Que pena ter deixado de fumar

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Sou um fumador que não fuma desde Abril de 2006. Aproveitei um estado gripal e gripei o consumo. O vício ficou, e para sempre. Por isso ainda levo um isqueiro no bolso, ao sair de casa, para nunca me esquecer que continuo fumador. E por isso deixei os maços abertos onde eles estavam, onde eles estão, para me recordar da facilidade com que se atraiçoa a vontade. Mas só voltei a pegar num cigarro há uns meses, quando sonhei que estava a fumar. No próprio sonho, experimentei a delícia de fumar e o arrependimento por ter estragado mais de um ano de abstinência e castidade pulmonar, seguido do alívio por me saber a sonhar. Tudo isto a dormir. Ou tudo isto para me acordar.

Os que se opõem às restrições da lei do tabaco são, sem excepção, mentirosos. Podemos até usar esta questão (como outras, esta no caso) à laia de estetoscópio para diagnosticar o carácter de alguém. Tendo em conta que não há uma única razão que torne bondosa a exposição involuntária ao fumo do tabaco, aqueles que não se importam de contaminar o empregado que lhes serve a bica, por exemplo, são uns trastes em quem não se deve confiar. Porque eles não querem saber das consequências, não se relacionam com o empregado enquanto pessoa, apenas como meio para o café lhes chegar aos beiços. Vai daí, quando se puxa do cigarro ao balcão, ou no interior do estabelecimento, cada fumador é um convicto representante do solipsismo. Para logo a seguir, se o seu carro tiver a saída barrada por um estacionamento à má-fila, se anunciar fogoso procurador do Estado de direito. E ao chegar ao emprego, calhando não poder fumar no espaço onde trabalha, o fumador assume-se anarco-sindicalista, maldizendo a democracia vendida ao fundamentalismo higienista e antecipando a extinção de todas as liberdades para daí a duas semanas. Sim, estamos a lidar com filhos da puta. E eu fui um deles.

A problemática do tabaco tem de análogo às problemáticas da droga, SIDA e segurança rodoviária o facto de se ter informação a mais. Toda a minha gente sabe de tudo, e os que não sabem é porque não querem. Há mais de 25 anos que somos embrulhados em dados, factos, avisos, conselhos, números, nomes. Qualquer indivíduo com 12 primaveras, e frequência escolar, sabe que o tabaco provoca doenças fatais, que a droga cria seres sub-humanos, que o preservativo deve ser uma segunda pele e que quando o papá acelera na estrada, e se irrita por ir colado no carro da frente, prego a fundo, esse bronco merece ir para o xelindró e ficar uma temporada a pão, água e pau de marmeleiro nos costados. Mas o conhecimento não salva, para espanto dos iluministas de fraca amperagem.

O que salva é a educação. Porque a educação foi inventada para se lidar com o desconhecido. Houve até um fulano, hoje com mau nome, que resumiu o essencial da educação no saber que não se sabe. Há muito português sem educação, e alguns destes são notáveis publicistas que escreveram contra a Lei do Tabaco. Vêem-na como manifestação de tenebrosas forças políticas porque se estão a cagar d’alto para a política. A política diz respeito à vida comunitária, e eles têm horror à comunidade, vivem em grupos isolados e sabem-se financeira e socialmente privilegiados. Por isso usam a comunicação social como instrumento de catarse para as ansiedades e depressões próprias. É altamente terapêutico, e ainda se ganha dinheiro, convites para a Gulbenkian, almoços grátis e gajas entusiastas com muito tempo livre. Mas pela educação dos outros, nada.

Quando fumava, muitos anos antes de imaginar a vigência do actual quadro legal, já me obrigava a tentar fumar em espaços fechados apenas quando não-fumadores estavam ausentes. Sempre que podia, ia fumar ao ar livre. Até porque gostava mais de fumar a céu aberto, por várias razões. Claro que acabava por fumar em todo o lado, restaurantes, bares, salas de espera, corredores, com alguma regularidade, pois quando se fuma 1 maço por dia, ou mais — o que leva a uma média de 1 cigarro a cada 45 minutos, mínimo —, acaba-se a fumar em todo o lado. Porém, era para mim vergonhoso estar a fumar ao pé de grávidas, nunca o tendo feito consciente da sua presença (mas como é que poderia detectar grávidas até aos 3 meses, ou mais, por exemplo?…). E era uma fonte de perplexidade ver as grávidas, e os pais com bebés e crianças, a frequentar espaços cheios de fumo. Como é sabido, há até mulheres que fumam durante a gravidez; e, no passado, com menos conhecimentos das consequências, e muito menos pressão social, essa prática deve ter sido generalizada. No presente, é apenas a caricatura grotesca da falta de educação, do desprezo pelo outro que nenhum acréscimo de informação consegue evitar. Só a educação, como molde do carácter, poderá abrir um espaço interior para o desconhecido, para a comunidade — assim vencendo o patológico e imoral egoísmo.

