Carta a Marina por causa do galego – 4

Cara Marina,

Há uma teoria da conspiração que diz andar o Estado Espanhol empenhado numa castelhanização do galego para afastá-lo do português. Para simplificarem (as teorias da conspiração simplificam o mais que podem), os conspirativos apresentam a própria vontade dos galegos de conservarem quanto os distingue do português como um conluio com o inimigo. Em desespero de causa (e as teorias da conspiração são sempre propostas desesperadas), os conspirativos decretam que tudo quanto distingue o galego do português é… espanhol.

O mais espantoso é que os conspirativos, não tendo a razão inteira, têm alguma  – no que eles não reparam, já que as teorias da conspiração não permitem gerir meias verdades. E a meia verdade está em que o Estado Espanhol, que considera o castelhano, o catalão, o basco e o galego como lenguas españolas (assim lhes chama a Constituição), ao ver-se obrigado a constatar que «galego» e «português» são dois simples nomes para a mesma língua (embora correspondendo a normas diferentes e parcialmente irredutíveis), o Estado Espanhol, dizia eu, acaba metido numa grande alhada. Como explicar ao Mundo que algo «español» afinal não o é?

*

A questão é que o Estado Espanhol não sabe linguística. (Como o Estado Português também, mas vamos tratar um problema de cada vez). E não só não sabe linguística, como não leva a sério os seus próprios linguistas. E os linguistas espanhóis, pelo menos os mais inteligentes, sempre consideraram o mesmo idioma o português e o galego. Dou-lhe dois exemplos, de muito diferente natureza e de diferentes tempos.

O melhor estudo algum dia feito sobre os «portuguesismos» no espanhol é o de Gregorio Salvador, que já data de 1967, mas que continua actualizado, uma vez que não serão muitos os portuguesismos recentes, se algum houver. Pois bem, é com toda a naturalidade que o autor afirma não esforçar-se por distinguir a exacta origem dos vocábulos: se provenientes de Portugal ou da Galiza.

Mais esclarecedor ainda é o segundo caso, o do Dicionário da Real Academia Espanhola, que se pode consultar online actualizado até ontem. Aí a mistura de «port.» e «gal.» como proveniências de vocábulos espanhóis é completa.

Dou-lhe alguns exemplos dos dois conjuntos.

O mais bonito é aindamáis. É puro galego, puro português. Compare-se-o com os autóctones «aún más» e vê-se a diferença. Em termos ‘gramaticais’ é quase o único, só havendo a juntar alguien, que veio de «alguién», que veio do nosso «alguém/alguén». Os verbos também não são muitos. O espanhol tomou de nós despejar, afeitar, enfadar e virar. Curioso é o hoje frequentíssimo echar de menos, que deriva (por algum descaminho) de certo «achar de menos», entre nós já antiquado na acepção de «sentir a falta». Se alguma coisa abunda, são os termos marítimos (carabela, jangada, marejada, marullo, monzón, vigía, pleamar), os piscatórios (almeja, cachalote, cardume, mejillón, ostra, vieira) e os de doçaria (caramelo, filló, mermelada).

É de caras que, podendo a doçaria e alguma coisa marinha ter ido aqui deste nosso lado, a grande maioria dos termos marinhos, e possivelmente todos os piscatórios, chegaram à Meseta vindos da Galiza. Mas nem o Dicionário da RAE nem Salvador se põem a distinguir.

[E antes que se pense que os «castelhanismos» do português e os «lusismos» do espanhol valem ela por ela, lembro que os «lusismos» não contém um só adjectivo, que os substantivos abstractos são residuais (saudade, trapaza), enquanto eles, nos «castelhanismos», se contam, uns e outros, às centenas. Nós somos bons marítimos, temos uma doçaria de chorar por mais, os galegos são em mariscaria os melhores do mundo. Mas o interesse acaba aí.]

O mais espectacular exemplo de como – não obstante as implicações políticas acima expostas – galego e português são indistinguíveis quando apreciados do castelhano, o exemplo mais espectacular, dizia eu, é este.

Na entrada ratiño do Dicionário da RAE, lê-se: «(Del port. ratinho, ratoncito) m. Apodo con que se motejaba a los habitantes de comarcas que limitan con Galicia». Ora, sendo ratiño perfeito galego, propor a proveniência portuguesa do termo é absolutamente inaudito. É que, ao exprimir-se assim, o DRAE afirma, das duas uma:

a) ou que eram os portugueses a referirem-se assim aos seus compatriotas da raia com a Galiza, e neste caso o DRAE inclui um vocábulo português que, por visar a Galiza, considera do âmbito do espanhol,

b) ou – e mais provavelmente – que foram os galegos a tomarem um vocábulo português para se referirem aos seus vizinhos espanhóis, e neste caso o DRAE invoca, implícita mas eloquentemente, a unidade de galego e português.

Razão, muita razão, tinha Manuel Fraga Iribarne quando, no Porto, ou em Maputo, ou no Rio de Janeiro, dizia sempre, na sua autêntica pronúncia galega, esta frase de nós todos: «É perfeitamente claro que nós falamos a mesma língua». Mas compreende-se: Fraga, parecendo um agente do imperialismo espanhol, era na verdade – tal como hoje o Dicionário espanhol oficial – um subvertor encapuçado da unidade de Espanha.

