”, eu sou muito pouco isso e muito mais que isso.

  47. as diferenças em espanha nao sao tanto entre litoral e interior sao entre regioes e sao maiores que em portugal, imagine-se. tente comparar catalunha ou pais basco com extremadura, e depois faça a comparaçao entre o norte e lisboa, vera quem ganha. a sua conversa de que em portugal as pessoas sao grosseiras umas com outras, etc, corresponde a um portugal que graças ao deus que nao existe eu nunca conheci eolha que tento ir a portugal uma boa meia duzia de vezes ao ano, passo ferias, etc. assim que nao é acontecimento recente e deve ser do lugar. mude de casa, ha muitos lugares com gente boa em portugal, tal como em espanha. nao vejo tanta diferença ai. te vejo dermasiado deslumbrado com espanha, deveria te levar a conhecer uns madrilenhos que eu ca sei, ou por-te a lara em castelhano com uns bascos de san sebastian que eu tambem ca sei, mudavas de opiniao em dois tempos amigo. mas fazias mal, pois ha gente boa e ma dos dois lados da fronteira. o que eu continuo sem entender é que digas que te identificas mais com romenos e ucranianos que com brasileiros. nada contra romenos e ucranianos, mas é que estive na russia, estive no brasil, e nao entendo…

  48. Digamos que poderá haver algum exagero da minha parte quanto à questão dos eslavos, mas o facto é que há exagero ainda maior na ideia feita, ou lugar-comum, de que o nosso povo irmão é o brasileiro. Não é, é o espanhol, mas o nosso complexo de inferioridade se calhar há-de sempre conseguir negá-lo, como Pedro negou a Cristo, contra as mais óbvias evidências.

    Conheço Espanha só como turista e tenho alguns (poucos) amigos espanhóis. Nunca fui ao Brasil, se bem que tenha uns quantos amigos brasileiros e muitos familiares radicados lá, sobretudo em S. Paulo.

    Mas já vivi o suficiente para perceber que não é apenas a língua que se fala que afasta ou aproxima os Povos, se bem que tenha, claro, uma grande influência. Sinto-me perfeitamente em casa na Espanha ou na Itália, como me senti estranhamente também no México. Até posso dizer que achei a Turquia e a Roménia muito mais parecidas com Portugal do que imaginava (lembraram-me até bastante o meu Alentejo dos anos sessenta…)! Pelo que me contam os meus amigos que viveram no Rio, ou que visitam a Baía e o Natal regularmente, ou os familiares da minha consorte que me falam de Angola, não sei se me sentiria por lá tão em casa como me senti nestes Países que citei…

    E a verdade, nua e crua, é que em Portugal se preferem os empregados (e os VIZINHOS) espanhóis, ou mesmo ucranianos, ou romenos, aos brasileiros. E não é só nas profissões “eruditas” (médico, músico…)!

    Quanto aos nacionalismos, aí estamos, por uma vez, totalmente de acordo! Só trazem consigo mal e mais mal. E mesmo o tal “nacionalismo” de resistência de que falas para mim tem um nome diferente, chama-se PATRIOTISMO! Que já acho um sentimento muito salutar.

    Ao contrário do que provavelmente pensas, eu próprio me considero muito patriota (e não acho, obviamente, que tudo deva ser visto à luz da Regionalização, que disparate…), se bem que o meu patriotismo se possa descrever com esta lapidar frase de um jovem húngaro (beneficiário do programa “Erasmus”), que um dia tive que ouvir e engolir em Budapeste: “Portugal é um País belíssimo, os portugueses é que não o merecem”…

    Muitos deles, pelo menos…

    Um abraço,

    António das Neves Castanho.