Este relambório para chegar à fotografia supra. É que foi usual encontrar o protesto contra a lei reduzido à temática do prazer. Os articulistas reconheciam as evidências, muito bem e tal, até porque seria vergonhosamente imbecil pôr em causa décadas de investigação e milhões de mortes inequivocamente relacionadas com o tabaco , mas refugiavam-se no castelo do prazer. O prazer é algo com que todos se podem relacionar, por parecer um universal que não carece de demonstração, caucionando-se a si próprio. O prazer convoca simpatia e empatia, à esquerda e à direita, para o rico e para o pobre, o culto e o tosco. Então, era o ataque ao prazer a origem do escândalo e a prova da perfídia. Pois bem, mas de que prazer se está a falar? Como fumador, sei bem que poucos, pouquíssimos, eram os cigarros que me davam prazer. A quase totalidade era consumida por compulsão, por carência biológica e fragilidade psíquica. A experiência é análoga à dos heroinómanos, os quais relatam que só tiveram prazer das primeiras vezes que consumiram, nalguns casos só na primeira, tudo o resto sendo uma fuga ao desespero, uma procura da anestesia. Também no tabaco se fuma por automatismo, por desequilíbrio químico e emocional, e até por masoquismo. No fundo, fuma-se por desistência ética.

Prazer? O prazer não pode ser algo que me diminua, ou anule, a liberdade. O prazer que reclamo é o da afirmação da minha vontade. E não posso permitir que se rotule de prazenteiro o que cause vítimas, pois tenho mais de dois neurónios. Por isso nunca como agora foi tão bom querer fumar. As restrições (que muitos fumadores secretamente agradecem, por saberem que irão ajudar a que consigam fumar menos ou nada) poderão levar a fazer de cada cigarro um acto de celebração do prazer de fumar. Finalmente.

48 thoughts on “Que pena ter deixado de fumar”

  1. Ainda há dias um prazenteiro voo de avioneta acabou despenhado em cima de um desgraçado que estava a curtir um automóvel num stand.
    A prof Fátima Bonifácio tem uma avó com 98 anos que toda a vida inalou o mesmo material que de repente passou a dizimar passivos à pazada, enquanto no IPO há putos novos a caminho do Além com os pulmões mais alcatroados do que a A1.
    Eu entendo e respeito o teu raciocínio bem estruturado de arrependido da coisa (são os piores nestas matérias), mas se te agarras ao sagrado valor do direito a não ser afectado pelos vícios ou atitudes do próximo deves estender esse princípio a todas as questões que padeçam da mesma carga pejorativa.
    Anda a pé para não expelires fumo de escape para cima das senhoras grávidas. Exige o encerramento das indústrias poluentes. E por aí fora. Ou o princípio soa hipócrita e só é aplicado aos fumadores porque estes já possuem como grupo uma maldição social que agora praticamente os criminaliza.
    E porque é politicamente correcto e financeiramente rentável na gestão merceeira actual do país. E porque lá fora também fizeram.
    A ver se eles imitam os holandeses nessas coisas… Pois, tá bem…

  2. Parabéns, Valupi, por mais um belo texto, por vezes excelente, embora tenhas descarrilado lá para o fim. Eu não precisei da lei para poder, enfim, celebrar o prazer de fumar. A auto-contenção chega-me. Vide abaixo.