A conclusão não é minha. Mas é a que deveriam tirar os inefáveis teóricos da conspiração.

Fique bem, Marina. Obrigado pela sua última mensagem, e até um dia destes.

48 thoughts on “Carta a Marina por causa do galego – 4”

  1. Case me poño de xeonllos, acougoume as dúbidas, anque non todas. Deu un laño tan grande no meu latricar que quedei avergonzada. Unha chafalleira, cavilou vostede cando me leu.

    E, xa dixen, pero volto a dicir, teñen música as súas palabras.

  2. Queria só dizer-lhe uma coisa mais. “Despejar” em espanhol não tem o mesmo significado que em português. Não se diz: voy a despejar la basura. Diz-se, por exemplo: tiene una frente despejada, o el cielo está despejado.

    O termo para despejar é “vaciar”. Nunca usei, nem ouvi usar, o verbo despejar em espanhol, só o adjectivo “despejado”.

  3. Marina,

    A viagem das palavras entre línguas descreve as curvas mais imprevistas. Assim surgem os «falsos amigos», fenómeno correntíssimo.

    Podemos ser mais simples ainda: dos milhares de palavras nossas patrimoniais, vindas historicamente do latim, poucas, pouquíssimas, têm hoje o significado que tinham nele.

    Uma actual descoincidência semântica duma mesma palavra em duas línguas casa perfeitamente com uma pontual dependência histórica. Em matéria de dependência português-espanhol, comparamos o estado actual da língua receptora com um estado da língua dadora de há 400 ou 500 anos. Nunca se esqueça isso. Já tenho ouvido gente parva a dizer (não é seu caso) que eu deveria aprender mais espanhol… Muito obrigado. Mas não é do espanhol de hoje que estou a falar nesse momento.

    Quanto à frequência do verbo despejar em castelhano: o Google fornece dela 1.640.000 ocorrências só do infinito. Alguma coisa quererá dizer. Mais difícil é, de facto, terem os ‘castelanfalantes’ aí na Galiza uns cielos despejados.

  4. FMV, homem, não me baralhe (ou deverei dizer “não baralhe-me?!”). Aderiu à horrorosa onda cacofónica da moderna colocação dos pronomes átonos (…”para afastá-lo do português”!? …”afirma não esforçar-se por distinguir”?!), o que em si me espanta e inquieta: estou habituada a ler barbaridades destas nas legendas da TV e a ouvi-las das novas gerações que nem sabem o que é um pronome… No meu tempo, quando o “povo” fazia intuitivamente a inversão dos pronomes átonos nos sítios certos, dizia-se “para o afastar do português” e “afirma não se esforçar por distinguir”. A burra serei eu?

  5. Teresa,

    Não sei se a «burra» será você. Mas talvez lhe interesse saber que este seu devotado servo é linguista e tudo, e tem o maior prazer em mandá-la consultar uma gramática. Ou alguém vivo, que também é bom.

    Ficará a saber (estas previsões são fáceis) que, no nosso português, ambas as formulações são admissíveis e correntes. E que «o seu tempo» ainda é, afinal, o nosso.

  6. Teresa
    Não sou linguista, mas sinto-me muito bem acompanhado pelo FV, porque, em casos semelhantes aos referidos, dou ao pronome a posição que soe melhor na frase.
    Aquilo que se vê na escrita portuguesa actual, da parte até de pessoas como o Vasco Pulido Valente e outras que são referência nacional, é precisamente uma subversão total do dever de fazerem o pronome estar junto do verbo a que respeita. É que o pronome é atraído pelos advérbios, conjunções ou pelo pronome relativo “que” quando o verbo a que corresponde se lhes segue, e só neste caso. Por isso construções do género “quando o português e o galego se começaram a diferenciar” são inaceitáveis. Obrigatório é levar o pronome para junto do seu verbo, e dizer portanto “quando o português e o galego começaram a diferenciar-se”. Pior, se é que pode haver pior, é quando a conjugação é “mais” composta ainda. Por exemplo “quando o português e o galego começaram a querer diferenciar-se.” Levar o pronome para junto do primeiro verbo é afastá-lo ainda mais daquele a que respeita. Mas vê-se. Sem excepção em muitos cronistas.

  7. Daniel,

    Eu até considero «quando o português e o galego se começaram a diferenciar» absolutamente aceitável. Mas, exprimindo-me mais formalmente, daria a preferência a «quando o português e o galego começaram a diferenciar-se».

    A diferença é de grau de formalidade, não de correcção. Não sei é se isto diz alguma coisa à Teresa.

  8. Fernando
    Reparando bem, o meu exemplo não foi o melhor, porque, como dizes, neste caso é admissível a outra forma. E isto porque as duas línguas “se começaram” a diferenciar, cada uma por si mesma. Portanto, o acto de começar também é reflexo. Mas já no caso seguinte tem de ser assim mesmo, como escrevo: “Quando parecia ter-se chegado a um ponto sem retorno na unidade de ambas.” Que te parece?

