O José do Telhado não se chama João

Vivo em Lisboa desde 1966 e tenho tido sempre o meu trabalho e a minha casa por aqui: Rua do Ouro, Chiado, Camões, Bairro Alto, Santa Catarina. O mesmo é dizer livrarias, antiquários, editoras, leiloeiros, alfarrabistas. A Moraes, editora dos meus primeiros livros, era no Largo do Picadeiro e passou para a Rua do Século. O jornal onde comecei em 1978 (Diário Popular) era na Rua Luz Soriano. Mas ia nos alfarrabistas. Tem chegado gente nova ao ramo com os seus telemóveis, faxes, E-mails, blogs, sites, boletins. E alguma prosápia muito juvenil. Há dias tive nas mãos um boletim bibliográfico que, embora datado de Dezembro de 2008, é de Dezembro de 2007 até porque estamos em Janeiro de 2008 e ainda não chegámos lá. Um dos livros referidos é sobre a revolta militar da Ilha da Madeira em 1931 mas, por óbvio lapso, o autor refere que a dita revolta procurava «instaurar» a I República. «Instaurar» não; quando muito «restaurar» porque ela já tinha sido instaurada em 1910. Mas onde me pareceu que o absurdo se tinha instalado de armas e bagagens foi nas referências ao Zé do Telhado aqui referido como João do Telhado. Não, não pode ser. José Teixeira da Silva não se chamava João. Nascido em Penafiel no ano de 1816, José Teixeira da Silva veio a morrer em Angola (Sanza) para onde foi degredado pelos muitos assaltos da sua quadrilha formada em 1849. Antes tinha recebido a Torre e Espada por ter salvo a vida do Visconde de Sá da Bandeira. Pelo meio aparece ao lado de Camilo Castelo Branco nas cadeias do Porto e no livro «Memórias do Cárcere». Mas sempre como José Teixeira da Silva, nunca foi João. Por mais voltas que dê um qualquer boletim bibliográfico editado em Dezembro de 2007.

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