    Este minino Shark, que sabe bem quem são os piores nestas matérias (e, se calhar, noutras), trata os ex-fumadores de “arrependidos”, termo que se geralmente se aplica a pecadores e criminosos. O bulgar agora é chamar-lhes fundamentalistas, minino, esqueceu? Eu, como ex-viciado – ou como viciado há seis anos em stand by – com mais de 30 anos de fumo no papo e ainda hoje celebrador, com prazer, de uma aristocrática e solitária cigarrilha ocasional (sem cair na compulsão nicotino-dependente, o que só a alguns é dado), estou totalmente à vontade para tratar o minino Shark de nicotine-junky e de o mandar à merda. Ele não saberá que os ex-fumadores, para o serem, tiveram que expender esforços prodigiosos de abstinência e auto-controlo, que merecem e exigem ser respeitados? Ele não saberá que o pior que pode acontecer a quem está a deixar de fumar ou deixou há pouco tempo (meses e até anos) é ser espicaçado pelo fumo dos outros? Ele não saberá que um ex-tabagista, mais do que alguém que nunca tenha fumado, tem, por razões biológicas, indisposições e até vómitos provocados pelo fumo dos outros? O professor Fátima Bonifácio declarou na RTP o seu direito inalienável ao pecado, duvidou que o fumo ambiente fosse pernicioso para alguém e até exemplificou com familiares mumificados vivos pelo tabaquinho. A dita professora, que toda a vida deve ter desrespeitado os não fumadores, entende o silêncio incomodado e oprimido das suas vítimas como aquiescência. No seu “liberalismo de pacotilha”, nunca entenderá porque se regozijam mais de 70% dos portugueses, incluindo muitos fumadores, como eu, com a aplicação da nova lei.

  3. shark, não é arrependimento. O arrependimento seria inútil para mim, neste caso. Trata-se apenas de gostar de ciência e de política, tal e qual como gostavam os gregos que inventaram a democracia. E acontece ser esta lei um exemplo da bondade estatal. O conceito de Estado é para isto mesmo, para impor a lei. E o conceito de direito é para isto mesmo, para impor a melhor lei. E a melhor lei é a que restrinja o tabaco, a droga ou a condução perigosa; para só falar do que é mais falado e mais simples de entender.

    Na tua argumentação só se encontram sofismas, desculpa lá ó pá. Primeiro, as estatísticas de 1 caso, ou dos casos que cada um conserva para ilustrar o seu ponto de vista, são estatísticas anedóticas. Números existem que a comunidade científica produz e com os quais se tomam decisões políticas. Tal não impede a excepção, e é de excepções que estás a falar. Depois, a questão não diz respeito a “vícios ou atitudes do próximo”. Pôr a questão assim é uma grotesca distorção que só tem como finalidade confundir o opositor (ou o próprio emissor). A lei diz respeito ao acto de fumar em certos locais, não se pronuncia sobre o estatuto do fumador (logo, é indiferente se o fumador em causa é ou não “viciado”). Finalmente, eu não tenho de aderir à tua concepção moral do que seja correcto ou incorrecto para apoiar um acto legislativo. Assim, eu não tenho de te provar que pedi o encerramento das indústrias poluentes, até porque eu começo por não fazer a menor ideia do que estejas a dizer. E, para mais, desconfio que não estás a ser sério, facto que também conta para a economia de esforço. O que eu posso, se vires vantagem nisso, é ajudar-te a entender que estás a defender um ponto de vista moralista e esquizóide, onde ficcionas uma perseguição para te consolares na irresponsabilidade. (estou a dizer-te isto com uma voz meiga e compincha, que pena não a poder incluir aqui no comentário)

    A questão é estupidamente simples: quem não conseguir adaptar o seu tabagismo à nova lei, tem problemas outros, eventualmente mais graves, do que aqueles de querer fumar à sua vontade e já não poder. Coisa boa, então, ter de lidar com eles.
    __

    Nik, explica lá melhor essa parte do descarrilamento. É que estou sempre pronto para aprender.

  4. Nik: achas sinceramente que o Tuby (aka Shark) não sabe disso? Ele caiu foi com grande estrondo na armadilha do primito. O texto dele pretende ser irritante e se o leitor comentar de forma irritada corre o risco de se espetar ao comprido.

    O que me apraz dizer (sempre quis começar um parágrafo assim) é que o texto do primo é, apesar de alguma camuflagem retórica e do último parágrafo, terrivelmente consensual. Não vejo, sinceramente, como é que se pode discordar do que ele diz. Estamos aqui, portanto, na antecâmara da sonolência. O verdadeiro interesse desse texto reside apenas no facto de o primo deliberadamente ignorar o verdadeiro problema desta lei do tabaco. O problema não está nas suas supostas restrições, mas na forma absolutamente atabalhoada como está redigida, isto é, na sua ambiguidade. Ambiguidade esta que priva os fumadores do seu direito de fumar sem incomodar ninguém em locais próprios para esse fito que não seja um espaço não-fechado. O resto é atirar areia para os olhos.