  9. Daniel,

    Receio que também este teu último exemplo não seja o mais feliz.

    Pode dizer-se «Quando parecia estar-se a mudar de assunto…». Mas pode também perfeitamente dizer-se «Quando se parecia estar a mudar de assunto…». Repara que este se não é reflexivo, mas um pronome impessoal, sendo a frase equivalente a «Quando a gente parecia estar a mudar de assunto…»

  10. Fernando
    Leste assim… E isso só prova a importância da colocação correcta dos pronomes e a sua interpretação, sobretudo do “se” que pode ser cinco ou seis coisas diferentes que não vou ensinar-te, porque não te faz falta a lição. Ora eu escrevi como observador, e fi-lo em dúvida, ou seja “que me parecia estar-se”. E que me dizes do caso reflexo? Por exemplo: “ele não tentou matar-se”, será correcto transformá-lo em “não se tentou matar”?
    Não haverá casos que, ao contrário, estão a repetir o famoso erro de Jânio Quadros “fi-lo porque qui-lo”?

  11. Daniel,

    Eu diria as duas coisas: formal «Ele não tentou matar-se», informal «Ele não se tentou matar».

    Segundo julgo, a Teresa só aceitaria este segundo. Uma pessoa basto informal, portanto.

  12. FMV e Daniel de Sá discutem entre si algo que eu não pus em causa: a colocação do pronome em locuções verbais perifrásticas ou outras (diga-se de passagem que prefiro, na linguagem familiar, dizer “quando o português e o galego se começaram a diferenciar”). O que me encanita é a ênclise do pronome, agora usada a torto e a direito, depois duma negativa (não esforçar-se por distinguir), depois duma preposição (para afastá-lo do português) e em tantos casos registados nas gramáticas.
    Desculpem-me, mas o argumento do “usa-se” não me convence. Para mim, essa construção de frase é feia e errada, não tem que ver com a nossa matriz, cheira a uma contaminação qualquer que ainda não consegui identificar,,,

  13. Teresa,

    Você deverá ser muito jovem, o que até é porreiro.

    Mas alguém que já abarca conscientemente mais de meio-século (não sei bem a idade do Daniel, mas andará também por aí) garante-lhe a pés juntos que, desde que se lembra, tanto uma colocação como a outra foram correntes e admitidas.

    Esse seu «agora usada a torto e a direito» é, pois, ou distracção ou juventude.

    P.S. Mas é-me extremamente simpática a atitude de fundo, essa preocupada com «a nossa matriz» e com «contaminações». Conserve-a. Precisamos disso.

  14. Teresa
    Mas eu nunca disse que a Teresa dissera isto ou aquilo. Limitei-me a dizer que o mais recorrente é a outra inversão. E, no que respeita ao “se”, independentemente da sua função na sintáctica.
    Fernando
    Somos rigorosamente da mesma idade.

  15. Obviamente aquele “na” está a mais. Ia escrever “na frase” e optei por “sintáctica”, esquecendo que já lá estava a contracção da preposição e do artigo. (Ainda será assim que se chama?)

  16. A Teresa tem toda a razão. Digo eu, que tenho quase cinquenta anos e que só há pouquíssimos comecei a detectar a avassaladora profusão do erro que a Teresa aponta.

    E, se quisesse correr o risco de parecer menos cavalheiro, até diria que a Teresa nos bate a todos, tanto em sabedoria, como em idade…

  17. Caro Castanho,

    Há um fenómeno interessantíssimo em matéria de percepção de usos linguísticos: temos sempre a impressão de que aqueles em que atentamos são recentes.

    Dou-lhe só um exemplo banal. Há uns anos, houve – estará lembrado – um sururu acerca de «Prontos!», que teria sido inventado pelo Miguel Esteves Cardoso, quando já era correntíssimo, posso eu assegurá-lo, em princípios dos anos 50, e quem sabe é bem mais antigo ainda.

    O fenómeno é esse. A gente de repente repara em qualquer coisa, e pensa que acabou de dar-se. É uma curiosa auto-ilusão.

    Eu posso garantir-lhe (palavra de linguista) que ambas as soluções estão vivíssimas no nosso idioma, falado e escrito, desde há pelo menos meio século.

    E pelo menos tão curioso é você falar numa delas como «erro»… Mas, se nem um gajo que até escreve, e há muito tempo, nos jornais (eu) nem um verdadeiro escritor (o Daniel) conseguem desconvencê-los, a coisa torna-se razoavelmente complicada.

    Não me ripostem (poupem-me, e ao Daniel) dizendo que também há jornalistas e escritores que escrevem mal. Nós merecemos mais esperteza.

  18. Castanho, você é perspicaz: sou mesmo mais velha do que os meus três insignes interlocutores. Uma sexagenária na “retraite”… Mais sábia não sou de certeza, mas tenho um diabo dum “ouvido” que regista logo as formas linguísticas que me são estranhas. Talvez por ser duma região arcaica e conservadora, na Língua como noutras coisas. E não, FMV, não me convence que é admissível dizer, em Português genuíno, “ela não disse-me nada”.
    Será rezinguice de velha…

  19. Teresa,

    «Ela não disse-me nada». Quem é que advogou aqui tal pataratice?

