A Fome de um Duque

Se as casas vazias não se queixam, nem os gatos parecem estranhar muito ausências a que não estão acostumados, os cães ficam aparvalhados, andam como órfãos, vagueando à procura dos donos e de comida.

O pastor estava no seu almoço de pão e presunto quando viu o Duque. O animal andava vagarosamente. Parou a uns dez passos à sua frente, ficando a seguir com o olhar os movimentos da mão entre a mesa de pedra e a boca. Chamou-o: “Anda cá, Duque.” Ele chegou-se-lhe sem pressas, que talvez nem pudesse, e ficou com a cabeça quase encostada à sua perna direita, à espera. O pastor partiu metade do pão e do presunto, para lhe dar bocadinho a bocadinho. O cão mastigou cada pequeno naco de presunto de um lado, depois do outro, saboreando a fome. Engolia batendo várias vezes os maxilares, fazendo uns estalidos secos com os dentes, de beiços muito molhados e ligeiramente despegados, como que tomando gosto à saliva.

Duque não tinha genealogia. Era um rafeiro cuja nobreza não ia além do nome, uma ironia. Mas tinha carácter. Seria incapaz de deixar os donos como quem abandona um cão.

11 thoughts on “A Fome de um Duque”

  1. Que farei com estes comentários?… Acreditar cada vez mais que somos mesmo um bom grupo de amigos, tanto os da casa como os convivas.
    Envolvo a todos num forte abraço.
    Obrigado.
    Daniel

  2. Este texto, este retrato, é uma pérola. Daniel, amanha-te lá como quiseres, mas promete à malta que irás trazer mais destas belezas de encher a alma.

  3. Valupi, sempre que eu conseguir algo razoável, prometo que não o negarei aos amigos. Tanto mais que gosto de a Cláudia gostar de mim de vez em quando.

  4. «Não te cansa, o brilhantismo?», pergunta o Rui. Eu acredito que o brilhantismo não canse, e antes – ao próprio – assuste. Quantas vezes chegarei lá, ainda?

    Mas isto não era para o Daniel ler.

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