  5. Pronto, tá tudo dito. O João Pedro da Costa tem razão e desmascarou-me, o Valupi tem razão e desconstruiu-me e o Nik, esse destemperado, perdeu a razão (porqu)e insultou-me.
    É para isso que servem as caixas de comentários, basicamente.

    (E quanto à cena do minino, ò Nik, talvez queiras rever o tom que usas antes de procederes à troca de impressões. Sobretudo quando até podes contar com o Valupi e o João para me fazerem com inteligência aquilo que tu só consegues à chapada verbal.
    E depois até podemos divergir na boa e mandarmo-nos mutuamente para onde calhar. Mas só depois de um intróito menos pautado pela dentuça arreganhada e pela onda paternalista. É que eu também tenho mais de 30 anos de fumo no papo, apesar da carinha laroca e do discurso juvenil.)

  6. Tendo em conta que não há uma única razão que torne bondosa a exposição involuntária ao fumo do tabaco, aqueles que não se importam de contaminar o empregado que lhes serve a bica, por exemplo, são uns trastes em quem não se deve confiar. Porque eles não querem saber das consequências, não se relacionam com o empregado enquanto pessoa, apenas como meio para o café lhes chegar aos beiços. Vai daí, quando se puxa do cigarro ao balcão, ou no interior do estabelecimento, cada fumador é um convicto representante do solipsismo

    ahahahahaha

    Bravo! penso o mesmo. São uns filhos da puta que se estão nas tintas para os outros e eu, em tempos muito recuados, terei sido uma fraca imitação deles

    “:O)))

    Mas é absolutamente verdade o que dizes. Um fumador faz parte do mesmo grupo de umbiguistas em que se enquadram os grafiteiros e as cavalgaduras do asfalto.

    Deixam de ser gente quando sacam do cigarro. Tal como a cavalgadura passa a máquina quando se mete ao volante, ou o bimbo que tem o mundo na barriga, quando suja paredes.

    E mato-me a rir como eles choramingam tanto agora, quando nunca se deram conta que quem tinha boas razões para choramingar e fazer abaixo assinados, eram os outros. Os não fumadores, que sempre tiveram de apanhar com o fumo e não bufar

    “:O)))

    É a vingança do chinês, esta puta desta lei higienista. Há sempre uns anormais de papel passado a fazerem de ditadores legais, pela conta dos outros. O que é muito reconfortante numa ditadura democrática

    “:O))))

  7. valupi,

    Que bom, que bom, que bom!

    Fico imensamente feliz por saber que já não és mentiroso há um ano, embora me entristeça um nadita saber que só deixaste de ser filho da puta em Abril de 2006.
    Conforta-me, é certo, saber-te longe, muito, muito, muito longe de te armares em fogoso procurador do Estado de direito. Aquece-me a alma saber que viste finalmente a Luz nesse Abril de 2006, a Verdade Suprema que te resgatou ao terrível destino de ser vergonhosamente imbecil e anti-social, um monstro a estereotipar com urgência, para que os de amanhã aprendam já hoje mais um preconceito, precioso como todos os preconceitos. Nunca são demais.

    Este texto destapa com elegância e requinte o abismo que permeia as nossas cidadanias. Eu cá continuo um traste em quem não se deve confiar, um corruptor de empregados de café e grávidas, enfim, um anarco-solipsisto-sindicalisto-filho-da-puta. Pintaste-me bem, reconheci-me logo no título.
    Tu, por outro lado, vê-se que estás um homem novo, um paladino que brotou d’ Abril, não por acaso, certamente. O teu dois mil e seis de Abril é e será para sempre um exemplo para todos nós, filhos da puta. E eu, este mentiroso do Lucky Strike que nunca te admirou, que nunca gostou de uma só ideia, um só raciocínio, uma só linha que escreveste, tenho mais é que tirar o chapéu a este momento feliz da tua escrita (da tua vida, enfim) e garantir-te, orgulhoso de ti, que este teu texto não é merda nenhuma.

    joão pedro,
    Assino todas as tuas palavras. Todinhas. E o primeiro parágrafo assino três ou quatro vezes, pode ser?

    Forte abraço aos quatro. (rosnando baixinho a um.)