    Pense duas vezes antes de escrever a primeira coisa que lhe vem à cabeça, sim?

  20. Olhe que não, Teresa, olhe que não. Aquele “não esforçar-se por distinguir” tem função de complemento directo, não reparou? Por isso é admissível a forma que o Fernando usou.
    Ele agora que explique o resto. Mas aproveito para protestar contra uma praga da Língua que chega a ter momentos de absurdo. Claro que não tem nada que ver consigo. Trata-se da subsitituição constante do pronome possessivo por “dele” ou dela”. Ouvem-se barbaridades do género: “Ela gosta muito da mãe dela.”

  21. Transcrevo o que dizem Lindley Cintra e Celso Cunha (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 12.a edição, p.315). “[Regras Gerais com uma locução verbal] 2.o) A PRÓCLISE ao verbo auxiliar, quando ocorrem as condições exigidas para a anteposição do pronome a um só verbo, isto é: a) quando a locução verbal vem precedida de palavra negativa, e entre elas não há pausa:
    Tempo que navegaremos/ não se pode calcular. (Cecîlia Meireles, OP, 141.)
    Rita é minha irmã, não me ficaria querendo mal e acabaria rindo também. (Machado de Assis, OC, I, 1o51.)
    Ninguém o havia de dizer. (Aquilino Ribeiro, M, 68.)”
    Só mais uma coisinha: apesar de não ser linguista, penso muitas vezes antes de fazer um comentário ou uma interpretação sobre o modo como a nossa Língua é usada, e também sei consultar gramáticas. O tio Alzheimer ainda não me bateu á porta.

  22. Daniel,

    «Ela gosta muito da mãe dela» só se aceita com ênfase na última palavra. Mas tu falas em «substituição» do possessivo. Não percebo aonde queres chegar. Diz-me que frases consideras correctas:

    1. Ela gosta muito da mãe. [da própria mãe]

    2. Ela gosta muito da sua mãe. [da própria mãe; linguagem escrita]

    3. Ela gosta muito da sua mãe. [da mãe duma terceira pessoa; formulação livresca]

    4. Ela gosta muito da sua mãe. [da mãe de você]

    5. Ela gosta muito da mãe dela. [com ênfase: «e não da dele»]

    6. Ela gosta muito da mãe dele.

    Eu considero-as todas correctas, valendo a anotação adjunta do «nível de língua».

    Se assim achares também, ainda menos perceberei a tua queixa.

  23. Teresa,

    Preste atenção. Cunha & Cintra, como bons gramáticos, constatam usos, não os prescrevem.

    É um facto que, na sua Gramática, não prevêem frases do tipo de

    – Não posso contar-te mais nada.
    a par de: Não te posso contar mais nada.

    – Ninguém virá salvar-nos, se fizermos isso.
    a par de: Ninguém nos virá salvar, se fizermos isso.

    – Nunca consegui convencê-lo a deixar as drogas.
    a par de: Nunca o consegui convencer a deixar as drogas.

    Todas são perfeitamente correctas. Todas são imensamente correntes. Pena os (excelentes) autores não o terem visto. A termos procurado ambos bem, você e eu, tem de dizer-se que é uma falha da sua gramática.

    Mas não existem gramáticas exaustivas. De resto, a gramática «está» na cabeça do falante. É o que chamamos «gramaticalidade». O falante pode hesitar na gramaticalidade de certa formulação. É, até, razoavelmente comum. Sobre a destas, eu não hesito.

  24. Fernando, não considero correcto, pelo menos nada elegante, dizer “ela gosta muito da mãe dela”, precisamente quando respeita à própria mãe da pessoa referida com o pronome. Porque até basta “da mãe” (tua alínea 1.) Eu usaria qualquer dos outros casos.
    Quanto ao caso que criou este “caso”, faço notar que lembrei que a expressão tinha valor de complemento directo porque isso a transforma numa espécie de locução substantiva. Dir-se-ia o mesmo se tivesse função de sujeito, por exemplo: “Não esforçar-se por ser bom pode tornar más as pessoas.” Em qualquer outra circnstância estaria errado.

  25. E só mais isto, Teresa. Quando lhe der assim uma dessas convicções das suas, vá ao blogue LETRATURA (tal e qual), que constou sempre do nosso «blogroll» aqui à direita – e pergunte.

    O nosso amigo Guégués sabe tudo. Incrível, mas sabe.

  26. Estas discussões cibernáuticas não têm qualquer interesse quando prolongadas, porque o tempo (ou a sua falta) mata sempre a mínima possibilidade de alguém prestar atenção seja ao que for após as primeiras e definitivas impressões, que se registam logo na primeira dezena de comentários, pouco mais (salvo raras excepções).

