De um momento para o outro

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei. A tua palavra pode ser a última. O nosso encontro pode não se repetir. Basta um gesto teu e vou-me embora. Estou sempre pronto para pegar no cajado do peregrino. De um momento para o outro pode acontecer. Sei que não posso fingir. Há na tua voz, em certos momentos do dia, um cansaço profundo que vem superar os projectos de tua alegria convocada e reunida.

A melancolia das tardes de Lisboa chega ao teu olhar trazida por um eléctrico que vem do Martim Moniz e segue para os Prazeres. Chega e é como se fosse uma seara de afectos na qual o vento desenha um pequeno mar verde de ondas repetidas entre luz e sombra.

Luz é quando o teu sorriso constrói uma renda de ternura e, sendo esta renda uma projecção da rede, eu sinto-me o pescador cansado a atravessar a praia, pronto a repetir a faina no dia seguinte. Sombra é quando o teu olhar se dilui no vento e na escuridão destes dias levando para os arquivos do silêncio esta amargura acumulada de pequenas traições, faltas de respeito, deslizes nos sentimentos e erros crassos nas relações humanas.

Entretanto o eléctrico que te trouxe a melancolia segue o seu trajecto pelas colinas de Lisboa. Perdido entre convenções, conveniências e mal-entendidos, eu sigo o meu caminho no sentido oposto. Estou cheio de dúvidas sobre o amanhã mas tenho, pelo menos, uma certeza. O futuro está num tempo desconhecido. Só o presente se vive. Eu sei. Não posso ignorar a melancolia que chegou aos teus olhos trazida por um eléctrico amarelo e lento que partiu do Martim Moniz e vai na direcção dos Prazeres.

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei.

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