  8. Os mais ridículos são os que se lembram do smoking que deixa de fazer sentido por causa desta proibição. Esquecem-se que já não havia smoking há muito, porque o fumador moderno é tão lupen como o drogado. Sacar de um cigarro e atirar com fumo para a cara do próximo, ou queimar-lhe casacos em qualquer local público era a “moda social” que agora foi limitada.

    E os outros tinham de fazer o papel cretino de passar a vida a repreender o grunho que lhe atirava o fumo para cima. Uma canseira. Cheguei ao ponto de obrigar uma antiga patroa a falar comigo ao ar-livre. Porque a sujeita era uma delas, das cavalgaduras fumadoras, no seu gabinete.

    E outra coisa: isto é assim porque quem fuma não sente o cheiro. Não sente o incómodo. Acho mesmo que só o sente quem já fumou e deixou de o fazer. Por isso também sei o que é a imagem do fumador que ainda seduz, e sou capaz de lhe sentir o desejo- mas apenas em imagem- sem paladar nem olfato.

  9. Claro que a lei é uma imbecilidade. Mas é-o por motivos parolos- da intenção de tratar da saúde dos outros. A lei só tem piada por ser uma forma de reactiva justiceira em forma de vingança do chinês. E aí sim, é de se esfregar as mãos de contente.

    Não há ingénuos nestas historietas de incómodos viscerais. Há até uam velha expressão que resume o que de mais profundo pensamos (de um lado e de outro): ” se eu mandasse a ver se não era proibido”

    ehehe

  10. Sharkinho, vai à merda segunda vez e não sejas tão vulnerável, que te dá gastrite. Se pudesse, amava-te, mas já estou comprometido.
    Ok JPC, tens razão, e gosto da tua onda.
    Valupi, descarrilaste com aquela ironia azeda no final. Ou não te entendi bem? Também só querias elogios?

  11. Señor Don Valupi
    Que se me perdone el taco, pero me cachis en la porra si Usted no se está bromeando de nosotros. No sé quien sea ese señor Rui Vasco Neto, pero creo que le ha dicho lo esencial. A lo mejor, apenas sea vuestra señoría llegado al cielo, le pedirá a Dios, a San Pedro o a quien tenga las llaves del botiquín, un cigarrillo. Porque entonces, y como no podrá morir otra vez (los pobres a quienes les acaeció pasarlo dos veces fueron Lázaro, un chaval y una chica que Jesucristo resucitó), se pasará la eternidad entre el humo de cigarrillos que fumará como si estuviera en el mismo Infierno.
    Déjese de prédicas, y permítame tomar el gusto de mis Gitanos, ya que no tengo dinero para Lucky Strike. Por lo menos, si hago el pecado de fumar, no hago el de ostentar riqueza que no tengo.
    Vuestro
    Antonio Soler de Ayala y Espasa

  12. Primo, concordo muito contigo. Eu ignorei a ambiguidade da redação da lei, deliberadamente. E, nisso, não estou sozinho, pois tu também a ignoraste. Ou seja, não disseste onde estava, ou em que consistia (adjectivação não conta). Permite-me esta hipótese: tanto tu como eu temos a mesma vontade de discutir o tópico, e ela é igual a zero. Por isso permanece ignorada nestas caixas de comentários a ambiguidade da lei. O que vale é que estamos a escrever de olhos fechados e não há grãozinho de areia que entre nas meninas.
    __

    shark, és um gentleman. E um compincha. Já a parte do meigo, depois o Nik conta à malta.
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    zazie, lembras muito bem, o olfacto. Também estava para escrever sobre isso, pois agora até o fumo ao ar livre pode ser incomodativo, tão apurado (na comparação) fica o olfacto. Mais uma acha para a tese do cão-de-fila.
    __

    rvn, Abril é do melhor para a redução de filhos da puta, como assinalas. E já vem do século XIX a tendência. Mas deixas-me preocupado. Não te sabia corruptor de grávidas. De um empregado ou outro, pronto, passa. De grávidas é que é o caralho. Aliás, com grávidas é sempre do caralho. Vê lá isso, deixa as putas das grávidas em paz.
    __

    Nik, mas qual ironia? Preciso que sejas um bocadinho mais preciso.
    __

    Antonio, é óbvio que o Rui Vasco Neto disse o essencial. Mas permito lembrar que isto do tabaco não é do âmbito da essência, é do acidente.