    No entanto, aqui estou eu de peito feito a voltar à carga (qual “cavaleiro inexistente…), eventualmente para um “round” já sem plateia:

    1º) Se fmv insiste, e para não me acusar de desrespeito à autoridade (de linguista), aceito ambos os argumentos, de não dever considerar as formas que me soam, lamento, a corda-de-violino-partida-mesmo-no-meio-do-solo como “erro” e, até, aquele argumento algo esfarrapado de que o facto de a minha percepção destes desvios, à norma que me era habitual, não ser tão recente quanto me parece, seja um daqueles fenómenos para-normais de que só nos apercebemos, como S. Tomé, se virmos as provas irrefutáveis (espero que fmv as tenha…);

    2º) Ainda sem pedir as credenciais de linguista a fmv, só aceito, em princípio, o reclamado estatuto de escritor como garantia “apriorística” (odeio…) de melhor conhecimento da língua, uma vez que o facto de se escrever para jornais não dá garantias, à partida, de coisa nenhuma, sobretudo nos tempos que correm (sem com isto querer, de alguma forma, particularizar seja o que for em relação a fmv);

    3º) Tudo isto para reiterar que considero, apesar de tudo, as inversões de colocação dos pronomes átonos exemplificados por fmv neste seu Artigo um fenómeno que, a mim, me soa recente, sem que eu tenha mudado de “meio ambiente” em termos sociais, geográficos, ou genericamente linguísticos, pelo que me permito concluir, se não pelo seu surgimento recente como fenómeno em si, pelo menos pela sua evidente invasão dos espaços falantes que me são comuns apenas há muito pouco tempo;

    4º) O que, aliás, acontece não apenas com este fenómeno, que associo claramente às “recentes” fornadas de alunos da Primária pós-Abril (lamento ter de reconhecer isto, em termos ideológicos, mas a vedade é que o ensino da língua portuguesa sofreu um retrocesso dramático, sobretudo ao nível do Primário, nos últimos vinte ou trinta anos e isso é bem visível nos índices actuais de iliteracia), como a outros fenómenos, bem mais “graves” (para o meu delicado ouvido, pelo menos…), do que o exemplo dado pelo caro Daniel (ou o “prontos!”)e que são os seguintes:

    – supressão das formas verbais na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito (indicativo) dos verbos terminados em “ar” e sua substituição pelas formas do respectivo tempo presente do modo indicativo. Exemplos: nós “falamos”, ou “conversamos”, em vez dos “correctos” falámos, ou conversámos; desvio que já detecto há uns bons vinte e tal anos…

    – substituição do uso do pronome pessoal (ups, não consigo agora explicar em abstracto…). Exemplos: “eu vou convencer ela”, em vez de “eu vou convencê-la”. Horrível adaptação do telenovelês, tanto quanto me parece, e já com alguns anitos de prática contumaz…

    – eliminação do uso dos pronomes aplicáveis, na terceira pessoa, em caso de complementos directos pelos que são aplicáveis apenas aos complementos indirectos. Exemplos: “eu chamei-lhe para o pé de mim”, em vez de “eu chamei-a para o pé de mim”; “ela classificou-lhe entre os melhores”, em vez de “ela classificou-o entre os melhores”. Desvio muito irritante e muitíssimo recente (para o meu ouvido), mas que de facto o poderá não ser assim tanto (como defende fmv…), dado que constatei que tanto é usado pela minha Mulher (com quase trinta e cinco anos), como pelos meus sobrinhos, que vão dos dez aos dezanove!

    E haveria mais. Tempo é que não. Até porque eu quero desafiar educadamente o fmv a apresentar as suas credenciais académicas, em termos de Português, transmitindo-lhe as minhas: Escola Primária feita na n.º 125 dos Olivais, com passagem directa da 1ª para a 2ª Classe em Fevereiro, no meu primeiro ano lectivo, e passagem, por toda a 3ª Classe, pela Escola Primária de Seda (com regresso à 125 na 4ª Classe e Exame da mesma feito noutra próxima, mais “graduada”, em Junho de 69); Ciclo Preparatório na Escola Preparatória de Eugénio dos Santos (69-71); 1º Ano do Curso Geral dos Liceus no Padre António Vieira (71-72); 2º e 3º no Liceu Nacional de D. Dinis (72-74).

    A partir daí enveredei para as iências, mas ainda tive Português, como “nuclear”, nos 1º e 2º anos dos Curso Complementar, sempre no D. Dinis.

    Depois disso, só uma passagem diletante pela Licenciatura em Linguística da Fac. de Letras de Lisboa, onde apenas fiz o 1º e 2º anos (89-91), com bastante pena de não poder conciliar estes estudos com o exercício da minha actividade profissional…

  27. Caríssima (Prof.ª?) Teresa,

    não se preocupe com o Alzheimer, ouvi dizer que não bate facilmente à porta de quem tem as meninges bem oleadas.

    Tenha cuidado é com o seu teclado, olhe que ” (…) ainda não me bateu á porta” é uma vingançazinha muito maldosa da sua parte (isto é, da parte dele, teclado)…

  28. Caro Castanho,

    Não me diga que este procedimento é para manter: Ai não te convenço com uma (a agramaticalidade de, por exemplo, Nunca consegui convencê-lo a deixar as drogas)? Pois apanhas com outras!

    Presumo que o A. Castanho não sabe nada do meu trabalho nalguma imprensa nossa (nem precisa de saber) acerca exactamente destas questões. Mas agora saberá que elas me preocupam também a mim.