  49. ja me estragastes a piada antónio, ia dizer que não deverias estranhar a “forma crispada e deprimente” com que se tratam os portugueses entre si quando os vês tão parecidos com os romenos e os ucranianos… que a coisa se resolvia com a imigração de mais brasileiros… eu acho um pouco desagradavel o teu desprezo pelos brasileiros, sou sincero, mas isso nao quer dizer que te considere desagradavel, o grau de simpatia do teu discurso tem melhorado nos ultimos comentarios. sera que te estas embrasileirando? eu trabalhei com uns quantos brasileiros em portugal (sai do brasil demasiado jovem para ter experiencia laboral com eles lá), a impressao com que fiquei deles foi de uma gente preparada, eficiente e trabalhadora, pelo nao menos que outros portugueses que la trabalhavam. mas era uma area “erudita” (nao eram medicos, nem musicos…), o problema, suponho, da tua comparaçao é que comparas imigrantes com formacao totalmente distintas, ja que es engenheiro civil, suponho que falas de trabalhadores da construçao civil, e é um luxo ter realmente alguns trabalhadores vindo de leste com a formaçao que possuem a “trabalhar nas obras”. os brasileiros com a mesma formaçao em geral nao emigram ou quando o fazem é em geral para trabalhar na area em que estao formados, ou se vao para ionglaterra, estados unidos, etc, para aprender a lingua, como os casos que conheci. assim que comparas coisas distintas, na romenia também existem muitos “ciganos sem formaçao e sem vontade de trabalhar”, e o digo com o menor tom de condenaçao possivel, e na ucrania tem muita “gente bebada que falta ao trabalho”…os lugares comuns sao um perigo e lugares indignos de colocar pessoas dentro. nao fostes ao brasil mas deverias ir, estou seguro de que vais gostar. brasileiriza-te, ou seja, camoniza-te. de uma coisa aviso-te ja, os espanhois sao muito mais parecido com os brasileiros do que possas pensar, e isso em geral é reconhecido tanto por brasileiros em espanha como por espanhois que conhecem o brasil. os negros deram aos portugueses no brasil em parte o que os ciganitos deram aos paios em espanha, a alegria de viver que os indios nao tiveram para dar, pelo menos na mesma dimensao, na maior parte da america latina. foi jorge amado que disse uma vez que os negros foram ao brasil para salvar-lo do suicidio colectivo nascido do encontro entre a tristeza lusa e a tristeza indigena. mas isso tambem sao lugares comuns, mas pelo menos sao lugares comuns mais bonitos desde onde partir para conhecer o outro, que no final se revela sempre muito mais parecido conosco do que pensavamos.

  50. Bom , deixo-vos aqui a opinião de uma galega. Suponho que muitos de nós( e por isso os partidos independentistas serem pouco votados) galegos , adoram afirmar na Espanha a sua identidade galega. Mas não nos importamos nada de a nível internacional sermos espanhois da Galiza. Mesmo que em casa andemos com essas conversas , não gostamos nada que outros discutam assuntos que só a nós dizem respeito( e por isso , repito , os partidos independentistas nunca ganharam em lado nenhum). E quanto mais forcinha façam de fora , menos a gente o vai querer. Dividir para reinar é ditado conhecido. E pronto , eu percebo que em vez de um grande vizinho , tinham vários pequeninos , mas a gente compara-se é com França e não queremos ter menos território que ela .
    Agora , os do Norte de Portugal são bem vindos à Federação Ibérica , dizem carago e tal , e têm ainda uma ligação à terra. De Coimbra para baixo ,nem pensar , depressão pura. Fado na Espanha, choradeira? não estou a ver.
    De futebol não percebo nada. Mas ainda me lembro quando o Celta meteu 7 golos ao Benfica.

  51. E a única coisa que diferencia a Espanha de Portugal é que nós não perdemos tempo a olhar para o vizinho. Entre um producto espanhol e um inglês , a gente escolhe o espanhol , entre um andaluz e um galego , a gente escolhe um galego. Temos um certo orgulho e carinho pelos “productos del pais”, e é traição pura escolher outros. E já agora , quantos ingleses falam bem espanhol? Era sá o que faltava , aprender a falar bem a língua de quem não sabe falar a nossa. Quando os ingleses falarem espanhol , a gente aprende o inglês , está prometido.

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