  13. ¡Caray, Valupi, hechas cada taco, hombre! ¿Y no se te pone la lengua, o en este caso los dedos, ardiendo en el ordenador? Me parece que ese Rui no será de cuidar el lenguaje, pero tú, tan brillante en la prosa, mejor te fuera tener cuidado. ¿Lo habrás aprendido con él?
    Y ahora revelo la letra del himno español, que se ha mantenido como secreto de Estado hasta muy poco tiempo. Me la enseñó un jefe de policía que estuvo unos años en la ciudad de Ceuta que os robamos cuando Felipe era Grande y España más grande todavía. Aquí la tienes: “Franco, Franco, tiene el culo blanco.”
    Antonio Soler de Ayala y Espasa

  14. val,
    Confundes-me com gentilezas, caríssimo. E empurras-me para a confissão, com jeitinho madeirense de frederico. Sim, pronto, ok, está bem, é certo: vou curompendo o que posso, mas grávidas jamé (nunca fui à ota, nisso sou virgem) e empregados nem tanto, sou mais de empregadas, (absolutamente fã de executivas, menhamemenham).
    No fundo é o isso, como disseste. E do isso, também. Mas deixarei as essas das grávidas em paz, como pediste. Foda-se, que é isso para a gente, pá?

  15. eu então fumo como um cavalo e gosto muito, mas não no quarto de dormir

    e tenho muito bom olfacto

    uma vez estive um ano sem fumar, mas foi só porque fiz uma birra, e quando toda a gente finalmente acreditava voltei a fumar para não criar ilusões

  16. Fabuloso Valupi, esse teu ultimo parágrafo é um hino. Da uma volta graciosa aos neurónios de qualquer fumador pensador. Eleva-o sujeito fumador e o acto de consumir um simples cigarro a um nível provavelmente só antes alcançado naquele cigarrito consumido após a última foda (desculpem o termo)!

  17. «Tanto tu como eu temos a mesma vontade de discutir o tópico, e ela é igual a zero.»

    Que bela provocaçãozinha, se calhar ainda me vais forçar a escrever sobre isto. Mas antes, talvez valha a pena tentar a análise as razões profundas dessa ausência de vontade. E é aí que o teu último parágrafo é estrondosamente demagógico.

  18. Seu Valupi
    Meu nome aí é nome mesmo. Foi papai que escolheu ele no catálogo de santos, e o coitado não teve culpa que vovô se chamasse isso de Espenauer. E a gente deve respeitar os mais velhos, que papai falava sempre: “Mê fio, respeta os más véio. Óia como papai é pessoa bem educada, qu’inté nunca foi botado fora de igreja, de bonde ou de taberna.” Verdade verdadinha. Papai nunca ia na igreja, e não botava pé em bonde, que de dinheiro não tinha nem pra comprar ferradura nova pro nosso jegue Aureliano. E da taberna quem é que ia jogar papai fora, se não tinha freguês que mais desse um dinheirão cada noite ao dono do boteco?
    Mas seu Valupi não ria, não, de meu nome, que se você fosse brasileiro e aparecesse aí em Lisboa com um nome desses como o senhor tem, nem fazia falta saber jogar à bola. O Benfica ou Espórtingue fichavam o senhor na hora pra ponta direita deles.
    Gosto de ler o que você escreve, mas olhe que tem gente apertada de inveja. Aquele Rui Vasco da Gama e o que fala espanhol não são de confiança, não. Tudo o que fala espanhol pra mim é argentino, e você sabe como é esse negócio de argentinos. Não dá nem pra pensar que existem. Você, seu Valupi, fuja daqueles dois se os vir na rua. Podem botar mau olhado mesmo, que são gente de inveja. Só se você não acredita em bruxas, que vovó falava que elas não tem poder com quem desacredita nelas. Pode que com mau olhado seja igual.
    Desejo-lhe saúde e felicidade na vida. Gente com nome como os nossos merece tudo de bom, que já basta o pessoal xingar a gente todo dia por causa dele.
    Saturnino Espenauer

  19. No fundo, fuma-se por desistência ética.
    Aqui está o que eu chamaria um pensamento verdadeiramente intelectual sobre o fumo! Graças a deus que a humanidade (na qual se inclui a maioria dos fumadores e não-fumadores) se deixa ficar mais pela rama…
    porque se fôssemos todos tão profundos, o mundo seria um Inferno (ou um paraíso). tanto faz.