    Não lhe vou expor o meu currículo. Já sabe que sou formado em linguística. Mas poderia ser-lhe esclarecedor, além de eventualmente agradável, ler alguma das coisinhas que, em ensaio e ficção, lancei por aí.

    Pois bem: para cada erro no nosso idioma que conseguir apontar-me (gralhas excluídas, desculpe), fica aqui a promessa dum rebuçado e, mais, de alguma forma de enxovalho público que você terá a gentileza de impor-me e que deixo à sua inteira discrição.

  29. Tem razão. Tenho um raio dum teclado “estrangeiro” que me obriga a manobras enviesadas para escrever os acentos e as cedilhas, e por vezes os dedos tropeçam nas teclas erradas.
    Não sou professora, mas tive uma espantosa professora de Português do 1.0 ao 7.0 ano do Liceu que me deixou o gosto pelas coisas da Língua e…algumas convicções.
    Como não me apetece continuar esta troca de convicções com o FMV, termino aqui a minha intervenção, não sem lhe dizer, a si, que também a mim muitos fenómenos linguísticos me soam a novo (e calamitoso para a própria genuinidade da Língua), ao FMV que é minha convicção caber aos gramáticos fixar as normas. São os linguistas que constatam usos.

  30. Teresa,

    Tentar convencer alguém de que o seu idioma é mais vasto, mais elástico, mais rico, do que essoutro julga, eis uma tarefa frustrante.

    Eu sou pelas normas, sou pelos preceitos, ganhei até fama de «polícia da língua». Garanto-lhe que, nessa pouco invejável fama, vai ser-lhe difícil (ou, claro: vai-lhe ser difícil…) competir comigo. Mas, aonde o meu idioma permita ir, eu vou.

    Fique bem.

  31. «Presumo que o A. Castanho não sabe nada do meu trabalho nalguma imprensa nossa (nem precisa de saber) acerca exactamente destas questões. Mas agora saberá que elas me preocupam também a mim.

    Não lhe vou expor o meu currículo. Já sabe que sou formado em linguística. Mas poderia ser-lhe esclarecedor, além de eventualmente agradável, ler alguma das coisinhas que, em ensaio e ficção, lancei por aí.

    Pois bem: para cada erro no nosso idioma que conseguir apontar-me (gralhas excluídas, desculpe), fica aqui a promessa dum rebuçado e, mais, de alguma forma de enxovalho público que você terá a gentileza de impor-me e que deixo à sua inteira discrição.»

    Caro Fernando Venâncio,

    muito obrigado, mas não quero rebuçados, fazem-me cáries. Nem, muito menos, pretendo inflingir-lhe enxovalhos públicos, sob qualquer forma. Não entro nestas discussões para competir, ou ensinar seja o que for, apenas para aprender. Sempre. E aprendo muito consigo.

    Se o incomoda o facto de lhe apontar defeitos de Português, prometo ficar-me por estes dois últimos, apenas por ilustrarem mais dois fenómenos que me esqueci de mencionar no relambório anterior:

    «Presumo que o A. Castanho não sabe nada do meu trabalho nalguma imprensa nossa (…)»

    No “meu tempo” esta frase seria considerada gramaticalmente incorrecta por não usar o verbo no modo conjuntivo, ou seja, “Presumo que o A. Castanho não SAIBA (…)”. Outro desvio assustador e cada vez mais frequente: pressinto que o conjuntivo VÁ mesmo desaparecer, a breve trecho, da nossa língua mediática (e, quiçá, até escolar…)!

    «Pois bem: para cada erro no nosso idioma que conseguir apontar-me (gralhas excluídas, desculpe), fica aqui a promessa dum rebuçado e, mais, de alguma forma de enxovalho público que você terá a gentileza de impor-me (…)»

    Fechamos como abrimos. Mais uma vez eu diria (seguindo inocentemente aquilo que me ensinaram) “(…) que você terá a gentileza de me impor”.

    E prontos, espero que não considere ter-lhe apontado gralhas. Quanto ao parágrafo do meio, publicidade à parte, pois vou tentar encontrar vestígios da sua obra e seguir-lhe a pista, pois, como facilmente terá depreendido, temos interesses comuns e, consequentemente, sou um potencial leitor seu…

  32. Ah, Castanho.

    Você tem uma concepção do idioma como conjunto de imposições. Para mim, ele é um conjunto de possibilidades. E acredite que eu não sou nada permissivo… O erro existe, e eu detesto-o tanto como você.

    Fiquemos no caso do conjuntivo, quer você acha obrigatório em frase dependente de «presumir». Não é.

    «Presumo que ela é rica» é português perfeito.

    «Presumo que ela seja rica» é português aceitável, mas desnecessariamente complexo. Trata-se duma redundância, o que nunca – em si – constitui erro, mas que coloca a frase nas margens da gramaticalidade.

    A redundância está em que «presumir» já contém, semanticamente, uma inflexão no sentido da «sugestão», da «suposição». Utilizar, em seguida, o modo verbal que exprime essa inflexão duplica o investimento semântico. O mesmo se dá em «Acredito que ela seja rica», «Concluo que ela seja rica». E você conhecerá quem (talvez você próprio) diga «Acho que seja melhor» – expressivo, mas nos rebordos do admissível.