  20. Antonio, o que nos trazes de Espanha, em especial do Franco, não é um bom vento.
    __

    rvn, congratulo-me por te ver a atinar. Ainda há esperança, então.
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    z, fuma à vontade que isso só te faz é bem.
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    mxmnmx, nunca te desculpes por uma foda. É o meu conselho da semana.
    __

    Primo, não moemos farinha sem que tu tragas umas sacas de argumentação, porque até agora ainda não sei do que estejas a falar. Lembro-te só que a temática da ambiguidade não é um exclusivo desta lei, mas inerente a todo o corpo textual de uma qualquer lei, por se usar a linguagem verbal. Para se entrar na discussão válida do assunto, ter-se-á de conhecer não só o texto como o enquadramento legal e ainda o racional técnico e científico. É por isso que digo, cheio de confiança, que terás mais onde ocupares o teu tempo. No entanto, se te der para aí, cá estarei para comer o meu chapéu.
    __

    Saturnino, tens de te juntar ao Antonio, ao Rui e a mim para uma almoçarada, naquela que será a primeira unificação da Ibéria e dos brasis.
    __

    Ana, discordo. Acho que não é tanto. E que faz.

  21. Seu Valupi, é boa ideia mesmo. Mas papai não me deixou fortuna além do nome. Tenho de poupar, claro, que bahiano é pobre que nem Deus sabe. Foi seu Jorge Amado que botou a praga na gente. Já viu rico em estórias dele? Só coronéis, né? E eu juro que não sou coronel, nem desses de farda e galão, nem dos que tinham fazendas de nascer o Sol num lado quando já estava se pondo no outro.
    Por isso sei não se arranjo dinheiro pra ir nessa Lisboa. Se você pagasse o jantar, já era uma ajuda. O pior é que não se vai praí de carona. Sai caro, isso sim. Talvez fosse melhor a gente ficar pelo meio do caminho, você viajava um pouco pra cá, eu ia um pouco pra lá, e apanhava-se esse tal de Rui Vasco no meio do mar, na ilha dos Açores, que é assim pros lados da Polinésia, né?
    Seu, de coração,
    Saturnino Espenauer
    PS – Minha nossa! E não meta aquele espanhol no ágape. Para espanhol já basta o Brasil ser ilha no meio deles todos. A gente só escapa deles botando-se ao mar, viu?

  22. ora bolas, dá para concordar com todos? não? ai que dilema.

    a boa educação seria bom remédio para muitos inconvenientes, de facto. como fumadora nunca gostei que me pespegassem com o fumo do cigarro a meio de uma refeição, por exemplo. sobretudo se o prato em degustação for especialmente aromático – o prazer do outro acaba com o meu. em restaurantes fui tendo a preocupação de olhar à volta, a ver se os comensais contíguos já tinham acabado. nunca fiz cara feia se me pediram para apagar um cigarro (o que só aconteceu uma vez, aliás…). se assim acontecesse sempre, talvez nem tivesse sido necessária uma lei do tabaco. mas não é assim. passo nos corredores do centro comercial com o meu filho, asmático e lá vai (ia…) tudo a andar de cigarro baixo, mesmo a passar pelo nariz do miúdo. penso que mesmo que todos apagassem os cigarros a pedido de terceiros incomodados, haveria muita gente a não reclamar, por timidez, ou a consentir, à pergunta «importa-se que fume», por cerimónia, como eu.
    é verdade que faz alguma falta o cigarro depois do jantar, no restaurante. mas até tem uma certa graça ir lá fora fumá-lo.

    quanto aos meus hábitos tabágicos: de vez em quando deixo de fumar. inaugurei o ano com duas semanas sem cigarros. de resto, fumo entre 3 e 5 cigarros por dia, por vezes menos, ocasionalmente mais. todos com prazer. ora morram de inveja…

  23. O que eu acho piada é ao facto das pessoas precisarem de leis para tudo. E seguirem-nas. Lembro-me de uma vez, num local privado em que era eu “quem mandava”, me terem inquirido por que motivo é que não se podia fumar, já que não havia nenhuma “etiqueta” nem indicação escrita.

    Eu respondi que o motivo era simples: pelo facto de me incomodar. Claro que a ordem foi acatada mas a contra gosto. Ainda deu para o refilanço da falta de “lei” que explicasse a legitimade do meu incómodo (e de outros que também estavam presentes, para além do dito fumador compulsivo).

    E penso que é devido a esta tendência jacobina para só se pensar em educações ou nos outros quando decretadas por lei de Estado que agora bufam tanto.

  24. Devo dizer que a pessoa em questão não era grunha. Antes pelo contrário. Com todos os pergaminhos de família.

    Mas acreditava no valor pedagógico e legitimador da lei.

    ehhehehe

  25. Esqueci-me. Deixo aqui outro exemplo dos meandros da “consciência educativa” dos fumadores.

    Num local onde trabalho sempre se fumou na Biblioteca, do mesmo modo como se almoça, lancha e petisca, sempre que apetece (o que aliás é uma anarquia excelente). A bibliotecária, não só fumava grávida, como fumava sem estar grávida e aquilo sempre foi um nevoeiro tremendo que até dificultava a consulta directa dos livros.
    Várias foram as queixas de muitos leitores, mas nada. Não havia impedimento legal, por isso…

    Pois bem, ao fim de duas décadas, por obra e graça do Estado, acabou-se o fumo. E pior (ou melhor), foram os próprios funcionários fumadores que me participaram a ordem (a mim, que nunca lá fumei). É que, a partir de agora pode haver denúncia e terem chatice oficiosa…

    Ok.

    Eu limitei-me a perguntar-lhes se já havia número verde de linha de denúncia
    ehehe

  26. hum. Eu também era algo cuidadoso em não obrigar os outros a fumar o meu fumo, até porque o prazer é meu e não gosto de partilhá-lo indiscriminadamente

  27. Sem mais comentários…

    “O ex-chanceler alemão Helmut Schmidt, um fumante inveterado, está a ser investigado pela justiça por ter fumado num local público, apesar da nova lei anti-tabaco.

    Schmidt, de 89 anos, e a sua mulher Hannelore são alvo de uma queixa apresentada por uma associação anti-tabaco de Wiesbaden (centro oeste) pelo fatco de Schmidt, chefe do governo social-democrata entre 1974 e 1982, ter sido fotografado a fumar num teatro de Hamburgo.

    O casal Schmidt é fã manifesto dos cigarros e, há alguns anos, Hannelore Schmidt chegou a dizer que fumar era «bom para o cérebro». ”

    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=315509

  28. Oube llá, ó Solére,
    Só hoije bi, carago, mas que merda é essa d’eu num ser de ‘cuidar el lenguaje’, ó morcãoe? bai-te lá catar, ó espanhol d’um raio, qu’eu cá cuido el lenguaje sim senhora, olh’aí!
    mais ó home, num querem lá ber!!

    cumpadre Saturnino, oxente!
    sabia não, qu’ocê tava doente não, xente!!! aspirina, é??? deita, cumpadre, num senta não que dói, deita qu’a coisa vai passar, toma tua aspirina, e se num passar não, ocê bota três dentro daquela cana braba qu’o cumpadre zé cabra trouxe da roça, ano passado, e vai vê que nem xorotoba manca enrosca mais em seu cortiço. faz até coruja trocá os oiós.
    si cuida, cumpadre. e se pudé, cuida do lenguage também, que tem um ispanhol doido por aí que tá dizendo que tem que cuidar messssmo, sinão pode morrê.

    valupi,
    deixas entrar toda a gente, agora, é?

  29. Pues para usted, señor Rui Basco Nieto, nada más que el humo que salía de Franco. Que yo soy persona muy bien educada. Aunque pueda no haberlo aprendido todo. ¿Comprendido?
    ASAE

  30. ¿Quién es ese Núñez de que hablas, hombre? ¿Le gustan los cigarrillos o querrás decir que se traga un puro con placer? Pues que le haga buen provecho. Yo, por si acaso fumo uno, antes habré tenido que agradecerlo a algún amigo. ¿Comprendes, muchacho?
    ASAE

  31. O problema com o tabaco é que toda a gente fala do que não sabe.

    Praticamente todas as provas contra os malefícios do tabaco e principalmente contra os malefícios do fumo passivo (aliás, uma “descoberta” nazi, passivrauchen no original) são “provas” estatísticas, isto é, correlações entre listas de números.

    Além destas correlações estarem geralmente mal feitas porque não entram em consideração com as margens de erro, tem-se que a estatística não prova nada, a estatística dá pistas para investigações mais aprofundadas. E o problema é que estas investigações não são feitas.

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