    Existe, até, uma variante desta redundância, com utilização do futuro de dúvida. Género «Acredito que ela seja rica» – que, julgo, admitirá igualmente. Está a ver como isto funciona?

    Só em casos muito particulares o conjuntivo é a única saída, com o de «esperar». Assim, teremos de dizer sempre «Espero que ela seja rica».

    Um conselho: tente libertar-se dessa obsessão do idioma como espaço limitativo, claustrofóbico. Seja vigilante. Isso é bom. Mas deixe o idioma respirar.

    P.S. Repare em que a minha abordagem da questão é, como dizer, simpática. Outros seriam tentados a ver na sua proposta – tipo «Presumo que ela seja rica» – uma deriva analógica por contaminação com casos como «esperar». Ou como uma hipercorrecção, coisa de snobs ou inseguros, ou de snobs inseguros.

    Mas não precisa de agradecer. Isto já é de natureza.

  33. Ora , cheguei ao local adecuado para me esclarecerem uma dúvida , se é que não se importam : porque é que o “molho bechamél” se lê diferente de um “molho de agriões”?

    Ps) é verdade aquilo do verbo “despejar” em espanhol. Logo após escrever o comentário , lembrei-me ” cuando el cielo se despeje” (cosa rara en mi tierra , de hecho)e outras formas de conjugação desse verbo. Às vezes já confundo as duas línguas , de tão parecidas. Deixo de saber o que é correcto em qual. Já dei por mim a escrever “conflicto” e coisas parecidas.

  34. E outra : Haverão días , ou haverá días? Haverão días suena fatal , mas penso que é o correcto , apesar de o haverá ser o mais frequentemente escrito. É um erro à séria , ou também se pode dizer?

  35. Marina, permita-me que seja eu a responder, sim?
    Molho (pronunciado “môlho”) respeita à culinária. A castelhana “salsa”, claro. Já vi traduções do Castelhano para Português que tomam essa “salsa ” pela nossa, que obviamente só é salsa quando for “peregil” no lado de lá da fronteira…
    Quanto ao outro molho (dito “mólho”), se for pesado custa a levar às costas. A não ser que seja um simples “manojo”. De peregil, por exemplo.
    Minha amiga, “haverão dias” está errado. O verbo “haver”, no sentido de “existir”, só se conjuga na terceira pessoa do singular.
    Outro pormenor: “à séria” é erro. Deve dizer-se é “a sério”.

  36. «P.S. Repare em que a minha abordagem da questão é, como dizer, simpática. Outros seriam tentados a ver na sua proposta – tipo «Presumo que ela seja rica» – uma deriva analógica por contaminação com casos como «esperar». Ou como uma hipercorrecção, coisa de snobs ou inseguros, ou de snobs inseguros.

    Mas não precisa de agradecer. Isto já é de natureza.»

    REPARE EM QUE, reparou? Está tudo dito…

    Caro Venâncio, lamento desgostá-lo, mas você não consegue escrever um único texto sem dar um erro de Português (você dirá “fazer respirar o idioma”…)!

    Por isso não me interessa continuar a conversar consigo. Dispenso os seus conselhos, paternalistas, de sabedoria de banha-da-cobra, contorno as suas gratuitas e vis insinuações sobre o meu carácter, desdenho da sua imodéstia balofa. Você, de facto, parece-me uma pessoa bastante lamentável.

    Ticháu…

  37. Castanho,
    Desista de mim. Desista já depressa de mim, antes que lhe dê alguma coisa mazinha.

    Para outros que aqui vêm, lembrarei:

    «Reparar alguma coisa» é consertá-la. «Reparar em alguma coisa» é dar-se conta dela. Assim posso dizer, «Reparei o rádio», «Não reparei no passeio».

    A preposição é, com toda a naturalidade, comunicada à conjunção integrante: «Reparei em que estava a ser enganado». Mas, como em bastantes outros casos, simplificamos, eliminando a preposição, e dizemos: «Reparei que estava a ser enganado». Assim também,

    em vez de «Confio em que saberás distinguir»,
    um número crescente de pessoas diz «Confio que saberás distinguir»,

    em vez de «Duvido de que ela saiba»,
    um número crescente de pessoas diz «Duvido que ela saiba».

    Esta eliminação é cada vez mais aceite. Pessoas apressadas ou superficiais (como é A. Castanho) pensam que já é de preceito. Talvez um dia o venha a ser.

    A. «Ticháu» Castanho é já um habitante do futuro.

  38. Meus caros A. Castanho e Fernando Venâncio
    Eu não dou pelos calcanhares do Fernando, que é um teórico da Língua com muita prática também. Quanto a mim, sou apenas um prático. Mas por isso talvez tenha arranjado uns truques simples para ensinar às crianças… e que têm servido até para gente licenciada, mestrada e doutorada. Por exemplo, depois de em vão explicar a diferença gramatical entre “há” e “à” a um amigo com um diploma desses, acabei por usar o exemplo em princípio dstinado às crianças. Levou para aí meia hora ao telefone, e ele ainda hoje erra…
    Não será para si, claro, mas no caso do “reparar” talvez sirva. Tal como para “ter a certeza”, “duvidar” e outros que tais. Constrói-se uma frase em que apareça a seguir ao verbo um pronome demonstrativo, por exemplo “isso”. Dirá “eu reparei nisso”, não é? Portanto, lá está, contraído, o tal “em” que o incomodou na frase do Fernando.
    A respeito do verbo “haver” e da contracção da preposição com o artigo, basta pôr no plural (repito que a explicação não é para si, mas pode ser útil para ensinar algum amigo) o que vem a seguir. Exemplos: “Eu vou à cidade”, se for plural a seguir, o “à” passa a plural também. “Foi há muito tempo”, “Foi há tempos”, não varia, é com “h”. Mas isto é só para quem estudou tanto que não teve tempo de aprender, como diz minha mulher.

  39. De facto, “repare em que” soou-me francamente mal, mas a explicação do F. Venâncio fez-me ver que, afinal, o que já me pareceu um erro crasso, pela prática da Língua, está de facto gramaticalmente correcto! Isto de usar correctamente uma língua, mesmo a materna, afinal pode ser tão exigente como navegar numa tempestade…

    Devo, por isso, um pedido de desculpas ao Fernando. Daí que se confirme também a minha afirmação de que o aprender deverá ser o principal objectivo destas insólitas conversas de café com desconhecidos…

  40. Ok, Castanho. Até ao próximo tema de conversa.

    E continue, você e os seus amigos, com a educação para a Regionalização. Fazem um óptimo trabalho.

  41. Meu Caro A. Castanho
    Você é um homem com quem dá gosto conversar. Já demonstrou claramente que tem grande cultura, além de que continua disposto a aprender. Pelo menos nisto somos iguais. Mas haverá mais coisas. Não o conheço, mas se, de facto, faz um óptimo trabalho com a educação para a Regionalização, merece o meu maior respeito. Porque quem não ama o que conhece não pode amar o que não conhece.

  42. Como galego de Minho para acima,

    “Case me poño de xeonllos, acougoume as dúbidas, anque non todas. Deu un laño tan grande no meu latricar que quedei avergonzada. Unha chafalleira, cavilou vostede cando me leu.”

    – “cuase” e “cuando” (quase, quando) tamém se escoitam em algumhas zonas da Galiza (v.gr. Valdeorras),
    – “xoellos” (joelhos) tamém é galego válido,
    – “anque” é castelhanismo (aunque),
    – “laño” é umha palavra que desconhecia; é tam estranha para portugueses como para moitos galegos.

    “Desculpem-me, mas o argumento do “usa-se” não me convence. Para mim, essa construção de frase é feia e errada, não tem que ver com a nossa matriz, cheira a uma contaminação qualquer que ainda não consegui identificar,,,”

    As construçons que vostede denuncia e que Fernando defende compartem a particularidade de serem as próprias do castelhano. Na fala coloquial da Galiza essas formas som usadas principalmente por gente nova e por locutores de televissom e rádio. Aos meus ouvidos sonam como castelhanismos.

    O meu teste para isso é bem pouco científico: apenas tento imaginar a minha avoa dizendo essas cousas. Nom pretendo, portanto, apresentar isto como argumento sério; apenas como pequena curiosidade.

    Tamém é certo que o galego perdeu moitos registos cultos nos séculos escuros, e portanto é possível que essa seja umha construçom genuinamente galega que foi perdida, ou umha genuinamente portuguesa que em Galiza nom se chegou a desenvolver.

  43. Já no tema de teorias de conspiraçao, convido-o, se nom fixo já, a ver o documental Fronteiras (apenas procure pola palavra “fronteiras” em video ponto google ponto com). Ai podera observar paralelismos entre a absurda negaçom da academia da língua asturiana em admitir que o que se fala entre Eo e Návia é galego e a da academia da galega em fazer o mesmo com o que se fala de Minho para baixo.

    Nom contesto que haja gente paranoica e exagerada, mas como di vostede, as teorias da conspiraçom tenhem umha parte de razom. A castelhanizaçom do galego no Rexurdimento é explicada bem abondo pola alfabetizaçom em castelhano da gente que começou a escrever em galego no século XIX, sem necessidade de inventar mais mans escuras, mas a consagraçom desta dependência cultural no século XXI nom é inocente.

    O senhor Fraga diz isso em Portugal onde a demagógia era inofensiva, mas coidou-se bem de dizi-lo na Galiza, e sobretodo de atuar conseqüentemente. Veja as suas declaraçons no mesmo vídeo que refiro acima. Parafraseando, el cita umhas palavras: “Os galegos e portugueses somos povos irmáns, e como irmáns nom podemos casar”. Acrescenta, crípticamente, que “é umha boa frase para entender moitas cousas”.

    Achego-lhe outra anedota galeguíssima, só indirectamente relacionada. Em Santiago de Chile, falando do golpe de Pinochet: “Para pescar rodabalho hai que molhar o caralho”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *